{"id":867,"date":"2016-07-17T06:56:48","date_gmt":"2016-07-17T09:56:48","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=867"},"modified":"2025-12-01T16:44:39","modified_gmt":"2025-12-01T19:44:39","slug":"a-transparencia-do-gozo-da-mae-e-o-delirio-como-segredo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2016\/07\/17\/a-transparencia-do-gozo-da-mae-e-o-delirio-como-segredo\/","title":{"rendered":"A Transpar\u00eancia Do Gozo Da M\u00e3e E O Del\u00edrio Como Segredo"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>LAURA F\u00c9LIX REIS MACIEL \/ M\u00c1RCIA ROSA<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_868\" style=\"width: 246px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/8-Victor-Brauner-2-para-Marcia-Rosa.jpg\" data-dt-img-description=\"Victor Brauner Surrealist painter\" data-large_image_width=\"236\" data-large_image_height=\"310\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-868\" class=\"size-full wp-image-868\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/8-Victor-Brauner-2-para-Marcia-Rosa.jpg\" alt=\"\" width=\"236\" height=\"310\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/8-Victor-Brauner-2-para-Marcia-Rosa.jpg 236w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/8-Victor-Brauner-2-para-Marcia-Rosa-228x300.jpg 228w\" sizes=\"auto, (max-width: 236px) 100vw, 236px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-868\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Victor Brauner Surrealist painter<\/strong><\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>VICTOR BRAUNER SURREALIST PAINTER<\/strong><\/p>\n<p>Ao formular as estruturas de parentesco, o antrop\u00f3logo Claude L\u00e9vi-Strauss (1947\/2009)[1] evidenciou a presen\u00e7a de um conjunto de regras muito restritas que comportam uma primeira lei, a exogamia. Partindo da\u00ed, tra\u00e7ou as condi\u00e7\u00f5es alg\u00e9bricas da escolha de objeto: as estruturas de parentesco s\u00e3o elementares quando se fundam em regras que n\u00e3o apenas pro\u00edbem, mas tamb\u00e9m prescrevem os objetos com os quais la\u00e7os s\u00e3o permitidos, tornam-se complexas quando h\u00e1 proibi\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o prescri\u00e7\u00e3o. Nesse caso, respeitada a interdi\u00e7\u00e3o do incesto, o sujeito \u00e9 livre para estabelecer suas alian\u00e7as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fundamentado em suas extensas pesquisas sobre o parentesco, L\u00e9vi-Strauss (1970\/2015)[2] listou as suas propriedades invariantes ou tra\u00e7os distintivos, aqueles que permaneceriam imut\u00e1veis atrav\u00e9s da diversidade das ra\u00e7as, culturas, l\u00ednguas, etc. Para ele, a fam\u00edlia tem sua origem no matrim\u00f4nio, inclui o marido, a mulher, os filhos nascidos de sua uni\u00e3o; os membros est\u00e3o unidos entre si por la\u00e7os jur\u00eddicos, por uma rede precisa de direitos e obriga\u00e7\u00f5es sexuais e sentimentos tais como o amor, o afeto, o respeito, o temor, etc. (1970\/2015, p. 60)[3]. Para definir a fam\u00edlia L\u00e9vi-Strauss se serviu da lingu\u00edstica de Saussure, de modo que a fam\u00edlia levistraussiana \u00e9 um sistema fundado no poder ordenador das diferen\u00e7as, diferen\u00e7a nas fun\u00e7\u00f5es do pai e da m\u00e3e e diferen\u00e7a sexual.