{"id":807,"date":"2015-07-17T06:56:21","date_gmt":"2015-07-17T09:56:21","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=807"},"modified":"2025-12-01T16:55:12","modified_gmt":"2025-12-01T19:55:12","slug":"drogas-e-imagens-novas-adicoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2015\/07\/17\/drogas-e-imagens-novas-adicoes\/","title":{"rendered":"Drogas E Imagens: Novas Adi\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>LILANY PACHECO (RELATORA)<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/5-600x442-1.gif\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"442\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-808\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/5-600x442-1.gif\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"442\" \/><\/a><\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>POR GIULIA PUNTEL<\/strong><\/h6>\n<p>A abordagem do tema das toxicomanias no campo freudiano sempre se fez pelo reconhecimento de que as rela\u00e7\u00f5es do sujeito com as drogas implicam o corpo pr\u00f3prio como Outro, na produ\u00e7\u00e3o do gozo do corpo, e a identifica\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria que sustenta a ades\u00e3o, nem sempre dialetiz\u00e1vel, \u00e0 nomea\u00e7\u00e3o \u201ceu sou toxic\u00f4mano\u201d. No contexto contempor\u00e2neo, especificamente, destacam-se os variados modos de gozo com as imagens e com os objetos mais de gozar, que t\u00eam fun\u00e7\u00f5es distintas para os sujeitos \u2013 entre elas, a da droga para um toxic\u00f4mano.<\/p>\n<p>Propomos, neste relat\u00f3rio, conversa\u00e7\u00e3o sobre uma poss\u00edvel distin\u00e7\u00e3o entre o fen\u00f4meno das adi\u00e7\u00f5es e a toxicomania e sua dimens\u00e3o cl\u00ednica, tal qual a conhecemos no campo freudiano. J\u00e1 na edi\u00e7\u00e3o 88 da publica\u00e7\u00e3o \u201cLa Cause du Desir\u201d (\u00c9COLE DE LA CAUSE FREUDIENNE, 2015), colegas franceses definem as adi\u00e7\u00f5es como um campo pol\u00edtico que deve ser estudado para colocar \u00e0 prova, para al\u00e9m das drogas ilegais e \u00e0 luz da orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, a generaliza\u00e7\u00e3o do termo adi\u00e7\u00e3o, o enxame de objetos e as pr\u00e1ticas concernentes a esse campo.<\/p>\n<p>Lidamos, hoje, com uma diversidade de manifesta\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas centradas no corpo: pornografia, culto da apar\u00eancia, exibicionismo, interven\u00e7\u00f5es corporais apoiadas na tecnologia m\u00e9dico-cient\u00edfica para recomposi\u00e7\u00e3o da imagem corporal e amarra\u00e7\u00e3o da imagem ao gozo. Em seu primeiro semin\u00e1rio, Lacan (1954\/1986) demonstra, ao inaugurar seu esquema \u00f3tico como formaliza\u00e7\u00e3o primeira do registro imagin\u00e1rio, que a urbild, imagem atrav\u00e9s da qual o eu se constitui, remete \u00e0 opera\u00e7\u00e3o capciosa de colocar um bouquet real em um vaso virtual \u2013 sabendo-se que a imagem real na fotografia \u00e9 tal qual o arco-\u00edris que vemos no c\u00e9u. Trata-se de uma tarefa inacabada, da qual o sujeito falante ter\u00e1 de se ocupar por toda a vida, tendo em vista que h\u00e1 sempre algo desse bouquet que resiste em se alojar no vaso em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Em \u201cO inconsciente e o corpo falante\u201d, Miller (2014) reconduz o tema do imagin\u00e1rio de modo a acolher os avan\u00e7os do \u00faltimo ensino de Lacan. Desse texto, destacamos:<\/p>\n<p>\u201co corpo se introduz, inicialmente, (\u2026) como imagem, imagem no espelho\u201d, decorrendo da\u00ed o estatuto dado por Lacan ao eu [moi], distinto daquele que encontramos na segunda t\u00f3pica freudiana.