{"id":816,"date":"2015-07-17T06:56:21","date_gmt":"2015-07-17T09:56:21","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=816"},"modified":"2025-12-01T16:55:59","modified_gmt":"2025-12-01T19:55:59","slug":"um-saldo-de-saber-do-jogo-aberto-nas-redes-sociais-a-declaracao-de-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2015\/07\/17\/um-saldo-de-saber-do-jogo-aberto-nas-redes-sociais-a-declaracao-de-amor\/","title":{"rendered":"Um Saldo De Saber: Do Jogo Aberto Nas Redes Sociais \u00c0 Declara\u00e7\u00e3o De Amor"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>LUDMILLA F\u00c9RES FARIA (RELATORA)<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/4-600x495-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"495\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-817\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/4-600x495-1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"495\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/4-600x495-1.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/4-600x495-1-300x248.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/strong><\/h6>\n<h6><strong>POR GIULIA PUNTEL<\/strong><\/h6>\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 70, em seu Semin\u00e1rio Mais, ainda, Lacan anuncia o lugar de destaque que os instrumentos produzidos pela ci\u00eancia ocupar\u00e3o na vida dos homens. Chega a profetizar que a inven\u00e7\u00e3o de objetos como o microsc\u00f3pio e a radiotelevis\u00e3o, que ele nomeia de gadgets, comandariam a exist\u00eancia dos homens, tornando estes cada vez mais \u201csujeitos dos instrumentos\u201d (LACAN, 1973, p.110) e anuncia, ainda, a profunda modifica\u00e7\u00e3o que eles trariam \u00e0s formas de la\u00e7o social.<\/p>\n<p>N\u00e3o passa despercebido ao psicanalista a rela\u00e7\u00e3o entre a s\u00e9rie de objetos e a fantasia de suprir o que \u201cn\u00e3o se pode dizer, isto \u00e9, a rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d (p. 110). Lacan d\u00e1 peso ao fato de que a fantasia prometida pelos gadgets \u2015 de harmonia entre o sujeito e o Outro \u2015 escamoteia o fato de que esses objetos, na verdade, mant\u00eam os sujeitos cada vez mais apegados ao gozo autoer\u00f3tico.<\/p>\n<p>Podemos considerar que a profecia de Lacan tomou um vulto que seria imposs\u00edvel medir. Os objetos da ci\u00eancia invadiram a vida moderna. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, a chegada dos computadores seguida das m\u00eddias sociais possibilitou ao homem um acesso a lugares e coisas que ele jamais imaginaria. N\u00e3o existem mais espa\u00e7os inating\u00edveis. Paradoxalmente, \u00e9 nesse universo inundado pelas telas, que nos conectam em tempo real com o outro, que constatamos que os homens n\u00e3o est\u00e3o menos sozinhos. Ao contr\u00e1rio, os smartphones e os tablets \u2015 extens\u00e3o dos nossos corpos \u2015 surgem como novos parceiros aos quais os homens se ligam cada vez mais, favorecendo a reitera\u00e7\u00e3o do gozo de \u201cl\u2019Un tout seul\u201d.<\/p>\n<p>Estamos diante de um problema de toda a sociedade humana: a dificuldade de saber quanto ao sexo. Pois, diferente da solu\u00e7\u00e3o do instinto animal, o ser humano n\u00e3o possui um saber sobre o que o complementa. E, embara\u00e7ado com a puls\u00e3o, encontra esse buraco. Todavia, esse \u00e9 um problema com o qual prioritariamente defrontam-se os adolescentes, justamente por ser esse o momento em que eles devem afastar-se de seu corpo de crian\u00e7a e das palavras de sua inf\u00e2ncia para decidirem pela escolha de seu objeto de desejo.