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O decl\u00ednio da pot\u00eancia simb\u00f3lica do pai faz vacilar os fundamentos ling\u00fc\u00edsticos da fam\u00edlia e sua sustenta\u00e7\u00e3o nas diferen\u00e7as. Tal como afirma a psicanalista Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse (2010)[4], na medida em que a diferen\u00e7a homem-mulher, organizadora das leis de alian\u00e7a e de parentesco, \u00e9 tocada, todo o sistema se reformula. Passa a existir um interc\u00e2mbio de autoridade e de cuidado e ele institui uma equival\u00eancia ali aonde antes operava uma diferen\u00e7a, institui um valor comum, gerando o que vem sendo denominado parentalidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse valor comum intercambi\u00e1vel se sustenta na aposta de que pai e m\u00e3e s\u00e3o fun\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas e que podem ser exercidas por um homem e uma mulher, por dois homens, duas mulheres, etc. Em que pese isso, Lacan n\u00e3o deixa de levar em conta que \u201cn\u00e3o \u00e9 a mesma coisa ter tido sua m\u00e3e e n\u00e3o a m\u00e3e do vizinho, o mesmo para o seu pai\u201d. (LACAN, 1975-1976, p.45)[5] Com isso, assinala a presen\u00e7a do real na constitui\u00e7\u00e3o e na manuten\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. Essa dimens\u00e3o apresenta-se na defini\u00e7\u00e3o de fam\u00edlia proposta por Jacques-Alain Miller, em resposta aos invariantes antropol\u00f3gicos de L\u00e9vi-Strauss: \u201c(\u2026) a fam\u00edlia tem origem no mal-entendido, no desencontro, na decep\u00e7\u00e3o, no abuso sexual ou no crime. (\u2026) \u00e9 essencialmente unida por um segredo, pelo n\u00e3o-dito. (\u2026) \u00c9 um desejo n\u00e3o-dito, \u00e9 sempre um segredo sobre o gozo; de que gozam o pai e a m\u00e3e? (\u2026)\u201d. (MILLER, 2007, s.p.)[6] Esse excesso, esse real trazido pelo modo de gozo dos pais mantido secreto introduz uma configura\u00e7\u00e3o familiar fundada na conting\u00eancia ou em afinidades eletivas, elei\u00e7\u00f5es aleat\u00f3rias e, muitas vezes, transit\u00f3rias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em vista disso, interessa-nos pesquisar a presen\u00e7a estruturante do postulado milleriano \u2014a fam\u00edlia se organiza em torno de um segredo sobre o gozo dos pais\u2014, bem como as consequ\u00eancias sobre a subjetividade da revela\u00e7\u00e3o, inoper\u00e2ncia ou inexist\u00eancia desse segredo familiar. Ao considerarmos que ele n\u00e3o deixa de estar relacionado ao \u00c9dipo, indagamos: e quando o recalque n\u00e3o opera?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O Segredo De C<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>C., 37 anos, foi internada em um hospital psiqui\u00e1trico da Rede P\u00fablica pela for\u00e7a policial, ap\u00f3s ter agredido fisicamente sua vizinha, amea\u00e7ando-a de morte. Diz n\u00e3o ter privacidade em casa, \u201cos vizinhos fazem a maior putaria l\u00e1\u201d, querem roubar seu barrac\u00e3o e mat\u00e1-la.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Natural de uma cidade no interior do estado de Minas Gerais, a paciente mora com seu atual companheiro, J, h\u00e1 oito anos em Belo Horizonte. Ela tem tr\u00eas filhos (de 20, 19 e 18 anos), frutos de um relacionamento anterior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Segundo o prontu\u00e1rio, o quadro cl\u00ednico foi desencadeado durante a gravidez do primeiro filho. Embora n\u00e3o se saiba muito sobre essa gravidez, C diz que em sua segunda gravidez deu \u00e0 luz filhas g\u00eameas, mas que a m\u00e9dica respons\u00e1vel \u201croubou\u201d uma das crian\u00e7as: \u201c\u00e9, a m\u00e9dica loira pegou a outra nen\u00e9m, porque eram g\u00eameas, n\u00e9? Mas ela s\u00f3 me deu uma, que \u00e9 a P.