{"id":851,"date":"2016-07-17T06:56:48","date_gmt":"2016-07-17T09:56:48","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=851"},"modified":"2025-12-01T16:42:43","modified_gmt":"2025-12-01T19:42:43","slug":"mentira-e-ficcao-o-discurso-da-histerica-a-cura-pela-fala-e-o-indizivel-do-sinthoma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2016\/07\/17\/mentira-e-ficcao-o-discurso-da-histerica-a-cura-pela-fala-e-o-indizivel-do-sinthoma\/","title":{"rendered":"Mentira E Fic\u00e7\u00e3o: O Discurso Da Hist\u00e9rica, A Cura Pela Fala E O Indiz\u00edvel Do Sinthoma"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>ANA HELENA SOUZA<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/12-Yves-Tanguy-Art-Ana-Helena.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1295\" data-large_image_height=\"1600\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-852\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/12-Yves-Tanguy-Art-Ana-Helena-829x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"829\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/12-Yves-Tanguy-Art-Ana-Helena-829x1024.jpg 829w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/12-Yves-Tanguy-Art-Ana-Helena-243x300.jpg 243w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/12-Yves-Tanguy-Art-Ana-Helena-768x949.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/12-Yves-Tanguy-Art-Ana-Helena-1243x1536.jpg 1243w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/12-Yves-Tanguy-Art-Ana-Helena.jpg 1295w\" sizes=\"auto, (max-width: 829px) 100vw, 829px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O texto de Beckett ao qual recorro aqui \u00e9 considerado o auge da depura\u00e7\u00e3o de sua escrita. Chama-se Worstward Ho, literalmente, \u201cem dire\u00e7\u00e3o ao pior, vamos\u201d. Traduzi-o como Pra frente o pior (Beckett, 2012)[1]. Essa prosa \u00e9 constru\u00edda com extrema desconfian\u00e7a e cautela. As palavras introduzidas repetem-se, transformam-se, assumem diferentes categorias sint\u00e1ticas, s\u00e3o recombinadas, produzem ecos, num jogo de permuta\u00e7\u00f5es que, aos poucos, comp\u00f5e imagens e uma t\u00eanue narrativa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Beckett disse ter encontrado sua pr\u00f3pria voz, ao come\u00e7ar a escrever diretamente em franc\u00eas depois da Segunda Guerra. Compreendeu que em sua obra devia trabalhar com a falha, a impot\u00eancia, a ignor\u00e2ncia. Radicalizou a experi\u00eancia de abandono dos recursos liter\u00e1rios: reduziu ou praticamente eliminou enredo, personagens, nexos temporais, recursos \u00e0 verossimilhan\u00e7a e \u00e0 plausibilidade. Worstward Ho, de 1983, come\u00e7a assim: \u201cOn. Say on. Be said on. Somehow on. Till nohow on. Said nohow on.\u201d (Beckett, 2009, p. 81)[2]. Em portugu\u00eas: \u201cAdiante. Dizer adiante. Ser dito adiante. De algum modo adiante. At\u00e9 que de nenhum modo adiante. Dito de nenhum modo adiante.\u201d (Idem, 2012, p. 65). Cit\u00e1-lo em ingl\u00eas \u00e9 importante para marcar os significantes b\u00e1sicos que se fazem presentes ao longo de todo o texto: on e o seu inverso espelhado no, que comparece nesse primeiro trecho em nohow. Os verbos do dizer, no presente e no passado, say e said, incitados pelo on, s\u00e3o ao mesmo tempo relativizados pelos adv\u00e9rbios somehow e nohow. A narrativa constitui-se basicamente do que se tem a dizer e, desde o in\u00edcio, \u00e9 posta \u00e0 prova. \u00c9 preciso dizer \u201cde algum modo\u201d at\u00e9 chegar ao