<\/p>\n<p>Nessa hora, recorrer aos objetos oferecidos pela t\u00e9cnica pode tanto favorecer um encontro poss\u00edvel com o Outro sexo \u2015 conforme nos disse um jovem: \u201ca rede social serve a um cara que \u00e9 mais t\u00edmido\u201d \u2015, como afastar os adolescentes para um turbilh\u00e3o que os exilam cada vez mais do Outro. Miller, em seu texto Em dire\u00e7\u00e3o a adolesc\u00eancia (2015), ao afirmar que os jovens modernos padecem mais da incid\u00eancia do mundo virtual do que aqueles de gera\u00e7\u00f5es passadas, salienta que se trata do resultado do enfraquecimento do Nome-do-Pai, que foi intimidado pelos dispositivos de comunica\u00e7\u00e3o. Para ele, \u00e9 importante destacar o desgaste sofrido pelas inst\u00e2ncias que tinham a incumb\u00eancia de transmitir \u201co que conv\u00e9m ser e fazer para ser um homem e para ser uma mulher\u201d (p. 6). Acrescenta que tais mudan\u00e7as deixaram um saldo de desorienta\u00e7\u00e3o profunda nos jovens de hoje.<\/p>\n<p>Mas, advertidos de que o discurso da t\u00e9cnica n\u00e3o retroceder\u00e1 e que as novas gera\u00e7\u00f5es estar\u00e3o cada vez mais confrontadas com esses objetos, interessa-nos fazer uma leitura de qual uso os adolescentes fazem das m\u00eddias sociais no que se refere ao la\u00e7o. Pode-se dizer que o acesso mais f\u00e1cil ao gozo, nesses tempos que correm, faz mais f\u00e1cil o acesso ao Outro sexo, tal qual nos chamou aten\u00e7\u00e3o o jovem citado anteriormente? E de que forma a psican\u00e1lise pode se inserir nesse debate?<\/p>\n<p>O outro efeito da entrada na era digital \u00e9 o fim do espa\u00e7o \u00edntimo. Segundo Wajcman (2010), estamos na era da permissividade, na qual tudo se publica e se exp\u00f5e; isso sem nenhum \u00edndice de vergonha. Em entrevista, ele lembra as palavras de Mark Zuckerberg, o fundador do Facebook: \u201c\u00e9 preciso romper o la\u00e7o entre o secreto e o \u00edntimo, porque esse la\u00e7o \u00e9 uma heran\u00e7a obsoleta do passado\u201d (2010). Destaca que os mestres da internet n\u00e3o t\u00eam escr\u00fapulos ao profetizar o futuro como o da era do fim das barreiras entre o privado e o p\u00fablico. Sua posi\u00e7\u00e3o coaduna com a de Miller (2015) que afirma que \u201cos constrangimentos naturais foram rompidos pelo discurso da ci\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Freud sublinha a import\u00e2ncia das barreiras impostas pela educa\u00e7\u00e3o na escolha do objeto, cita o pudor, o asco e a vergonha como diques de resist\u00eancias que \u201cconduzem as correntes sexuais pelos caminhos chamados normais e lhes impedem de reviver impulsos recalcados\u201d (FREUD, 1987, p.42). E aponta que os impulsos mais atingidos por elas s\u00e3o os da fixa\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas da primitiva escolha de objeto. Ou seja, o la\u00e7o com o Outro n\u00e3o se d\u00e1, segundo Freud, \u00e0s expensas do recalque do primeiro objeto de desejo.<\/p>\n<p>O que nos leva a real\u00e7ar a queda das barreiras como uma das causas da invas\u00e3o da pornografia na rela\u00e7\u00e3o entre os sexos. Miller (2014) isolou a pornografia como o sintoma advindo da prolifera\u00e7\u00e3o das imagens. Atesta que \u201cpassamos da interdi\u00e7\u00e3o \u00e0 incita\u00e7\u00e3o, ao for\u00e7amento\u201d, o que n\u00e3o \u00e9 sem consequ\u00eancia nos costumes das novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Como os adolescentes situam-se nessa \u00e9poca da transpar\u00eancia, da exibi\u00e7\u00e3o dos corpos e dos coitos? O que visam ao postarem cenas \u00edntimas nas m\u00eddias, fato cada vez mais corriqueiro entre eles? E quais os efeitos dessas