{"id":855,"date":"2016-07-17T06:56:48","date_gmt":"2016-07-17T09:56:48","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=855"},"modified":"2025-12-01T16:43:15","modified_gmt":"2025-12-01T19:43:15","slug":"avatares-e-atualidade-do-complexo-de-intrusao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2016\/07\/17\/avatares-e-atualidade-do-complexo-de-intrusao\/","title":{"rendered":"Avatares E Atualidade Do \u201cComplexo De Intrus\u00e3o\u201d"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>JEAN-DANIEL MATET<\/strong><\/h6>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/11-Matet-Two-Sisters-and-a-Brother-of-the-Artist-xx-Sofonisba-Anguissola-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"475\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-856\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/11-Matet-Two-Sisters-and-a-Brother-of-the-Artist-xx-Sofonisba-Anguissola-1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"475\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/11-Matet-Two-Sisters-and-a-Brother-of-the-Artist-xx-Sofonisba-Anguissola-1.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/11-Matet-Two-Sisters-and-a-Brother-of-the-Artist-xx-Sofonisba-Anguissola-1-300x238.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p>O destino do Complexo de \u00c9dipo e o que est\u00e1 para al\u00e9m dele selam o destino da fam\u00edlia pela estrutura fora da natureza da transmiss\u00e3o humana que eles condicionam. Nesse ponto, a fam\u00edlia lacaniana \u00e9, numa primeira abordagem, bem semelhante \u00e0 fam\u00edlia freudiana. Ser\u00e1 que poder\u00edamos dizer que a diferen\u00e7a entre \u201cneurose familiar\u201d e \u201cpsicose de tema familiar\u201d, introduzida por Lacan nos Complexos Familiares[1] para declinar as variedades patol\u00f3gicas da fam\u00edlia, teria sido reduzida posteriormente no seu ensino pelo lugar dado ao Nome-do-Pai e suas modalidades? Essa diferen\u00e7a indicava a falha do la\u00e7o social nas psicoses e fazia do sintoma neur\u00f3tico o sintoma familiar por excel\u00eancia, na melhor inspira\u00e7\u00e3o freudiana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em \u201cPsicologia das massas e an\u00e1lise do eu\u201d, Freud sublinha a solidariedade existente entre o que ele chama ent\u00e3o de psicologia individual e psicologia coletiva. Lacan dar\u00e1 import\u00e2ncia a essa fonte freudiana durante todo o seu ensino: o outro \u201c[\u2026] est\u00e1 invariavelmente envolvido na vida mental do indiv\u00edduo, como um modelo, um auxiliar, um oponente [\u2026]\u201d (FREUD, 1921\/1976, p. 91)[2].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A irmandade: uma pequena multid\u00e3o freudiana<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os irm\u00e3os e irm\u00e3s s\u00e3o muitas vezes a primeira multid\u00e3o com a qual o sujeito \u00e9 confrontado, condicionando, em parte, o estilo das suas futuras rela\u00e7\u00f5es sociais. As fam\u00edlias se revestem de formas diferentes, segundo as tradi\u00e7\u00f5es que as organizam; a etnologia nos deu as mais precisas descri\u00e7\u00f5es sobre isso. A \u201ccontra\u00e7\u00e3o\u201d da institui\u00e7\u00e3o familiar descrita por Lacan (1938\/2003, p. 32), reduzida ao casal parental e a um ou dois filhos, n\u00e3o deixa de ser ainda hoje muito atual. O que mudou, como observou \u00c9ric Laurent, foi a import\u00e2ncia do casamento e se o filho \u00fanico n\u00e3o desapareceu \u2013 \u00e9 comum hoje que a fam\u00edlia se amplie pela recomposi\u00e7\u00e3o, tendo em vista que o contrato de dura\u00e7\u00e3o determinada substituiu o \u201cpara sempre\u201d das coabita\u00e7\u00f5es parentais. A fam\u00edlia n\u00e3o \u00e9 mais somente o lugar da transmiss\u00e3o filial, distribuindo entre os irm\u00e3os e irm\u00e3s um estatuto suscet\u00edvel de variar e de marcar, assim, a vida social. Havia antes os irm\u00e3os de sangue