{"id":835,"date":"2015-07-17T06:56:21","date_gmt":"2015-07-17T09:56:21","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=835"},"modified":"2025-12-01T16:57:36","modified_gmt":"2025-12-01T19:57:36","slug":"amores-liquidos-amores-nomades-sobre-as-formais-atuais-da-depreciacao-da-vida-amorosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2015\/07\/17\/amores-liquidos-amores-nomades-sobre-as-formais-atuais-da-depreciacao-da-vida-amorosa\/","title":{"rendered":"Amores L\u00edquidos, Amores N\u00f4mades: Sobre As Formais Atuais Da Deprecia\u00e7\u00e3o Da Vida Amorosa"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>ANA LYDIA SANTIAGO E J\u00c9SUS SANTIAGO<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/2-600x450-1.gif\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"450\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-836\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/2-600x450-1.gif\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"450\" \/><\/a><\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>FOTO : GIULIA PUNTELFOTO : GIULIA PUNTEL<\/strong><\/h6>\n<p>O interesse dessa investiga\u00e7\u00e3o cl\u00ednica \u00e9 buscar tratar a especificidade das formas atuais da deprecia\u00e7\u00e3o da vida amorosa nas sociedades em que prevalece o fen\u00f4meno das vias democr\u00e1ticas do individualismo de massa[1]. \u00c9 essencial mostrar que tais formas de deprecia\u00e7\u00e3o n\u00e3o se esclarecem sem o devido tratamento do chamado individualismo de massa que, a nosso ver, \u00e9 parte inerente dos diversos estilos de vida amorosa dos jovens, estilos marcados pela fluidez, inconst\u00e2ncia e err\u00e2ncia. Para captar o que vai de um lugar para outro e que se movimenta \u00e0 vontade entre os jovens, utiliza-se, com frequ\u00eancia, a propriedade da fluidez pertencente aos estados da mat\u00e9ria l\u00edquida e gasosa. Tornou-se, assim, usual empregar a \u201cleveza\u201d ou a \u201caus\u00eancia de peso\u201d como atributo para fornecer os contornos do car\u00e1ter l\u00e1bil, fr\u00e1gil e inconstante dos atuais trajetos e rotas que definem a vida amorosa entre os jovens[2].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Amores l\u00edquidos<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o nos parece suficiente dizer \u2013 como quer a sociologia contempor\u00e2nea \u2013 que o poder de derretimento da modernidade com rela\u00e7\u00e3o aos valores e refer\u00eancias identificat\u00f3rias que regiam as gram\u00e1ticas afetivas tradicionais, seja fruto de uma mera quebra na verticalidade das rela\u00e7\u00f5es sociais. Ao contr\u00e1rio de tais formula\u00e7\u00f5es, importa ressaltar em qu\u00ea esses novos estilos encarnam uma resposta efetiva \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o da inexist\u00eancia do Outro na esfera dos diversos modos de gozo. Se o que era a tradi\u00e7\u00e3o e o padr\u00e3o dos modelos do relacionamento amoroso se desfaz, irrompe, ao mesmo tempo, um variado leque de solu\u00e7\u00f5es que se traduzem pela interfer\u00eancia do individualismo de massa sobre o discurso e as pr\u00e1ticas afetivas e sexuais dos homens. O psicanalista deve estar atento ao car\u00e1ter inovador desta multiplicidade de solu\u00e7\u00f5es, que se expressa pelo imperativo de que cada sujeito deve identificar-se com sua pr\u00f3pria diferen\u00e7a. Em outras palavras, o sujeito se v\u00ea obrigado, nos dias de hoje, a sobrepor-se a inexist\u00eancia do Outro, com o recurso de algum significante-mestre (S1) que se apresenta como individualizado e pulverizado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>INDIVIDUALISMO DE MASSA \u2013\u2013\u2013\u2013\u2013&gt; S1s individualizados e pulverizados<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao propor que a crise atual de nossa