divulga\u00e7\u00f5es? Essas foram as quest\u00f5es que nos guiaram para abordar o problema apresentado pela equipe diretiva de uma escola de classe m\u00e9dia de Belo Horizonte. Segundo relatos, os alunos do 2\u00ba ano E.M., de 16 a 17 anos, postaram fotos \u00edntimas de colegas, gerando um constrangimento na turma e um impasse para a escola. Foi a partir desse ponto que demos in\u00edcio \u00e0 \u201cConversa\u00e7\u00e3o\u201d[2], com a perspectiva de que eles pudessem nos dizer o que estava ali em jogo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Da marca do olhar invasivo do Outro \u00e0 transgress\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o do tema da \u201cConversa\u00e7\u00e3o\u201d para a turma \u2015 o uso inadequado das redes digitais dentro da sala de aula e entre os colegas \u2015, os alunos negaram enfaticamente qualquer problema desse tipo: n\u00e3o fazem uso da internet, guardam o celular no in\u00edcio das aulas, nenhum deles tem esse comportamento\u2026<\/p>\n<p>Para eles, \u201ca quest\u00e3o do celular \u00e9 coisa da escola na era da tecnologia, n\u00e3o \u00e9 para falar disso\u201d. O problema da sala \u00e9 a divis\u00e3o entre \u201cfrente e fundo\u201d. Sustentam que os professores tra\u00e7am uma linha, com o olhar, que divide a sala em duas: os bagunceiros ficam atr\u00e1s e os estudiosos, na frente. E completam: \u201co professor tem uma vis\u00e3o meio marcada de tr\u00e1s\u201d. Em seguida, deslocam-se do professor para a presen\u00e7a de uma c\u00e2mera filmadora. Essa, diferente do professor que chega at\u00e9 a inibir por estar pr\u00f3ximo, n\u00e3o serve para nada. Acentuam: \u201caquela c\u00e2mera ali n\u00e3o grava nada, serve s\u00f3 para causar!\u201d. Demonstram, assim, o desprezo ao dispositivo que diuturnamente acompanha seus passos ao afirmarem de forma ir\u00f4nica: \u201cAh! n\u00e3o vou colar por que a c\u00e2mera t\u00e1 me vendo?\u201d.<\/p>\n<p>Agora, voltam-se para a divis\u00e3o entre \u201cmeninas e meninos\u201d. Surgem as quest\u00f5es sobre a diferen\u00e7a sexual, e n\u00e3o \u00e9 sem consequ\u00eancia o fato de uma menina ficar no grupo de meninos. Nesse caso, ou a menina \u00e9 \u201cuma piranha\u201d ou passa a ser vista \u201ccomo menino\u201d. Conta-nos uma delas: \u201ceu me chamo Vit\u00f3ria Maria, mas me chamavam de V\u00edtor M\u00e1rio, porque eu s\u00f3 andava com meninos\u201d. Com eles n\u00e3o \u00e9 diferente, os que andam no meio de meninas tamb\u00e9m s\u00e3o \u201czoados\u201d: \u201c\u00e9 galinha ou gay\u201d. De \u201cpiranha a \u2018maria-homem\u2019\u201d ou \u201cde galinha a gay\u201d, os grupos se classificam a partir dos comportamentos.<\/p>\n<p>Mais \u00e0 frente, a diferen\u00e7a \u00e9 introduzida no cerne dos grupos. H\u00e1 os homens que \u201cfazem coisas\u201d e n\u00e3o exp\u00f5em as meninas, e aqueles que fazem, mas falam e exp\u00f5em nas m\u00eddias sociais: \u201ctipo o cara que pega mulher e vai contar pros amiguinhos no whats\u201d e tamb\u00e9m \u201ca mulher que fala\u201d. Segundo eles, s\u00e3o os que \u201cesparram\u201d[1], que contam tudo. Passam assim de uma classifica\u00e7\u00e3o a outra, na tentativa de encontrar uma resposta para o que \u00e9 ser um homem e ser uma mulher.