{"id":820,"date":"2015-07-17T06:56:21","date_gmt":"2015-07-17T09:56:21","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=820"},"modified":"2025-12-01T16:56:25","modified_gmt":"2025-12-01T19:56:25","slug":"almanaque-on-line-entrevista-9","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2015\/07\/17\/almanaque-on-line-entrevista-9\/","title":{"rendered":"Almanaque On-Line Entrevista &#8211; PHILLIPE LACAD\u00c9E"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>PHILLIPE LACAD\u00c9E<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/8-600x347-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"347\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-821\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/8-600x347-1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"347\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/8-600x347-1.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/8-600x347-1-300x174.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/strong><\/h6>\n<h6><strong>PHILLIPE LACAD\u00c9E<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ana Lydia Santiago: Jacques-Alain Miller, em seu texto \u201cEm dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia\u201d, apresenta a sua an\u00e1lise da demanda incondicional de respeito dos adolescentes: \u201cEu quero ser respeitado\u201d. Segundo sua tese, o que especifica essa demanda \u00e9 o fato de n\u00e3o ser articulada ao Outro. Ningu\u00e9m sabe quem pode satisfazer essa car\u00eancia, enquanto a quest\u00e3o do Outro permanece obscura. Na sua opini\u00e3o, a que responde o vazio dessa demanda que o adolescente endere\u00e7a ao Outro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Philippe Lacad\u00e9e<\/strong>: Analisei a demanda de respeito a partir de um momento preciso, na Fran\u00e7a: um movimento de estudantes de segundo grau em que adolescentes \u2013 eram mo\u00e7as \u2013 pediam respeito. Fiz disso um dos nomes do sintoma da adolesc\u00eancia tanto mais porque, naquele momento, eu estava especialmente interessado nos movimentos rap e hip hop e percebi que muitos desses adolescentes se mostravam desrespeitosos. E, na falta de respeito deles, o que queriam era receber respeito do outro. A palavra respeito vem do latim respectus, que significa nos voltarmos para olhar o outro. \u00c9 como se, atrav\u00e9s de seus movimentos ou comportamentos desrespeitosos e provocativos, os jovens nos demandassem olhar para eles e distinguir o elemento de novidade que carregam em si. Essa \u00e9 a tese de Hannah Arendt, em A crise na educa\u00e7\u00e3o: cada crian\u00e7a ou cada adolescente carrega em si um elemento de novidade e deseja que o outro que cuida dele \u2013 seja o adulto parental ou o outro do mundo da educa\u00e7\u00e3o \u2013 distinga, nele, seu lado particular, sintom\u00e1tico. Por isso mesmo a demanda de respeito \u00e9 uma demanda invertida, j\u00e1 que normalmente aquele que tem direito ao respeito \u00e9, de prefer\u00eancia, o adulto ou o pai. Entretanto, como h\u00e1 uma car\u00eancia da fun\u00e7\u00e3o paterna, ou uma car\u00eancia do simb\u00f3lico, os adolescentes n\u00e3o encontram outra solu\u00e7\u00e3o para o que vivem em seus pensamentos ou em seus corpos sen\u00e3o colocar suas sensa\u00e7\u00f5es em evid\u00eancia para que se destaque o que eles s\u00e3o. Isso \u00e9 muito importante porque n\u00e3o tem nada a ver com o respeito, tal como Kant o compreendia. Para esse fil\u00f3sofo, o respeito era um tipo de reciprocidade imagin\u00e1ria: \u201ceu te respeito porque voc\u00ea me respeita\u201d. Os adolescentes de hoje, muitos deles, se referem preferencialmente ao lado desrespeitoso, tal como bem mostrou um outro fil\u00f3sofo, Blaise Pascal: \u201celes pedem respeito para que possamos lhes distinguir\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ludmilla Feres: No in\u00edcio de nossa conversa, voc\u00ea citou o caso de um jovem que matou o pr\u00f3prio pai para ficar livre das exig\u00eancias dele de participar do tr\u00e1fico de drogas. Observou que o ato desse esse jovem foi uma tentativa de se separar de seu pai. Podemos ler, nesse caso, uma demanda de respeito do rapaz?