{"id":825,"date":"2015-07-17T06:56:21","date_gmt":"2015-07-17T09:56:21","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=825"},"modified":"2015-07-17T06:56:21","modified_gmt":"2015-07-17T09:56:21","slug":"almanaque-on-line-entrevista-maria-isabel-m-de-almeida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2015\/07\/17\/almanaque-on-line-entrevista-maria-isabel-m-de-almeida\/","title":{"rendered":"Almanaque On-Line Entrevista &#8211; MARIA ISABEL M. DE ALMEIDA"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>MARIA ISABEL M. DE ALMEIDA<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/71.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"886\" data-large_image_height=\"440\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-826\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/71.jpg\" alt=\"\" width=\"886\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/71.jpg 886w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/71-300x149.jpg 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/71-768x381.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 886px) 100vw, 886px\" \/><\/a><strong>GIULIA PUNTEL<\/strong><\/h6>\n<p><strong>Habitar o trajeto: o paradoxo do nomadismo<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: Poderia nos falar um pouco sobre os seus \u00faltimos trabalhos?\u00a0<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/7.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"391\" data-large_image_height=\"528\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-827\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/7.jpg\" alt=\"\" width=\"391\" height=\"528\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/7.jpg 391w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/7-222x300.jpg 222w\" sizes=\"auto, (max-width: 391px) 100vw, 391px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p><strong>Maria Isabel<\/strong>: Conclu\u00edmos uma pesquisa com jovens que se chama \u201cPaisagens existenciais e alquimias pragm\u00e1ticas: uma reflex\u00e3o comparativa do recurso \u00e0s drogas no contexto da contracultura e nas cenas eletr\u00f4nicas contempor\u00e2neas\u201d, que foi uma pesquisa que n\u00f3s fizemos aqui no nosso centro de pesquisas (Cesap) na Universidade Candido Mendes, durante quatro anos, trabalhando essa articula\u00e7\u00e3o entre cenas eletr\u00f4nicas e subst\u00e2ncias sint\u00e9ticas. E, para isso, frequentamos as raves. Em especial, pesquisamos a rela\u00e7\u00e3o entre a m\u00fasica eletr\u00f4nica e o uso do ecstasy. Tamb\u00e9m fizemos, no \u00e2mbito dessa mesma pesquisa, Fernanda Eug\u00eanio[i] e eu, outro trabalho sobre essa quest\u00e3o das drogas. Ou seja, n\u00f3s revisitamos um grupo especifico, que nos anos 70 foi entrevistado por Gilberto Velho e deu origem a seu livro Nobres &amp; Anjos: um estudo de t\u00f3xicos e hierarquia[ii]. Essas pessoas tinham, na \u00e9poca, uns trinta anos, e n\u00f3s voltamos a entrevist\u00e1-las, agora em 2000, quando elas t\u00eam por volta de sessenta, sessenta e poucos anos. Quer\u00edamos saber a rela\u00e7\u00e3o delas, no passado, com as drogas, para compararmos com a juventude de hoje.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: Na \u00e9poca consumia-se o que?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria Isabel<\/strong>: Na \u00e9poca eles consumiam, sobretudo, coca\u00edna e maconha e realizavam as viagens lis\u00e9rgicas, faziam uso de \u00e1cido. Em seguida, fizemos a pesquisa que deu origem ao livro Noites N\u00f4mades[iii]. Est\u00e1vamos perseguindo essa ideia da rela\u00e7\u00e3o entre subjetividade e espa\u00e7o, o subt\u00edtulo \u00e9 justamente \u201cespa\u00e7os e subjetividades nas culturas jovens contempor\u00e2neas\u201d. Todas as nossas pesquisas s\u00e3o atravessadas por essa ideia da etnografia, quer dizer, de estar l\u00e1, de acompanhar, de n\u00e3o se restringir a entrevistas, mas viver com eles aquela situa\u00e7\u00e3o. Na \u00e9poca das drogas foi uma loucura, porque eu trocava a noite pelo dia, eu chegava nas festas por volta de meia-noite mais ou menos e sa\u00eda no dia seguinte por volta das 11 da manh\u00e3, ficando acordada o tempo todo. No caso do Noites N\u00f4mades, tinha que acompanhar os circuitos pela night. A pesquisa come\u00e7ava na loja de conveni\u00eancia e depois se dirigia para os espa\u00e7os de lazer, para as boates. Aquele era um momento em que a tecnologia estava come\u00e7ando com muita for\u00e7a, ent\u00e3o havia toda uma capacidade deles usarem, lan\u00e7arem m\u00e3o da tecnologia para mudarem de espa\u00e7o o tempo todo. Com o celular como fonte b\u00e1sica dessa tecnologia, eles ligavam para as galeras de outros bairros perguntando se as coisas l\u00e1 estavam \u201cbombando\u201d. Tinham essa capacidade de esvaziar os espa\u00e7os em segundos e tamb\u00e9m de ressemantizar o sentido dos espa\u00e7os. Por exemplo, a porta, al\u00e9m de ser um lugar que une o dentro ao fora, tamb\u00e9m se torna um \u201cpoint\u201d onde eles ficavam e ali estabeleciam toda uma rede de sociabilidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: Um ponto de passagem?