civiliza\u00e7\u00e3o se traduz pela inexist\u00eancia do Outro, n\u00e3o se quer dizer que se trata apenas de uma crise que atinge o dom\u00ednio do saber. Na \u00e9poca das muta\u00e7\u00f5es provocadas pelo discurso da ci\u00eancia, a transforma\u00e7\u00e3o do Outro, de seus ideais e do Nome-do-Pai em fic\u00e7\u00e3o, se estendem para o \u00e2mbito de uma crise que extrapola a ordem dos sentidos e dos valores de uma dada civiliza\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio disto, ambiciona-se com a tese da inexist\u00eancia do Outro, evidenciar que tal crise concerne o real inerente aos modos de gozo do sujeito, imerso no mundo em que o Nome-do-Pai e seus ideais se transmutam em semblantes. \u00c9 por isso que, sob o fundo de uma ang\u00fastia, o sujeito moderno introduz um questionamento que se repercute nas mais diversas esferas da vida, sob a forma do que \u00e9 o real. \u00c9 nesse sentido que n\u00e3o se deve privilegiar apenas a face negativa dos efeitos da inexist\u00eancia do Outro. A conex\u00e3o desses dois termos conflitantes e contradit\u00f3rios, entre si \u2013 o individualismo e a massa \u2013, constitui uma maneira de interpretar a face positiva, ou seja, as vias de respostas poss\u00edveis ao real do gozo, por meio de uma identifica\u00e7\u00e3o com algum significante solto e isolado. \u00c9 vis\u00edvel que o emprego desse sintagma paradoxal surge para aprofundar, ainda mais, o diagn\u00f3stico que compreende o mal-viver atual entre os sexos como uma resultante da inexist\u00eancia do Outro[3].<\/p>\n<p>A homossexualidade \u00e9 exemplar do que vem a ser essa injun\u00e7\u00e3o do enxame de significantes-mestre individualizados, sobre as rela\u00e7\u00f5es amorosas e sexuais em geral. N\u00e3o \u00e9 sem raz\u00e3o o fato de que a investiga\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica universit\u00e1ria sobre os g\u00eaneros se mostre dominada, em escala mundial, pelos chamados \u201cgay and lesbian studie\u201d ou o \u201cqueer studies\u201d[4]. O modo como a homossexualidade se configura, nos anos sessenta, por meio do movimento gay \u00e9 uma prova de que a oferta de um significante-novo, capaz de captar o que transita no mercado do gozo, \u00e9 suficiente para efetuar-se uma identifica\u00e7\u00e3o que se designa como comunit\u00e1ria[5].<\/p>\n<p>Com a emerg\u00eancia da nova norma homossexual gay, com o que se designa por essa identifica\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, fica para tr\u00e1s uma vis\u00e3o homossexualidade fortemente impregnada pela no\u00e7\u00e3o de invers\u00e3o, cuja pr\u00e1tica se exerce, de forma clandestina e, com o uso de uma fantasia particular[6]. A montagem discursiva que se instaura com a ado\u00e7\u00e3o do significante gay assume consequ\u00eancias para as pr\u00e1ticas sexuais em geral, inclusive para os jovens, pois, o amor homossexual afirma-se como o \u00edcone de um estilo de vida hedonista moderno, orientado pelo bin\u00f4mio prazer e liberdade. O sintoma social da homossexualidade gay torna-se, assim, modelo da representa\u00e7\u00e3o m\u00e1xima do casal igualit\u00e1rio em que n\u00e3o se exige a regra da coabita\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o apenas, por n\u00e3o estar condicionada pela exig\u00eancia da procria\u00e7\u00e3o, mas, tamb\u00e9m por estar desembara\u00e7ada das contamina\u00e7\u00f5es sentimentais das acep\u00e7\u00f5es rom\u00e2nticas do amor. Em suma, fica-se com a impress\u00e3o que se do lado da rotina dos h\u00e9teros, tem-se o t\u00e9dio, a tristeza; do lado do gay, a festa, o carnaval e as coisas divertidas.