{"id":860,"date":"2016-07-17T06:56:48","date_gmt":"2016-07-17T09:56:48","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=860"},"modified":"2025-12-01T16:43:39","modified_gmt":"2025-12-01T19:43:39","slug":"grandeza-e-miseria-de-um-nome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2016\/07\/17\/grandeza-e-miseria-de-um-nome\/","title":{"rendered":"Grandeza E Mis\u00e9ria De Um Nome"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>YVES DEPELSENAIRE<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/10-words-don-t-work-bruceclarke-1Depelse.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"768\" data-large_image_height=\"512\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-861\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/10-words-don-t-work-bruceclarke-1Depelse.jpg\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"512\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/10-words-don-t-work-bruceclarke-1Depelse.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/10-words-don-t-work-bruceclarke-1Depelse-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/a><\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p>O patron\u00edmico desse sujeito condensa toda sua neurose. Alguma coisa como uma \u201cfalsa ascens\u00e3o\u201d[i], a combina\u00e7\u00e3o de um nome plebeu e um aristocr\u00e1tico, ao mesmo tempo, como \u00e9 nos c\u00e9lebres (Giscard D\u2019Estaing e Galouzeaus de Villepin).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Marca de uma distor\u00e7\u00e3o da verdade, \u00edndice de um erro no registro do bem-dizer, o memorial de uma inf\u00e2mia, aos olhos da hist\u00f3ria. Fonte de vergonha, por longo tempo ele foi reduzido pelo sujeito a sua primeira parte, tipo de letra encarnada, n\u00e3o consentida, contrastante, estranha, com sua distin\u00e7\u00e3o de linguagem e costumes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sobriamente elegante, pensativo, cort\u00eas, culto, trata-se de um homem na casa dos quarenta, oficial s\u00eanior em uma institui\u00e7\u00e3o internacional. Ele decide empreender uma an\u00e1lise por arrastar um rancor amargo ap\u00f3s uma ruptura sentimental que retorna depois de muitos anos e, porque em sua fun\u00e7\u00e3o, era confrontado por conflitos dif\u00edceis com seu pa\u00eds de origem, que o incomodavam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O sucesso profissional desse \u00fanico homem, entre os irm\u00e3os, pela dolorosa exig\u00eancia parental de estar \u00e0 altura de seu nome o exclui precocemente das brincadeiras com sua tr\u00eas irm\u00e3s para permanecer em sua mesa de estudos. Ele conserva, entretanto, as lembran\u00e7as alegres de seus primeiros anos passados em um pa\u00eds africano no qual seu pai, diplomata, recebeu o t\u00edtulo de administrador colonial ap\u00f3s a repress\u00e3o sangrenta de revoltas. Onde ele foi frequentemente confiado a uma bab\u00e1 cuja afei\u00e7\u00e3o contrastava com a frieza maternal. Agora, ele verifica que a hist\u00f3ria colonial n\u00e3o \u00e9 sem rela\u00e7\u00e3o \u00e0 origem da fortuna da fam\u00edlia, que remonta ao tempo do com\u00e9rcio trilateral dos mercadores de escravos entre a Fran\u00e7a, a \u00c1frica e as Antilhas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao se conscientizar de tudo isso durante a adolesc\u00eancia, o sujeito, habitado por uma nostalgia da \u00c1frica, entra em conflito com seu pai e toma horror das aclama\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas da nobreza de seu nome pr\u00f3prio, adquirido alhures. Por um longo tempo ele se apresentar\u00e1 usando somente a parte plebeia de seu nome, em que o paradoxo faz ressoar, de modo poderoso, a dimens\u00e3o de cruz e de impostura. N\u00e3o escapa, de modo algum, a esse analisante, que seu pai n\u00e3o \u00e9 mais que um elo, na cadeia de um discurso, como sugere Lacan, quando evoca, no Semin\u00e1rio 2[ii], a heran\u00e7a do pai, como seus pecados:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Estou condenado a reproduzi-los porque \u00e9 preciso que eu retome o discurso que ele me legou, n\u00e3o s\u00f3 porque sou filho dele, mas porque n\u00e3o se para a cadeia do discurso, e porque estou justamente encarregado de transmiti-lo em sua forma aberrante a outrem. Tenho de colocar a outrem o problema de uma situa\u00e7\u00e3o vital onde existem todas as probabilidades que ele tamb\u00e9m venha a trope\u00e7ar, de forma que este discurso efetua um pequeno circuito no qual se acham presos uma fam\u00edlia inteira, um bando inteiro, uma na\u00e7\u00e3o inteira ou a metade do globo (p. 118).