<\/p>\n<p>Frente ao impasse dessa divis\u00e3o, eles retornam \u00e0 discuss\u00e3o sobre a fun\u00e7\u00e3o do Outro social. \u00c0 vista disso, a escola surge novamente como o problema; primeiro pro\u00edbe demais: \u201cn\u00e3o pode nem abra\u00e7ar\u201d ou \u201cum menino tomou suspens\u00e3o por causa de um selinho\u201d. Ou, ent\u00e3o, n\u00e3o sabe colocar limites: \u201co ideal seria deixar as pessoas namorarem, s\u00f3 que dentro de sala n\u00e3o\u201d. Por fim, acrescentam que ela \u00e9 mais r\u00edgida que os pais: \u201ctem muito pai que deixa, mas a escola nunca deixa nada\u201d. Para eles, o \u00fanico motivo que leva a escola a proibir namoros, beijos, abra\u00e7os e uso do celular \u00e9 o dinheiro dos pais: \u201ca escola pro\u00edbe por causa dos pais, pois eles pagam a mensalidade\u201d.<\/p>\n<p>Os jovens denunciam que a escola funciona como c\u00e2mera filmadora, uma inst\u00e2ncia superegoica, que dita a lei de forma caprichosa. E que, assim, ela se excede nas proibi\u00e7\u00f5es \u00e0 medida que n\u00e3o flexibiliza, tornando-se mais r\u00edgida que os pr\u00f3prios pais: \u201co pai \u00e0s vezes sabe e n\u00e3o fala nada; a escola n\u00e3o!\u201d. Conforme Freud, o supereu \u00e9 essa inst\u00e2ncia moral que n\u00e3o visa a uma obedi\u00eancia, mas a uma docilidade ao mandado.<\/p>\n<p>Todavia, os jovens nos demonstram como colocam suas obje\u00e7\u00f5es a esse Outro que se apresenta invasivo: \u201ceu acho melhor ficar assim, porque tudo que \u00e9 proibido \u00e9 mais gostoso\u201d. Ou seja, a infra\u00e7\u00e3o pode introduzir um \u201cn\u00e3o\u201d nesse imperativo, apontando o paradoxo da lei: ela \u00e9 sua pr\u00f3pria destitui\u00e7\u00e3o. Nesse instante, foi importante uma interven\u00e7\u00e3o para reafirmar que tamb\u00e9m \u00e9 fun\u00e7\u00e3o da escola regular coisas que levam a excessos, isso que n\u00e3o \u00e9 muito f\u00e1cil de controlar, tal como o uso do celular e a rela\u00e7\u00e3o entre os adolescentes, lembrando-lhes que esses excessos geram situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis, como eles mesmos trouxeram: \u201cos meninos que exp\u00f5em as meninas mais do que elas gostariam\u201d ou \u201ca menina que fica com mais meninos do que eles acham que ela deveria\u201d.<\/p>\n<p>O que se segue demonstra o efeito da interpreta\u00e7\u00e3o: os jovens deixam de lado a estrat\u00e9gia de afirmar que o problema \u00e9 o Outro social que regula demais e passam a contar sobre o universo da pornografia, sem nenhuma regula\u00e7\u00e3o das m\u00eddias. Universo esse que permite ver o outro sem ser visto, exibir-se e convocar o outro a se exibirtudo feito de forma a evidenciar o n\u00e3o saber como lidar com isso que os excede. O que testemunha que, na pornografia, trata-se de uma convoca\u00e7\u00e3o ao mais de gozo, resultante do enfraquecimento do Nome-do-Pai.<\/p>\n<p>Veremos, em seguida, como a pornografia tomou conta da cena \u2015 doravante ocupada pelas classifica\u00e7\u00f5es e pela infra\u00e7\u00e3o \u2015 para responder aos impasses da sexualidade. A pornografia torna-se, ent\u00e3o, o tratamento dado pelos jovens \u00e0 \u201crela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o h\u00e1\u201d. Miller \u00e9 enf\u00e1tico ao afirmar que apenas a aus\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual pode dar conta de explicar a difus\u00e3o planet\u00e1ria, a empolga\u00e7\u00e3o da pornografia. O que demonstra que, tal qual a classifica\u00e7\u00e3o, ela um sintoma do imp\u00e9rio da t\u00e9cnica, que traz, como consequ\u00eancia, \u201co desencantamento, a brutaliza\u00e7\u00e3o e a banaliza\u00e7\u00e3o\u201d (MILLER, 2015 ).