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que a propaga\u00e7\u00e3o desta nova norma homossexual, na vida social, contribuiu para tornar pouco cred\u00edvel a inclus\u00e3o da sexualidade em uma ordem natural fixa e pr\u00e9-estabelecida. \u00c9 cada vez mais fora de moda, n\u00e3o admitir a homossexualidade como um estilo de vida similar a outros, como uma escolha de objeto que, apesar de ser minorit\u00e1ria, \u00e9 t\u00e3o defens\u00e1vel quanto outras. Como se pode constatar, n\u00e3o \u00e9 \u00e0-toa, o fato de que o movimento dos homossexuais que, realizou e adotou a constru\u00e7\u00e3o do gay, p\u00f4de desalojar do saber psiqui\u00e1trico, qualquer alus\u00e3o diagn\u00f3stica normativa baseada na categoria de pervers\u00e3o. E o psicanalista, que posi\u00e7\u00e3o ele adota com rela\u00e7\u00e3o a essa repercuss\u00e3o subversiva, at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9dita, das pr\u00e1ticas homossexuais com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s normas que fixam e regulam os la\u00e7os afetivos j\u00e1 existentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Amores n\u00f4mades<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel ainda, na abordagem das configura\u00e7\u00f5es atuais da deprecia\u00e7\u00e3o da vida amorosa, tomar um outra dire\u00e7\u00e3o, para apreender o que vem a ser uma tal inova\u00e7\u00e3o nos estilos de vida e nos modos de rela\u00e7\u00e3o afetiva das novas gera\u00e7\u00f5es. Trata-se do que Gilles Deleuze e F\u00e9lix Guattari designam com a marca contempor\u00e2nea do discurso capitalista, a saber, o nomadismo, que como se sabe \u00e9 concebido como uma m\u00e1quina de guerra[7]. Refere-se ao car\u00e1ter n\u00e3o-sedent\u00e1rio das rela\u00e7\u00f5es amorosas como uma m\u00e1quina de guerra porque estas agenciam do exterior e independente do moralismo centralista e faloc\u00eantrico do Estado, outras intensidades, fluxos territ\u00f3rios e enuncia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Sob esse ponto de vista, o nomadismo, segundo Deleuze,<\/p>\n<p><em>\u201c(\u2026) \u00e9 uma forma de estar no mundo que subverte as expectativas sociais e as estruturas hegem\u00f4nicas identificadas com o Estado. Esta \u201cm\u00e1quina de guerra\u201d n\u00f4made apresenta tr\u00eas aspectos: um aspecto espacial-geogr\u00e1fico, um aspecto organizacional e um aspecto afetivo. A caracteriza\u00e7\u00e3o do nomadismo como um modo de ser espec\u00edfico est\u00e1 ligada \u00e0 territorialidade, ou seja, \u00e0 espacializa\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia (social e subjetiva) em termos de deslocamento e n\u00e3o de fixa\u00e7\u00e3o, como \u00e9 o caso das exist\u00eancias sedent\u00e1rias.\u201d [8]<\/em><\/p>\n<p>Em vez de fixar-se em um ponto do espa\u00e7o, transformar-se em um lugar, como faz o sedent\u00e1rio \u2013, o n\u00f4made n\u00e3o tem um territ\u00f3rio fixo e delimitado, pois, segue trajetos contingentes e vai, incessantemente, de um ponto a outro[9]. Para os fil\u00f3sofos, o deslocamento e a n\u00e3o fixa\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia sedent\u00e1ria nas rela\u00e7\u00f5es afetivas exibe algo voltado para o mundo exterior e se prolifera na forma de descargas r\u00e1pidas de emo\u00e7\u00f5es. Se os afetos s\u00e3o tanto proj\u00e9teis, como armas, \u00e9 porque, n\u00e3o apenas se diferenciam, mas desterritorializam a pretensa solidez dos la\u00e7os e sentimentos amorosos do passado. A multiplicidade da m\u00e1quina de guerra n\u00f4made, presente nos afetos, n\u00e3o se exprime pela simples via da pluralidade, mas, sim, pela capacidade de \u201cdesterritorializar\u201d os anseios e as estruturas das rela\u00e7\u00f5es institu\u00eddas pelo Estado e suas diversas formas de agenciamento das intensidades e dos fluxos da vida. A pluralidade, segundo eles, n\u00e3o \u00e9 a multiplicidade.