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 sua pr\u00f3pria m\u00e3e, C afirma que esta morreu h\u00e1 quatorze anos. Afirma tamb\u00e9m que n\u00e3o conheceu o pai, uma vez que \u201cn\u00e3o era s\u00f3 um que deitava com sua m\u00e3e\u201d. Ela se refere a ele como um \u201cpai invis\u00edvel\u201d, n\u00e3o tendo o nome do mesmo em sua certid\u00e3o de nascimento. Tem irm\u00e3os, mas n\u00e3o sabe ao certo quantos, sabe apenas que s\u00e3o filhos de pais diferentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No decorrer da entrevista, depois de falar abertamente, e sem qualquer incomodo, sobre a desorienta\u00e7\u00e3o do gozo materno \u2014de como \u00e0 noite a m\u00e3e colocava lingerie preta e recebia homens em casa\u2014, espontaneamente, e com um tom de cumplicidade, ela pergunta a entrevistadora: \u201cposso lhe contar um segredo?\u201d E, ent\u00e3o, confidencialmente, afirma ser dona de uma frota do SAMU (Servi\u00e7o de Atendimento M\u00f3vel de Urg\u00eancia). Diz ter sido aconselhada por um guarda do Hospital G. V. a comprar ambul\u00e2ncias como forma de investimento. Em fun\u00e7\u00e3o disso, n\u00e3o pode se casar, uma vez que, ao se enla\u00e7ar matrimonialmente, seus filhos deixariam de ganhar a parte que lhes \u00e9 devida da renda gerada por essa frota da qual ela \u00e9 dona.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A Fam\u00edlia E O Inconsciente<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em O semin\u00e1rio, livro 5, As forma\u00e7\u00f5es do inconsciente Lacan escreve a estrutura familiar com a formula de Met\u00e1fora Paterna. Nela, o pai entra como um nome, o Nome-do\u2013Pai, como lei de interdi\u00e7\u00e3o do incesto, e a m\u00e3e com o desejo (D), como um significante que obedece \u00e0 lei de estar l\u00e1 ou n\u00e3o. Os restos produzidos por essa rela\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica, que atestam que o sujeito \u00e9 apenas efeito de linguagem, Lacan os promove como objeto a. Eles mostram que algo foge da compreens\u00e3o e clama por sentido, \u00e9 onde prolifera um emaranhado de interpreta\u00e7\u00f5es sobre o desejo do Outro. As solu\u00e7\u00f5es desses enigmas se encontram nos la\u00e7os familiares e nos segredos neles presentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Miller (1997)[7] em \u201cLos padres dans la direction de la cure\u201d, diz que a forma como o sujeito foi separado de seu objeto primordial, como foi afetado, o fantasma que surge e o gozo recuperado dessa cat\u00e1strofe, \u00e9 o que aparece nas hist\u00f3rias de fam\u00edlia que o sujeito conta. A fam\u00edlia, ent\u00e3o, \u00e9 tida como uma resposta simb\u00f3lica ao efeito do real, que tem como princ\u00edpio a impossibilidade de se escrever a rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan reduz a ordem familiar \u00e0 disjun\u00e7\u00e3o pai\/genitor, em que \u201co pai n\u00e3o \u00e9 o genitor\u201d (LACAN apud COTTET, 2007, p.14)[8]. \u201c\u00c9, de fato, o recalque desta oposi\u00e7\u00e3o significante que preside a cria\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia conjugal.