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria Isabel<\/strong>: Al\u00e9m da passagem, um lugar onde eles se fincavam, onde eles se estabeleciam, n\u00e3o entravam, nem sa\u00edam, e ali virava um \u201cpoint\u201d de sociabilidade. As portas como espa\u00e7os muito mais de fixa\u00e7\u00e3o, quer dizer, toda uma capacidade de deslocamento e um tempo de transformar o deslocamento numa esp\u00e9cie de resid\u00eancia, isto \u00e9, eles habitam o trajeto. Esse habitar o trajeto tamb\u00e9m se reflete nas pr\u00e1ticas afetivas, no \u201cficar\u201d, por exemplo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: Em seu livro Noites N\u00f4mades, voc\u00ea apresenta esse paradoxo a partir de uma frase que nos interessou muito: \u201co nomadismo n\u00e3o se contrap\u00f5e \u00e0 territorialidade\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>Maria Isabel: \u00c9 uma ideia de Deleuze, para quem o n\u00f4made \u00e9 aquele que n\u00e3o se desloca, ao contr\u00e1rio, est\u00e1 sempre habitando o trajeto, se reterritorializando na desterritorializa\u00e7\u00e3o, quer dizer, ele se reterritorializa na desterritorializa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, no fundo, o n\u00f4made, paradoxalmente, \u00e9 aquele que n\u00e3o se mexe.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: Voc\u00ea pensa que podemos dizer que existe essa mesma esp\u00e9cie de nomadismo na escolha sexual? Temos visto muitos jovens que afirmam que gostam de ficar tanto com meninos quanto com meninas.<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/images\/almanaque-anteriores\/almanaque-17\/7.jpg\"><strong>Maria Isabel<\/strong><\/a>: Temos sim rela\u00e7\u00f5es mais l\u00e1beis e mais pl\u00e1sticas, mais no campo das meninas do que dos meninos. No campo das meninas, onde havia um lacre muito menor em rela\u00e7\u00e3o ao \u201csou gay\u201d e muito maior em \u201cestou gay\u201d, o \u201cestou\u201d est\u00e1 no lugar do \u201csou\u201d. No caso dos meninos, talvez at\u00e9 por conta da sociedade brasileira, havia uma ideia de uma cristaliza\u00e7\u00e3o maior. Pela quest\u00e3o do machismo, para o menino que \u00e9 gay voltar \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de hetero \u00e9 sempre uma coisa mais dif\u00edcil, no sentido de como ele \u00e9 pensado e agido no seu grupo. Com as meninas percebo uma capacidade, uma suavidade, maior nesse traslado, nessa mudan\u00e7a. No caso deles, percebemos menos. No sentido da subjetividade, acho que tudo converge para uma diminui\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o entit\u00e1ria do ser, do ente. Temos uma significativa rarefa\u00e7\u00e3o da ideia de unidade, da identidade una, indivis\u00edvel, substancial, encapsulada, mas, ao contr\u00e1rio, temos uma porosidade muito maior. N\u00e3o temos mais como carimbar a identidade \u201ceu dan\u00e7arina de tango\u201d, \u201ceu professora de matem\u00e1tica\u201d, ou \u201ceu gay\u201d. Gay \u00e9 uma das facetas que constituem o que eu sou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: A partir dessa labilidade nas rela\u00e7\u00f5es e nos espa\u00e7os que voc\u00ea destaca, como podemos pensar a rela\u00e7\u00e3o entre depend\u00eancia e autonomia que tamb\u00e9m encontramos nos jovens de hoje?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria Isabel<\/strong>: Os jovens s\u00e3o muito aut\u00f4nomos e n\u00e3o independentes, ou seja, isso caracteriza uma fronteira, um divisor de \u00e1guas muito grande em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 gera\u00e7\u00e3o jovem contracultural, ou \u00e0 gera\u00e7\u00e3o que foi jovem nos anos 70, para a qual essa ideia de autonomia s\u00f3 era poss\u00edvel \u2013 at\u00e9 por uma quest\u00e3o de \u00eanfase muito maior na ideologia, na vis\u00e3o de mundo que informava aqueles valores \u2013, s\u00f3 se daria inevitavelmente, com a conquista da independ\u00eancia. Hoje voc\u00ea v\u00ea jovens absolutamente aut\u00f4nomos, donos das suas vidas, conhecendo tudo, dominando a tecnologia, at\u00e9 ensinando aos pais sobre esse mundo da tecnologia e, ao mesmo tempo, absolutamente retidos, sedentarizados, presos \u00e0 quest\u00e3o financeira, numa total depend\u00eancia. Ent\u00e3o, hoje, esses dois aspectos podem ser combinados. Se voc\u00ea pensar em cinquenta anos atr\u00e1s, n\u00e3o seria poss\u00edvel de se combinar, porque voc\u00ea s\u00f3 teria o estatuto de autonomia se fosse independente, se sa\u00edsse de casa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Uso das drogas: ruptura ou empres\u00e1rios de si mesmo?