<\/p>\n<p>O nomadismo deleuzeano suscita in\u00fameras e variadas reflex\u00f5es em diversos \u00e2mbitos do pensamento contempor\u00e2neo. \u00c9 poss\u00edvel tomar contato com o diagn\u00f3stico que ao buscar interpretar a componente n\u00f4made do discurso amoroso atual, privilegia o seu vi\u00e9s de impasse, fazendo sobressair o pessimismo. Sob essa \u00f3tica, o nomadismo revela a fal\u00eancia do referencial hist\u00f3rico para a compreens\u00e3o dos fen\u00f4menos, a fal\u00eancia das categorias de emocional e racional para sua an\u00e1lise e, mesmo, a insufici\u00eancia da refer\u00eancia ao amor ao pai, para dar conta das transforma\u00e7\u00f5es que se processam na vida \u00edntima das novas gera\u00e7\u00f5es[10].<\/p>\n<p>\u00c9 vis\u00edvel a dificuldade destas an\u00e1lises para captarem os amores n\u00f4mades, visto que se baseiam em uma perspectiva calcada no fio cont\u00ednuo e linear da hist\u00f3ria do que tem sido os nomes infinitos do amor. Acrescenta-se, ainda, que a ideia de progresso e de raz\u00e3o mostram todo o seu limite quando h\u00e1 algo do passado, que retorna e se instala com certo vigor. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 an\u00e1lise desse fen\u00f4meno, tudo leva a crer que as categorias racionais sobre as quais se edificam tais interpreta\u00e7\u00f5es s\u00e3o inst\u00e1veis e imprecisas, pois, a emerg\u00eancia do nomadismo, na esfera do amor, mostra que este deixou de constituir-se como exce\u00e7\u00e3o, para tornar-se uma realiza\u00e7\u00e3o efetiva e independente de suas express\u00f5es tradicionais[11].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O amor e a \u201cn\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o\u201d<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Importa, contudo, abordar o nomadismo na vida amorosa tendo como guia, para o enfoque dos fen\u00f4menos de dessimetria no amor, a categoria lacaniana da \u201cn\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o\u201d. A maneira como a \u201cn\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o\u201d entre os sexos se exprime no contexto dos amores n\u00f4mades assume consequ\u00eancias, at\u00e9 ent\u00e3o, in\u00e9ditas, para o psicanalista. Chama a aten\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m da desterritorializa\u00e7\u00e3o, as express\u00f5es n\u00e3o-sedent\u00e1rias do amor que agudizam o fato cl\u00ednico de que se a mulher equivale a um sintoma, para o homem, este \u00faltimo, por sua vez, \u00e9 para uma mulher, fator de devasta\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio do que muitos podem pensar, para dar conta das vias atuais das rela\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas entre os sexos, n\u00e3o cabe ao psicanalista simplesmente abandonar as categorias do inconsciente, do amor ao pai, do \u00c9dipo e outras, com o argumento de que se tornaram caducas[12]. Na verdade, elas est\u00e3o mais vivas do que nunca, desde que, evidentemente, saibamos refund\u00e1-las e retrat\u00e1-las com o que a cl\u00ednica nos fornece cotidianamente como a marca do real pr\u00f3prio do sintoma que dissolve, sem cessar, o seu envolt\u00f3rio formal. J\u00e1 conhecemos o que o \u00faltimo ensino de Lacan fez com o amor ao pai: mais do que desfazer-se dele, buscou-se mostrar em qu\u00ea ele se mostra insuficiente e em qu\u00ea \u00e9 preciso ir al\u00e9m. \u00c9 o que se traduz pelo aforismo: prescindir-se do pai, com a condi\u00e7\u00e3o de saber servir-se dele.<\/p>\n<p>\u00c9, nesse sentido, que cabe introduzir a quest\u00e3o: Como n\u00e3o captar, no nomadismo da vida amorosa, algo que se apresenta para al\u00e9m das ideias centradas na ruptura radical com a verticalidade das rela\u00e7\u00f5es sociais? Para o psicanalista importa ressaltar, no nomadismo, o fato de que ele encarna uma resposta efetiva \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o da inexist\u00eancia do Outro na esfera do amor. Como se exprime J.-A. Miller, haveriam, assim, labirintos do amor[13], o que torna ainda mais dif\u00edcil a tarefa de nome\u00e1-los. \u00c0 diferen\u00e7a do discurso hist\u00e9rico, as novas formas de discurso amoroso \u2013 dentre as quais se inclui a homossexualidade masculina \u2013\u2013, n\u00e3o s\u00e3o baseadas e nem articuladas pelo amor ao pai.<\/p>\n<p>O que se evidencia, no discurso atual, a prop\u00f3sito das rela\u00e7\u00f5es amorosas entre os jovens, \u00e9 que eles n\u00e3o amam. Ouve-se dizer: \u201cOs jovens n\u00e3o conferem dura\u00e7\u00e3o a seus namoros\u201d; \u201cO jovens n\u00e3o constroem frases com sujeito e predicado\u201d; \u201cN\u00e3o h\u00e1 outro adjetivo para qualificar a vida de alguns adolescentes, que o da promiscuidade.\u201d Essa atmosfera de mal-estar impregnada nos discursos dos pais e dos adultos em geral a respeito da forma de amar na atualidade, destaca o que vem sendo nomeado, nas an\u00e1lises da p\u00f3s-modernidade, como o \u201cp\u00e2nico moral\u201d. Ora, n\u00e3o cabe ao analista ter essa resposta diante do que se apresenta como um novo modo de vida. At\u00e9 mesmo os pais que durante o tempo de suas juventudes introduziram uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 gera\u00e7\u00e3o precedente, reagem com um certo espanto. A indiferen\u00e7a, o individualismo, a falta de vergonha e pudor, e a perda da condi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica dos sujeitos, apenas escamoteiam a indigna\u00e7\u00e3o deles, diante da inexist\u00eancia de um sentido referencial qualquer \u00e0s identifica\u00e7\u00f5es parentais. Isso vai de encontro com a constata\u00e7\u00e3o de que, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, os homens se parecem mais com seu tempo que com seus pais[14].<\/p>\n<p>\u201cNa boate, as mulheres saem pra ficar com os caras e os caras saem pra pegar mulher. Neguinho j\u00e1 entra na pega\u00e7\u00e3o, entendeu? \u00c9 a guerra.\u201d, testemunha um jovem informante nos relatos de pesquisa antropol\u00f3gica, sobre o espa\u00e7o e a subjetividade nas culturas n\u00f4mades contempor\u00e2neas. Pode-se extrair desta pesquisa, algumas outras passagens, que, a nosso ver, caracterizam algumas identifica\u00e7\u00f5es e posi\u00e7\u00f5es de gozo, que n\u00e3o deixam de gerar uma variedade distinta de mal-estar e sintomas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A derris\u00e3o do amor<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mais importante do que o car\u00e1ter de transitoriedade e de intensidade vol\u00e1til das rela\u00e7\u00f5es dos jovens, que aparecem pelo emprego do \u201cficar\u201d, parece-nos sugestivo ressaltar o lado derris\u00f3rio e ir\u00f4nico, que se exprime no contexto mais amplo das configura\u00e7\u00f5es n\u00f4mades. Muitas vezes, a divers\u00e3o da night torna-se um \u201czoar\u201d, que tamb\u00e9m implica um movimento de gravita\u00e7\u00e3o. Assim, \u201czoar\u201d \u00e9 \u201cestar solto\u201d, perder a censura\u201d. \u201c\u00c9 deixar rolar\u201d[15]. Zoar \u00e9 voc\u00ea chegar com um monte de amigo seu e um ficar pegando mais mulher que o outro. Isso pode, inclusive, transformar-se numa competi\u00e7\u00e3o, como o testemunha um outro jovem da pesquisa:<\/p>\n<p><em>\u201cMulher que nego pega \u00e9 o que mais mexe com o ego da pessoa. Se nego pega uma mulher gata\u2026, (\u2026). Eu tenho um amigo que a gente sa\u00eda para pegar mulher feia tamb\u00e9m (\u2026) Os outros \u00e9 que escolhiam a mulher para o cara: a\u00ed, tem que pegar aquela. E tinha que passar de m\u00e3o dada.[risos] (\u2026) Chega num lugar que est\u00e1 horr\u00edvel, o que agente pode fazer para animar a parada, entendeu? P\u00f4, vamos pegar um monte de mulher feia, vamos fazer estas mulheres felizes? E voc\u00ea v\u00ea que as mulheres ficam amarradonas. [risos] E o ambiente fica legal.[16]<\/em><\/p>\n<p>Esse depoimento mostra que os jovens procuram \u201cficar de boa\u201d, neste turbilh\u00e3o de gozo, que os faz passar rapidamente de um objeto para outro. O \u201cn\u00e3o saber\u201d em rela\u00e7\u00e3o ao outro sexo, caracter\u00edstico do in\u00edcio da puberdade, perdura-se. Poder-se-ia pensar que o \u201cficar\u201d se apresenta como uma solu\u00e7\u00e3o para este \u201cn\u00e3o saber\u201d angustiante: n\u00e3o saber como se aproximar do outro sexo, como aborda-lo, o que dizer, o que perguntar, o que conversar. Enfim: \u201cO que fazer com o outro sexo?\u201d Entretanto, o que ocorre \u00e9 uma supress\u00e3o da palavra, em detrimento de uma pr\u00e1tica de gozo. N\u00e3o \u00e9 raro a conversa reduzir-se \u00e0 uma sondagem sobre a possibilidade de algu\u00e9m ficar com algu\u00e9m, ser bem sucedida. E essa suspens\u00e3o da palavra, que cumpre a fun\u00e7\u00e3o de adiar o encontro amoroso, n\u00e3o deixa de produzir uma s\u00e9rie de sintomas, dentre os quais se destaca a inibi\u00e7\u00e3o total da vida amorosa.<\/p>\n<p>Portanto, a queda na cren\u00e7a de um sentido para as rela\u00e7\u00f5es entre os sexos, que se insere no terreno movedi\u00e7o da inexist\u00eancia do Outro, apenas favorece os efeitos do individualismo de massa no amor. \u00c9 o que faz com que em nome do individual, cada um se torne o empres\u00e1rio de seu pr\u00f3prio desejo.<\/p>\n<p>Pode-se dizer que este aspecto da auto-gest\u00e3o do gozo na esfera da vida amorosa expressa os dois princ\u00edpios b\u00e1sicos sobre os quais repousa o individualismo: (1) a liberdade individual, ou seja, o direito de se preocupar em primeiro lugar com a condi\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos da sociedade e, n\u00e3o, com a condi\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria sociedade; e (2) a autonomia moral, segundo a qual cada individuo deve fazer uma reflex\u00e3o individual, sem que suas opini\u00f5es sejam ditadas por um grupo social qualquer. (Comunitarismo)<\/p>\n<p>Diante dessa anula\u00e7\u00e3o do Outro social \u2013 ou dos referenciais simb\u00f3licos que organizam as rela\u00e7\u00f5es \u2013, \u00e9 evidente que a instala\u00e7\u00e3o desse mercado atual das formas de gozo e do amor n\u00e3o acontece sem criar fontes para a redistribui\u00e7\u00e3o e o surgimento de novos sintomas e novas angustias. Esta inflex\u00e3o da multiplicidade das solu\u00e7\u00f5es amorosas, acarretam como consequ\u00eancia a ado\u00e7\u00e3o do imperativo de ter que se identificar com sua pr\u00f3pria diferen\u00e7a, de tentar se virar, custe o que custar, com um significante-mestre individualizado. Se os amores n\u00f4mades interrogam a pulveriza\u00e7\u00e3o dos significantes-mestres, antes dispon\u00edveis e propostos pelo campo do Outro, isto n\u00e3o evita o fato de que ao fazer-se mestre de seu gozo; por outro lado, o sujeito \u201cse faz objeto\u201d para o outro, se faz de escravo para o seu parceiro. Este \u201cfazer-se objeto\u201d para outro, no caso do sujeito feminino, pode assumir propor\u00e7\u00f5es do que nomeamos como a devasta\u00e7\u00e3o feminina.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><\/h6>\n<h6>[1] MILLER, Jacques-Alain. Psican\u00e1lise e pol\u00edtica. In: Op\u00e7\u00e3o lacaniana, n\u00ba 34, outubro 2002.<\/h6>\n<h6>[2] BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Liquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. P. 8-9. O autor escreve: \u201cAssociamos \u2018leveza\u2019 ou \u2018aus\u00eancia de peso\u2019, \u00e0 mobilidade e \u00e0 inconst\u00e2ncia: sabemos pela pr\u00e1tica que quanto mais leve viajamos, com maior facilidade e rapidez nos movemos. Essas s\u00e3o raz\u00f5es para considerar \u2018fluidez\u2019 e \u2018liquidez\u2019 como met\u00e1foras adequadas quando queremos captar a natureza da presente fase, nova de muitas maneiras na hist\u00f3ria da modernidade.