\u201d (COTTET, 2007, p.15)[9]. Entretanto, nem todas as fam\u00edlias s\u00e3o edipianas, visto que n\u00e3o s\u00e3o todas que se ordenam pela met\u00e1fora paterna e que colocam em jogo o desejo enigm\u00e1tico da m\u00e3e. \u00c9 poss\u00edvel que se desenhem fam\u00edlias que n\u00e3o respondem \u00e0 met\u00e1fora paterna, que n\u00e3o coloquem em jogo o desejo enigm\u00e1tico da m\u00e3e nem a lei de interdi\u00e7\u00e3o ao gozo. Na falta da met\u00e1fora paterna, o que prevalece \u00e9 um desejo errante, um desejo an\u00f4nimo. Carmem Galano, em \u201cFam\u00edlia e Inconsciente\u201d define o desejo an\u00f4nimo como \u201cum desejo indeterminado, errante na meton\u00edmia das derivas significantes, um desejo que n\u00e3o se sabe de quem, n\u00e3o encarnado em um vivente particular, um desejo pelo qual nada, nem ningu\u00e9m, responde.\u201d (GALANO, 2007, p.17)[10].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se o que prevalece \u00e9 um vazio enigm\u00e1tico e um desejo an\u00f4nimo, o sujeito pode acabar \u00e0 merc\u00ea de uma ditadura do mais-de-gozar e de uma cultura da permissividade. Essa \u00faltima, \u201cbem como a crise da autoridade que acompanha o decl\u00ednio do pai, exige uma transpar\u00eancia que abole os segredos da fam\u00edlia, denuncia as hipocrisias, subverte as barreiras das gera\u00e7\u00f5es.\u201d (COTTET, 2007, p.2)[11]. No entanto, a inexist\u00eancia do segredo no romance familiar n\u00e3o \u00e9 sem consequ\u00eancias para o sujeito. \u201cCompreendemos bem porque o cristianismo inventou a Santa Fam\u00edlia, pois \u00e9 preciso nada menos que Deus para normalizar, normatizar, o gozo materno. O princ\u00edpio de unidade, da Santa Fam\u00edlia do inconsciente, \u00e9 o segredo.\u201d (MILLER, 2007, p.82)[12].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E Quando O Recalque N\u00e3o Opera?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na \u201cProposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967\u201d, Lacan afirma que o \u00c9dipo, sendo ect\u00f3pico, apresenta um problema: \u201cabri-lo permitiria restaurar ou mesmo relativizar sua radicalidade na experi\u00eancia\u201d (LACAN, 1967\/2003, p.261)[13]. Sendo a inst\u00e2ncia paterna, no primeiro ensino de Lacan, reduzida ao simb\u00f3lico, o que ocorre quando esse significante \u00e9 foraclu\u00eddo?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel na psicose\u201d, Lacan trabalha a foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai, a qual, \u201cpela car\u00eancia do efeito metaf\u00f3rico, provoca um furo correspondente no lugar da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica\u201d. (LACAN, 1957-1958\/1999, p.564)[14]. A car\u00eancia dessa significa\u00e7\u00e3o acarreta uma dificuldade para o sujeito em apreender o desejo do Outro e em circunscrever o gozo. Frente a isso, o que \u00e9 foraclu\u00eddo no simb\u00f3lico retorna no real, \u201cretorna no real como gozo do Outro\u201d. (MILLER, 1983\/1996, p. 168)[15]. Na aus\u00eancia do falo para significar o gozo, o que se observa \u00e9 a invas\u00e3o de um gozo outro, in\u00e9dito e supremo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Acrescido \u00e0 falha no simb\u00f3lico, a foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai \u201cressoa sobre a estrutura imagin\u00e1ria, ela a dissolve, a conduz \u00e0 estrutura elementar chamada est\u00e1dio do espelho\u201d. (MILLER, 1983\/1996, p.122)[16]. Essa regress\u00e3o especular desnuda o objeto a, deixando o sujeito reduzido \u00e0 sua mis\u00e9ria. Sobre essa deje\u00e7\u00e3o e o valor extremo de gozo, que se condensa no mais-de-gozar, Miller aponta a exig\u00eancia do mais-de-gozar como b\u00fassola para aqueles que carecem do significante mestre. Isso faz com que a liberdade do gozo prevale\u00e7a, embora, continua ele, a rela\u00e7\u00e3o sexual se torne ainda mais imposs\u00edvel, uma vez que \u201cpara fazer existir a rela\u00e7\u00e3o sexual, \u00e9 preciso refrear, inibir, recalcar o gozo.