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Do apagamento do Outro \u00e0 difus\u00e3o da pornografia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Dentre as m\u00eddias sociais, os jovens destacam o que chamam de \u201clado obscuro\u201d: o \u201csnapchat\u201d[2], mais usado para mandar \u201cnudes\u201d[3]. O diferencial do programa \u00e9 que a foto some da tela, sem deixar rastros, em poucos segundos. \u00c9 usado, em especial, pelas meninas para mandar nudes para os namorados. Mas, o problema \u00e9 que elas mandam para os namorados e eles podem \u201cprintar\u201d[4] a foto e envi\u00e1-la para qualquer um. Eles d\u00e3o o exemplo da garota que \u201cmandou foto para o namorado dela e, depois que terminaram o namoro, ele postou um \u00e1lbum no facebook\u201d.<\/p>\n<p>O impasse trazido pela exibi\u00e7\u00e3o nas m\u00eddias configura-se da seguinte forma: as meninas se queixam que os meninos as exp\u00f5em demais, e os meninos dizem que as meninas se exibem demais. Conforme diz o garoto: \u201cas meninas ficam falando que homem \u00e9 galinha, mas direto vaza foto de menina pelada\u201d. E a resposta \u00e9: \u201co menino gosta tamb\u00e9m que a menina se exiba! E, depois, dizem que est\u00e1 exibindo demais\u201d. Como regular esse impasse, que \u00e9 traduzido por elas como um problema de confian\u00e7a? \u201cEla n\u00e3o se exp\u00f4s, ela mandou para quem confiava\u201d. Por que os meninos \u201cesparram\u201d as fotos? Um deles afirma ser uma quest\u00e3o de imaturidade.<\/p>\n<p>Tal movimento indica-nos uma tentativa de constituir a parceria amorosa. A menina tenta seduzir o menino enviando a foto, uma demanda de amor, como elas mesmas apontam. Os meninos, por seu lado, recuam frente a essa demanda e respondem com a divulga\u00e7\u00e3o. Pode-se depreender desse jogo uma estrat\u00e9gia dos meninos de fazer existir a rela\u00e7\u00e3o sexual via degrada\u00e7\u00e3o do objeto?<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a hip\u00f3tese freudiana desenvolvida no texto Sobre a tend\u00eancia universal \u00e0 deprecia\u00e7\u00e3o na esfera do amor, no qual \u00e9 real\u00e7ada a tend\u00eancia universal \u00e0 deprecia\u00e7\u00e3o em consequ\u00eancia da necess\u00e1ria divis\u00e3o entre corrente sensual e de ternura.<\/p>\n<p>A ideia de Freud \u00e9 que a crian\u00e7a, desde seus primeiros anos, leva consigo as marcas da presen\u00e7a arcaica de uma corrente afetiva \u2015 dirigida \u00e0queles que cuidaram dela \u2015 em detrimento da corrente sensual. Assim, a escolha er\u00f3tica do sujeito surge sob a \u00e9gide do car\u00e1ter prim\u00e1rio da corrente afetiva. Durante o per\u00edodo de lat\u00eancia continua a primazia da corrente de ternura, e a sensual fica em suspens\u00e3o. Na puberdade, momento em que o sujeito \u00e9 confrontado com uma escolha de objeto distinta dos objetos parentais, surge a impossibilidade de manter essa alian\u00e7a. A poderosa corrente sensual desperta e n\u00e3o se equivoca mais com seus objetivos. O sujeito dever\u00e1 fazer a escolha do novo objeto a partir da jun\u00e7\u00e3o das duas correntes. Todavia, esse objeto reencontrado, por portar tra\u00e7os do primeiro objeto de amor \u2015 a m\u00e3e \u2015, despertar\u00e1 o horror ao incesto. Surge da\u00ed a necessidade de degradar o objeto, evitando a lembran\u00e7a de qualquer tra\u00e7o do primeiro.<\/p>\n<p>Trata-se de uma extraordin\u00e1ria artimanha, uma condi\u00e7\u00e3o de amor: que a mulher escolhida seja depreciada. Ao fazer da deprecia\u00e7\u00e3o uma condi\u00e7\u00e3o universal para a escolha do objeto, Freud d\u00e1 valor ao fato de que para os humanos n\u00e3o existe proposi\u00e7\u00e3o sexual, pois, se existisse, um homem poderia eleger uma mulher, am\u00e1-la, desej\u00e1-la e gozar dela como mulher. A deprecia\u00e7\u00e3o do objeto possibilita o acesso \u00e0 mulher, mas n\u00e3o a todas, apenas \u00e0s que passaram pelo processo. Nesses casos, algo da rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o existe pode se inscrever.