dito que n\u00e3o pode \u201cde nenhum modo\u201d prosseguir. O que o texto faz surgir \u00e9 algo que se forma dentro de um cr\u00e2nio. Adquirem contorno um lugar, um corpo, um olho, uma penumbra e algumas imagens. Escreve-se, assim, o empenho em tornar tanto essas imagens como o dizer que as cria mais precisos, embora a tarefa, nos \u00e9 dito, esteja fadada ao fracasso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para a primeira aproxima\u00e7\u00e3o desse texto com a psican\u00e1lise, cito uma observa\u00e7\u00e3o de J-A Miller sobre o modo poss\u00edvel de nos referirmos ao real, com os instrumentos do simb\u00f3lico:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>\u201cO fato de o real ser inassimil\u00e1vel faz com que seja sempre introduzido por um \u2018n\u00e3o\u2019. \u00c9 uma positividade que s\u00f3 pode ser abordada pelo negativo \u2013 pelo menos no que depende do simb\u00f3lico \u2013, ou seja, em sua face de imposs\u00edvel. \u00c9 preciso haver uma articula\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica para podermos dizer que alguma coisa \u00e9 imposs\u00edvel.\u201d (2011, p. 24)[3].<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em Pra frente o pior, o texto se comp\u00f5e, ao mesmo tempo, sob o signo do ON e do NO \u2013 do imperativo de continuar e da impossibilidade. Por isso, permeiam-no refer\u00eancias a um dizer que \u00e9 sempre qualificado como \u201cmal dito\u201d, como \u201cpior\u201d. Paradoxalmente aqui o pior, definido no texto, implica o que se pode fazer de melhor. \u00c9 poss\u00edvel entrever, no esfor\u00e7o de ter de valer-se do simb\u00f3lico, aquilo que no simb\u00f3lico n\u00e3o se deixa apreender, nem dizer: \u201cTentar de novo. Falhar de novo. Melhor de novo. Ou melhor pior.\u201d (Beckett, 2012, p. 66)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vimos que o texto come\u00e7a com \u201con\u201d. \u00c0 medida que a leitura avan\u00e7a, percebe-se que este \u201con\u201d n\u00e3o apenas iniciou um discurso, mas incluiu nele enunciador e destinat\u00e1rio, bem como lhe deu uma dire\u00e7\u00e3o de sentido que orienta a fic\u00e7\u00e3o. Numa segunda aproxima\u00e7\u00e3o, relaciono esse come\u00e7o \u00e0 observa\u00e7\u00e3o de Miller sobre a entrada em an\u00e1lise:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cUma an\u00e1lise come\u00e7a sob o modo de formaliza\u00e7\u00e3o. O amorfo se v\u00ea dotado de uma morfologia. (\u2026) Ao longo das primeiras sess\u00f5es, a massa mental do amorfo se reparte em elementos de discurso. S\u00f3 o fato de voc\u00ea convidar a falar aquele que est\u00e1 diante de voc\u00ea faz com que o amorfo mental dele adote uma estrutura de linguagem. (\u2026) O desenho que surge, ent\u00e3o, \u00e9 condicionado, pelo menos em parte, pelo endere\u00e7amento, pelo destinat\u00e1rio.\u201d (Miller, 2011, p. 101)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O in\u00edcio de uma an\u00e1lise institui um ordenamento, convida \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma narrativa. Gostaria de destacar na cita\u00e7\u00e3o de Miller o \u201cendere\u00e7amento\u201d e ampli\u00e1-lo para n\u00e3o apenas incluir um destinat\u00e1rio, mas um direcionamento temporal. Tal direcionamento \u00e9 dado por uma expectativa de resolu\u00e7\u00e3o, de um fim, \u00e0 medida que toda an\u00e1lise iniciante prop\u00f5e uma pergunta e deseja chegar \u00e0 resposta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No seu livro The sense of an ending, o