e os irm\u00e3os de leite, h\u00e1 hoje os meios-irm\u00e3os e irm\u00e3s que n\u00e3o tem, \u00e0s vezes, nenhuma liga\u00e7\u00e3o de sangue, caso a recomposi\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia j\u00e1 tenha conhecido v\u00e1rias etapas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O psicanalista poderia ficar tentado a abandonar ao soci\u00f3logo, ao etn\u00f3logo ou ao sistemista essas considera\u00e7\u00f5es sobre a fam\u00edlia, preferindo se ocupar somente dos destinos sintom\u00e1ticos do sujeito, qualquer que fosse seu modo de exist\u00eancia social. Freud, que passava longe do risco de dizer uma banalidade, justificava essas considera\u00e7\u00f5es sobre os irm\u00e3os e irm\u00e3s pela dist\u00e2ncia que ele constatava existir entre o ideal social da fam\u00edlia e a realidade das rela\u00e7\u00f5es fraternas, citando, para esse prop\u00f3sito, Bernard Shaw: \u201cVia de regra, s\u00f3 existe uma pessoa que uma menina inglesa odeia mais do que a sua m\u00e3e; \u00e9 a sua irm\u00e3 mais velha\u201d (FREUD, 1915-16\/1976, p. 246)[3]. A concorr\u00eancia e a rivalidade entre irm\u00e3os e irm\u00e3s s\u00e3o, portanto, inerentes \u00e0 irmandade e corroboram, assim, a observa\u00e7\u00e3o feita por Freud (Ibidem), segundo a qual n\u00e3o poderia haver uma nursery sem conflito entre seus habitantes, sendo o desejo de monopolizar, em seu proveito, o amor dos pais, a possess\u00e3o dos objetos e do espa\u00e7o dispon\u00edvel ao seu motor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Enodamentos singulares<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um sujeito dispensa todos os seus esfor\u00e7os para assegurar a legitimidade de seus meios-irm\u00e3os e irm\u00e3s. Durante toda a sua vida, os pais n\u00e3o fizeram nada para abolir a distin\u00e7\u00e3o entre os filhos nascidos fora do casamento e aqueles que tinham chegado depois. Com um desejo apaixonado de repara\u00e7\u00e3o familiar, esse sujeito vai tentar abolir o que \u00e9 percebido como uma injusti\u00e7a na distribui\u00e7\u00e3o do amor parental. Essa determina\u00e7\u00e3o fantasm\u00e1tica toma consist\u00eancia no contexto de uma fam\u00edlia recomposta, que coloca o filho em posi\u00e7\u00e3o de adotar ou rejeitar um ou outro rec\u00e9m-chegado. Essa tentativa de impor a seus irm\u00e3os e irm\u00e3s uma justi\u00e7a erigida como dogma, que viria corrigir as falhas dos pais, presentifica, para esse sujeito, seu esfor\u00e7o para assumir o erro paterno, mas ele n\u00e3o encontra, entretanto, a aprova\u00e7\u00e3o que esperava.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quem, sen\u00e3o os pais, decide que se \u00e9 irm\u00e3o ou irm\u00e3 numa fam\u00edlia recomposta? Entretanto, o estatuto contratual ou legal n\u00e3o basta mais para definir os lugares ocupados por cada um numa fam\u00edlia. Assim, filhos que n\u00e3o t\u00eam nenhum la\u00e7o de consanguinidade, pois s\u00e3o enteados de uni\u00f5es precedentes, poder\u00e3o se reconhecer como irm\u00e3os e irm\u00e3s. Meios-irm\u00e3os e irm\u00e3s querer\u00e3o, ao contr\u00e1rio, ignorar a fraternidade deles. O esfor\u00e7o dos pais para fazer existir esses la\u00e7os familiares \u00e9 certamente determinante, mas deixa uma parte da decis\u00e3o a cargo do filho, que a legitimidade vela em uma irmandade consangu\u00ednea. Ora, apesar de n\u00e3o interrogar objetivamente a legitimidade do lugar de cada um, a irmandade tradicional \u00e9, entretanto, a balan\u00e7a do valor de cada um.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O sujeito interpreta, persegue eventualmente o objeto que ele foi para sua m\u00e3e e sua conjuntura de nascimento no desejo de seu pai. Ca\u00e7ula ou primog\u00eanito, o lugar ocupado na irmandade n\u00e3o \u00e9 indiferente: ao contr\u00e1rio, ele constitui a especificidade da conjuntura do nascimento de um filho numa irmandade e dos tra\u00e7os que v\u00e3o alimentar seu romance familiar. Houve um tempo em que, nas irmandades numerosas, al\u00e9m das mortes dos filhos pequenos, determinadas pelo estado sanit\u00e1rio da \u00e9poca, o papel de cada um era predeterminado. As filhas mais velhas ajudavam a m\u00e3e com os mais novos quando n\u00e3o estavam destinadas a alguma uni\u00e3o. Quanto aos rapazes, estes encontravam um lugar em fun\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o e da fortuna familiar; numa fazenda, no ex\u00e9rcito ou na igreja eles asseguravam o funcionamento patrimonial ou estavam condenados a vender sua for\u00e7a de trabalho \u00e0 melhor oferta. Hoje, os tra\u00e7os de uma tal determina\u00e7\u00e3o s\u00e3o vis\u00edveis unicamente nas fam\u00edlias reais que fazem a alegria dos tabloides especializados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>No imp\u00e9rio da subjetividade, liberta\u00e7\u00e3o de uma mulher, entre irm\u00e3 e filha<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na fam\u00edlia contempor\u00e2nea, os irm\u00e3os e as irm\u00e3s dependem do arbitr\u00e1rio de sua subjetividade. Assim, uma ca\u00e7ula de dois filhos deduzia sua pr\u00f3pria inutilidade do seu lugar no discurso parental e do papel exercido por sua irm\u00e3 mais velha: por um lado, ela podia dizer que se parecia com seu pai e que era a preferida da m\u00e3e, por outro, ela atribu\u00eda seus sintomas aos efeitos da devasta\u00e7\u00e3o materna e \u00e0 vontade que ela tinha de ser a eleita do pai.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para um sujeito masculino, tratava-se de perceber, durante uma longa an\u00e1lise, a partir da morte de um irm\u00e3o e do aparecimento de uma fobia dos meios de transporte, o que foi interpretado por ele como irrepar\u00e1vel, ao passo que, para um outro sujeito, que veio fazer tardiamente uma an\u00e1lise, era a supervaloriza\u00e7\u00e3o da qual ele foi objeto por parte do pai, que era problem\u00e1tica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ora, tanto para um quanto para o outro, a morte de um irm\u00e3o sancionara uma vida malsucedida, apesar de um grande investimento materno. O sucesso social fora favor\u00e1vel aos dois, sem que isso abalasse sua parceria sintom\u00e1tica com uma irm\u00e3 um pouco mais velha do que eles. Quanto ao primeiro sujeito, a lembran\u00e7a de uma brincadeira com sua irm\u00e3, na qual ele negava ao ca\u00e7ula de sete anos sua qualidade de irm\u00e3o, atribuindo-lhe outros pais, diz muito sobre sua inten\u00e7\u00e3o segregativa. A seu modo, esses dois sujeitos s\u00e3o herdeiros, herdeiros do pai e da culpa que o acompanha, herdeiros do \u00c9dipo como sintoma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, uma distribui\u00e7\u00e3o justa aparentemente aconteceu com um sujeito feminino, verdadeiro herdeiro, assim como seus numerosos irm\u00e3os e irm\u00e3s, da fortuna de uma av\u00f3. Ela decidiu come\u00e7ar ent\u00e3o uma an\u00e1lise para suportar n\u00e3o ser mais uma assalariada do setor social e imaginar um futuro de far niente. Aconteceu que, para gozar da heran\u00e7a, ela deveria renunciar a um outro gozo que a depreciava e que a deixava no n\u00edvel de uma med\u00edocre desocupada com sonhos de artista \u201cbricoleur\u201d. Um sintoma acompanhava suas aspira\u00e7\u00f5es a uma vida religiosa, a uma vida de oferenda de sua pr\u00f3pria vida, que lhe fazia endossar o apelido de uma santa: as rela\u00e7\u00f5es com os homens \u00e0s quais, entretanto, ela aspirava, causavam-lhe um grande pavor. Ela se queixava de uma castidade inevit\u00e1vel e persistente que lan\u00e7ava numa atividade fantasm\u00e1tica toda pr\u00e1tica sexual. A fraternidade era seu principal modo de se relacionar, assegurando seus apoios ao sintoma, depois de ter-se refugiado numa coletividade religiosa, n\u00e3o sem que suas rela\u00e7\u00f5es intensas com seus irm\u00e3os e