\u201d (MILLER, 2005, 13.)[17].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como possibilidade de apaziguamento do gozo, no momento em que Um-pai \u00e9 convocado, frente ao furo no simb\u00f3lico surge a met\u00e1fora delirante. Passado o momento da perplexidade, no qual o sujeito se depara com fen\u00f4menos incompreens\u00edveis para ele pr\u00f3prio, h\u00e1 a certeza que vem com o del\u00edrio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Diante da falta do significante mestre, da transpar\u00eancia do gozo materno e da identifica\u00e7\u00e3o ao objeto, prevalece um-dito que, aparentemente, n\u00e3o guarda qualquer segredo. Frente a ele, o sujeito n\u00e3o tem outra sa\u00edda, sen\u00e3o utilizar suas pr\u00f3prias inven\u00e7\u00f5es. No caso cl\u00ednico de C, acrescido \u00e0 inoper\u00e2ncia paterna, \u201cum pai invis\u00edvel\u201d, encontra-se uma cultura da permissividade, avessa \u00e0 privacidade. Ela come\u00e7a pela m\u00e3e, mas n\u00e3o excetua os vizinhos que \u201cfazem a maior putaria l\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A preval\u00eancia ditatorial do mais-de-gozar \u201cdevasta a natureza, faz romper os casamentos, dispersa a fam\u00edlia, remaneja o corpo\u201d (MILLER, 2005, p. 13)[18]. No caso de C, a transpar\u00eancia do gozo materno e a invas\u00e3o desmedida que isso gera, a deixa privada de recursos simb\u00f3licos. Diante desse embara\u00e7o, restam suas inven\u00e7\u00f5es delirantes como tentativas de limitar o gozo.<\/p>\n<p>Diferentemente da neurose, em que o n\u00e3o-dito cabe ao segredo, nesse caso, em que o recalque n\u00e3o opera e, com isso, o gozo da m\u00e3e n\u00e3o est\u00e1 ordenado pelo significante f\u00e1lico, a dimens\u00e3o de n\u00e3o-dito incide sobre a forma delirante com a qual C trata o real de gozo. Curiosamente, s\u00e3o as suas constru\u00e7\u00f5es delirantes, tentativas de cifrar esse real de gozo, que ela, de algum modo, mant\u00e9m em sil\u00eancio. Paradoxalmente, a\u00ed tamb\u00e9m um segredo organiza as rela\u00e7\u00f5es familiares.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>[1] L\u00c9VI-STRAUSS, Claude. (1947) As estruturas elementares do parentesco. Petrop\u00f3lis:Ed. Vozes, 2009.<\/h6>\n<h6>[2] \u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014-. (1970) \u201cLa familia\u201d. In:\u2014\u2014. La mirada distante. Buenos Aires, El cuenco de plata, 2015.<\/h6>\n<h6>[3] Ibdem.<\/h6>\n<h6>[4] BROUSSE, Marie-Helene. \u201cUm neologismo de actualidad: La parentalidad\u201d; In: TORRES, Monica E. Uniones Del mismo sexo: diferencia, invenci\u00f3n y sexuaci\u00f3n. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2010.<\/h6>\n<h6>[5] JACQUES, L. (1975) \u201cConf\u00e9rences et entretiens: Columbia University. Le sympt\u00f4me\u201d.Scilicet, n.6-7, Seuil, Paris, 1976.<\/h6>\n<h6>[6] MILLER, J-A., (2007) \u201cAssuntos de fam\u00edlia no inconsciente\u201d. Extra\u00eddo de asephallus, Revista Eletr\u00f4nica do N\u00facleo Sephora. V.2, n.