cr\u00edtico liter\u00e1rio Frank Kermode[4] aborda os sentidos que a presen\u00e7a do fim imprime \u00e0s fic\u00e7\u00f5es. Parte da sua argumenta\u00e7\u00e3o encontra-se resumida na discuss\u00e3o de como dotamos de sentido o som que um rel\u00f3gio emite:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>\u201cPerguntamo-nos o que ele diz: e concordamos que diz tique\u2013taque. Por meio dessa fic\u00e7\u00e3o, n\u00f3s o humanizamos, fazemos com que fale nossa l\u00edngua. (\u2026) Tomo o tique-taque do rel\u00f3gio como modelo do que chamamos de enredo, uma organiza\u00e7\u00e3o que humaniza o tempo ao dar-lhe forma; e o intervalo entre o taque e o tique representa o tempo meramente sucessivo, desorganizado, do tipo que precisamos humanizar.\u201d (Kermode, 2000, p.44-45)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Segundo Kermode, com o tempo nossas fic\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m mudam as formas de dar sentido ao fim. Quando, por exemplo, a ficcionaliza\u00e7\u00e3o linear do tique-taque j\u00e1 nos parece muito f\u00e1cil, partimos para algo do tipo taque-tique, num enredo como o do Ulysses de Joyce (Idem, 2000, p. 45). De algum modo, parece-me que a entrada em an\u00e1lise, com suas correspondentes formaliza\u00e7\u00e3o e histeriza\u00e7\u00e3o do discurso, e as revela\u00e7\u00f5es que ensejam (Miller, 2011, p. 104), equivale em fic\u00e7\u00e3o a um enredo ordenado mais em conformidade com o tique-taque simb\u00f3lico. Esse tipo de ordenamento, que faz com que os eventos se encaixem numa sequ\u00eancia regular de antes e depois, pode ser percebido no desvendamento dos casos de histeria mais simples relatados por Freud.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O caso de Miss Lucy R. ilustra bem um suposto n\u00e3o-saber da hist\u00e9rica que, antes de Freud[5], era muitas vezes encarado como uma mentira, uma fic\u00e7\u00e3o. Miss Lucy, inglesa, 30 anos, governanta das filhas de um diretor de f\u00e1brica vi\u00favo e morador dos arredores de Viena, procura Freud com sintomas olfativos subjetivos. Sente com frequ\u00eancia um cheiro de torta queimada, al\u00e9m de apresentar um des\u00e2nimo e uma irritabilidade constantes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Freud soluciona o caso em etapas temporalmente invertidas. O primeiro sintoma com que Miss Lucy a ele se dirige foi desencadeado pelo evento ocorrido mais recentemente. Brincava de cozinhar com as crian\u00e7as, quando chega uma carta de sua m\u00e3e. A carta lembra-lhe que pedira demiss\u00e3o, e isso a levaria a voltar \u00e0 casa materna e deixar as crian\u00e7as, que ela amava e das quais prometera cuidar. Neste momento, a torta que faziam queima.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com a solu\u00e7\u00e3o desse primeiro sintoma aparece um outro: o cheiro de fuma\u00e7a de charuto. Este corresponde ao evento intermedi\u00e1rio, ainda n\u00e3o propriamente ao acontecimento traum\u00e1tico. O patr\u00e3o de Lucy grita com um velho amigo da fam\u00edlia que se despedira das crian\u00e7as com beijos, algo que o pai n\u00e3o tolera. \u00c9 depois do jantar, e os homens fumam. Da\u00ed o inc\u00f4modo cheiro de fuma\u00e7a de charuto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao evento traum\u00e1tico propriamente dito n\u00e3o se liga uma convers\u00e3o hist\u00e9rica. Freud apenas especula que ele tenha gerado o \u201cabatimento de \u00e2nimo\u201d da paciente. Os acontecimentos posteriores t\u00eam a