<\/p>\n<p>Lacan ilustra a articula\u00e7\u00e3o entre Ideal do Eu e eu ideal como um jogo de imagem, oferecendo a essas no\u00e7\u00f5es freudianas uma formaliza\u00e7\u00e3o in\u00e9dita.<\/p>\n<p>\u201cA afinidade entre o corpo e o imagin\u00e1rio \u00e9 reafirmada no ensino de Lacan sobre os n\u00f3s. A constru\u00e7\u00e3o borromeana enfatiza que \u00e9 pelo vi\u00e9s de sua imagem que o corpo participa, primeiro, da economia do gozo\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO corpo condiciona tudo o que o registro imagin\u00e1rio aloja de representa\u00e7\u00f5es: significado, sentido e significa\u00e7\u00e3o, a pr\u00f3pria imagem do mundo. \u00c9 no corpo imagin\u00e1rio que as palavras da l\u00edngua fazem entrar as representa\u00e7\u00f5es, que nos constituem um mundo ilus\u00f3rio sob o modelo da unidade do corpo\u201d.<\/p>\n<p>Mais al\u00e9m, Miller localiza o mist\u00e9rio lacaniano \u2013 \u201co corpo, como corpo falante, muda de registro\u201d. N\u00e3o trata mais do imagin\u00e1rio especular, sendo preciso, ent\u00e3o, redefinir o imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Drogas e imagem \u2013 novas adi\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>Tomando o ponto de partida lacaniano de que \u201co imagin\u00e1rio \u00e9 o corpo\u201d (LACAN, 1975-76\/2005), perguntamos se, dessa equival\u00eancia, depreendem-se as quest\u00f5es: novas imagens, para al\u00e9m das imagens rainhas (MILLER, 1997)? Novos corpos, novas adi\u00e7\u00f5es? Uma imagem pode ter o estatuto de droga para um sujeito? Qual a extens\u00e3o das adi\u00e7\u00f5es na atualidade? Novas adi\u00e7\u00f5es s\u00e3o fen\u00f4menos cl\u00ednicos paradigm\u00e1ticos da \u00e9poca da inexist\u00eancia do Outro? Podemos localizar essas quest\u00f5es dentro da cl\u00ednica das toxicomanias?<\/p>\n<p>Hoje, em lugar da escolha de um objeto articulado ao quadro de realidade er\u00f3tica representada pela fantasia, o que se destaca \u00e9 a preval\u00eancia do gozo autista (MARON, 2012), da itera\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o e sua voca\u00e7\u00e3o aditiva. Contudo, em 1964, Lacan (1964\/1998) j\u00e1 falava de \u00e9poca prodigiosamente atormentada por exig\u00eancias id\u00edlicas que, longe de ser express\u00e3o de tend\u00eancias libertadoras e prazerosas, descortinavam o horizonte do supereu insaci\u00e1vel e mort\u00edfero. O imperativo supereg\u00f3ico de gozo impulsiona o mercado capitalista: \u201ctodos consumidores\u201d (MILLER; LAURENT, 1998). Isso equivale a dizer \u201ctodos toxic\u00f4manos\u201d, permitindo a ideia de \u201ctoxicomania generalizada\u201d? Afinal, as adi\u00e7\u00f5es atuais ultrapassam o uso de subst\u00e2ncias t\u00f3xicas, l\u00edcitas e il\u00edcitas. O campo da imagem e dos objetos virtuais evidenciam os esfor\u00e7os do sujeito para encontrar um ponto de amarra\u00e7\u00e3o para seu gozo e constituir um \u201ctamborete\u201d para sustentar seu corpo valendo-se dos objetos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, oferecidos pela ci\u00eancia e suas articula\u00e7\u00f5es com o capitalismo, em tempos de simb\u00f3lico esmaecido e inexist\u00eancia do Outro.<\/p>\n<p><strong>Imp\u00e9rio das imagens, adi\u00e7\u00f5es, toxicomanias \u2013 \u00edndices?<\/strong><\/p>\n<p>Ilustramos a discuss\u00e3o do tema proposto com pe\u00e7as da ind\u00fastria da imagem: dois filmes e um seriado de TV, al\u00e9m de uma vinheta cl\u00ednica, buscando a\u00ed elementos para articular a abordagem proposta neste relat\u00f3rio.