irm\u00e3s persistisse. Admira\u00e7\u00e3o e irrita\u00e7\u00e3o pelos irm\u00e3os mais velhos, especialmente pelas irm\u00e3s, desprezo pela mais nova e por seu sucesso universit\u00e1rio f\u00e1cil demais, constitu\u00edam a sua trama. Tinha uma rela\u00e7\u00e3o privilegiada com a irm\u00e3 um ano mais nova e com a qual dizia compartilhar aspira\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e tamb\u00e9m sintomas, o que constitu\u00eda a base de sua coniv\u00eancia. Colocar \u00e0 prova na an\u00e1lise o que ela concebia como uma nova rela\u00e7\u00e3o fraterna, a valoriza\u00e7\u00e3o pelo analista de todos os seus projetos \u201cego\u00edstas\u201d, para retomar a express\u00e3o de Freud (1915-16), tiveram como efeito a decis\u00e3o de retomar seus estudos e uma atividade assalariada \u00e0 altura de seus novos diplomas, cultivando um modo de satisfa\u00e7\u00e3o que at\u00e9 ent\u00e3o ela negava a si mesma. O avesso da coniv\u00eancia com sua irm\u00e3 ca\u00e7ula, feito de rivalidade e de avers\u00e3o odiosa, surgiu ent\u00e3o; ele permanece, ali\u00e1s, alguns anos depois, sob a forma de uma irrita\u00e7\u00e3o. O modo fraterno foi interpretado pouco a pouco como algo que encobria o conjunto das rela\u00e7\u00f5es desse sujeito com o mundo, incluindo os pais, o pai procurando sempre imperativamente a cumplicidade de suas filhas para compartilhar seus prazeres musicais ou liter\u00e1rios. Foi para ela uma revela\u00e7\u00e3o tomar conhecimento da intensidade carnal da rela\u00e7\u00e3o de seus pais. Um sonho recente faz intervir o pai como sedutor. Numa atitude er\u00f3tica sem equ\u00edvoco com a paciente, o pai a chama pelo apelido de uma tia materna considerada um \u00edcone de beleza e explicitamente rival da m\u00e3e. Esse sonho s\u00f3 vinha confirmar o que j\u00e1 tinha acontecido muitos anos antes, quando ela tinha enfim decidido aceitar as investidas de um sedutor muito mais velho do que ela, que inaugurou sua nova e tardia vida amorosa. Fazer parte da s\u00e9rie das mulheres desejadas por esse homem n\u00e3o era um obst\u00e1culo, mas, ao contr\u00e1rio, uma condi\u00e7\u00e3o sine qua non. Nenhum ci\u00fame, nenhuma reivindica\u00e7\u00e3o de exclusividade apareceu em uma rela\u00e7\u00e3o que deveria ser ef\u00eamera, mas que durou, apesar de tudo, durante v\u00e1rios anos, revelando ao sujeito os benef\u00edcios da atua\u00e7\u00e3o de um desejo sexual. Quando percebeu que sua satisfa\u00e7\u00e3o n\u00e3o estava \u00e0 altura do que ela mostrava diante das exig\u00eancias do amante, sentiu esse quiproqu\u00f3 como uma mentira e p\u00f4s um fim nessa rela\u00e7\u00e3o. Temendo, al\u00e9m disso, que a conjuntura espec\u00edfica dessa liga\u00e7\u00e3o a tornasse \u00fanica, ela tentou se colocar \u00e0 prova com outros parceiros. Esse sujeito atribui explicitamente seu sucesso profissional e a atua\u00e7\u00e3o do mal-entendido amoroso ao sucesso terap\u00eautico de sua an\u00e1lise. Ela descreve o seu tratamento como uma opera\u00e7\u00e3o de abandono de vestimentas sucessivas: a santa, a neta preferida da av\u00f3 paterna, a irm\u00e3 generalizada, fazendo com que ela se reaproximasse do que considera o campo dos gozadores em detrimento do campo dos deprimidos, no qual ela coloca v\u00e1rios dos seus irm\u00e3os e irm\u00e3s, dentre eles sua irm\u00e3 mais nova, que continua a irrit\u00e1-la. Essa evolu\u00e7\u00e3o aconteceu ao pre\u00e7o de um abandono da quest\u00e3o do filho que ela n\u00e3o pode esperar do pai, segundo a tradi\u00e7\u00e3o freudiana, introduzindo, assim, na an\u00e1lise, um limite na borda do que a determina como objeto para o outro, j\u00e1 que o poder do \u201csemelhante ao mesmo\u201d da grande irmandade se imp\u00f4s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Atualidade pol\u00edtica do complexo de intrus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan constata, a respeito do seu \u201ccomplexo