fun\u00e7\u00e3o de encobrir o acontecimento traum\u00e1tico, de modo que fica claro que o trauma nem sempre d\u00e1 origem ao sintoma. Freud relaciona os acontecimentos \u201cauxiliares\u201d (2016, p. 179), que produzem o sintoma, a \u201cum intervalo de incuba\u00e7\u00e3o\u201d e menciona que Charcot a isso se referia como \u201co tempo de elabora\u00e7\u00e3o ps\u00edquica\u201d. (2016, p. 193)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A cena traum\u00e1tica, a que Freud chega depois de desvendar as auxiliares, \u00e9 a acusa\u00e7\u00e3o e amea\u00e7a de demiss\u00e3o do patr\u00e3o a Lucy, porque uma senhora em visita \u00e0 casa beijou as crian\u00e7as, algo que ele abominava, e que ela deveria impedir de acontecer. Sua ira e rispidez levam-na a compreender que n\u00e3o existe nenhum sentimento amoroso da parte dele para com ela. O primeiro dos sintomas, que corresponde ao evento intermedi\u00e1rio, sobrev\u00e9m apenas quando ela presencia cena semelhante, na qual o patr\u00e3o grita com o velho amigo da fam\u00edlia que tamb\u00e9m beijara as crian\u00e7as. J\u00e1 o segundo sintoma, que encobre o primeiro, surge por ocasi\u00e3o do recebimento da carta da sua m\u00e3e, lembrando-lhe da inten\u00e7\u00e3o de abandonar o emprego e as crian\u00e7as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Todos os eventos remetem ao amor despertado em Lucy pelo patr\u00e3o, quando este, numa conversa mais af\u00e1vel sobre a educa\u00e7\u00e3o das filhas, dirige-lhe um olhar terno. Freud sugere o sentimento \u00e0 paciente, por n\u00e3o se convencer que os eventos auxiliares eram bastante significativos para gerar o sintoma. Ela concorda de imediato. Perguntada por que lhe ocultara isso, diz: \u201cN\u00e3o o sabia de fato, ou melhor, n\u00e3o queria sab\u00ea-lo, queria tirar isso da minha cabe\u00e7a, nunca mais pensar a respeito (\u2026)\u201d(Freud, 2016, p. 170). Numa nota, Freud comenta: \u201cJamais pude obter descri\u00e7\u00e3o melhor do singular estado em que ao mesmo tempo sabemos e n\u00e3o sabemos alguma coisa.\u201d (Idem, ibidem, n.30)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A respeito do esquecimento dos eventos, Freud afirma: \u201c\u2026esse esquecimento \u00e9 com frequ\u00eancia intencional, desejado. E \u00e9 sempre bem-sucedido apenas de forma aparente.\u201d (Freud, 2016, p.162) H\u00e1, no relato de Miss Lucy, um apego a um n\u00e3o-saber que est\u00e1 longe de ser efetivo, mas que se vale de certos recursos ps\u00edquicos para encobrir as lembran\u00e7as traum\u00e1ticas. Tais recursos est\u00e3o presentes tamb\u00e9m em v\u00e1rias fic\u00e7\u00f5es, o que torna poss\u00edvel aproxim\u00e1-las, neste caso, do desvendamento dos sintomas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No Semin\u00e1rio 10, Lacan define a ang\u00fastia como um afeto (o afeto que n\u00e3o engana) e, esclarece que se pode \u201cencontr\u00e1-lo deslocado, enlouquecido, invertido, metabolizado, mas ele n\u00e3o \u00e9 recalcado. O que \u00e9 recalcado s\u00e3o os significantes que o amarram.