<\/p>\n<p><strong>\u201cBling ring \u2013 gangues de Hollywood\u201d<\/strong>: \u201cBling\u201d, em ingl\u00eas, refere-se a j\u00f3ias grandes e ostenta\u00e7\u00e3o; \u201cring\u201d significa, literalmente, anel, mas tamb\u00e9m define um c\u00edrculo de amigos ou c\u00famplices. \u201dBling ring\u201d, por sua vez, \u00e9 o nome do filme baseado em fatos reais que trata da vida de jovens filhos de classe m\u00e9dia-alta e inebriados por marcas, que invadem casas de celebridades a fim de roubar objetos de grife e \u201cvisitar\u201d as mans\u00f5es de \u00edcones do espet\u00e1culo e do consumo.<\/p>\n<p>Dentre os protagonistas dessa hist\u00f3ria, est\u00e3o Marc, garoto t\u00edmido e que n\u00e3o se sente inclu\u00eddo em sua nova escola, destinada a alunos expulsos de outras institui\u00e7\u00f5es, e Rebecca, garota bonita e descolada, que se aproxima dele, convidando-o para buscar carros abertos e furtar o que de melhor encontrassem ali. O plano rende dinheiro e cart\u00e3o de cr\u00e9dito e eles come\u00e7am, em seguida, a invadir moradias de celebridades. Os closets, templos dos artigos de luxo, verdadeiros altares ornados pelos mais variados objetos ligados ao corpo, d\u00e1 \u00e0 dupla contato direto com o que acompanham na m\u00eddia especializada, como um vestido usado por determinada figura em um determinado evento.<\/p>\n<p>Os dois alardeiem seus feitos em rodas de amigos. Nick, Sam e Chloe interessam-se pela aventura e, assim, forma-se um grupo. As invas\u00f5es tornam-se frequentes e os jovens estreitam la\u00e7os entre si, em meio a delitos e noitadas nas mais caras baladas. Acumulam toda sorte de objetos e dinheiro. A posse, o uso, a ostenta\u00e7\u00e3o e a divulga\u00e7\u00e3o nas redes sociais, al\u00e9m do consumo de drogas, s\u00e3o os ingredientes do circuito de gozo aditivo que encenam. As drogas, por sua vez, n\u00e3o s\u00e3o o motor para a pr\u00e1tica dos roubos, e seu uso n\u00e3o \u00e9 pr\u00f3prio de uma toxicomania (t\u00e3o bem demonstrada em outros filmes, como R\u00e9quiem para um sonho), mas apenas mais um produto na engrenagem de excessos e gozos fugazes.<\/p>\n<p>O filme aborda outra faceta do consumo aditivo, a medicaliza\u00e7\u00e3o, pelo vi\u00e9s de uma m\u00e3e que tem o h\u00e1bito de dar \u00e0s filhas doses de Adderall, anfetamina indicada para tratamento de TDAH. A subst\u00e2ncia \u00e9 chamada, na tradu\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas, de \u201cremedinho\u201d, e est\u00e1 presente desde situa\u00e7\u00f5es cotidianas, como no caf\u00e9 da manh\u00e3, at\u00e9 em momentos realmente tensos, como o que antecede o julgamento pelos furtos. Reflete-se a\u00ed a banaliza\u00e7\u00e3o do consumo de medicamentos e as formas de tratar o fracasso da lei e da alteridade que os pais agenciam, no que Benetti (2012) chamou de \u201cfarm\u00e1cia da vida cotidiana\u201d.<\/p>\n<p>Por fim, apreendidos, cada um dos jovens oferece sua vers\u00e3o para os motivos de entrada nesse circuito de gozo. Em comum, a frui\u00e7\u00e3o dos objetos e o deslumbramento, indicativos de uma ades\u00e3o \u00e0 cultura do espet\u00e1culo e do consumo \u2013 novas adi\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p><strong>\u201cO Lobo de Wall Street\u201d<\/strong>: o filme \u00e9 baseado na hist\u00f3ria autobiogr\u00e1fica de Jordan Belfort, que fez fortuna fraudando o mercado de a\u00e7\u00f5es. Belfort faz uso abusivo de drogas, jogos, sexo e objetos luxuosos. Apresenta-se ao espectador por meio de seu modo de gozo: \u201cjogo como um depravado, bebo como um peixe, como prostitutas cinco ou seis vezes por semana. Tenho tr\u00eas agentes federais querendo me indiciar. Sim, querido. E eu amo drogas\u201d. Elege o dinheiro como a melhor de todas as drogas, capaz de torn\u00e1-lo invenc\u00edvel.