{"id":811,"date":"2015-07-17T06:56:21","date_gmt":"2015-07-17T09:56:21","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=811"},"modified":"2015-07-17T06:56:21","modified_gmt":"2015-07-17T09:56:21","slug":"comentario-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2015\/07\/17\/comentario-3\/","title":{"rendered":"Coment\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>SIMONE SOUTO<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/41-600x566-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"566\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-812\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/41-600x566-1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"566\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/41-600x566-1.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/41-600x566-1-300x283.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>FOTO:FREDERICO BANDEIRAF<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Localizo tr\u00eas aspectos que me pareceram importantes no relat\u00f3rio apresentado por Ludmilla Feres, por ocasi\u00e3o do VII ENAPOL, e que hoje, nesta Conversa\u00e7\u00e3o do IPSM-MG, temos a oportunidade, mais uma vez, de discutir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1) O texto parte da hip\u00f3tese de que os adolescentes, hoje, recorrem \u00e0s imagens dos meios digitais e aos objetos oferecidos pela t\u00e9cnica como um recurso para lidar com a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual e com as dificuldades relativas ao encontro com o Outro sexo. Como nos esclarece Ludmilla, atrav\u00e9s de uma cita\u00e7\u00e3o de Miller, constatamos, na atualidade, um enfraquecimento do nome-do-pai e das inst\u00e2ncias que tinham a incumb\u00eancia de transmitir \u201co que conv\u00e9m ser e fazer para ser um homem e para ser uma mulher\u201d[i]. Assim, os adolescentes de hoje buscam na tecnologia n\u00e3o exatamente uma resposta pela via do sentido, mas o que, a meu ver, poder\u00edamos chamar de certo \u201caparelhamento\u201d para o gozo e, tamb\u00e9m, para lidar com o desencontro fundamental entre os sexos, que, na adolesc\u00eancia, \u00e9 colocado em evid\u00eancia de uma forma in\u00e9dita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se, como nos diz Lacan no Semin\u00e1rio 20 (1985, p. 75.), \u201ca realidade \u00e9 abordada com os aparelhos do gozo\u201d, vemos que, atualmente, essa abordagem da realidade se faz muito mais pela via do objeto que pela via do falo e suas significa\u00e7\u00f5es, ou seja, s\u00e3o dos objetos criados pela tecnologia que o sujeito espera uma resposta com a qual ele possa fazer frente ao real do sexo. Por exemplo, no relat\u00f3rio da NEL (Nueva Escuela Lacaniana) apresentado no \u00faltimo ENAPOL (Encontro Americano da Psican\u00e1lise de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana), em um caso cl\u00ednico relatado, um adolescente faz o seguinte coment\u00e1rio: \u201cPor que n\u00e3o inventaram um aplicativo de um aparelhinho que diga como conquistar uma garota?\u201d Ora, o recurso ao objeto como tentativa de fazer existir a rela\u00e7\u00e3o sexual, n\u00f3s o encontramos na fantasia atrav\u00e9s dos objetos que s\u00e3o demandados e ou oferecidos ao Outro: seio, fezes, olhar e voz. Mas o que muda quando esse objeto \u00e9 um aparelhinho ao qual se pode ter acesso \u201cpor um clique\u201d[ii], sem necessariamente passar pelo Outro? Quais as consequ\u00eancias disso com rela\u00e7\u00e3o ao saber, \u00e0 concep\u00e7\u00e3o que se tem do corpo, \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com o parceiro? Parece-me que, facilitando ou dificultando os la\u00e7os sociais, temos a\u00ed, na introdu\u00e7\u00e3o dos meios digitais, algo que modifica completamente a forma de abordagem da realidade. Essa transforma\u00e7\u00e3o no aparelhamento do gozo para lidar com a realidade \u00e9 o primeiro aspecto que eu gostaria de salientar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2) O segundo aspecto