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: A rela\u00e7\u00e3o dos jovens com as drogas tamb\u00e9m mudou, desde os anos 70?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria Isabel<\/strong>: Essa diferen\u00e7a entre as gera\u00e7\u00f5es aparece muito clara no uso das drogas. \u00c9 uma porta de entrada para entender a subjetividade, o contraste entre a gera\u00e7\u00e3o que consumiu drogas nos anos 70, uma gera\u00e7\u00e3o para quem a droga gerava um emburacamento definitivo. As pessoas muitas vezes tinham que parar de trabalhar, n\u00e3o conseguiam mais estudar \u2013 era um pouco aquela ideia da viagem sem volta, o tipo de vis\u00e3o escapista do mundo. Na pesquisa em que fizemos, v\u00e1rios entrevistados diziam ouvir o choro do filho e que era desesperador, porque eles n\u00e3o podiam fazer nada. Isso revela um n\u00edtido contraste com a gera\u00e7\u00e3o dos anos 2000 que consumiu drogas, mas numa perspectiva de continuidade da vida e n\u00e3o de ruptura, do n\u00e3o emburacamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria Isabel<\/strong>: Porque eles, como disse um informante, de quem at\u00e9 hoje me lembro, numa rave, l\u00e1 em Pedra de Guaratiba: \u201cAh! Olha, isso aqui que voc\u00eas est\u00e3o vendo, essa rave, a diferen\u00e7a disso aqui para Woodstock \u00e9 que na segunda-feira eu tenho que estar l\u00e1 engomadinho no trabalho\u201d. Ou seja, ele tem que manter as duas frentes. Ent\u00e3o eles t\u00eam uma expertise imensa de como tomar a droga, como contracenar e dosar com a quantidade de \u00e1gua, como fazer a rela\u00e7\u00e3o entre a c\u00e1psula do ecstasy e seu peso. Eles s\u00e3o pequenos empres\u00e1rios de si, possuem uma facilidade de administrar a conduta. \u00c9 claro que muitas vezes acontece de baixar no hospital, mas possuem um padr\u00e3o mais regular de conduta, que \u00e9 contr\u00e1rio ao da gera\u00e7\u00e3o dos anos 70, cujo consumo de drogas tinha um prazo de validade. Essa gera\u00e7\u00e3o atual, na manh\u00e3 de segunda-feira deve estar na faculdade, por isso n\u00e3o vai tomar a dose maior do ecstasy no domingo, vai tomar no s\u00e1bado. Domingo eles v\u00e3o precisar dormir bastante e n\u00e3o v\u00e3o deixar de se hidratar. \u00c9 muito diferente. \u00c9 o grande divisor de \u00e1guas entre o escape, o evadir-se, o sair daquela realidade. E hoje, a droga da presen\u00e7a, da \u201cvoc\u00ea est\u00e1 ali como jamais esteve\u201d, como nos disse um desses jovens, \u00e9 a droga que presentifica inteiramente a realidade do sujeito. Nessa hora eles n\u00e3o est\u00e3o se evadindo de nada, nem embarcando em uma viagem sem volta, nem se opondo \u00e0 realidade. Inclusive, essa dimens\u00e3o de oposi\u00e7\u00e3o, de antagonismo, \u00e9 muito mais branda do que a ideia genu\u00edna da oposi\u00e7\u00e3o que caracteriza o sentido de resist\u00eancia predominante nos anos 70.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: Pode-se perceber tal mudan\u00e7a tamb\u00e9m no que diz respeito ao envolvimento pol\u00edtico dos jovens hoje? \u00c9 menos revolucion\u00e1rio? Mais adaptado?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria Isabel<\/strong>: Ah, sim, com certeza. A categoria do desafio, da resist\u00eancia, da oposi\u00e7\u00e3o, se abrandou muito, porque a ideia de negocia\u00e7\u00e3o e de composi\u00e7\u00e3o com determinadas realidades \u00e9 muito mais norteadora da subjetividade desses jovens. Por exemplo, nas realidades ligadas hoje \u00e0 sustentabilidade, \u00e0 ecologia, eles n\u00e3o pensam em parar de consumir, mas v\u00e3o consumir menos, com mais no\u00e7\u00e3o, com mais regramento, sabendo o que v\u00e3o consumir. \u00c9 uma ideia muito pr\u00f3xima \u00e0 ideia de resili\u00eancia, e n\u00e3o da resist\u00eancia. Tudo \u00e9 muito mais composto, adaptado, negociado. N\u00e3o \u00e9 mais a ideia de se tomar um caminho ou outro, s\u00e3o caminhos mais associados, adicionados, do que essa perspectiva matricial da contracultura, que \u00e9: ou voc\u00ea realmente \u00e9 parceiro da luta armada ou voc\u00ea \u00e9 um mauricinho preocupado em ganhar dinheiro, jogar na bolsa e, no final do m\u00eas, s\u00f3 pensar em mercado de capitais. Acho que isso a\u00ed realmente alterou muito as mentalidades. Um caminho como esse, como a luta armada, implicava a absoluta exclus\u00e3o de todos os outros, e acho que hoje esse jovem j\u00e1 tem toda uma capacidade de compor v\u00e1rias trajet\u00f3rias, sem que elas impliquem em contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u201cVer a escolha com olhos menos cativos\u201d<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: Ent\u00e3o, como enxergar a realidade dos jovens hoje com novas lentes em rela\u00e7\u00e3o e essa dimens\u00e3o da escolha?