{"id":829,"date":"2015-07-17T06:56:21","date_gmt":"2015-07-17T09:56:21","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=829"},"modified":"2025-12-01T16:57:07","modified_gmt":"2025-12-01T19:57:07","slug":"puberdade-adolescencia-e-estrutura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2015\/07\/17\/puberdade-adolescencia-e-estrutura\/","title":{"rendered":"Puberdade, Adolesc\u00eancia E Estrutura"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>DAMASIA AMADEO DE FREDA<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"950\" data-large_image_height=\"356\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-830\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3.jpg\" alt=\"\" width=\"950\" height=\"356\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3.jpg 950w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3-300x112.jpg 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3-768x288.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px\" \/><\/a><\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>\u00c9DER OLIVEIRA: S\u00c9RIE SEM T\u00cdTULO 2005<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A puberdade \u00e9 um momento de grandes transforma\u00e7\u00f5es, tanto f\u00edsicas como psicol\u00f3gicas. Conhecemos as consequ\u00eancias ps\u00edquicas que essas transforma\u00e7\u00f5es acarretam, a tal ponto que Freud n\u00e3o duvida em considerar esse momento uma verdadeira \u201cmetamorfose\u201d da subjetividade.<\/p>\n<p>A respeito das transforma\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, Freud enfatiza o que acontece exclusivamente no que diz respeito aos \u00f3rg\u00e3os sexuais, tanto internos como externos.<\/p>\n<p>Vale destacar que tais transforma\u00e7\u00f5es abrem possibilidades concretas que antes n\u00e3o existiam \u2013 a reprodu\u00e7\u00e3o, por exemplo \u2013 e modificam a imagem de si de uma forma in\u00e9dita at\u00e9 o momento. A isso se soma o fato de que a for\u00e7a pulsional, sublimada durante o per\u00edodo de lat\u00eancia, volta a catexizar as zonas er\u00f3genas sexualizadas desde a primeira inf\u00e2ncia e se concentra, sobretudo, nos \u00f3rg\u00e3os sexuais que foram afetados pela completa transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Freud disse muitas coisas importantes sobre esse per\u00edodo. Por exemplo, p\u00f5e o acento no vai e vem da libido, do eu ao objeto e vice-versa, e adverte sobre os transtornos que poderiam suceder ao indiv\u00edduo se a libido se conformasse em ter o eu como \u00fanico objeto. Um transtorno semelhante suporia a fixa\u00e7\u00e3o libidinal em uma zona er\u00f3gena em detrimento do \u00f3rg\u00e3o f\u00e1lico.<\/p>\n<p>Freud destaca que, nesse per\u00edodo, h\u00e1 um despertar das fantasias infantis, que haviam tido como finalidade dar uma resposta \u00e0s interroga\u00e7\u00f5es t\u00edpicas da inf\u00e2ncia \u2013 castra\u00e7\u00e3o, sedu\u00e7\u00e3o, cena prim\u00e1ria. A tais fantasias acrescenta, agora, uma nova \u2013 mito do nascimento do her\u00f3i \u2013, que facilita o desprendimento da autoridade, processo fundamental para a passagem \u00e0 idade adulta. Indica que tais fantasias s\u00e3o objeto da libido at\u00e9 que esta encontre e aceite um objeto novo fora do Outro parental. Adverte tamb\u00e9m sobre o fato de que as fantasias s\u00e3o precursoras do sintoma.<\/p>\n<p>Indubitavelmente, esses indicadores freudianos s\u00e3o muito orientadores na cl\u00ednica com p\u00faberes e adolescentes. Ainda que tamb\u00e9m saibamos que, na atualidade, tal cl\u00ednica muitas vezes desconcerta o psicanalista.<\/p>\n<p>O psicanalista se encontra regularmente com manifesta\u00e7\u00f5es novas, as quais \u00e0s vezes o desorientam. Por exemplo, a respeito da quest\u00e3o diagn\u00f3stica. Muitas vezes \u00e9 pelo mesmo desconcerto que essa cl\u00ednica lhe proporciona, que se precipita em querer elucid\u00e1-la por meio do diagn\u00f3stico.<\/p>\n<p>Por exemplo, n\u00e3o faz muito tempo, quando uma paciente se apresentava ao analista com a pr\u00e1tica da \u201cautomutila\u00e7\u00e3o\u201d, em geral n\u00e3o se duvidava em diagnosticar uma psicose; logo, quando os sintomas pr\u00f3prios de tal estrutura n\u00e3o acompanhavam o quadro, se saia do atoleiro com o diagn\u00f3stico de psicose ordin\u00e1ria, sempre pronto para todo uso.