<\/p>\n<p>Contudo, as meninas d\u00e3o testemunho do fracasso dessa estrat\u00e9gia masculina, quando est\u00e3o em jogo as m\u00eddias, ao afirmarem que, mais do que degrad\u00e1-las para em seguida possu\u00ed-las, os meninos pedem as fotos e depois as descartam: \u201ctem homem que pede foto pelada para menina, porque se a menina mandar ele a larga\u201d. Os meninos confirmam: \u201c\u00e9 tipo um teste: no primeiro m\u00eas de namoro voc\u00ea pede, se a menina j\u00e1 mandar \u00e9 porque ela j\u00e1 fez isso outras vezes, a\u00ed voc\u00ea sabe que ela n\u00e3o \u00e9 para voc\u00ea\u201d. O que nos leva \u00e0 hip\u00f3tese de que, com as m\u00eddias sociais, a condi\u00e7\u00e3o de deprecia\u00e7\u00e3o n\u00e3o serve como estrat\u00e9gia para conter o gozo e direcion\u00e1-lo para o objeto de desejo. Diversamente, nesses tempos que o Outro n\u00e3o existe, a tend\u00eancia ao rebaixamento provoca um empuxo ao \u201cmais gozar\u201d, via masturba\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 a mulher como causa de desejo que est\u00e1 em jogo, mas a mulher como objeto dejeto, que serve ao gozo do \u00f3rg\u00e3o, o que radicaliza a condi\u00e7\u00e3o do imposs\u00edvel da rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se inscrever.<\/p>\n<p>Os jovens passam a descrever a forma como esse desencontro radical apresenta-se para eles: \u201c\u00e9 traum\u00e1tico\u201d, diz um garoto. Justamente por que, sem um saber pr\u00e9vio sobre o que fazer frente ao Outro sexo, os meninos acabam ref\u00e9m do gozo desse Outro, como o garoto acrescenta: \u201cse voc\u00ea quer seduzir a pessoa e se voc\u00ea n\u00e3o souber do que eu gosto vai se tornar mais um trauma que sedu\u00e7\u00e3o. Por isso que a sedu\u00e7\u00e3o tem que ter um conhecimento\u201d.<\/p>\n<p>Frente a esse mal-entendido do encontro com o Outro sexo, os adolescentes necessitam inventar uma resposta singular, e \u00e9 agora que Outro social pode transmitir-lhes uma inven\u00e7\u00e3o para encobrir esse vazio. Entretanto, essas respostas hoje s\u00e3o buscadas nas redes que trazem novamente para a cena a pornografia, afastando-os da poss\u00edvel constru\u00e7\u00e3o de uma intimidade. Tudo, ent\u00e3o, \u00e9 pornogr\u00e1fico: \u201ca mulher no baile funk, a que coloca a bunda de fora ou mesmo os funks\u201d, pois se eles falam de carro para chamar mulher, \u201cque tipo de mulher vai atr\u00e1s de cara por dinheiro?\u201d.<\/p>\n<p>Um tumulto se instala na sala, os adolescentes passam a descrever comportamentos pornogr\u00e1ficos, tornando necess\u00e1rio um corte que possibilite retomar a conversa sobre a intimidade, na qual se d\u00e1 o la\u00e7o com o Outro. Afinal, fica cada vez mais claro que abandon\u00e1-los \u00e0 pornografia \u00e9 mant\u00ea-los entregue ao gozo autoer\u00f3tico, enviando-os de volta a seus gadgets \u2015 parceiros dessa solid\u00e3o globalizada. A interven\u00e7\u00e3o feita nesse momento foi no sentido de dizer que nem tudo \u00e9 pornografia, o que tornaria todos os atos desses jovens reprov\u00e1veis; mas tamb\u00e9m que essa conversa instaurou uma bagun\u00e7a, um ros\u00e1rio de acusa\u00e7\u00f5es morais entre eles, ou seja, um gozo generalizado que n\u00e3o possibilita nenhum saldo de saber. Tal interven\u00e7\u00e3o coaduna com o que Lacan adverte: \u201cN\u00e3o iremos falar do gozo assim. J\u00e1 disse sobre ele o suficiente para que saibam que o gozo \u00e9 tonel das Danaides, e que uma vez que ali se entra n\u00e3o se sabe onde isso vai dar. Come\u00e7a com as c\u00f3cegas e termina com labaredas de gasolina. Tudo isso \u00e9, sempre, o gozo\u201d (LACAN, 1992, p. 68).