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria Isabel<\/strong>: \u00c9 preciso n\u00e3o ver a escolha desse imagin\u00e1rio dos anos 60 com olhos ainda muito cativos, ou seja, enxergar a realidade sem essa contamina\u00e7\u00e3o. Para enxergar a realidade atual desses jovens, precisamos nos desfazer desses mapas que orientaram a nossa gera\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o a gente realmente n\u00e3o v\u00ea. Tem muitos autores que encaram o contempor\u00e2neo muito pelas lentes de uma esp\u00e9cie de nostalgia do que foi o ideal, os anos 60. A pr\u00f3pria ideia do indiv\u00edduo em si, como ente, \u00e9 uma coisa que hoje se desfaz. A gente v\u00ea inclusive essa ideia do \u201cestou\u201d versus o \u201cser\u201d, do \u201cestar\u201d versus o \u201cser\u201d, que imprime uma marca muito maior na arquitetura subjetiva hoje. Acho que \u00e9 uma problematiza\u00e7\u00e3o mais rarefeita, mais simplificada. N\u00e3o h\u00e1 um excesso de problematiza\u00e7\u00e3o e reflexividade sobre si, sobre os destinos. No lugar de uma carga narrativa, descritiva, temos uma esp\u00e9cie de comunica\u00e7\u00e3o f\u00e1tica, apenas algo que nos une ali naquele momento, que nos sutura. Uma interjei\u00e7\u00e3o ou outra, mas que n\u00e3o \u00e9 realmente aquilo que a gente entenderia como a forma\u00e7\u00e3o mesmo de uma comunica\u00e7\u00e3o baseada na ideia de uma categoria discursiva, tal qual era recorrente d\u00e9cadas atr\u00e1s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: Hoje, no congresso da AMP, Viveiros de Castro nos contou que, se desejarmos nos aproximar de uma tribo ind\u00edgena para aprendermos sua l\u00edngua, ap\u00f3s um per\u00edodo inicial, os \u00edndios v\u00e3o recomendar que comamos a comida deles. Mais tr\u00eas meses, e eles dir\u00e3o: \u201ccomam nossas mulheres\u201d. Ainda assim, tr\u00eas meses depois, recomendar\u00e3o o uso de suas drogas. \u00c9 como se eles dissessem que n\u00e3o se pode aprender a l\u00edngua sem colocar o corpo em cena. Para aprender a l\u00edngua, a observa\u00e7\u00e3o \u00e9 insuficiente, \u00e9 preciso ser \u201cum dos nossos\u201d, entrar com o corpo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria Isabel<\/strong>: \u00c9! E por isso um pouco essa ideia de um trabalho de pesquisa em antropologia, muito menos cativo do que essa ideia de voc\u00ea ir l\u00e1 e entrevistar, pra depois dizer para o jovem quem ele \u00e9. Quem \u00e9 voc\u00ea pra dizer a ele quem ele \u00e9 ou explicar o que ele faz?! A gente tenta uma imers\u00e3o muito maior na dimens\u00e3o relacional daquele contato, realmente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: Como foi realizada a pesquisa em festas raves? O que estava em jogo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria Isabel<\/strong>: Era uma pesquisa de campo, uma etnografia. Eu n\u00e3o ia entrevistar esses jovens nas suas casas, queria entrevist\u00e1-los em ato. Queria v\u00ea-los consumindo drogas, v\u00ea-los em estado ou n\u00e3o de mobiliza\u00e7\u00e3o pelas drogas, v\u00ea-los dan\u00e7ando com a m\u00fasica. Nesse sentido pude ver, por exemplo, muitos que prescindiam da droga para dan\u00e7ar ou at\u00e9 para entrar em suposto \u00eaxtase, como eles diziam. A m\u00fasica em si j\u00e1 atuava nesse sentido. Outros tomavam a droga mas faziam v\u00e1rios desenhos perform\u00e1ticos com o corpo. Um grupo fazia uma dan\u00e7a que era chamada \u201calm\u00f4ndegas\u201d, um tipo de exerc\u00edcio em que todos ficavam em c\u00edrculo, de bra\u00e7os dados, e faziam movimentos quase que de s\u00edstoles e di\u00e1stoles; se recolhiam todos e, depois, se abriam, como se fosse uma flor que fechava e abria. Depois eles dormiam muito. Tinha o momento que eles chamavam de \u201cchill out\u201d[iv], para descansar at\u00e9 a hora de ver um DJ espec\u00edfico que eles queriam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Um novo ritmo: ovos com bacon<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: Atualmente qual pesquisa voc\u00ea est\u00e1 fazendo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria Isabel<\/strong>: A \u00faltima foi sobre a quest\u00e3o da criatividade, da primeira experi\u00eancia profissional. Trabalhei com dois