diz respeito \u00e0 adi\u00e7\u00e3o que os adolescentes t\u00eam hoje com os meios digitais, assim como ao apelo crescente \u00e0 pornografia, problema abordado no texto apresentado por Feres, que faz refer\u00eancia a uma conversa\u00e7\u00e3o na qual os adolescentes dizem que \u201cesparram imagens pornogr\u00e1ficas\u201d[iii]. Podemos situar esse problema n\u00e3o exatamente como uma tentativa de fazer a rela\u00e7\u00e3o sexual existir (pois, isso incluiria uma tentativa de abordagem do Outro), mas, ao contr\u00e1rio, como uma maneira de \u2013 diante da evid\u00eancia da inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual em nossos dias \u2013 tentar fazer o todo pela via do mais gozar, prescindindo-se do Outro como parceiro. Essa posi\u00e7\u00e3o, a meu ver, poderia ser descrita mais ou menos assim: a rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o existe, mas o gozo sim; ent\u00e3o, \u00e9 preciso que o gozo n\u00e3o pare. Essa solu\u00e7\u00e3o se sustenta no apelo a um gozo que tende a ser mantido no registro do necess\u00e1rio, ou seja, do que n\u00e3o para de se escrever.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nesse sentido, parece-me que existe, por parte dos adolescentes de hoje, uma constata\u00e7\u00e3o da inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual, ocasionando, em muitos casos, uma descren\u00e7a numa rela\u00e7\u00e3o poss\u00edvel entre os sexos. Serge Cottet (2011) nos diz, em seu texto \u201cO sexo fraco dos adolescentes\u2026\u201d, que presenciamos, hoje em dia, \u201cuma forma moderna de n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o\u201d. Lacan, no Semin\u00e1rio 7, situa o amor cort\u00eas, na Idade M\u00e9dia, como uma forma elegante de n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o, pois manter a dama em um lugar inacess\u00edvel seria uma forma de n\u00e3o ter que se haver com a real impossibilidade da rela\u00e7\u00e3o sexual, fazendo parecer que somos n\u00f3s que colocamos a barreira que torna A Mulher inating\u00edvel. A eleg\u00e2ncia dessa solu\u00e7\u00e3o prov\u00e9m do lugar de alteridade no qual a dama \u00e9 colocada. Podemos aproximar essa forma de n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o que encontramos nos dias de hoje (no apelo \u00e0 pornografia e na adi\u00e7\u00e3o aos objetos tecnol\u00f3gicos) dessa solu\u00e7\u00e3o medieval, mas em uma vers\u00e3o, dir\u00edamos, bem menos elegante. Na forma atual de n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o, \u00e9 justamente a alteridade do parceiro que se encontra abolida, tendo sido substitu\u00edda pelo gozo solit\u00e1rio, o gozo do Um-sozinho, que prov\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o direta com o objeto, um objeto que se encontra \u00e0 m\u00e3o e n\u00e3o depende, necessariamente, de uma rela\u00e7\u00e3o com o Outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3) O terceiro aspecto importante diz respeito ao campo da linguagem. N\u00e3o podemos desconhecer que um novo uso da linguagem \u00e9 inaugurado a partir dos meios digitais: ela aparece de forma \u201cabreviada, imperativa, na qual se misturam imagens, palavras, sinais sonoros, \u00edcones\u201d[iv]. Uma linguagem escrita, caracterizada pela exclus\u00e3o da materialidade de um corpo a corpo entre os que nela est\u00e3o envolvidos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Diante disso, que efeitos podemos extrair da introdu\u00e7\u00e3o da palavra falada e da presen\u00e7a dos corpos como, por exemplo, acontece em uma Conversa\u00e7\u00e3o como a relatada por Ludmilla Feres? Penso que essa experi\u00eancia da Conversa\u00e7\u00e3o com os adolescentes mostra-nos que a introdu\u00e7\u00e3o dos corpos e da fala acaba por revelar algo que, paradoxalmente, estava velado pela mostra\u00e7\u00e3o das imagens pornogr\u00e1ficas: a divis\u00e3o diante do olhar do Outro \u2013 a divis\u00e3o da sala (entre os estudiosos na frente e os bagunceiros do fundo), a divis\u00e3o entre os sexos (entre meninos e meninas), a diferen\u00e7a entre os pr\u00f3prios meninos (os que \u201cesparram\u201d e os que \u201cn\u00e3o esparram\u201d), a diferen\u00e7a entre as meninas (as que mostram tudo e as que n\u00e3o mostram). Ou seja, a conversa\u00e7\u00e3o introduz um furo na imagem, tanto do lado da escola como do lado dos alunos, fazendo aparecer a divis\u00e3o e, ao mesmo tempo, localizando os diferentes modos de gozo. Al\u00e9m disso, podemos nos perguntar se a tend\u00eancia dos alunos de tudo mostrar n\u00e3o seria uma resposta \u00e0 posi\u00e7\u00e3o da Escola, que, segundo eles, ocupa o lugar de uma c\u00e2mera que tudo v\u00ea.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<hr \/>\n<h6><strong>BIBLIOGRAFIA<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>COTTET, S. \u201cO sexo fraco dos adolescentes: sexo-m\u00e1quina e mitologia do cora\u00e7\u00e3o\u201d. In: Ensaios da cl\u00ednica psicanal\u00edtica. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2011.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O Semin\u00e1rio, livro 7: A \u00e9tica da psican\u00e1lise. Rio de janeiro: Jorge Zahar Editor (Semin\u00e1rio de 1959-1960).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. O Semin\u00e1rio, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985 (Semin\u00e1rio de 1972-1973).<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cEm dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia\u201d. Interven\u00e7\u00e3o de encerramento da 3\u00aa Jornada do Instituto da Crian\u00e7a. 2015. Dispon\u00edvel em http:\/\/minascomlacan.com.br\/blog\/em-direcao-a-adolescencia. Acesso em 28 de fev. de 2016.<\/h6>\n<h6>Relat\u00f3rio \u201cOs adolescentes nos meios digitais e seus novos la\u00e7os\u201d, apresentado no VII ENAPOL \u2013 Encontro Americano de Psican\u00e1lise de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana. S\u00e3o Paulo, set. de 2015<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>[i] MILLER, J-A. \u201cEm dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia\u201d. Interven\u00e7\u00e3o de encerramento da 3\u00aa Jornada do Instituto da Crian\u00e7a.<\/h6>\n<h6>[ii] Idem.<\/h6>\n<h6>[iii] Relat\u00f3rio \u2013 \u201cOs adolescentes nos meios digitais e seus novos la\u00e7os\u201d, apresentado no VII ENAPOL \u2013Encontro Americano de Psican\u00e1lise de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana, em setembro de 2015, S\u00e3o Paulo.<\/h6>\n<h6>4 MILLER, J-A. \u201cEm dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia\u201d. Interven\u00e7\u00e3o de encerramento da 3\u00aa Jornada do Instituto da Crian\u00e7a.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Simone Souto<\/strong><\/h6>\n<h6>Simone Souto. Psicanalista, Analista Membro da Escola (AME) pela Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP), Membro da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP).\u00a0<span id=\"cloak71b9cdcf96cbfe4ea2d52e14339991ff\"><a href=\"mailto:ssouto.bhe@terra.com.br\">ssouto.bhe@terra.com.br<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SIMONE SOUTO &nbsp; FOTO:FREDERICO BANDEIRAF &nbsp; Localizo tr\u00eas aspectos que me pareceram importantes no relat\u00f3rio apresentado por Ludmilla Feres, por ocasi\u00e3o do VII ENAPOL, e que hoje, nesta Conversa\u00e7\u00e3o do IPSM-MG, temos a oportunidade, mais uma vez, de discutir. &nbsp; 1) O texto parte da hip\u00f3tese de que os adolescentes, hoje, recorrem \u00e0s imagens dos&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-811","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-almanaque-17","category-13","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/811","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=811"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/811\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=811"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=811"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=811"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}