<\/strong><\/p>\n<p><strong>P.L.<\/strong>: Sim, claro! Podemos responder a essa quest\u00e3o retomando dois momentos precisos em que Lacan tratou a quest\u00e3o do respeito. Em \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar\u2026\u201d, diz que o pai tem direito ao respeito em fun\u00e7\u00e3o do caso que faz a m\u00e3e de sua palavra. \u00c9 como se, de fato, fosse muito importante para as crian\u00e7as respeitar o pai porque a m\u00e3e d\u00e1 cr\u00e9dito \u00e0 palavra dele. E, ao final de seu ensino, Lacan diz que o pai s\u00f3 tem direito ao respeito se fizer de uma mulher o objeto causa de desejo. E, mais ainda, que o pai deve ter um cuidado paterno por seus filhos, o que poucos pais fazem. No caso desse jovem que matou o seu pai, do qual falei, o pai o utilizava apenas como um objeto de gozo, para obter dinheiro para o tr\u00e1fico de drogas. Ele o desrespeitava como filho, de modo que o filho n\u00e3o podia mais respeitar seu pai. Esse \u00e9 o problema da civiliza\u00e7\u00e3o moderna. Hoje, na Fran\u00e7a, temos problemas com as civiliza\u00e7\u00f5es que v\u00eam do Magreb, da \u00c1frica do Norte, onde a quest\u00e3o do respeito \u00e9 muito importante. Nas fam\u00edlias tradicionais de origem \u00e1rabe, o pai \u00e9 extremamente respeitado, o que faz com que o respeito esteja bem colocado. Tem-se, nesse caso, uma demanda invertida: a crian\u00e7a demanda respeito para ser considerada uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A.L.S.: Na adolesc\u00eancia, observa-se uma modifica\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica na rela\u00e7\u00e3o dos jovens com o saber. O pr\u00f3prio Freud a notou, em sua \u00e9poca. No entanto, isso toma uma nova configura\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a era digital, ap\u00f3s a incid\u00eancia do mundo virtual. Voc\u00ea poderia comentar essa modifica\u00e7\u00e3o no saber a partir de sua experi\u00eancia de Conversa\u00e7\u00e3o em escolas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>P.L.<\/strong>: Uma professora escreveu um livro que se chama Presente[1], que mostra muito bem que os professores devem estar presentes na escola ou ter habilidade nas respostas para efetivamente conseguir transmitir um saber. O professor deveria ser capaz de transmitir sua disciplina da melhor maneira, encarnando-a, demonstrando como ele sabe saber-fazer com isso, pois se h\u00e1 algo que mudou em nossa civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 o fato de certas crian\u00e7as e adolescentes estarem diretamente conectados ao mundo virtual, atrav\u00e9s do Google, e, assim, podem ter acesso a conhecimentos que, no meu modo de ver, n\u00e3o s\u00e3o obrigatoriamente um saber. Para que o saber possa existir para os jovens, \u00e9 preciso ser transmitido por um adulto. \u00c9 o que se espera dos professores e, mesmo, de um pai ou de algu\u00e9m que cuida de uma crian\u00e7a. Ou seja, n\u00e3o se trata de receber um saber desencarnado, que se arquive em meio a uma s\u00e9rie de conhecimentos. Para que um saber possa ser transmitido, o adulto, o professor, deve conseguir demonstrar como o saber transformou sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. Essa \u00e9 a verdadeira fun\u00e7\u00e3o da transmiss\u00e3o. Os alunos s\u00e3o muito sens\u00edveis a duas dimens\u00f5es essenciais nos professores \u2013 o olhar e a voz \u2013. No entanto, \u00e9 na maneira pela qual o professor d\u00e1 vida \u00e0 transmiss\u00e3o que o que ele ensina pode se elevar \u00e0 dignidade de um saber.