grandes grupos de jovens, jovens ligados a grupos basicamente de profiss\u00f5es mais executivas e empresariais, e jovens mais ligados ao lado l\u00fadico, art\u00edstico: jovens que trabalhavam com arte, com cinema, com literatura. Percebe-se uma nova maneira de trabalhar desses jovens. N\u00e3o existem mais fronteiras muito n\u00edtidas entre dia de semana e fim de semana, entre dia e noite, entre casa e trabalho. Percebe-se um movimento de contamina\u00e7\u00e3o rec\u00edproca muito grande, um profundo entrecruzamento de criatividade e profissionaliza\u00e7\u00e3o, ou seja, a ideia de profissionaliza\u00e7\u00e3o da criatividade e criativiza\u00e7\u00e3o da profiss\u00e3o. Ou seja, os jovens cuja op\u00e7\u00e3o profissional se alocava nos universos mais hard, mais duros, ligados ao mercado, aos bancos, \u00e0s profiss\u00f5es executivas, tinham que, efetivamente, ser criativos para funcionarem bem, e os outros, os artistas, tinham que se profissionalizar. Uma irriga\u00e7\u00e3o m\u00fatua dos dois territ\u00f3rios. Interessante que vimos que a colabora\u00e7\u00e3o e o compartilhamento s\u00e3o circunst\u00e2ncias muito mais fortes entre os jovens ligados a profiss\u00f5es executivas do que entre os artistas que ficam muito mais subservientes ao n\u00facleo do autor, a quem \u00e9 o autor. Por exemplo, os jovens que trabalham nas incubadoras cient\u00edficas, as incubadoras de projetos, s\u00e3o muito mais capazes de descentralizar a autoria. Nos jovens do mundo art\u00edstico, a gente percebeu muito mais um atrelamento \u00e0 coisa de \u201cquem deu a ideia\u201d, \u201cquem \u00e9 o autor\u201d, \u201c\u00e9 minha e ningu\u00e9m tasca\u201d, ao eu, \u201cfui eu que bolei isso\u201d, \u201ceu que inventei\u201d. Sendo que a pr\u00f3pria inven\u00e7\u00e3o hoje \u00e9 uma coisa cada vez mais remota, porque tudo na sociedade contribui para algo ser criado. N\u00e3o existe mais essa capacidade ass\u00e9ptica de dizer \u201caquilo foi exclusivamente feito ou pensado por mim\u201d, o tempo todo a tecnologia te atravessa. Essa pesquisa est\u00e1 no livro que coordenei junto com um grande especialista da juventude em Portugal, Jos\u00e9 Machado Pais[v]. Fernanda Eug\u00eanio e eu escrevemos o artigo \u201cCriatividade situada, funcionamento consequente e orquestra\u00e7\u00e3o do tempo nas pr\u00e1ticas profissionais contempor\u00e2neas\u201d[vi], no qual apresentamos uma discuss\u00e3o sobre tempo e espa\u00e7o, essa coisa do estresse atual dos jovens, isso de eles procurarem uma equa\u00e7\u00e3o ideal entre o l\u00fadico e o trabalho. Uma jovem fala que ela est\u00e1 fazendo um doutorado em rela\u00e7\u00f5es internacionais, mas que era tamb\u00e9m DJ e poeta. Toda essa coisa tamb\u00e9m da multiplicidade, da gera\u00e7\u00e3o slash (\u201cbarra\u201d): Poeta\/videomaker\/bailarina\/pintora. Ela diz que em algumas circunst\u00e2ncias da vida, trabalhar \u00e9 como fazer ovos com bacon, porque tem vezes em que basta ser galinha, ou seja, a galinha p\u00f5e o ovo e pronto. Isso equivale a um tipo de trabalho mais suave, no qual voc\u00ea tem o controle do seu processo e do seu ritmo, mas tem outras horas em que voc\u00ea \u00e9 porco, tem que dar tudo de si, tem que entrar com tudo, como o porco, que entra com sua vida. Para fazer o bacon, ele tem que morrer. Isso demonstra como \u00e9 que eles orquestram e graduam suas vidas em termos do esfor\u00e7o que aplicam no trabalho. Tudo isso \u00e9 pensado, medido, muito diferente da ideia de \u201cvai com tudo\u201d, t\u00edpica da contracultura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: Mas n\u00e3o tem, por outro lado, um mandato superegoico sobre esses jovens, de que eles t\u00eam que ter sucesso, t\u00eam que dar certo, t\u00eam que ganhar dinheiro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria Isabel<\/strong>: Esse binarismo implac\u00e1vel entre o \u201cwinner\u201d e o \u201clooser\u201d tem sido muito repensado. Peter Sloterdijk, autor da sociologia, da filosofia, define a modernidade como um processo de mobiliza\u00e7\u00e3o infinita, quer dizer, do progresso, da produ\u00e7\u00e3o. Esse processo est\u00e1 ligado a uma rela\u00e7\u00e3o ininterrupta com o tempo, \u00e0 impossibilidade da \u201cparagem\u201d, um aceleracionismo permanente. Na linha contr\u00e1ria a essa da mobiliza\u00e7\u00e3o, temos o desmobilizar, ou seja, gerar intervalos, parar, tomar dist\u00e2ncia. N\u00f3s pesquisamos muito esses retiros de sil\u00eancio, que est\u00e3o agora no auge. Jovens que est\u00e3o optando por retiros de sil\u00eancio em \u00e1reas absolutamente reservadas ficam 10 dias inteiros em sil\u00eancio, fazem medita\u00e7\u00e3o e uma revis\u00e3o de tudo ligado ao consumo, ao excesso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: Qual a justificativa para esses retiros? O que os jovens procuram?