<\/p>\n<p>Torna-se necess\u00e1rio, portanto, regular isso que excede pela via da pornografia, o que foi feito dando \u00eanfase \u00e0s perguntas: o que \u00e9 a intimidade? Como diferenci\u00e1-la da pornografia? Surgem as respostas: \u201ca pr\u00f3pria palavra diz, s\u00e3o s\u00f3 voc\u00eas dois, n\u00e3o tem que conversar em m\u00eddia social\u201d, ou \u201cintimidade tinha que ser entre quatro paredes, coisa de um casal\u201d. Assim, abre-se um terceiro e \u00faltimo est\u00e1gio, a partir da fala de um jovem que afirma: \u201cfalar da intimidade \u00e9 tocar na ferida\u201d, seguido por outros: \u201c\u00e9 coisa de mulher\u201d, e, por fim, \u201c\u00e9 a dan\u00e7a do acasalamento\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Intimidade: da pornografia \u00e0 dan\u00e7a do acasalamento<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Segundo Miller, a intimidade \u00e9 o que \u00e9 pr\u00f3prio ao registro da psican\u00e1lise, j\u00e1 que ela se nutre da vida privada. Assim como o ato anal\u00edtico assemelha-se ao verbo intimar, que significa dar a conhecer. Entretanto, esse dar a conhecer em nada se iguala \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o das m\u00eddias; contrariamente, trata-se do privado que \u201c\u00e9 designado pelo pudor\u201d (LACAN, 2003, p. 558).<\/p>\n<p>Assim, em oposi\u00e7\u00e3o ao mestre moderno, que fixa os sujeitos no regime do gozo, sob os ausp\u00edcios da libera\u00e7\u00e3o sexual e que refor\u00e7a o sistema do mestre com o mando: \u201cum esfor\u00e7o a mais para gozar!\u201d, Lacan destaca a fun\u00e7\u00e3o do envergonhar-se, que consiste em dissociar os sujeitos dos significantes mestres e ainda lev\u00e1-los a perceber o gozo que da\u00ed extraem.<\/p>\n<p>Introduzir a barra no bl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1 dos jovens sobre a pornografia proporcionou-lhes a oportunidade de abordar a sedu\u00e7\u00e3o sob a roupagem do amor. Seduzir passa a ser \u201ca dan\u00e7a do acasalamento\u201d ou \u201ca mulher para provocar o desejo do homem n\u00e3o precisa \u2018jogar aberto\u2019, exibir-se\u201d, ou, ainda, \u201cno jogo de sedu\u00e7\u00e3o, a mulher tem que ser imposs\u00edvel para o menino se interessar\u201d. E um garoto afirma: \u201cacho que \u00e9 a declara\u00e7\u00e3o de amor que elas querem\u201d. Ou seja, os jovens atestam que a mulher, para manter sua alteridade fundamental, n\u00e3o deve se expor.<\/p>\n<p>Nesse sentido, no trabalho com os jovens fascinados pela mostra\u00e7\u00e3o, podemos tomar a dire\u00e7\u00e3o apontada por Laurent \u201cl\u00e1 onde o mestre mostra, e mostra sem pudor, a obscenidade, o psicanalista, ao contr\u00e1rio, recoloca o v\u00e9u e evoca esse dem\u00f4nio sob a forma da vergonha\u201d (2002, p. 7).<\/p>\n<p>Tais constata\u00e7\u00f5es nos levam a tomar a vergonha em sua fun\u00e7\u00e3o civilizat\u00f3ria, que ajuda a circunscrever o gozo, a fix\u00e1-lo. Ao analista, nesse momento, cabe a fun\u00e7\u00e3o de introduzir o v\u00e9u sob o gozo escancarado de nossos dias, como demonstrado por alguns dos adolescentes, de tal forma que possa abrir caminho para que cada um se responsabilize por suas escolhas. Nesse sentido, o analista deve estar advertido de que seu lugar tamb\u00e9m depende da possibilidade, ou n\u00e3o, de um novo la\u00e7o de amor se instalar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<h6><\/h6>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6>1 Relat\u00f3rio apresentado durante o VII ENAPOL- Encontro Americano da Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana. S\u00e3o Paulo. 