<\/p>\n<p>Hoje j\u00e1 n\u00e3o podemos continuar considerando a pr\u00e1tica da automutila\u00e7\u00e3o um \u00edndice de psicose. O corte forma parte de uma pr\u00e1tica amplamente estendida no campo da puberdade e da adolesc\u00eancia feminina, e, se os quadros s\u00e3o muito variados, as causas alegadas por aqueles que a praticam n\u00e3o deixam de ser obscuras.<\/p>\n<p>O analista n\u00e3o desconhece que h\u00e1 a\u00ed um problema de quantidade, porque s\u00e3o as mesmas pacientes que o indicam. Elas falam de uma ang\u00fastia, \u00e0s vezes de uma tens\u00e3o ou de uma energia que n\u00e3o podem dominar, e o corte vem funcionar como sangria, porque o sangue e a dor, produto da ferida, d\u00e3o um destino ao excesso e um sentido ao que, na grande maioria dos casos, \u00e9 um ponto de falta de significa\u00e7\u00e3o. Que a falta de significa\u00e7\u00e3o seja o correlato da falta de um significante, \u00e9 indubit\u00e1vel. Que a falta de um significante concirna ao significante do Nome do Pai, isso n\u00e3o podemos assegurar e menos ainda generalizar. Agora, talvez essa pr\u00e1tica generalizada nos indique que o significante do Nome do Pai, como articulador central da estrutura, come\u00e7a a perder seus privil\u00e9gios. N\u00e3o seria desatinado pensar que essa pr\u00e1tica \u00e9 um indicador do decl\u00ednio do Nome do Pai, ainda que n\u00e3o tanto na estrutura, mas na civiliza\u00e7\u00e3o, o qual repercute na no\u00e7\u00e3o de estrutura, relativizando-a.<\/p>\n<p>Outra manifesta\u00e7\u00e3o da atualidade \u00e9 a passagem da heterossexualidade \u00e0 homossexualidade e vice-versa, em p\u00faberes e adolescentes do g\u00eanero feminino, como meio de obten\u00e7\u00e3o do gozo sexual. Sem d\u00favida, esse tipo de passagem mostra que o falo n\u00e3o \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o diretriz para a obten\u00e7\u00e3o do gozo sexual. \u00c9 poss\u00edvel que da\u00ed se deduza que o significante \u00e9 f\u00e1lico, e, portanto, a significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica esteja, no m\u00ednimo, modificada. Por\u00e9m, que tudo isso desemboque em um diagn\u00f3stico de psicose, tal como se poderia depreender da leitura estruturalista de Lacan sobre as consequ\u00eancias na significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica no que diz respeito \u00e0 presen\u00e7a ou aus\u00eancia do Nome do Pai na estrutura, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o certo. Quer dizer, hoje em dia n\u00e3o podemos deduzir de maneira unilateral de tais manifesta\u00e7\u00f5es na sexualidade, pr\u00f3pria dos p\u00faberes e dos adolescentes da \u00e9poca, um diagn\u00f3stico de psicose.<\/p>\n<p>Outro exemplo, em vias de extin\u00e7\u00e3o, s\u00e3o as tribos urbanas, em que o que caracteriza o grupo s\u00e3o os tra\u00e7os semelhantes de seus integrantes. A diferen\u00e7a do que ocorre nos grupos sustentados gra\u00e7as a uma exce\u00e7\u00e3o, cujo prot\u00f3tipo \u00e9 a figura do l\u00edder que viria representar e ser o porta-voz de uma ideia ou de uma ideologia, nas tribos urbanas n\u00e3o \u00e9 a identifica\u00e7\u00e3o ao tra\u00e7o do Outro o que possibilita a identifica\u00e7\u00e3o entre os membros. Nesses bandos, a imagem de si e do outro se confundem at\u00e9 desintegrar-se em uma massa com um nome que os agrupa (emos, floggers). Observa-se claramente, nesse tipo de manifesta\u00e7\u00e3o, como a ordem simb\u00f3lica \u00e9 substitu\u00edda por uma ordem imagin\u00e1ria. Porque em tais agrupamentos n\u00e3o s\u00e3o os ideais nem as ideias que os comandam, portanto se compreende a inexist\u00eancia daquele que cumpriria a exce\u00e7\u00e3o de transmiti-los. \u00c9 simplesmente a vestimenta, os piercings, as tatuagens, o corte de cabelo, o penteado ou a maquiagem que permite identificar o grupo, e tamb\u00e9m s\u00e3o esses tra\u00e7os o que o mant\u00e9m unido. Embora seja t\u00edpico da puberdade e da adolesc\u00eancia o agrupar-se, e que em tal agrupamento esteja a tend\u00eancia a igualar-se, existir um predom\u00ednio pronunciado do imagin\u00e1rio sobre o simb\u00f3lico \u00e9 o que o torna novidade. Que esse exemplo \u00e9 um \u00edndice da modifica\u00e7\u00e3o da ordem simb\u00f3lica pr\u00f3pria da nossa \u00e9poca, \u00e9 evidente; que \u00e9 \u00edndice do decl\u00ednio do Nome do Pai, tamb\u00e9m. Por\u00e9m, que da\u00ed se possa concluir que os p\u00faberes e adolescentes que integram ou integravam as tribos urbanas s\u00e3o psic\u00f3ticos \u00e9 um exagero, sem d\u00favida.