<\/p>\n<p>Belfort est\u00e1 inserido no discurso de Wall Street e em sua l\u00f3gica capitalista. Seu primeiro chefe apresenta ao jovem o mundo das finan\u00e7as, da venda de a\u00e7\u00f5es e um modo de fazer com que o lucro fosse exclusivamente do corretor: enganar o investidor. Diz a ele tamb\u00e9m sobre a \u201cchave para o sucesso profissional\u201d, uma combina\u00e7\u00e3o entre masturba\u00e7\u00e3o, coca\u00edna, prostitutas e adi\u00e7\u00e3o dos clientes, que, assim, investiriam mais e mais, \u201ccomo se estivessem viciados\u201d. Festas, drogas e prostitutas s\u00e3o ofertadas como pr\u00eamio aos funcion\u00e1rios de sua empresa pelas vendas das a\u00e7\u00f5es fraudulentas. A magnitude de seus neg\u00f3cios faz Belfort ganhar notoriedade na m\u00eddia e ser objeto de investiga\u00e7\u00e3o policial. Encontramos a\u00ed matizes do consumo e diferentes \u00edndices aditivos, bem como diversos modos de enla\u00e7amento dos sujeitos aos objetos e ao Outro. N\u00e3o se trata, portanto, de um uso solit\u00e1rio.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o que Belfort estabelece com as drogas merece destaque por sua vertente ilimitada: \u201cem uma base di\u00e1ria, consumo drogas o suficiente para sedar Manhattan, Long Island e Queens por um m\u00eas\u201d. Ele escancara seu gozo e sua \u201cparceria c\u00ednica com a era da ci\u00eancia\u201d (Santiago, 2001) convidando o espectador a compartilh\u00e1-la: \u201ctomo Quaaluder 10 a 15 vezes por dia para minha dor nas costas e tamb\u00e9m para manter a concentra\u00e7\u00e3o, Xanax para acalmar e tirar a ansiedade, coca\u00edna para acordar novamente, e morfina, bem\u2026 porque \u00e9 sensacional\u201d.<\/p>\n<p>No modo de gozo retratado no filme, n\u00e3o importa o objeto, mas sua natureza aditiva, que implica em um \u201ccada vez mais\u201d que nunca ser\u00e1 o bastante, forma como Lacan define o \u201cmais de gozar\u201d em seu Semin\u00e1rio 20, trabalhado por Alvarenga (2012) em: \u201cadi\u00e7\u00e3o \u00e9 o Um que se repete: 1+1+1\u2026 mas que n\u00e3o se adiciona\u201d, respondendo \u00e0 itera\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o, objeto repetido na infinitiza\u00e7\u00e3o do gozo. N\u00e3o todos aditos, ou todos aditos, mas n\u00e3o todos toxic\u00f4manos?<\/p>\n<p><strong>\u201cBreaking bad\u201d<\/strong>: as s\u00e9ries norteamericanas evocam o \u201cmonolinguismo da globaliza\u00e7\u00e3o\u201d (SINATRA, 2014) e oferecem-se ao telespectador em formato de \u201cp\u00edlulas\u201d de f\u00e1cil digest\u00e3o, feitas para serem consumidas abundantemente, uma ap\u00f3s a outra, no que se conforma ao uso adicto do objeto. Ap\u00f3s o t\u00e9rmino da s\u00e9rie que aqui apresentamos, inclusive, ficou famosa a express\u00e3o \u201c\u00f3rf\u00e3os de Breaking bad\u201d, em alus\u00e3o aos espectadores que ficaram sem sua \u201cdose semanal\u201d do programa. Essa l\u00f3gica atende ao que Sinatra (2014) chama de gera\u00e7\u00e3o dos \u201cfilhos da televis\u00e3o\u201d, que n\u00e3o se serve mais do pai, do Outro, para se identificar, mas de personagens televisionadas. Se o consumo est\u00e1 em jogo ao assistirmos televis\u00e3o, somos tamb\u00e9m consumidos por ela: \u201cos filhos tele-adictos s\u00e3o consumidos pela m\u00e1quina omnivoyeur, s\u00e3o devorados pelo seu olhar\u201d (SINATRA, 2014).<\/p>\n<p>Uma das s\u00e9ries mais famosas e mais premiadas da atualidade desenrola-se em torno do objeto droga e seus diferentes usos. O verbo \u201cbreaking\u201d, de seu t\u00edtulo (n\u00e3o traduzido para o portugu\u00eas), faz alus\u00e3o tanto \u00e0 ultrapassagem do limite da lei quanto ao que poderia ser traduzido como \u201cquebra\u201d ou \u201cfreio\u201d. Estamos, a\u00ed, entre \u201ctornar-se mal\u201d e \u201cfrear o mal\u201d, tens\u00e3o constante na s\u00e9rie e intr\u00ednseca \u00e0 logica do consumo.