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Virginia Carvalho: Freud indica a \u201cconstru\u00e7\u00e3o\u201d como uma estrat\u00e9gia para lidarmos com o que a palavra \u00e9 incapaz de dizer. A prop\u00f3sito, ele evoca o trabalho do arque\u00f3logo, que precisa reconstruir culturas e sociedades antigas unindo os vest\u00edgios materiais que encontra. Ou seja, diante de pe\u00e7as soltas, inventa uma coer\u00eancia para que constituam um todo. No CIEN Minas estamos trabalhando esse tema das \u201cconstru\u00e7\u00f5es adolescentes\u201d. Voc\u00ea poderia nos dizer algo sobre as constru\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas que tem acompanhado no CIEN na Fran\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p><strong>P.L.<\/strong>: Sim, h\u00e1 uma frase de Freud, em O nascimento da psican\u00e1lise, que permite esclarecer essa quest\u00e3o: ele diz que todo excesso de sensa\u00e7\u00e3o impede a tradu\u00e7\u00e3o em imagem verbal. Todo excesso de sensa\u00e7\u00e3o in\u00e9dita, de gozo que muitos adolescentes vivem, os impede de traduzir, de construir com palavras \u2013 pois o que Freud chama de imagens verbais s\u00e3o os significantes \u2013, os impede de construir algo na l\u00edngua do senso comum \u2013 l\u00edngua dos adultos \u2013, que eles rejeitam. No fundo, esse \u00e9 o problema dos adolescentes: eles querem se fazer escutar em suas constru\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o feitas seja a partir do que resta da sua inf\u00e2ncia, seja a partir do que eles vivem. E \u00e9 por isso que se veem surgir, no momento da adolesc\u00eancia, muitas constru\u00e7\u00f5es \u2013 como eu mesmo vi, nos laborat\u00f3rios do CIEN, no in\u00edcio, quando me interessei pelos textos dos cantores de rap e do hip hop \u2013 que retomam o resto das civiliza\u00e7\u00f5es de seus pais. Como a teoria dos Griottes[1], tradi\u00e7\u00e3o rejeitada pela gera\u00e7\u00e3o que se mudou para a Fran\u00e7a para viver em uma civiliza\u00e7\u00e3o onde n\u00e3o se podia mais viver como vivia nos campos: os jovens dessa gera\u00e7\u00e3o tiveram a ideia de utilizar esse resto de civiliza\u00e7\u00e3o para elev\u00e1-lo \u00e0 uma dignidade da modernidade, introduzir isso em uma m\u00fasica e retomar os movimentos corporais, que s\u00e3o muito mais livres na \u00c1frica do Norte. V\u00ea-se muito bem como, com isso, conseguiram construir um tipo novo de linguagem, muito ligada ao corpo e ao manejo do gozo. \u00c9 preciso notar que tudo isso poderia muito bem ser tomado como algo do senso comum, da l\u00edngua cl\u00e1ssica, que os adolescentes rejeitam. Por isso, \u00e9 preciso dizer sim aos que apresentam como constru\u00e7\u00e3o, para n\u00e3o deix\u00e1-los isolados, sozinhos. Por isso me interessei pelo texto de suas m\u00fasicas, para demonstrar que, nesses textos, os adolescentes retomavam quest\u00f5es fundamentais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A.L.S.: Voc\u00ea est\u00e1 em Belo Horizonte a convite do 1\u00ba Col\u00f3quio Internacional OCA, promovido pela UFMG e pelo IPSM-MG, cuja proposta foi a de discutir o tema Mais al\u00e9m do g\u00eanero: o corpo adolescente e seus sintomas. A seu ver, qual foi o ponto mais candente desse debate? Voc\u00ea acredita que o tema da sexua\u00e7\u00e3o \u00e9 apropriado para uma abordagem nos laborat\u00f3rios do CIEN?<\/strong><\/p>\n<p><strong>P.L.