\u00ba4, maio a outubro de 2007.<\/h6>\n<h6>[7] MILLER, Jacques-Alain. (1997) \u201cLos padres dans la direction de la cure\u201d. Quarto, Revue de psychanalyse, n.63, Automne 1997.<\/h6>\n<h6>[8] COTTET, Serge \u201cO avesso das fam\u00edlias: o romance familiar parental. Extra\u00eddo de asephallus, Revista Eletr\u00f4nica do N\u00facleo Sephora. V.2, n.\u00ba4, maio a outubro de 2007. Acesso em julho de 2016.<\/h6>\n<h6>[9] Ibdem.<\/h6>\n<h6>[10] GALANO, Carmen. \u201cFamilia e Inconsciente\u201d. Revista de Psican\u00e1lise Stylus: Familia e Inconsciente. N.\u00ba15, p.11-24. Associa\u00e7\u00e3o F\u00f3runs do campo Lacaniano. Novembro de 2007.<\/h6>\n<h6>[11] COTTET, Serge \u201cO avesso das fam\u00edlias: o romance familiar parental. Extra\u00eddo de asephallus, Revista Eletr\u00f4nica do N\u00facleo Sephora. V.2, n.\u00ba4, maio a outubro de 2007. Acesso em julho de 2016.<\/h6>\n<h6>[12] MILLER, J-A., (2007) \u201cAssuntos de fam\u00edlia no inconsciente\u201d. Extra\u00eddo de asephallus, Revista Eletr\u00f4nica do N\u00facleo Sephora. V.2, n.\u00ba4, maio a outubro de 2007.<\/h6>\n<h6>[13] JACQUES, L. (1967) \u201cProposi\u00e7\u00e3o de 09 de outubro para o psicanalista da Escola\u201d. In: \u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2013. Outros Escritos. Rio de Janeiro:JZE, 2003.<\/h6>\n<h6>[14] JACQUES, L. (1957-1958) O Semin\u00e1rio, livro 5. As forma\u00e7\u00f5es do inconsciente. Rio de Janeiro:JZE, 1999.<\/h6>\n<h6>[15] MILLER, Jacques-Alain. (1983) \u201cSuplemento Topol\u00f3gico a \u2018De uma quest\u00e3o preliminar\u2026\u2019. In:\u2014\u2014\u2014-. Matemas I. Rio de Janeiro:JZE, 1996. p.119-137.<\/h6>\n<h6>[16] Ibdem.<\/h6>\n<h6>[17] \u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014-. \u201cUma fantasia\u201d. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise. Fevereiro 2005, n.42. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Eolia, 2005.<\/h6>\n<h6>[18] Ibdem.<\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. \u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014. (1968) \u201cNota sobre a crian\u00e7a\u201d. In:\u2014\u2013. Outros Escritos. Rio de Janeiro:JZE, 2003.<\/h6>\n<h6>\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014-. (1983) \u201cDes-sentido para a psicose!\u201d. In:\u2014\u2014\u2014-. Matemas I. Rio de Janeiro: JZE, 1996. p. 162-170.<\/h6>\n<h6>\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2013. \u201cLeitura cr\u00edtica dos \u201cComplexos familiares\u201d,de Jacques Lacan\u201d. In: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana on line. Acessado em novembro de 2016 em: www.opcaolacaniana.com.br\/antigos\/n2\/pdf\/artigos\/jamleitura.pdf<\/h6>\n<h6>\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014\u2014-. \u201cA inven\u00e7\u00e3o do del\u00edrio\u201d. In: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana on line. Acessado em novembro de 2016 em: ww.opcaolacaniana.com.br\/antigos\/pdf\/artigos\/JAMDelir.pdf<\/h6>\n<h6>MALEVAL. Jean Claude. \u201cL\u00f3gica del del\u00edrio\u201d. Acessado em novembro de 2016 em:\u00a0<a href=\"https:\/\/drive.google.com\/drive\/folders\/0B1xRnCyxqy5ndU11N05tTlV0aGs\">https:\/\/drive.google.com\/drive\/folders\/0B1xRnCyxqy5ndU11N05tTlV0aGs<\/a><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><strong>Laura F\u00e9lix Reis Maciel \/ M\u00e1rcia Rosa<\/strong><\/h6>\n<h6>Laura F\u00e9lix Reis Maciel. