{"id":840,"date":"2015-07-17T06:56:21","date_gmt":"2015-07-17T09:56:21","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=840"},"modified":"2025-12-01T16:58:05","modified_gmt":"2025-12-01T19:58:05","slug":"juventude-a-deriva-radicalizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2015\/07\/17\/juventude-a-deriva-radicalizacao\/","title":{"rendered":"Juventude \u00c0 Deriva > Radicaliza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p><strong>FRANCESCA BIAGI-CHAI<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/1-600x433-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"433\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-841\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/1-600x433-1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"433\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/1-600x433-1.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/1-600x433-1-300x217.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<h6><strong>GIULIA PUNTEL<\/strong><\/h6>\n<p>O come\u00e7o do s\u00e9culo XXI viu aparecer na juventude um fen\u00f4meno que est\u00e1 crescendo: um certo nomadismo, uma grande mobilidade e labilidade[1]. \u00c0 inf\u00e2ncia turbulenta, qualificada pelo termo medicalizado hiperativa, segue-se uma adolesc\u00eancia, uma juventude em constante busca de uma causa exterior a si mesma que lhe escaparia e lhe escapa sempre \u2013 uma juventude em suspens\u00e3o. Nisso podemos ver a caracter\u00edstica de uma \u00e9poca onde o fazer e o ter s\u00e3o mais importantes do que o ser, na qual o sujeito est\u00e1 ocupado em criar la\u00e7os, em construir a vida, pois nada \u00e9 \u00f3bvio. Privados da suposi\u00e7\u00e3o de saber em rela\u00e7\u00e3o aos pais e adultos, muitos s\u00e3o os jovens que se encontram liberados dessa parcela de interioridade t\u00e3o elementar quanto preciosa. Com ela distancia-se a fun\u00e7\u00e3o mesma do insight, onde se enodam o desejo e sua causa, o gozo e seus sintomas, sintomas atrav\u00e9s dos quais eles puderam at\u00e9 ent\u00e3o se endere\u00e7ar ao Outro, abrindo uma via para a transfer\u00eancia. Era a Juventude abandonada para a qual August Aichhorn[2] nos sensibilizou em sua obra. Freud o presenteou com um not\u00e1vel pref\u00e1cio sobre os tr\u00eas imposs\u00edveis: \u201cgovernar, tratar, educar\u201d, verificando a \u00e9tica de uma cl\u00ednica do Outro barrado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A juventude de hoje est\u00e1 \u00e0 deriva. A hemorragia do ser, o pseudoideal de transpar\u00eancia conduzem-na em dire\u00e7\u00e3o do campo de uma exterioridade de si mesma e de uma rela\u00e7\u00e3o com a iman\u00eancia na qual tudo poderia ser visto e sabido. Ent\u00e3o a transfer\u00eancia pareceria quase imposs\u00edvel por falta de sintoma, exceto pelo que identificamos daquilo que pode ter de sintom\u00e1tico na aus\u00eancia do sintoma. Sintoma que vemos aflorar sob a forma da espera: espera de um acontecimento, espera de alguma coisa que fa\u00e7a corpo ou que venha nomear o que do corpo se manifesta no momento em que a significa\u00e7\u00e3o do falo faz cada vez mais falta para esse uso. O lugar est\u00e1 preparado para que aquele que, inteiramente seguro, apare\u00e7a como Outro do Outro, e tente alojar a\u00ed a sua pr\u00f3pria causa: um canalha, como Lacan o define.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 o sintoma da aus\u00eancia de sintoma?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Poder\u00edamos dizer, \u201cPsis, mais um esfor\u00e7o!\u201d, se quisermos desalojar o canalha, para que cada sujeito possa ter, mais al\u00e9m do curto-circuito do agir, um acesso a seu dizer, a sua causa. Que o adolescente n\u00e3o tenha mais que se lan\u00e7ar em um discurso para sair de um impasse, nem tentar aparecer a\u00ed, de maneira selvagem, ou seja, fora de seu pr\u00f3prio discurso que n\u00e3o se formula. Lal\u00edngua \u2013 tal como ela se encontra modificada e modifica por sua vez os modos de gozo de seu tempo \u2013 leva o adolescente a falar concretamente, de forma cont\u00e1vel; tudo o que \u00e9 suposto verdadeiro \u00e9 verdadeiro, tudo o \u00e9 suposto falso \u00e9 falso. A dimens\u00e3o do mais al\u00e9m \u00e9 esmagada em proveito da iman\u00eancia do efeito produzido. \u00c9 agrad\u00e1vel ou desagrad\u00e1vel, eficaz ou ineficaz, prazeroso ou desprazeroso \u2013 uma l\u00edngua sem paradoxos. Sensa\u00e7\u00f5es igualmente que o adolescente expressa at\u00e9 o limite dos fen\u00f4menos de corpo: ele est\u00e1 irritado, isso n\u00e3o o interroga, isso o incomoda; ele est\u00e1 nervoso, ele espera encontrar o motivo nisso; ele est\u00e1 com raiva, \u201ccontra o qu\u00ea? Contra nada\u2026 com raiva\u201d. Essas palavras dizem o que \u00e9, aquilo a que talvez o sujeito como vazio esteja suspenso: ser ou n\u00e3o ser. Alguma coisa como o que diz Hamlet: \u201cque me deem o meu desejo!\u201d[3] O canalha \u00e9 aquele que faz como fez o Ghost, que veio reclamar vingan\u00e7a. Atrav\u00e9s desse significante-mestre, do qual Hamlet foi apenas o bra\u00e7o armado, a morte levou tudo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 diante dessa rela\u00e7\u00e3o com o desejo que o analista n\u00e3o dever\u00e1 recuar em seu encontro com o jovem \u00e0 deriva. Muito pelo contr\u00e1rio, o analista dever\u00e1 dar um passo\u2026 Em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 adolesc\u00eancia[4], como nos convida Jacques-Alain Miller.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cSer\u201d, de ser retomado em um discurso<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Conhecemos hoje essa infla\u00e7\u00e3o constante de jovens ditos \u201cradicalizados na religi\u00e3o isl\u00e2mica\u201d, e que partem um ap\u00f3s o outro para engrossar as fileiras de Daesh, instalados entre a S\u00edria e o Iraque, a fim de se lan\u00e7arem na jihad. A partir da\u00ed, eles se preparam para realizar assassinatos em massa, estando suas vidas sacrificadas de antem\u00e3o. \u00c9 com um \u201cviva a morte\u201d que cada um encontra seu Deus. \u00c9 o que j\u00e1 estava l\u00e1, zona muda, morta, que o analista interroga. O que acontece com esses jovens antes que se opere essa convers\u00e3o que abre as portas para sua partida?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Outro que age junto a esses jovens, quem \u00e9 ele? Est\u00e1 relacionado simplesmente com o religioso? Com o semblante, certamente. O semblante que autoriza tudo, todos os dizeres, j\u00e1 que ele \u00e9 apenas cor de ser. O religioso \u00e9 outra coisa: ele est\u00e1 em toda parte e em lugar nenhum, ele \u00e9 discurso e nem tudo pode ser sustentado por ele; nos apropriamos dele ou n\u00e3o. O Outro que intoxica \u00e9 o Outro no religioso. Ele se constituiu como mestre de gozo. Um mestre de gozo que se faz tomar pelo simb\u00f3lico e que toca o real do outro. Ele persegue as zonas de fragilidade de jovens cujo mal-estar \u00e9 palp\u00e1vel, o isolamento \u00e9 not\u00f3rio, a suspens\u00e3o do ser \u00e9 percept\u00edvel, zonas abandonadas da transfer\u00eancia, para alojar nelas a m\u00e1scara caricata de um sentido reencontrado, aquele de uma poss\u00edvel religi\u00e3o. Ele povoa o imagin\u00e1rio fr\u00e1gil de uma juventude desenraizada em sua pr\u00f3pria casa por figuras ideais, n\u00e3o do lado, como poder\u00edamos acreditar, do ideal do eu, herdeiro do pai, mas daquele mort\u00edfero, do duplo, aquele do eu ideal. \u00c9 a dimens\u00e3o fraterna dos irm\u00e3os mais velhos, captura imagin\u00e1ria: irm\u00e3os encontrados nas redes sociais, nos lugares p\u00fablicos, nos col\u00e9gios, nos bairros, nas pris\u00f5es. \u00c9 o in\u00edcio da hist\u00f3ria da partida. Progressivamente um jovem muda, n\u00e3o o reconhecemos mais. Desde ent\u00e3o, uma estrutura se desenha: um buraco ou seu avesso, um muro. Um hiato entre passado e presente desfaz os la\u00e7os do sujeito com os outros e com ele mesmo. O Outro privatizado se infiltra, se espalha. Ao desejo destru\u00eddo se substituem a miss\u00e3o e sua ordem. Nessa depura\u00e7\u00e3o, nesse desfiar, o objeto-causa alojado no Outro est\u00e1 disjunto do sujeito. O outro no Outro lhe faz produzir ent\u00e3o \u2013 poder\u00edamos dizer, secretar \u2013 seu efeito t\u00f3xico, isto \u00e9, seu pr\u00f3prio real.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o deve ser situado no registro do sentido \u2013 do tipo causa e efeito -, mas no registro do casual \u2013 do real da causa que leva \u00e0 a\u00e7\u00e3o, que a organiza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse fen\u00f4meno se estende \u00e0s pris\u00f5es aonde chegam, frequentemente, dez a vinte vezes seguidas, muitos dos chamados delinquentes, com fragilidades subjetivas n\u00e3o diagnosticadas, \u00e0 beira da dissocia\u00e7\u00e3o, t\u00e3o bem descritas por esse esquecido termo hebefrenia. Ele descrevia essas patologias da a\u00e7\u00e3o, passagens ao ato iterativas e ingenuamente concebidas, mostra\u00e7\u00e3o de uma busca nebulosa e informe \u00e0s portas da esquizofrenia. O discurso anal\u00edtico permanece como o \u00fanico hoje a reivindicar para o homem a causalidade significante que o torna falasser. Alguns destinat\u00e1rios \u00e0 altura de sua tarefa, os analistas, devem participar da vida da cidade plenamente, e apostemos que isso se mostrar\u00e1 cada vez mais necess\u00e1rio: o real despreza as leis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Propomos aqui uma luz sobre esse real: o terr\u00edvel encontro entre um jovem cujo discurso se desfaz e aqueles que tecem com ele o tecido da vontade deles. Talvez algo poder\u00e1 ser alcan\u00e7ado sobre esse fato, isto \u00e9, somente o di\u00e1logo anal\u00edtico pode alcan\u00e7ar o real: aos nossos pol\u00edticos, para bom entendedor, uma palavra basta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Agir para ser, enfim\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tive a oportunidade de encontrar, em um local de deten\u00e7\u00e3o, um jovem estudante do segundo grau, como tantos outros. Nascido em uma fam\u00edlia mu\u00e7ulmana n\u00e3o muito praticante, n\u00e3o comer carne de porco lhes era a \u00fanica observ\u00e2ncia. Ele tinha vindo a Paris para realizar um assassinato em massa e vingar seus irm\u00e3os mu\u00e7ulmanos, punindo os \u00edmpios e sua aud\u00e1cia em blasfemar, mas foi impedido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, a exibi\u00e7\u00e3o de um filme considerado ofensivo ao isl\u00e3 havia provocado rea\u00e7\u00f5es contra e a favor atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de manifesta\u00e7\u00f5es. Ele quis agir tamb\u00e9m como os outros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Trata-se, portanto, de um jovem, G., at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o praticante, que acabava de fazer dezoito anos. Dezoito anos \u2013 idade adulta, da passagem \u00e0 maioridade legal. Idade da responsabilidade civil e do direito ao voto, do direito a participar plenamente da vida pol\u00edtica, dos neg\u00f3cios do mundo. \u00c9 uma travessia, um salto para o desconhecido, \u00e0s vezes para o vazio, o saut de l\u2019ange[5].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>G. mostra-se t\u00edmido, parece ser mais novo do que sua idade, uma certa imaturidade \u00e9 percept\u00edvel. Est\u00e1 no terceiro ano do ensino m\u00e9dio e sempre foi um \u00f3timo aluno, nunca teve problemas na escola, muito pelo contr\u00e1rio! Um amigo percebeu que \u201calguma coisa n\u00e3o ia bem\u201d com G. Esse, n\u00e3o conseguindo mais falar com o amigo, consulta as redes sociais \u2013 para quem sabe ler, tudo est\u00e1 l\u00e1 escrito: O homem que vai corrigir os erros aparecia sobre o pano de fundo do que antes era um \u201ceu n\u00e3o estou a\u00ed, sou apenas um reflexo, eu retweeto[6]\u201d. Ser, enfim, mesmo que seja na morte, e, al\u00e9m do mais, para alguma coisa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ele foi preso por posse de armas no trem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ser como todo mundo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jovem inteligente, aberto \u00e0 conversa, ele mostra, no entanto, durante a entrevista, uma incontest\u00e1vel retic\u00eancia. Uma retic\u00eancia do tipo: \u201cSenhora, eu quero responder a todas as perguntas, l\u00f3gico que responderei \u00e0s perguntas, eu n\u00e3o deixarei de responder \u00e0s perguntas, mas \u00e9 claro, vou responder \u00e0s perguntas\u201d, o que \u00e9 evidentemente uma maneira de n\u00e3o responder \u00e0s perguntas. Isso se chama retic\u00eancia prolixa, um muro de prote\u00e7\u00e3o: barragem fluida sustentada pelas estruturas de linguagem. Estar a\u00ed ou em outro lugar, tanto faz! A ironia se aplica a si mesmo, o resto n\u00e3o conta, ele est\u00e1 \u00e0 espera daquele que far\u00e1 alguma coisa dele. \u00c9 nesse ponto que, com a nossa \u00e9tica, nosso saber pode fazer concorr\u00eancia com o sem f\u00e9 nem lei do Outro b\u00e1rbaro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nascido em uma cidade do interior, onde a fam\u00edlia veio morar da \u00c1frica do Norte em uma data imprecisa, seu pai trabalhava \u201ccomo todo mundo\u201d e as pessoas gostavam dele. Sua m\u00e3e, dona de casa, criava os filhos. \u201cMeu pai, diz ele, \u00e9 como todo mundo, n\u00f3s somos como todo mundo\u201d. Ele n\u00e3o pode precisar mais al\u00e9m disso: essa significa\u00e7\u00e3o \u00faltima e absoluta, constituinte e identit\u00e1ria, lhe dava um lugar. De sua inf\u00e2ncia, ele n\u00e3o diz nada ou pouca coisa, pois ele acha que n\u00e3o tem nada a dizer, isso \u00e9 um fato. \u00c9 um fato fora da dial\u00e9tica. As \u00fanicas perguntas a serem feitas nesse caso s\u00e3o banais, concretas, que tentam se aproximar da motiva\u00e7\u00e3o. Se ela existe, s\u00f3 poder\u00e1 ser apreendida lateralmente, parcialmente \u00e0s vezes, mas durante esse tempo, o di\u00e1logo continua.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O sexo, a morte por arrombamento<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Muito querido por seus professores, sua inf\u00e2ncia se passou sem altos nem baixos, sem v\u00edcios, tanto no plano social quanto no plano ps\u00edquico. Ele n\u00e3o teve problemas e de fato quase nada foi problema para ele. Adaptava-se docilmente, moldava-se ao que lhe pediam para fazer. Nunca teve ang\u00fastia, nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o, principalmente sobre a quest\u00e3o da morte. Para ele, isso n\u00e3o tinha nenhum interesse; tinha a vida e tinha a morte: palavras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Passar das palavras \u00e0s coisas \u00e9 o que deve acontecer com a maioridade. Ele encontra uma jovem, \u201ccomo todo mundo\u201d, mas \u00e9 preciso colocar um corpo, e isso n\u00e3o acontece: ele se dissocia e se esgar\u00e7a. Alguns beijos, e logo uma parte dele tem pressa em pertencer a ela para se pertencer. Ele a assedia, chega mesmo a invadir sua sala de aula numa escola que n\u00e3o \u00e9 a sua. O diretor d\u00e1 queixa, sem resultado, ningu\u00e9m se interessa por isso; a jovem faz o mesmo por causa de SMS invasivos, tanto de dia quanto \u00e0 noite. Confrontar-se com o sexo, com a morte, \u00e9 confrontar-se com a castra\u00e7\u00e3o, com o n\u00e3o-todo. Ele \u00e9 confrontado com o vazio, com a perda de qualquer senso cr\u00edtico, com a aus\u00eancia de divis\u00e3o, j\u00e1 que imposs\u00edvel. Ele est\u00e1 condenado \u00e0 necessidade de que o corpo e as palavras fa\u00e7am Um, fa\u00e7am Todo, sejam resposta e n\u00e3o pergunta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Deus e o al\u00e9m<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 nesse vazio, nessa incerteza, nessa espera em que tudo nele se oferece \u00e0 abnega\u00e7\u00e3o, na condi\u00e7\u00e3o de que ele recupere um corpo, que p\u00f4de se produzir a fa\u00edsca de um encontro, um encontro no sentido forte, total, m\u00edstico religioso ou n\u00e3o: uma experi\u00eancia de gozo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ele me conta que, como bom cientista, consultou a internet para \u201centender como ser um homem\u201d, \u201centender o que significa crer\u201d. A conselho de um colega que lhe apresentou outros colegas, ele encontrou num site uma s\u00e9rie que est\u00e1 passando ainda hoje. Esta lhe cai como uma luva, j\u00e1 que seu t\u00edtulo est\u00e1 relacionado com a vida depois da morte. Mais amplamente com o Al\u00e9m, precisamente a dimens\u00e3o que lhe falta, pois ele a identificou nos outros: eles t\u00eam um ar de cumplicidade, falam, gozam. O sexo e a morte se misturam, e ele, separado do um, \u00e9 lan\u00e7ado no outro. Como Paulo, no caminho de Damasco, \u00e9 uma revela\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o sabia o que era a morte, ele a encontrou ali, naquela s\u00e9rie. As novas palavras vieram nomear o sacrif\u00edcio, a pergunta se abriu ao mesmo tempo em que a resposta a fechava novamente: a eternidade, e, sobretudo, uma vida no al\u00e9m, inef\u00e1vel, infinita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nessa s\u00e9rie que vai em busca dos seres mais fr\u00e1geis, ele \u00e9 guiado, \u00e9 carregado, colocam-lhe balizas. Ela exp\u00f5e o dejeto e a morte, e, isso, de maneira muito concreta: \u201ca riqueza, o dinheiro, tomam conta de voc\u00ea at\u00e9 que voc\u00ea visite o t\u00famulo comigo\u201d. As imagens nos conduzem: \u201cVoc\u00ea j\u00e1 foi a um enterro em um cemit\u00e9rio? E a\u00ed voc\u00ea pensa, um dia serei eu\u201d; \u201cO crente n\u00e3o est\u00e1 preocupado com essa vida enganosa, o crente trabalha pela eternidade.\u201d A morte torna-se objeto, objeto precioso, ela \u00e9 o objeto que substitui o falo; ent\u00e3o, para aquele a quem ele falta, ela se torna a mais-valia de seu ser, e seu ser pode alien\u00e1-lo a esse outro, que a colocou em jogo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nessa s\u00e9rie, a morte manifesta-se topologicamente com o seu al\u00e9m, que \u00e9 ao mesmo tempo um aqu\u00e9m ou, melhor dizendo, como uma eternidade de gozo concreta onde todo temor se apaga. \u00c9 uma tomada de poder total. As a\u00e7\u00f5es podem ser perpetradas na dimens\u00e3o megaloman\u00edaca que lhe \u00e9 consubstancial \u2013 careta do ideal \u2013, enquanto a consci\u00eancia e o esp\u00edrito cr\u00edtico desse jovem se obscureceram. De repente, ele tinha a imensid\u00e3o diante dele. Isso vinha responder evidentemente \u00e0 impot\u00eancia que ele tinha diante da vida, do sexo, do amor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A abnega\u00e7\u00e3o e sua l\u00f3gica<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tendo se tornado crente \u00e0 sua maneira, aqueles que ele encontra no rastro dessa captura s\u00e3o como \u00edm\u00e3s \u201c\u00e0s voltas diretamente com o al\u00e9m\u201d, mais fortes, portanto, do que os \u00edm\u00e3s tradicionais. Ele est\u00e1, desde ent\u00e3o, diretamente ligado a um dever delirante. Um v\u00eddeo americano controverso, A inoc\u00eancia dos mu\u00e7ulmanos[7], causou um alvoro\u00e7o naquele ano e manifesta\u00e7\u00f5es aconteceram quase em toda a Fran\u00e7a. Ele deseja participar, mas perde-se no caminho. Experimenta ent\u00e3o um mal-estar cada vez maior, \u201cele n\u00e3o fez o que tinha que fazer\u201d; seguem-se raiva, tens\u00e3o, nervosismo. A ideia de que \u201cele tem que fazer alguma coisa\u201d come\u00e7a a surgir em sua cabe\u00e7a: a a\u00e7\u00e3o como raz\u00e3o cujo objeto resta a definir pelo outro, no outro. Ele quer viajar para o exterior, mas um hadith do profeta diz, no momento certo, que n\u00e3o deveria viajar sozinho. Um amigo perguntou se ele tinha ficado louco, o que o tornou suspeito a seus olhos. Ele se afasta progressivamente daqueles que proferem a menor d\u00favida ou pergunta. Precisava fazer alguma coisa, puro imperativo que n\u00e3o foi seguido por nenhuma declina\u00e7\u00e3o, por nenhum desenvolvimento e que \u00e9, para os psicanalistas, o ind\u00edcio da \u00faltima muralha antes de uma precipita\u00e7\u00e3o na passagem ao ato ou no presente congelado de sua prepara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Surge uma associa\u00e7\u00e3o que \u201czomba\u201d dos manifestantes, caricaturas s\u00e3o publicadas: \u00e9 preciso eliminar os membros, pergunta-resposta sem o distanciamento da cr\u00edtica, sem a passagem pela raz\u00e3o ou pela lei, absorvida no curto-circuito da a\u00e7\u00e3o, como um comando vindo de outro lugar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>G. comprou ent\u00e3o armas e sua passagem. \u201cO que voc\u00ea queria fazer?\u201d \u201cMat\u00e1-los, \u00e9 proibido zombar, xingar.\u201d \u201cComo voc\u00ea teve essa ideia?\u201d \u201cAssim\u2026 eu passei da defesa ao ataque.\u201d \u201cHoje voc\u00ea viajaria para algum lugar?\u201d \u201c\u00c9 dif\u00edcil dizer, \u00e9 proibido viajar sozinho.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A confiss\u00e3o de um gozo: uma m\u00edstica materialista<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O analista pode sustentar um di\u00e1logo no semblante, menos destinat\u00e1rio do que instrumento para ler o real, interessar-se pelo sujeito \u2013 \u00e9 o que ele pode \u00e0s vezes dar a saber: seu saber fazer est\u00e1 al\u00e9m de sua experi\u00eancia, ele se regula pelo valor do real. De minha parte, eu avan\u00e7ava lentamente em dire\u00e7\u00e3o a esse ponto de real que o cegara, real que n\u00e3o se apaga, mas insiste, \u00fanico registro a ser desnudado, se pretendemos antecipar, desviar, at\u00e9 mesmo impedir seus piores efeitos. \u201cIsso te levou muito longe, disse eu, seus colegas te deixaram sozinho. Voc\u00ea queria assistir de novo essa s\u00e9rie, que foi em todo caso nociva, j\u00e1 que ela te levou \u00e0 pris\u00e3o?\u201d Ele suspende sua resposta, reflete por um bom tempo \u2013 um momento de confian\u00e7a, de la\u00e7o, um esfor\u00e7o, um esbo\u00e7o de transfer\u00eancia. Ele me d\u00e1, com um sorriso distante, em um peda\u00e7o de real sua verdadeira resposta, sincera no di\u00e1logo: \u201cSe, no ver\u00e3o, no deserto, algu\u00e9m te oferecesse um excelente sorvete para provar, e voc\u00ea ignorasse a sua exist\u00eancia, voc\u00ea tem certeza de que n\u00e3o aceitaria mesmo?\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o estamos mais no intelecto: aqui, o ponto de real \u00e9 percept\u00edvel. G. experimentou, provou alguma coisa f\u00edsica, m\u00edstica, ele que n\u00e3o sabia at\u00e9 ent\u00e3o que tinha um corpo. Provar \u00e9 do corpo, um \u00eaxtase material, um \u00eaxtase leigo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lugares para um la\u00e7o<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E aqui, evidentemente, isso diz que seu esp\u00edrito estava obscurecido, mas isso diz tamb\u00e9m que isso pode, que isso tenta voltar. \u00c9 preciso colocar mais tecido nisso, mais tecido ps\u00edquico, mas n\u00e3o s\u00f3: como todo o seu percurso indica, conv\u00e9m trabalhar sutilmente com ele, na dire\u00e7\u00e3o dele, n\u00e3o larg\u00e1-lo, acompanh\u00e1-lo para que ele te\u00e7a novamente la\u00e7os humanos contra o \u00eaxtase mortal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel fechar os olhos para o fato de que h\u00e1 muito tempo a pris\u00e3o suplantou os centros m\u00e9dico-psicol\u00f3gicos, os hospitais e os diferentes lugares de tratamento: facilidade financeira, pobreza te\u00f3rica por aus\u00eancia de b\u00fassola, \u00e9 preciso economizar!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os la\u00e7os s\u00e3o o tecido que uma psiquiatria esclarecida pela psican\u00e1lise poderia tecer, em seus lugares institucionais, para que o fora n\u00e3o seja um fora antropof\u00e1gico, onde aquele que se diz o mestre, o pai ou o irm\u00e3o devora os seus. Esses jovens subitamente convertidos colocam menos a quest\u00e3o da justi\u00e7a e da puni\u00e7\u00e3o do que a quest\u00e3o de um saber a ser reencontrado pela psiquiatria. E, para aqueles que nos governam, revalorizar, aumentar lugares de proximidade onde exerc\u00ea-la; onde a presen\u00e7a f\u00edsica, o tempo necess\u00e1rio n\u00e3o seriam quantificados mas dependeriam da rela\u00e7\u00e3o com o gozo; lugares orientados pela psican\u00e1lise que \u00e9 o futuro da psiquiatria para que a\u00ed se enganchem, com a transfer\u00eancia, aqueles que nomeamos com tanta facilidade como os desenganchados[8] \u2013 juventude \u00e0 deriva oferecida a ser capturada.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: M\u00e1rcia Bandeira<\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o: M\u00e1rcia Souza Mez\u00eancio<\/h6>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<h6>[1] Interven\u00e7\u00e3o pronunciada durante a Jornada de Estudos \u201cPsiquiatria e Justi\u00e7a\u201d no Nouvel H\u00f4pital de Navarre de Evreux, em 2 de dezembro de 2014.<\/h6>\n<h6>[2] Aichhorn A., Freud, S., Jeunesse \u00e0 l\u2019abandon [1925], reedi\u00e7\u00e3o, Toulouse, Editions Privat, 1973.<\/h6>\n<h6>[3] Lacan J., Le S\u00e9minaire, livre VI, Le d\u00e9sir et son interpretation, Paris, Seuil, 2013, p. 345<\/h6>\n<h6>[4] Miller, J.-A., \u201cEm direction de l\u2019adolescence\u201d, Interpeler l\u2019enfant, collection La petite Girafe, 2015.<\/h6>\n<h6>[5] NT: Fazer o \u201csalto do anjo\u201d significa saltar ou mergulhar de grandes alturas abrindo ao m\u00e1ximo os bra\u00e7os e juntando as pernas. A express\u00e3o \u00e9 uma met\u00e1fora que nos remete \u00e0 simbologia celeste das asas abertas de um anjo suspenso nos ares.<\/h6>\n<h6>[6] NT: Em franc\u00eas, \u201cretweeter\u201d, neologismo que significa reescrever tweets.<\/h6>\n<h6>[7] L\u2019innocence des musulmans \u00e9 um v\u00eddeo americano difundido em 2012 no YouTube.<\/h6>\n<h6>[8] NT: No original d\u00e9crocheurs, no sentido daqueles que s\u00e3o abandonados, que se desgarraram, que perderam toda a refer\u00eancia.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<\/div>\n<h6><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<hr \/>\n<h6><strong>Francesca Biagi-Chai<\/strong><\/h6>\n<h6>Analista Membro da Escola (AME) pela \u00c9cole de la Cause Freudienne (ECF), Membro da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP). E-mail:\u00a0<span id=\"cloake77388a65754a8b65e0392bda611ef12\"><a href=\"mailto:bia.chai@free.fr\">bia.chai@free.fr<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FRANCESCA BIAGI-CHAI &nbsp; &nbsp; GIULIA PUNTEL O come\u00e7o do s\u00e9culo XXI viu aparecer na juventude um fen\u00f4meno que est\u00e1 crescendo: um certo nomadismo, uma grande mobilidade e labilidade[1]. \u00c0 inf\u00e2ncia turbulenta, qualificada pelo termo medicalizado hiperativa, segue-se uma adolesc\u00eancia, uma juventude em constante busca de uma causa exterior a si mesma que lhe escaparia e&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58153,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-840","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-17","category-13","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/840","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=840"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/840\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58154,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/840\/revisions\/58154"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58153"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=840"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=840"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=840"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}