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria Isabel<\/strong>: Muitos v\u00e3o pra organizar a vida, outros v\u00e3o pra dar uma parada, um outro diz que foi porque terminou com a namorada, ou porque foi a um carnaval muito intenso e pirou, precisava descansar. S\u00e3o muitas demandas, muito adaptadas aos cotidianos de cada um. O que se destaca \u00e9 essa ideia de baixar, de gerar um intervalo, de menorizar, de diminuir. A ideia de ganhar dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade. Estou preparando um livro sobre essa pesquisa das desmobiliza\u00e7\u00f5es \u2013 que n\u00e3o \u00e9 a aus\u00eancia de mobiliza\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 essa ideia de contraponto a uma mobiliza\u00e7\u00e3o infinita. Eu trabalhei muito com retiros, foi uma pesquisa muito ligada \u00e0 internet, sobre in\u00famero sites que eu coletei de jovens que est\u00e3o tentando produzir alguma coisa que seja uma contrapartida a essa ideia da acelera\u00e7\u00e3o, em todos os n\u00edveis. Tem milh\u00f5es de coisas. Tem o processo do homeschooling \u2013 essa ideia de voc\u00ea passar a ensinar ao seu filho em casa \u2013, o questionamento da ideia do ritmo tradicional do ensino, de certa maneira pouco humanizado e muito competitivo; tem a ideia das feiras, nas quais voc\u00ea basicamente troca coisas ou pode pegar coisas sem que haja veicula\u00e7\u00e3o pecuni\u00e1ria \u2013 mas isso n\u00e3o elimina por completo a ideia da troca; h\u00e1 tamb\u00e9m as pessoas que hoje conseguem trabalhar viajando e ter um prazer muito maior, porque trocam muitas vezes um local que seria um pago, como um hotel, pela capacidade de cuidar da casa de algu\u00e9m que viaja. Todas essas permutas, essas trocas. A comida, por exemplo, tem muitas experi\u00eancias\u2026 Em Portugal, uma dessas experi\u00eancias chama-se \u201cfruta feia\u201d. Frente \u00e0 desesperan\u00e7a de muita gente com a crise, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade, neste momento, eles t\u00eam milh\u00f5es de iniciativas, em geral de jovens. Essas frutas feias s\u00e3o aquelas que os estabelecimentos n\u00e3o querem, porque s\u00e3o imperfeitas, e ent\u00e3o s\u00e3o vendidas pela quinta parte do pre\u00e7o. Essas frutas s\u00e3o t\u00e3o boas quanto, s\u00f3 que t\u00eam defeitos. Vendem ent\u00e3o nas pra\u00e7as, e tem um sistema de cooperativa enorme sobre isso. H\u00e1 ainda a quest\u00e3o das compostagens, que s\u00e3o adubos feitos em casa. H\u00e1 tamb\u00e9m as buscas deliberadas de solid\u00e3o. N\u00e3o a solid\u00e3o como uma condi\u00e7\u00e3o que caiu sobre o indiv\u00edduo sem ele querer e ele est\u00e1 totalmente isolado, solit\u00e1rio, mas as solid\u00f5es deliberadas, n\u00e3o s\u00f3 do retiro de sil\u00eancio, mas as mudan\u00e7as para o campo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: De fato h\u00e1 uma diferen\u00e7a entre solid\u00e3o e isolamento, n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria Isabel<\/strong>: Exato, ou a solid\u00e3o acontecida versus a solid\u00e3o deliberada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Efeitos pol\u00edticos dos corpos trepidantes: trabalhar com o que se tem<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: Qual o efeito pol\u00edtico dessas pr\u00e1ticas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>aria Isabel<\/strong>: Eu acho que \u00e9 muito pol\u00edtico. Hoje, por exemplo, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cartilha e \u00e0 ideia do queer \u2013 acho que passa por a\u00ed realmente, at\u00e9 no sentido de que, n\u00e3o sei se chega a ser um r\u00f3tulo, mas \u00e9 um r\u00f3tulo do n\u00e3o r\u00f3tulo \u2013, nesse movimento voc\u00ea n\u00e3o consegue pegar e dizer: \u00e9 isso, \u00e9 trans, \u00e9 homo, \u00e9 gay, \u00e9 n\u00e3o sei o qu\u00ea. A coisa da Judith Butler e da Beatriz Preciado, as duas autoras que mais trabalham nessa linha. Ent\u00e3o eu acho que isso diminui a segrega\u00e7\u00e3o entre os jovens, sim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: Interessante que, diferente de outros autores, voc\u00ea n\u00e3o faz uma leitura pessimista desse momento dos jovens, ao contr\u00e1rio.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria Isabel<\/strong>: Ah, sim, completamente diferente de autores como Bauman, por exemplo, que realmente v\u00ea que tudo est\u00e1 l\u00edquido, nada fica em p\u00e9. Realmente, eu acho que s\u00e3o autores que est\u00e3o presos a certas circunst\u00e2ncias ideais que eles viveram e em rela\u00e7\u00e3o a qual tudo hoje parece fenecer ou est\u00e1 ruim, estragou. Uma coisa do p\u00e2nico moral, um Baudrillard, por exemplo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: Voc\u00ea acha que tem uma pot\u00eancia nesse novo? Tem uma inven\u00e7\u00e3o em cena?