\u201d<\/h6>\n<h6>[3]MILLER, Jacques-Alain. El otro que no existe y sus comit\u00eas de \u00e9tica. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2005.<\/h6>\n<h6>[4]BERSANI, Leo. Homos. Repenser l\u2019identit\u00e9. Paris: Editions Odile Jacob,1998.<\/h6>\n<h6>[5]MILLER, Jacques-Alain. Des gays en analyse? Intervention conclusive au Colloque fanco-italien de Nice. In: La Cause freudienne, n\u00ba 55, p. 83.<\/h6>\n<h6>[6]LAURENT, Eric. Normes nouvelles de l\u2019homosexualit\u00e9. In: La Cause freudienne, , n\u00ba 37.<\/h6>\n<h6>[7] DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Felix. Tratado de nomadologia: a m\u00e1quina de guerra. In: Mil plat\u00f4s: capitalismo e esquizofrenia. Vol. 5, Rio de Janeiro: Editora 34, 1997. p. 11-110.<\/h6>\n<h6>[8] Ibid. p. 50-62.<\/h6>\n<h6>[9]Em entrevista realizada para a edi\u00e7\u00e3o italiana do \u201cMil plat\u00f4s\u201d, Deleuze revela que poderia ter escolhido como subt\u00edtulo do livro: \u201cHist\u00f3ria universal da conting\u00eancia\u201d.<\/h6>\n<h6>[10] RIBEIRO, Renato Janine. O passarinho de Godard. In: ALMEIDA, Maria Isabel e TRACY, K\u00e1tia. Noites n\u00f4mades. Rio de Janeiro: Rocco, 2003. p. 11-16.<\/h6>\n<h6>[11] Ibid.<\/h6>\n<h6>[12] RIBEIRO, Renato Janine. O passarinho de Godard. Op. Cit., p. 11-16.<\/h6>\n<h6>[13] MILLER, Jacques-Alain. Labirintos do amor. In: Correio, revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, n\u00ba56, agosto 2006, p. 14-19.<\/h6>\n<h6>[14] DEBORD, Guy. A sociedade do espet\u00e1culo. Rio de Janeiro. Contraponto, 1997.<\/h6>\n<h6>[15] ALMEIDA, Maria Isabel e TRACY, K\u00e1tia. Noites n\u00f4mades. Rio de Janeiro: Rocco, 2003. P.125-128<\/h6>\n<h6>[16] Ibid. p. 129<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<\/div>\n<h6><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><strong>Ana Lydia Santiago E J\u00e9sus Santiago<\/strong><\/h6>\n<h6>Ana Lydia Santiago Psicanalista, Analista Membro da Escola (AME) da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP). E-mail:\u00a0<span id=\"cloak4b1e8ce1b412b8f7a04d5dac69ae1c7b\"><a href=\"mailto:analydia.ebp@gmail.com\">analydia.ebp@gmail.com<\/a><\/span>\u00a0&#8211; J\u00e9sus Santiago Psicanalista, Analista da Escola em exerc\u00edcio (AE) da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP). E-mail:<span id=\"cloak2aa0a36754ac75986340f20e76feae5b\"><a href=\"mailto:jesussan.bhe@terra.com.br\">jesussan.bhe@terra.com.br<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ANA LYDIA SANTIAGO E J\u00c9SUS SANTIAGO &nbsp; FOTO : GIULIA PUNTELFOTO : GIULIA PUNTEL O interesse dessa investiga\u00e7\u00e3o cl\u00ednica \u00e9 buscar tratar a especificidade das formas atuais da deprecia\u00e7\u00e3o da vida amorosa nas sociedades em que prevalece o fen\u00f4meno das vias democr\u00e1ticas do individualismo de massa[1]. \u00c9 essencial mostrar que tais formas de deprecia\u00e7\u00e3o n\u00e3o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58151,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-835","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-17","category-13","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/835","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=835"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/835\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58152,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/835\/revisions\/58152"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58151"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=835"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=835"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=835"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}