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O sujeito, de fato, acusa menos seu pai de sua participa\u00e7\u00e3o na administra\u00e7\u00e3o colonial de que sua falta de reflex\u00e3o sobre isso e do estilo de enuncia\u00e7\u00e3o de suas certezas. \u00c9 desse discurso que ele tenta se separar, esse de seu pai, certamente, mas tamb\u00e9m o de um bando \u2013 a aristocracia, um campo \u2013, a contrarrevolu\u00e7\u00e3o da Vend\u00e9e[iii], uma na\u00e7\u00e3o que possui um passado colonial mal assumido. Presumivelmente, uma culpa do pai mais diretamente em rela\u00e7\u00e3o ao prazer sexual est\u00e1 correlacionado a essas condi\u00e7\u00f5es. Pois \u00e9 ao pre\u00e7o de sintomas que tornam complicada e at\u00e9 condenam ao fracasso sua vida amorosa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A mulher amada \u00e9 para ele como Mary Poppins voando com seu guarda-chuva, cena que o levou \u00e0s l\u00e1grimas durante sua primeira ida ao cinema. Nos compromissos arrastados por muitos anos, e, de repente, a quebra das promessas, escolhidas no modelo austero da m\u00e3e, que culminaram em rela\u00e7\u00f5es, pelo contr\u00e1rio, ele se sente obrigado a terminar logo que a mulher esbo\u00e7a sua demanda ou que um compromisso pudesse se estabelecer, isto \u00e9, logo que se aproxima a perspectiva de se tornar pai. Ser o \u00faltimo de uma \u201cfalsa ascens\u00e3o\u201d \u00e9 a maneira como paga a d\u00edvida que herdou com seu pr\u00f3prio nome, a neurose por meio da qual ele protesta, como Lacan diz sobre o Homem dos Ratos. Sem pagamento em direito comercial, o protesto \u00e9 tamb\u00e9m o ato por meio do qual essa falha \u00e9 contatada pelas autoridades judiciais. Da\u00ed o simulacro de reedi\u00e7\u00e3o da d\u00edvida que constitui para esse analisante o sacrif\u00edcio de seu desejo de paternidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tendo rapidamente desenvolvido em sua an\u00e1lise as coordenadas de sua hist\u00f3ria, ele sonha, ent\u00e3o, em se desvencilhar dela para obter o direito de um outro sobrenome. Ele se vale, para tal, da figura de um antigo vinicultor da linhagem materna \u2013 que era uma fonte de vergonha por um momento em que ainda isso era socialmente uma desonra \u2013, que cometeu suic\u00eddio, o que n\u00e3o trouxe muitas contribui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma sepultura lhe foi negada no cemit\u00e9rio da cidade, de modo que foi enterrado em um bosque de uma comunidade vizinha. Em sua inf\u00e2ncia, o analisante acompanhava, \u00e0s vezes, seu av\u00f4 materno em uma caminhada melanc\u00f3lica, durante a qual arrancava as ervas daninhas que invadiam o t\u00famulo. \u00c9 o nome da comunidade onde se situa esse t\u00famulo an\u00f4nimo, marcado por uma simples cruz, que ele sonha carregar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em apoio a um desejo do qual ele se sente despossu\u00eddo, ele faz um Nome do Pai surpreendente, nome do pai deserdado, a imagem do t\u00famulo do ancestral arruinado, exilado, sem carregar culpa de qualquer m\u00e1 conduta. A vinha de que derivou seu sustento tinha sido destru\u00edda pela filoxera.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que dizer dessa nova Nomina\u00e7\u00e3o? Processo de inoc\u00eancia? Mortifica\u00e7\u00e3o decidida? Ele n\u00e3o trabalhava em an\u00e1lise essa solu\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria e, a princ\u00edpio, eu, erroneamente, me preocupei um pouco. Se ele renuncia a ela, \u00e9, de fato, que atrav\u00e9s dela, ele pode perceber de um novo modo seu nome odiado. A parte aristocr\u00e1tica do nome designa um lugar chamado exatamente como o pseud\u00f4nimo que ele visava. Ele \u00e9 reduzido a um nome comum, de uma comunidade qualquer, precisamente. Em seu sobrenome reduzido a qualquer significante, de repente deixa ent\u00e3o de ressoar o pecado que a heran\u00e7a pesou sobre os seus ombros. O al\u00edvio dos sintomas adv\u00e9m; a tens\u00e3o que viveu em suas rela\u00e7\u00f5es com a fam\u00edlia, e tamb\u00e9m em sua vida profissional, se dissolve e se descola de seu ressentimento tenaz em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 paternidade, \u00e9 um desejo que n\u00e3o parece proibido; a quest\u00e3o, em todo caso, agora est\u00e1 aberta para ele.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p>[i] Tradu\u00e7\u00e3o livre da express\u00e3o original \u201cFaux de la Haute Lev\u00e9e\u201d.<\/p>\n<p>[ii] LACAN, J. (1954\u201355) O semin\u00e1rio, livro 2: O eu na teoria de Freud e na t\u00e9cnica da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.<\/p>\n<p>[iii] Relativa a regi\u00e3o francesa Ved\u00e9e.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<hr \/>\n<p><strong>YVES DEPELSENAIRE<\/strong><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lilany Pacheco Revis\u00e3o: Juliana Sander<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>YVES DEPELSENAIRE &nbsp; O patron\u00edmico desse sujeito condensa toda sua neurose. Alguma coisa como uma \u201cfalsa ascens\u00e3o\u201d[i], a combina\u00e7\u00e3o de um nome plebeu e um aristocr\u00e1tico, ao mesmo tempo, como \u00e9 nos c\u00e9lebres (Giscard D\u2019Estaing e Galouzeaus de Villepin). &nbsp; Marca de uma distor\u00e7\u00e3o da verdade, \u00edndice de um erro no registro do bem-dizer, o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58109,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[],"class_list":["post-860","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-18","category-14","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/860","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=860"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/860\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58110,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/860\/revisions\/58110"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58109"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=860"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=860"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=860"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}