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria \u00e9 protagonizada por Walter White, brilhante professor de qu\u00edmica cujas escolhas de vida levaram ao fracasso financeiro e profissional. Trabalhando em uma escola secund\u00e1ria e buscando complementar a renda como lavador de carros, \u00e9 supreendido pelo diagn\u00f3stico de um c\u00e2ncer terminal de pulm\u00e3o e pouco tempo de vida. Decidido a deixar sua fam\u00edlia (a mulher, gr\u00e1vida, e o filho adolescente) em uma situa\u00e7\u00e3o financeira segura ap\u00f3s sua morte e acreditando n\u00e3o ter nada a perder, come\u00e7a a produzir metanfetamina em parceria com Jesse, ex-aluno e traficante med\u00edocre que, diferente dele, consome o produto que comercializam.<\/p>\n<p>A droga que Walter produz \u00e9 de uma pureza impressionante, gra\u00e7as a seus conhecimentos de qu\u00edmica e a seus cuidados, e ele acaba tornando-se um dos produtores mais respeitados e temidos do meio, al\u00e9m de um dos mais procurados pela pol\u00edcia. Walter n\u00e3o consome a droga. No entanto, fica evidente o que poder\u00edamos chamar de um \u201cmodo de funcionamento adicto\u201d, marcado por um \u201cn\u00e3o posso me abster\u201d (TARRAB, 2004) e pela necessidade constante de \u201cuma dose a mais\u201d em rela\u00e7\u00e3o a seu gozo.<\/p>\n<p>A proximidade da morte faz com que Walter se d\u00ea conta de que passou a vida obedecendo ao Outro e mortificando seu desejo. Em lugar de uma retifica\u00e7\u00e3o pela vertente simb\u00f3lica e de uma responsabiliza\u00e7\u00e3o subjetiva, contudo, o que adv\u00e9m a partir dessa constata\u00e7\u00e3o \u00e9 o ato. Ao verificar que o Outro n\u00e3o existe, assume uma posi\u00e7\u00e3o canalha, em que n\u00e3o importam os meios, apenas a satisfa\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria demanda. O fim de Walter na s\u00e9rie \u00e9 emblem\u00e1tico: n\u00e3o sucumbe ao c\u00e2ncer, mas ao gozo.<\/p>\n<p>Por outro lado, seu s\u00f3cio, Jesse, evidencia a face toxic\u00f4mana da rela\u00e7\u00e3o com a droga. Apaga-se como sujeito, desiste de sua rotina e de seus compromissos e rompe com os la\u00e7os sociais, administrando em casa, solitariamente, as doses de sua \u201cpr\u00f3xima viagem\u201d. Como produtor e distribuidor, ensaia sa\u00eddas desse lugar objetificado. Nesses momentos, algo do sujeito aparece, geralmente pela via da culpa, da vergonha ou do amor. Contudo, termina consumido pela droga que consome, resto que cai, evidenciando sua posi\u00e7\u00e3o ao longo de toda a vida, lugar em que se fixa diante de Walter e dos demais traficantes. Tamb\u00e9m obt\u00e9m um gozo importante como \u201cinconveniente\u201d, \u201cinadequado\u201d, \u201cinfantil\u201d, o que fica evidente em sua rela\u00e7\u00e3o com seus pais, que desistem dele.<\/p>\n<p>\u201cBreaking bad\u201d trata, principalmente, do que se passa em territ\u00f3rio il\u00edcito. O que faz la\u00e7o mostra-se, na s\u00e9rie, continuamente amea\u00e7ado pela morte. Escamoteia-se, assim, o fato de que enla\u00e7ar-se n\u00e3o \u00e9 negar o gozo, mas regul\u00e1-lo. Em extremos opostos, Walter e Jesse apresentam modos de existir semelhantes, calcados no funcionamento do \u201cuma dose a mais\u201d, e mostram que, uma vez ultrapassado o limite imposto pelo pacto civilizat\u00f3rio, atinge-se um atalho para a morte. De formas distintas, e em variados sentidos, n\u00e3o se sai vivo dessa empreitada.<\/p>\n<p><strong>\u201cTomar um back para ningu\u00e9m me ver\u201d<\/strong>: essa \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o feita por Jota, 46 anos, usu\u00e1rio de coca\u00edna injet\u00e1vel h\u00e1 quase tr\u00eas d\u00e9cadas. Encontra-se imerso no circuito paranoico que faz dele objeto visto e perseguido pelo Outro. Sua constru\u00e7\u00e3o delirante, contudo, n\u00e3o \u00e9 uma via pela qual encontra suficiente amarra\u00e7\u00e3o e circunscri\u00e7\u00e3o para a sua ang\u00fastia: os esp\u00edritos que abusam e se divertem com seu corpo n\u00e3o s\u00e3o excomungados pela religi\u00e3o, n\u00e3o sendo ela, portanto, um tratamento para o olho do Outro que o invade. Algumas pr\u00f3teses imagin\u00e1rias fazem fun\u00e7\u00e3o estabilizadora para Jota, como o papel profissional que desempenha e o cumprimento de um protocolo que inventa para a fun\u00e7\u00e3o de ser pai. Por\u00e9m, face \u00e0s irrup\u00e7\u00f5es do olho do Outro no corpo gozado, sem bordas nem limites, imp\u00f5e-se outra solu\u00e7\u00e3o, a \u00fanica encontrada at\u00e9 esse momento de seu percurso anal\u00edtico: injetar-se coca\u00edna. N\u00e3o apenas injetar-se na l\u00f3gica da reitera\u00e7\u00e3o do Um, constituindo um corpo que se goza, mas injetar em partes do corpo expostas ao Outro (m\u00e3os, bra\u00e7os e pesco\u00e7o), particularidade que o impede de sair de casa e faz com que as pessoas n\u00e3o o vejam. A imagem de um corpo do qual n\u00e3o se apropria submete Jota ao Outro omnivoyeur, at\u00e9 que o ato de fur\u00e1-lo, drogando-se, constr\u00f3i uma imagem carregada de sentido pejorativo, denegrida, que o permite destacar-se do Outro e apaziguar sua ang\u00fastia.<\/p>\n<p>Encontramos a\u00ed, enfim, outra faceta do uso dos objetos e da fun\u00e7\u00e3o da droga, no singular. Tal caso de psicose evidencia o modo como os objetos ofertados pelo Outro da ci\u00eancia e do consumo, contemporaneamente, confluem para a foraclus\u00e3o estrutural, distinguido-se, assim, da abordagem generalizada \u00e0s quest\u00f5es das adi\u00e7\u00f5es \u00e0 imagem no s\u00e9culo XXI.<br \/>\nNotas<\/p>\n<h6><\/h6>\n<h6>[1]Relat\u00f3rio apresentado durante o ENAPOL e na XVI Conversa\u00e7\u00e3o do IPSM-MG em 19\/03\/2016<\/h6>\n<h6>2 Integrantes do Relat\u00f3rio: Ant\u00f4nio Beneti, Adriane Barroso, Ary Santos Farias, Cassandra Dias, Claudia Generoso, Cristiana Pittella, Cristiane Cunha Grillo , Cristina Nogueira, Fabiana Cerqueira, Gl\u00f3ria Maron, Guilherme Del Debbio, Elizabeth Medeiros, J\u00e9sus Santiago, J\u00falia Andrade Ramalho, Leonardo Scofield, Lilany Pacheco (relatora), Lisley Toniolo, Luiz Fernando Carrijo, Maria C\u00e9lia Reinaldo Kato, Maria do Carmo Dias Batista, Maria Rachel Botrel, Maria Wilma Faria, Mariana Vidigal, N\u00e1dia Lagu\u00e1rdia, Renato Carlos Vieira, Soraya Alves Pereira.<\/h6>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>ALVARENGA, Elisa. N\u00e3o-todo adictos! @DDito: Boletim da XVII Jornada da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise de Minas Gerais. 2012. Dispon\u00edvel em: http:\/\/jornadaebpmg.blogspot.com\/2012_09_01_archive.html. Acesso em 05 jul. 2015.<\/h6>\n<h6>BENETI, Antonio. Todos adictos: a farm\u00e1cia da vida cotidiana contempor\u00e2nea. @DDito: Boletim da XVII Jornada da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise de Minas Gerais. 2012. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/jornadaebpmg.blogspot.com\/ 2012_09_01_archive.html&gt;. Acesso em 05 jul. 2015.<\/h6>\n<h6>\u00c9COLE DE LA CAUSE FREUDIENNE. La cause du d\u00e9sir. France, n. 88, nov. 2015. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.causefreudienne.net\/la-cause-du-desir-n88\/. Acesso em 07 jul. 2015.