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria Isabel<\/strong>: Eu acho, com certeza. Isso \u00e9 outra coisa. Trabalhar com o que tem, como o \u201cse virar\u201d, n\u00e3o tem mais aquela coisa da carreira, \u201cum dia eu vou conseguir fazer alguma coisa\u201d, etc. Essa no\u00e7\u00e3o de escada, de degrau a degrau, at\u00e9 voc\u00ea chegar. Hoje essas coisas n\u00e3o podem, n\u00e3o est\u00e3o mais funcionando assim, s\u00e3o poucas as carreiras, a ideia de carreira. Eu fui num congresso, h\u00e1 pouco tempo, em Portugal, que era sobre essa quest\u00e3o do crep\u00fasculo, dessa ideia do especialista, daquele que vai de degrau a degrau numa escalada. Hoje voc\u00ea sente que a horizontaliza\u00e7\u00e3o e a capacidade de se virar e de trabalhar com o que est\u00e1 diante de si \u00e9 muito mais imperiosa do que essa ideia de esperar ou de galgar longas etapas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: E quando voc\u00ea fala jovens, qual faixa et\u00e1ria considera?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria Isabel<\/strong>: De 20 aos 40. Voc\u00ea n\u00e3o tem mais como se basear no IBGE, de 18 a 24 ou 25, porque realmente implodiu essa quest\u00e3o. At\u00e9 porque a juventude perde a sua ancoragem cronol\u00f3gica e vira um estado de esp\u00edrito. Todos querem ser jovens.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: Podemos dizer que o nomadismo acaba sendo uma ferramenta que pode ser utilizada para ler todas essas pr\u00e1ticas dos jovens?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria Isabel<\/strong>: Acho que \u00e9 uma categoria que ajuda, sim. Ajuda na medida em que ela se contrap\u00f5e realmente at\u00e9 a vis\u00e3o literal do sedent\u00e1rio, do fixado, do territorializado, e tamb\u00e9m da hierarquia, mas n\u00e3o \u00e9 um deslocamento do tipo dos n\u00e3o-lugares, do Marc Aug\u00e9. Eu acho que h\u00e1 uma ressemantiza\u00e7\u00e3o dos lugares, por exemplo, os \u201cpoints\u201d. Eles recriam e reconfiguram, na cidade, espa\u00e7os que, em geral, poderiam ser decodificados de uma forma fixa e tradicional, e que eles atribuem toda uma significa\u00e7\u00e3o desvinculada \u00e0s sociabilidades e aos tipos de agrega\u00e7\u00e3o do momento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: Ou seja, esses locais s\u00e3o locais libidinizados, com uma carga de afeto, como voc\u00ea sugeriu, enquanto Marc Aug\u00e9 trabalha espa\u00e7os sem identidade, como os aeroportos.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria Isabel<\/strong>: \u00c9, por exemplo, os postos de gasolina, que Aug\u00e9 tamb\u00e9m cita, \u00e9 o in\u00edcio do circuito da night jovem, lugar da primeira calibragem, inclusive alco\u00f3lica. Era ali que realmente come\u00e7ava o chamado comboio e implicava sempre em atribuir sentido, gra\u00e7a, humor ou divers\u00e3o a alguma coisa inerte, \u00e0 qual n\u00e3o havia sido atribu\u00eddo nenhum sentido, nenhuma significa\u00e7\u00e3o, e que dependia realmente da intera\u00e7\u00e3o entre eles. Por exemplo, transformar, de repente, o estacionamento de um hortifr\u00fati em um campo de futebol, \u00e0 meia-noite, ou ficar na escada de um pr\u00e9dio esperando outros amigos. Isso era o \u201czoar\u201d, que tem uma dimens\u00e3o de gratuidade, de transforma\u00e7\u00e3o e de ocasionalismo muito grande.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: E como voc\u00ea acha que a linguagem acompanha esse novo modo de se relacionar com o espa\u00e7o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria Isabel<\/strong>: A linguagem \u00e9 muito mais rarefeita do que a forma de comunica\u00e7\u00e3o tradicional. Hoje ela \u00e9 muito mais emp\u00edrica, sens\u00f3ria, perform\u00e1tica. Basta ver, por exemplo, a quest\u00e3o do corpo do jovem. Hoje o corpo \u00e9 muito mais trepidante, ou seja, agitado por todos esses apelos e ao mesmo tempo pela simultaneidade dos est\u00edmulos de telefone, de som, de barulho de celular, barulho de televis\u00e3o, computador. H\u00e1 uma aten\u00e7\u00e3o profundamente descentralizada e que n\u00e3o prejudica a aten\u00e7\u00e3o. Uma soci\u00f3loga argentina, Beatriz Sarlo[vii], diz que \u201cs\u00f3 a curta dura\u00e7\u00e3o ret\u00e9m a aten\u00e7\u00e3o\u201d. Um jovem hoje, com essa trepida\u00e7\u00e3o do corpo, \u00e9 muito dif\u00edcil de ser visto numa cadeira, mesmo que seja confort\u00e1vel, ou numa