<\/strong>: Assisti a um col\u00f3quio formid\u00e1vel! E devo confessar que a discuss\u00e3o dos casos cl\u00ednicos, no primeiro dia, me deixou preocupado e um tanto angustiado com a constata\u00e7\u00e3o de que, hoje, n\u00e3o precisamos mais ficar aprisionados no nosso pr\u00f3prio corpo, podemos trocar de sexo, trocar de g\u00eanero. De fato, \u00e9 inquietante ver como uma crian\u00e7a pode querer modificar seu sexo, desde muito cedo. A pergunta que devemos nos fazer: como acompanhar esses casos? Deixamos as crian\u00e7as, os adolescentes, e, mesmo, alguns pais responderem t\u00e3o prontamente a essas modifica\u00e7\u00f5es corporais e de sexo? Por isso acho muito importante poder trabalhar essas quest\u00f5es nos laborat\u00f3rios do CIEN e nos n\u00facleos do IPSM-MG, pois talvez seja preciso se dar conta de que, nessas demandas, pode haver sujeitos que sofrem de uma experi\u00eancia de vida que designamos psicose, em que, em nome de uma certeza, pode-se acreditar que a simples mudan\u00e7a de sexo resolveria todos os problemas. Por esse motivo, considero tamb\u00e9m importante, como foi feito no Col\u00f3quio, voltar a Freud, retomar seu texto As metamorfoses da puberdade, em que se encontra uma diferencia\u00e7\u00e3o precisa entre sexo e sexualidade. Para Freud, a sexualidade n\u00e3o se reduz ao sexo. H\u00e1 uma sexualidade que pode passar por objetos pulsionais, como o olhar e o objeto voz, que faz com que sensa\u00e7\u00f5es de gozo se articulem a esses objetos pulsionais e n\u00e3o obrigatoriamente passem pelo \u00f3rg\u00e3o sexual. \u00c9 importante tamb\u00e9m diferenciar as respostas, como faz Lacan em sua releitura de Freud, ao destacar que, mesmo para uma crian\u00e7a que se situa na l\u00f3gica f\u00e1lica, no momento em que ela se depara com a quest\u00e3o do seu sexo \u2013 como ocorreu com o pequeno Hans \u2013, ela pode viver a ere\u00e7\u00e3o de seu p\u00eanis como um gozo estrangeiro, que chegaria at\u00e9 mesmo a persegui-lo. E sob o pretexto se livrar-se desse elemento estrangeiro que vive em seu corpo, pode acreditar que a supress\u00e3o de seu p\u00eanis resolveria a quest\u00e3o. N\u00e3o sou especialista, mas recomendo a leitura dos textos apresentados no Col\u00f3quio OCA e tamb\u00e9m da colet\u00e2nea organizada por Fabian Fajwacks: Subvers\u00e3o lacaniana das teorias do g\u00eanero, em que se encontram oito textos sobre essa quest\u00e3o. E como bem disse Fran\u00e7ois Ansermet durante o X Congresso da AMP, no Rio (abril\/16), entraremos em uma \u00e9poca em que a crian\u00e7a poder\u00e1 exigir o direito de n\u00e3o mais se enclausurar no corpo que recebeu como menino ou menina, e corremos o risco de chegarmos muito longe com essa quest\u00e3o. E \u00e9 isso que me inquieta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>L.F.: O encontro da crian\u00e7a e do adolescente com um gozo estrangeiro, estranho, \u00e9 retomado por voc\u00ea em v\u00e1rios momentos dessa nossa conversa, at\u00e9 a prop\u00f3sito do jovem magrebino, na Fran\u00e7a. Qual a abordagem da psicanalise para isso, que \u00e9 da ordem do estrangeiro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>P.L.<\/strong>: No fundo, a psican\u00e1lise \u00e9 uma experi\u00eancia de palavra, que ajuda o sujeito a traduzir o que ele experimenta como estrangeiro, em seu interior, ou fora dele, mesmo sem conhecer a significa\u00e7\u00e3o do fato. O que n\u00e3o quer dizer que o analista dar\u00e1 a sua pr\u00f3pria significa\u00e7\u00e3o. O analista pode permitir o sujeito traduzir melhor o que ele vive em seu corpo. Entretanto, sempre haver\u00e1 um resto, uma opacidade sobre as quest\u00f5es do sexo, do corpo, porque a vida \u00e9 assim, n\u00e3o se pode traduzir tudo para a linguagem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A.L.S.: Em Bordeaux conversamos sobre a ampla literatura publicada atualmente sobre o Estado isl\u00e2mico, e voc\u00ea mencionou seu trabalho com profissionais que estiveram em contato com jovens franceses envolvidos com a causa ideal do E. I., tamb\u00e9m designada A armadilha Daech, para utilizar o t\u00edtulo do livro recente de Pierre-Jean Luizard[2]. Voc\u00ea poderia falar para o Almanaque sobre sua experi\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>P.L.