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. A t\u00f3pica do imagin\u00e1rio. In: LACAN, Jacques. O semin\u00e1rio, livro 1: os escritos t\u00e9cnicos de Freud [1954]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. O semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma (1975-1976). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jaques (1964). Do \u201cTrieb de Freud e do desejo do analista. In: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.<\/h6>\n<h6>MARON, Gl\u00f3ria. A dimens\u00e3o aditiva do sintoma. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana on line nova s\u00e9rie. Ano 3, n. 7, mar. 2012. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_7\/A_dimensao_aditiva_sintoma.pdf&gt;. Acesso em 05 jul. 2015.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques Alain; LAURENT, Eric. El Otro que no existe y sus comit\u00eas de \u00e9tica. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 1998.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain. A imagem rainha. In: MILLER, Jacques-Alain. Lacan elucidado: palestras no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.<\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques-Alain. O inconsciente e o corpo falante. 2014. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.wapol.org\/pt\/articulos\/Template.asp?intTipoPagina= 4&amp;intPublicacion=13&amp;intEdicion=9&amp;intIdiomaPublicacion=9&amp;intArticulo=2742&amp;intIdiomaArticulo=9&gt;. Acesso em 07 jul. 2015.<\/h6>\n<h6>SANTIAGO, Jesus. A droga do toxic\u00f4mano. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.<\/h6>\n<h6>SINATRA, E. S. A identificaciones l\u00edquidas, adicciones s\u00f3lidas. Virtualia, Buenos Aires, n. 29, nov. 2014. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/virtualia.eol.org.ar\/029\/template.asp?Consecuencias-de-la-ultima-ensenanza\/A-identificaciones-liquidas-adicciones-solidas.html&gt;. Acesso em: 25 mai. 2015.<\/h6>\n<h6>TARRAB, M. Mais al\u00e9m do consumo: Parte I \u2013 a maldi\u00e7\u00e3o do sexo e a \u00e9poca. Curinga, Belo Horizonte, n. 20, p. 55-69, nov. 2004.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Lilany Pacheco (Relatora)<\/strong><\/h6>\n<h6>Psicanalista. Membro da EBP\/AMP. E-mail:\u00a0<span id=\"cloaka7c00441c5c12a23e13c957c22ad841c\"><a href=\"mailto:lilanypacheco@gmail.com\">lilanypacheco@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LILANY PACHECO (RELATORA) POR GIULIA PUNTEL A abordagem do tema das toxicomanias no campo freudiano sempre se fez pelo reconhecimento de que as rela\u00e7\u00f5es do sujeito com as drogas implicam o corpo pr\u00f3prio como Outro, na produ\u00e7\u00e3o do gozo do corpo, e a identifica\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria que sustenta a ades\u00e3o, nem sempre dialetiz\u00e1vel, \u00e0 nomea\u00e7\u00e3o \u201ceu&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58143,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-807","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-17","category-13","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/807","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=807"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/807\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58144,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/807\/revisions\/58144"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58143"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=807"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=807"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=807"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}