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, o fen\u00f4meno cada vez mais corrente do alistamento de p\u00faberes e adolescentes dispostos a matar e a se destruir em um \u00fanico ato suicida-criminoso, em nome de um Um totalizador. O que podemos dizer desses casos que se estendem pelo mundo de um modo tem\u00edvel e sinistro? Que oferecer-se em sacrif\u00edcio a um Outro incorp\u00f3reo \u00e9 um del\u00edrio, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma d\u00favida; que a puls\u00e3o assume, nesses casos, uma forma mort\u00edfera que n\u00e3o se vincula em nada com qualquer forma de sexualidade, quer dizer, que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para que se estabele\u00e7a um v\u00ednculo libidinal de objeto, parece evidente. Que a concentra\u00e7\u00e3o da libido no eu seja a outra face da imola\u00e7\u00e3o ante um Deus obscuro, \u00e9 muito poss\u00edvel. Por\u00e9m, que esses jovens sejam psic\u00f3ticos, no sentido lato do termo, \u00e9 algo que n\u00e3o podemos assegurar, porque s\u00e3o muito raros, para n\u00e3o dizer inexistentes, os exemplos nos quais uma divis\u00e3o subjetiva de qualquer \u00edndole pudesse vir a se colocar em quest\u00e3o ante t\u00e3o radical elei\u00e7\u00e3o, para ent\u00e3o conduzi-los a um psicanalista.<\/p>\n<p>Esse \u00faltimo \u00e9 um bom exemplo para o psicanalista atual; \u00e9 um bom exemplo para lembrar-lhe que sua a\u00e7\u00e3o deve formar parte de uma pol\u00edtica na qual um de seus fins seja interpretar o melhor poss\u00edvel a subjetividade da \u00e9poca, para poder incidir nela. Desse modo, o psicanalista poder\u00e1 estar protegido de n\u00e3o errar al\u00e9m da conta em seu ato e, assim, poder integrar sua a\u00e7\u00e3o em uma causa que, embora se dirima no caso a caso, tamb\u00e9m pode apontar mais al\u00e9m do singular. Porque uma interpreta\u00e7\u00e3o que abarque o conjunto permite elucidar a pr\u00e1tica individual do mesmo modo que a pr\u00e1tica individual contribui para esclarecer o conjunto. E \u00e9 necess\u00e1rio, mais do que nunca, para o psicanalista, estar \u00e0 altura da subjetividade desta \u00e9poca, dif\u00edcil de interpretar.<\/p>\n<p>Para finalizar, entendemos que a ideia freudiana da puberdade e da adolesc\u00eancia n\u00e3o d\u00e1 elementos suficientes para se orientar na cl\u00ednica atual. Ao contr\u00e1rio, consideramos que o \u00faltimo ensino de Lacan p\u00f4de contribuir para uma melhor leitura da subjetividade atual e que os p\u00faberes e os adolescentes s\u00e3o tamb\u00e9m a subjetividade da \u00e9poca. Sobretudo, vemos que se trata de uma subjetividade que j\u00e1 n\u00e3o parece responder aos par\u00e2metros estruturalistas e deterministas com os quais nos reg\u00edamos, e, nesse sentido, vemos borrar-se as estruturas cl\u00ednicas. Ao contr\u00e1rio, a no\u00e7\u00e3o de estrutura borromeana, cujos registros RSI se regem pela orienta\u00e7\u00e3o e pela ordem, como \u00fanico \u00edndice do predom\u00ednio de um sobre o outro como forma de fazer frente a um real, nos parece ser mais afim \u00e0 cl\u00ednica atual com p\u00faberes e adolescentes.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6>TRADU\u00c7\u00c3O: K\u00e1tia M\u00e1rias<\/h6>\n<h6>REVIS\u00c3O: Ernesto Anzalone<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<\/div>\n<h6><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><strong>Damasia Amadeo De Freda<\/strong><\/h6>\n<h6>Membro da Escuela de la Orientaci\u00f3n Lacaniana (EOL) Membro da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP). E-mail:\u00a0<span id=\"cloakc1e368b871680a164e866f2dc76cc3b7\"><a href=\"mailto:damasiamadeo@fibertel.com.ar\">damasiamadeo@fibertel.com.ar<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DAMASIA AMADEO DE FREDA &nbsp; \u00c9DER OLIVEIRA: S\u00c9RIE SEM T\u00cdTULO 2005 &nbsp; A puberdade \u00e9 um momento de grandes transforma\u00e7\u00f5es, tanto f\u00edsicas como psicol\u00f3gicas. Conhecemos as consequ\u00eancias ps\u00edquicas que essas transforma\u00e7\u00f5es acarretam, a tal ponto que Freud n\u00e3o duvida em considerar esse momento uma verdadeira \u201cmetamorfose\u201d da subjetividade. 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