\u201d (Lacan, 1992, p. 23)[6] Ora, Miss Lucy sabe que ama o patr\u00e3o. Mas percebeu que seu sentimento n\u00e3o era correspondido, quando ocorreu a cena entre os dois depois de uma convidada ter beijado as crian\u00e7as. A reitera\u00e7\u00e3o desse saber na segunda cena, desta vez diretamente com outro convidado, produziu o sintoma do cheiro de fuma\u00e7a de charuto, depois encoberto pelo de cheiro de torta queimada. Aqui h\u00e1 invers\u00e3o temporal, o \u00faltimo sintoma prevalece sobre o primeiro, na tentativa de empurrar o afeto a que se liga para o esquecimento, e h\u00e1 deslocamento, da raiva do patr\u00e3o dirigida a ela \u00e0 raiva dele dirigida ao convidado. Aparece uma estrutura de fic\u00e7\u00e3o, no que a fic\u00e7\u00e3o pode apresentar como suspense, encobrimento para posterior descoberta, paralelismos, reviravoltas, em suma, no que com frequ\u00eancia se reconhece como mentiras, truques ficcionais. No caso de Lucy, as solu\u00e7\u00f5es seguem o tiquetaquear simb\u00f3lico de um desvelamento linear \u2013 mesmo que de tr\u00e1s para a frente. Ainda era o s\u00e9culo XIX, as hist\u00e9ricas ainda eram acusadas de mentirosas. Freud lhes d\u00e1 um direito de defesa:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>\u201cAssim, por um lado, o mecanismo que produz a histeria corresponde a um ato de hesita\u00e7\u00e3o moral; por outro, apresenta-se como um dispositivo de prote\u00e7\u00e3o que se acha \u00e0s ordens do Eu. H\u00e1 n\u00e3o poucos casos em que \u00e9 preciso admitir que a defesa contra o crescimento de excita\u00e7\u00e3o, pela produ\u00e7\u00e3o de histeria, foi mesmo, ent\u00e3o, a coisa mais apropriada (\u2026).\u201d (Freud, 2016, p. 178 \u2013 grifo meu)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando Freud no final pergunta \u00e0 paciente: \u201cE voc\u00ea ainda ama o diretor?\u201d Ela responde: \u201cAmo-o seguramente, mas isso j\u00e1 n\u00e3o me perturba. Posso pensar e sentir comigo mesma o que quiser.\u201d (Freud, 2016, p. 176) Com os poucos elementos fornecidos, pode-se arriscar dizer que a satisfa\u00e7\u00e3o de Lucy com a resolu\u00e7\u00e3o do seu sintoma se sustenta no gozo de um amor n\u00e3o correspondido. Sua an\u00e1lise interrompe-se ainda naquela fase inicial que J-A Miller diz se desenvolver \u201csob o signo da revela\u00e7\u00e3o\u201d (Miller, 2011, p. 104). Esse caso, a meu ver, \u00e9 bem t\u00edpico da \u201ctalking cure\u201d em seu come\u00e7os. Come\u00e7os da psican\u00e1lise: o come\u00e7o freudiano, com o m\u00e9todo psicanal\u00edtico propriamente dito; mas tamb\u00e9m o come\u00e7o lacaniano[7], com a preval\u00eancia do simb\u00f3lico sobre o real. Em ambos, buscava-se chegar \u00e0 cura pela fala.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas quando Freud elabora em Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer o conceito de repeti\u00e7\u00e3o, Lacan diz que a\u00ed entra em jogo o gozo (Lacan, 1998b, p. 43)[8]. Trata-se aqui de um \u201cgozo opaco\u201d, esse gozo que Miller caracteriza como \u201cinsubmisso, rebelde, incompat\u00edvel aos olhos da estrutura da linguagem e que n\u00e3o se deixa significar\u201d (2011, 190). A exist\u00eancia do real se imp\u00f5e, sem que a linguagem possa verdadeiramente apreend\u00ea-lo, no sentido de fazer com que fa\u00e7a sentido. Lacan coloca as coisas assim: \u201cPor\u00e9m, o que \u00e9 verdadeiro? Meu Deus, \u00e9 aquilo que \u00e9 dito. E o que \u00e9 dito? \u00c9 a frase. Mas a frase, n\u00e3o h\u00e1 meios de faz\u00ea-la se sustentar em outra coisa sen\u00e3o no significante, na medida em que este n\u00e3o concerne ao objeto.\u201d (Lacan, 1998b, p. 53) Chega-se assim ao sinthoma como \u201co elemento que n\u00e3o pode desaparecer, que \u00e9 constante\u201d (Miller, 2011, p. 11), a um final que pode se presentificar no \u201cpasse do falasser, que n\u00e3o \u00e9 o testemunho de um sucesso, mas de um certo modo de ratear.