poltrona, por duas, tr\u00eas horas, lendo um livro s\u00f3. \u00c9 imposs\u00edvel, a mot\u00f3rica corporal dele n\u00e3o permite; \u00e9 uma agita\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma dispers\u00e3o, \u00e9 um outro corpo, realmente muito mais voltado para o oposto da met\u00e1fora da ampulheta, que vai de cima para baixo, acompanhando um movimento de verticaliza\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o. O que hoje se observa com mais frequ\u00eancia \u00e9 uma descentraliza\u00e7\u00e3o e um espraiamento muito maior da aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Almanaque: Interessante! Perguntamos sobre a linguagem, e voc\u00ea responde com o corpo. Nosso congresso \u00e9 sobre isso mesmo!<\/strong><\/p>\n<h6>Entrevista realizada em abril 2016, por Bruna Albuquerque e Ludmilla F\u00e9res Faria<\/h6>\n<h6>Transcri\u00e7\u00e3o e edi\u00e7\u00e3o: Bruna Albuquerque, Lisley Braun Toniolo<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>[i] Fernanda Eug\u00eanio \u2013 P\u00f3s doutora em antropologia e Pesquisadora Associada do Centro de Estudos Sociais Aplicados (CESAP-UCAM-IUPERJ, Rio de Janeiro). Fernanda Eug\u00eanio e Maria Isabel M. de Almeida. Paisagens existenciais e alquimias pragm\u00e1ticas : uma relfex\u00e3o comparativa do recusro \u00e0s \u2018drogas\u2019 no contexto da contracultura e nas cenas eletronicas contempor\u00e2neas. In: Por que n\u00e3o? Rupturas e continuidades da contracultura (Org. Maria Isabel M. Almeida e Santuza Cambraia Naves) . Rio de Janeiro: Editora 7 Letras.<\/h6>\n<h6>[ii] VELHO, G. Nobres &amp; Anjos: um estudo de t\u00f3xicos e hierarquia? Rio de Janeiro: Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas Editora, 1998.<\/h6>\n<h6>[iii] ALMEIDA, M. I. M.; TRACY, K. A. Noites N\u00f4mades. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2003.<\/h6>\n<h6>[iv] Chill out: termo da l\u00edngua inglesa que significa \u201crelaxar totalmente\u201d, \u201cesfriar\u201d. Usado pelos jovens para um momento de descanso, esfriar o corpo, relaxar.<\/h6>\n<h6>[v] Jos\u00e9 Machado Pais, cientista social e professor universit\u00e1rio portugu\u00eas. \u00c9 licenciado em Economia e doutorado em Sociologia, \u00e9 Investigador Coordenador do Instituto de Ci\u00eancias Sociais da Universidade de Lisboa e Professor Catedr\u00e1tico Convidado do ISCTE\/Instituto Universit\u00e1rio de Lisboa. Subdiretor do Instituto de Ci\u00eancias Sociais da Universidade de Lisboa e membro do Senado da Universidade de Lisboa.<\/h6>\n<h6>[vi] EUGENIO, F. Criatividade Situada, funcionamento consequente e orquestra\u00e7\u00e3o do tempo nas praticas profissionais contempor\u00e2neas. In: Criatividade Juventude e novos horizonte profissionais (org. Maria Isabel M. de Almeida e Jos\u00e9 Machado Pais). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 210-277, 2012.<\/h6>\n<h6>[vii] Beatriz Sarlo lecionou literatura argentina na Universidade de Buenos Aires (UBA). Autora de Cenas da vida p\u00f3s-moderna, intelectuais, arte e viodeocultura na Argentina. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ. 2000<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Maria Isabel M. De Almeida<\/strong><\/h6>\n<h6>Soci\u00f3loga. P\u00f3s-doutora em Sociologia pela Universidade Paris V &#8211; Ren\u00e9 Descartes Professora do departamento de Ci\u00eancias Sociais da PUC-RJ Coordenadora e pesquisadora do Centro de Estudos Sociais Aplicados da Ucam. Autora, entre outros livros de Noites N\u00f4mades( Rocco) e Culturas Jovens -Novos mapas do afeto. ( Jorge Zahar) E-mail:\u00a0<span id=\"cloakcd5961428a43603d5b3f653f710f50f8\"><a href=\"mailto:isabelmendes2008@gmail.com\">isabelmendes2008@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARIA ISABEL M. DE ALMEIDA GIULIA PUNTEL Habitar o trajeto: o paradoxo do nomadismo &nbsp; Almanaque: Poderia nos falar um pouco sobre os seus \u00faltimos trabalhos?\u00a0 &nbsp; &nbsp; Maria Isabel: Conclu\u00edmos uma pesquisa com jovens que se chama \u201cPaisagens existenciais e alquimias pragm\u00e1ticas: uma reflex\u00e3o comparativa do recurso \u00e0s drogas no contexto da contracultura e&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-825","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-almanaque-17","category-13","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/825","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=825"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/825\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=825"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=825"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=825"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}