de intrus\u00e3o\u201d nos Complexos Familiares, que a observa\u00e7\u00e3o experimental da crian\u00e7a e as investiga\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas, ao demonstrarem a estrutura do ci\u00fame infantil, colocaram em evid\u00eancia seu papel na g\u00eanese da sociabilidade e do conhecimento humano. O ci\u00fame, na sua ess\u00eancia, representa n\u00e3o uma rivalidade vital, mas uma identifica\u00e7\u00e3o mental, acrescenta ele. A doutrina da psican\u00e1lise faz do irm\u00e3o o objeto eletivo das exig\u00eancias da libido homossexual, insistindo na confus\u00e3o desse objeto de duas rela\u00e7\u00f5es afetivas, amor e identifica\u00e7\u00e3o, cuja oposi\u00e7\u00e3o ser\u00e1 fundamental para o est\u00e1gio ulterior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Encontramos no adulto essa ambiguidade original na paix\u00e3o do ci\u00fame amoroso \u2013 poderoso interesse que o sujeito demonstra pela imagem do rival (apesar de ele ser afirmado como \u00f3dio) ou em ser motivado pelo pretenso objeto do amor. Esse sentimento amoroso o domina tanto que ele pode ser interpretado como interesse essencial e positivo da paix\u00e3o. A agressividade m\u00e1xima encontrada nas formas psic\u00f3ticas da paix\u00e3o est\u00e1 constitu\u00edda pela nega\u00e7\u00e3o desse interesse particular, mais do que pela rivalidade que parece justific\u00e1-la.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em seu ensino, Lacan faz frequentes refer\u00eancias \u00e0s irmandades, retomando os casos freudianos do pequeno Hans, de Dora ou da jovem homossexual, comentando os casos de fobias de Anelise Schnurmann ou de H\u00e9l\u00e8ne Deutsch, a psicose das irm\u00e3s Papin, colocando a invidia agostiniana como uma refer\u00eancia maior e, sobretudo, dando todo o peso \u00e0 trag\u00e9dia de Ant\u00edgona no Semin\u00e1rio VII, A \u00e9tica da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 1972, na via de seu \u201cH\u00e1 Um\u201d, no Semin\u00e1rio in\u00e9dito \u2026Ou pior, Lacan faz o elogio do Parm\u00eanides de Plat\u00e3o, que antecipa a dial\u00e9tica do mestre e do escravo de Hegel. Ele sup\u00f5e o mito hist\u00f3rico no qual, para al\u00e9m das rela\u00e7\u00f5es do mestre e do escravo, somos todos irm\u00e3os, enquanto filhos do discurso. Uma fraternidade que traz certamente as \u201carmas e bagagens familiares\u201d, diz ele, e que faz do analista o irm\u00e3o do analisante, enquanto o analista tiver que suportar a abje\u00e7\u00e3o \u00e0 qual pode se agarrar o que vai nascer do dizer, n\u00e3o sem o bem-dizer da interpreta\u00e7\u00e3o \u00e0 qual o analista \u00e9 convidado. \u201cNosso irm\u00e3o transfigurado, \u00e9 isso que nasce da conjura\u00e7\u00e3o anal\u00edtica e \u00e9 o que nos liga \u00e0quele que impropriamente chamamos de nosso paciente\u201d (LACAN, 1972)[4]. Mas, n\u00e3o \u00e9 sem medo de um retorno violento que Lacan evoca a no\u00e7\u00e3o de irm\u00e3o nesse contexto da visada da an\u00e1lise. A essa nota universalizante, que ele nos lembra ser regulada pela exce\u00e7\u00e3o paterna, aquela que diz n\u00e3o \u00e0 castra\u00e7\u00e3o para melhor assegurar o seu alcance, ele op\u00f5e o aumento dos perigos. Retornando \u201c\u00e0 raiz do corpo\u201d, na fraternidade do corpo, \u00e9 a verdade do racismo que se anuncia e cujas \u00faltimas consequ\u00eancias ainda n\u00e3o vimos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A nova aposta de Pascal<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Antecipa\u00e7\u00e3o luminosa quando, trinta anos depois, um telefilme intitulado Pascal e o irm\u00e3o mais velho tem um sucesso de audi\u00eancia em um momento em que h\u00e1 um aumento das segrega\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias. Trata-se de um educador nomeado para cuidar de uma adolescente com dificuldades, que mant\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o