\u201d (Miller, 2011, p. 124)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Numa fic\u00e7\u00e3o, mesmo que n\u00e3o haja nenhuma revela\u00e7\u00e3o a ser feita, h\u00e1 de qualquer forma sempre um fim. De volta a Beckett, esse fim diz de si mesmo e, ao faz\u00ea-lo, exp\u00f5e o esgotamento do texto: \u201cDe nenhum modo menos. De nenhum modo pior. De nenhum modo nada. De nenhum modo adiante. Dito de nenhum modo adiante.\u201d (Beckett, 2012, p. 87) Com isso quero dizer que a fic\u00e7\u00e3o de Beckett tamb\u00e9m esbarra no irredut\u00edvel, de onde revela tanto o fracasso como o sucesso do seu dito, ao expor a falha da linguagem.<\/p>\n<h6><\/h6>\n<\/div>\n<h6><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6>[1] BECKETT, S. \u201cPra frente o pior\u201d, Companhia e outros textos. Trad. Ana Helena Souza. S\u00e3o Paulo: Globo, 2012.<\/h6>\n<h6>[2] BECKETT, S. \u201cWorstward Ho\u201d, Company etc. Faber &amp; Faber: London, 2009.<\/h6>\n<h6>[3] MILLER, J-A. Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan: entre desejo e gozo. Trad. Vera Avellar Ribeiro. Rio De Janeiro: Zahar, 2011.<\/h6>\n<h6>[4] KERMODE, F. The sense of an ending: studies in the theory of fiction. Oxford: Oxford University Press, 2000.<\/h6>\n<h6>[5] FREUD, S. Obras Completas (1893-1895), v. 2: Estudos sobre a Histeria, em coautoria com Josef Breuer. Trad. Laura Barreto. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2016.<\/h6>\n<h6>[6] LACAN, J. (1962-1963) O Semin\u00e1rio. Livro X: A ang\u00fastia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992.<\/h6>\n<h6>[7] LACAN, J. \u201cA dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder\u201d. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998a, p. 591-652.<\/h6>\n<h6>[8] LACAN, J. (1969-70) O Semin\u00e1rio. Livro XVII: O avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998b.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><strong>Ana Helena Souza<\/strong><\/h6>\n<h6>Aluna do Curso de Psican\u00e1lise do IPSM-MG. Tradutora, doutora em Teoria Liter\u00e1ria e Literatura Comparada (USP) e autora do livro A tradu\u00e7\u00e3o como um outro original. Email:\u00a0<span id=\"cloake0dbac31f30c075d1ccb0173f575f8ec\"><a href=\"mailto:ahelenasouza@gmail.com\">ahelenasouza@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ANA HELENA SOUZA &nbsp; O texto de Beckett ao qual recorro aqui \u00e9 considerado o auge da depura\u00e7\u00e3o de sua escrita. Chama-se Worstward Ho, literalmente, \u201cem dire\u00e7\u00e3o ao pior, vamos\u201d. Traduzi-o como Pra frente o pior (Beckett, 2012)[1]. Essa prosa \u00e9 constru\u00edda com extrema desconfian\u00e7a e cautela. As palavras introduzidas repetem-se, transformam-se, assumem diferentes categorias&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58105,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[],"class_list":["post-851","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-18","category-14","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/851","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=851"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/851\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58106,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/851\/revisions\/58106"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58105"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=851"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=851"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=851"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}