2015 e posteriormente na Conversa\u00e7\u00e3o do Instituto de Psican\u00e1lise de Minas Gerais (2016)<\/h6>\n<h6>2 Participantes do Relat\u00f3rio: Bernardo Micheriff Carneiro (MG), Elizabeth Medeiros (MG); In\u00eas Seabra (EBP\/AMP\/MG); Ludmilla F\u00e9res Faria (relatora. EBP\/AMP\/MG); Maria Jos\u00e9 G. Salum (EBP\/AMP\/MG; Mariana Aranha (MG); Michelle Sena (MG); Miguel Antunes (MG).<\/h6>\n<h6>3 \u201cEsparrar\u201d: esparramar, colocar na rede social.<\/h6>\n<h6>4 Snatchat: mensageiro semelhante ao WhatsApp.<\/h6>\n<h6>5 Nudes: fotos e v\u00eddeos nus<\/h6>\n<h6>6 Printar: salvar a imagem<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<\/div>\n<h6><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>Bibliografia<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>BROUSSE, M-H. El supery\u00f3: del Ideal hacia el objeto. Perspectivas pol\u00edticas, cl\u00ednicas y \u00e9ticas. Coleccion Grulla: Cordob\u00e1, 2011.<\/h6>\n<h6>ELKIN, M. Despertar de la adolesc\u00eancia. Freud y Lacan, lectores de Wedeking. Buenos Aires: Grama Ed., 2014.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1987). Sobre a tend\u00eancia universal \u00e0 deprecia\u00e7\u00e3o na esfera do amor In: Contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 psicologia do amor (Vol. 11, 2a ed., pp. 161-173). Rio de Janeiro: Imago. (Publicada em 1909).<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1987). Cinco li\u00e7\u00f5es de psican\u00e1lise (Vol. 11, 2a ed., pp. 12-51). Rio de Janeiro: Imago. (Publicada em 1909).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1992). O Semin\u00e1rio, livro 17: O avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. (Semin\u00e1rio de 1969-1970).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1985). O Semin\u00e1rio, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. (Semin\u00e1rio de 1972-1973).<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (2003). Pref\u00e1cio a O despertar da Primavera. In Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. (Publicada em 1974).<\/h6>\n<h6>LAURENT, E. A vergonha e o \u00f3dio de si. In: Carta de S\u00e3o Paulo. EBP-MG, ano 9, n. 7, 2002.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. Em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/minascomlacan.com.br\/blog\/em-direcao-a-adolescencia&gt;.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. (2010). Extimidad. Los cursos psicoanal\u00edticos de Jacques-Alain Miller. (Semin\u00e1rio de 1985).<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. (2012). La fuga del sentido. Los cursos psicoanal\u00edticos de Jacques-Alain Miller. (Semin\u00e1rio de 1995).<\/h6>\n<h6>WAJCMAN, G. A prop\u00f3sito de El ojo absoluto. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/virtualia.eol.org.ar\/020\/template.asp?entrevistas\/wajcman.html&gt;.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Ludmilla F\u00e9res Faria (Relatora)<\/strong><\/h6>\n<h6>Ludmilla F\u00e9res Faria \u2013 Psicanalista. Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP), Membro da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP). E-mail:\u00a0<span id=\"cloak55d3cdfc4d04153d2893fd336cc7e4cc\"><a href=\"mailto:ludffaria@uol.com.br\">ludffaria@uol.com.br<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LUDMILLA F\u00c9RES FARIA (RELATORA) POR GIULIA PUNTEL No in\u00edcio da d\u00e9cada de 70, em seu Semin\u00e1rio Mais, ainda, Lacan anuncia o lugar de destaque que os instrumentos produzidos pela ci\u00eancia ocupar\u00e3o na vida dos homens. 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