apocal\u00edptica com sua m\u00e3e, que quer coloc\u00e1-la numa institui\u00e7\u00e3o. O milagre opera e o educador, que soube fazer valer os argumentos de autoridade sob a m\u00e1scara da fraternidade, tem sucesso na opera\u00e7\u00e3o. \u00c9, ali\u00e1s, a isso que a ideia do \u201cirm\u00e3o mais velho\u201d se refere, herdeiro do antigo direito de primogenitura. \u00c9 ele que suscita a confian\u00e7a de todos os irm\u00e3os, que \u00e9 amado como um irm\u00e3o ao mesmo tempo em que amea\u00e7a e exerce a sua autoridade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pode-se observar que, al\u00e9m das caricaturas de pol\u00edticos, o termo \u201cirm\u00e3o mais velho\u201d era atribu\u00eddo, na \u00e9poca da Guerra Fria, a uma pot\u00eancia estrangeira que, compartilhando seus valores, oferecia tamb\u00e9m sua prote\u00e7\u00e3o. \u00c9 assim que hoje as periferias reivindicam seu irm\u00e3o mais velho, aquele do qual suportamos os desvios de conduta e ao qual concedemos um direito de gozo, como contrapartida da autoridade que ele exerce sobre o grupo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As irmandades s\u00e3o para a psican\u00e1lise o lugar da atualidade do que restou do \u00c9dipo. Ali\u00e1s, a cl\u00ednica dos sujeitos psic\u00f3ticos testemunha isso, o que \u00e9 tamb\u00e9m confirmado pelo \u00eaxito dos casos de algumas terapias familiares como reguladora da dist\u00e2ncia ideal entre os membros do grupo. Existem irmandades com sucesso e s\u00e3o, sem d\u00favida, aquelas nas quais o sujeito est\u00e1 convencido de que \u00e9 sempre poss\u00edvel conviver com os seus piores inimigos quando as hostilidades n\u00e3o existem mais. O que resta no cerne da experi\u00eancia anal\u00edtica \u00e9 a maneira pela qual o sujeito ter\u00e1 negociado sua parceria sintom\u00e1tica; assim, o irm\u00e3o ou a irm\u00e3 encarna, em um dado momento, um resto do desejo dos pais, deixando sua marca na sociabilidade do tempo. Dessa forma, a fraternidade \u00e0 qual a nossa \u00e9poca nos convida sempre um pouco mais, at\u00e9 o clone, para uma melhor igualdade, deve suscitar a vigil\u00e2ncia do psicanalista formado para uma cl\u00ednica que o impulsiona a n\u00e3o apostar no grupo para o tratamento do gozo e a estar atento \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o que essas fraternidades carregam.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>[1] LACAN, J. (1938). Os complexos familiares. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p. 29-90.<\/h6>\n<h6>[2] FREUD, S. (1921). Psicologia de grupo e a an\u00e1lise do ego. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1976, vol. 18, p. 91-179. Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud.<\/h6>\n<h6>[3] FREUD, S. (1916-17) Aspectos arcaicos e infantilismo dos sonhos. In: Confer\u00eancias introdut\u00f3rias \u00e0 Psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1976, vol. 15, p. 239-254. Edi\u00e7\u00e3o Standard das Obras Psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud.<\/h6>\n<h6>[4] LACAN, J.(1972). O Semin\u00e1rio Livro XIX \u2026Ou pior. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2012.<\/h6>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<\/div>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<hr \/>\n<h6><strong>JEAN-DANIEL MATET<\/strong><\/h6>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: M\u00e1rcia Bandeira Revis\u00e3o da tradu\u00e7\u00e3o: M\u00e1rcia Mez\u00eancio<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JEAN-DANIEL MATET &nbsp; O destino do Complexo de \u00c9dipo e o que est\u00e1 para al\u00e9m dele selam o destino da fam\u00edlia pela estrutura fora da natureza da transmiss\u00e3o humana que eles condicionam. Nesse ponto, a fam\u00edlia lacaniana \u00e9, numa primeira abordagem, bem semelhante \u00e0 fam\u00edlia freudiana. 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