<\/strong>: Sim. Nos bairros da periferia de Paris fui contatado pela respons\u00e1vel do \u201cconselho tutelar\u201d da inf\u00e2ncia, que conhecia os trabalhos que realizei em uma escola de Bobigny. Juntamente com uma ju\u00edza da inf\u00e2ncia de um tribunal, tamb\u00e9m de Bobigny, propuseram-me supervisionar um grupo de psic\u00f3logos cuja interven\u00e7\u00e3o consistia em escutar jovens franceses que estavam se radicalizando e partindo para a S\u00edria. Ela me falou de um grupo de 35 jovens parisienses que teriam partido e n\u00e3o retornaram: foram assassinados na S\u00edria. Na Fran\u00e7a, atualmente, h\u00e1 algo muito preocupante que corresponde \u00e0 crise da adolesc\u00eancia. De minha parte, prefiro falar da crise da l\u00edngua articulada ao Outro, pois o Estado isl\u00e2mico, Daesh, compreendeu que era preciso oferecer ao jovem um discurso que eles pudessem articular. \u00c9 muito simples o que prop\u00f5em. Dizem-lhes, por exemplo: \u201cDesconfie de seus pais, eles n\u00e3o te dizem a verdade\u201d. Assim, prop\u00f5em uma certa verdade. Efetivamente, na adolesc\u00eancia, o jovem deve se desembara\u00e7ar da autoridade dos pais, dos semblantes, e o Estado isl\u00e2mico chega dizendo-lhes: \u201cN\u00f3s lhes propomos a verdade\u201d. Por outro lado, fazem saber que, uma vez criado o Estado isl\u00e2mico, haver\u00e1 um caos \u2013 que corresponde \u00e0 puls\u00e3o de morte \u2013, e \u00e9 a partir desse caos que poder\u00e1 surgir o profeta \u2013 o Midas \u2013. \u201cE, se voc\u00ea se juntar a n\u00f3s, poder\u00e1, voc\u00ea mesmo, se tornar esse profeta\u201d. Os jovens tem ent\u00e3o a impress\u00e3o de que, se deixarem o discurso dos semblantes dos pais, porque eles n\u00e3o dizem a verdade \u2013 \u00e9 a teoria do compl\u00f4, muito presente na Fran\u00e7a atualmente, h\u00e1 um compl\u00f4 organizado \u2013, e se largarem tudo isso pelo discurso jihadista, encontrar\u00e3o a verdade e poder\u00e3o encarnar esse profeta que surgir\u00e1. \u00c9 por isso que funciona! Quando \u00e9ramos adolescentes, o importante era ir para \u00cdndia, ou para Catmandu. Era a \u00e9poca dos hippies. Pens\u00e1vamos que a verdadeira vida estaria l\u00e1, onde, ent\u00e3o, estar\u00edamos diretamente conectados\u2026 com\u2026<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/81-600x135-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"135\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-822\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/81-600x135-1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"135\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/81-600x135-1.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/81-600x135-1-300x68.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<h6><strong>GIULIA PUNTEL<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Transcri\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o : Renato Sariedinne<\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o : Ana Lydia Santiago<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>[1] Personagens na \u00c1frica do Norte que transmitiam oralmente a velha tradi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica.<\/h6>\n<h6>[1] LACAN, J. De uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.<\/h6>\n<h6>[2] Le pi\u00e8ge Daech. Paris: D\u00e9couverte, 2015.<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PHILLIPE LACAD\u00c9E &nbsp; PHILLIPE LACAD\u00c9E &nbsp; Ana Lydia Santiago: Jacques-Alain Miller, em seu texto \u201cEm dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia\u201d, apresenta a sua an\u00e1lise da demanda incondicional de respeito dos adolescentes: \u201cEu quero ser respeitado\u201d. Segundo sua tese, o que especifica essa demanda \u00e9 o fato de n\u00e3o ser articulada ao Outro. 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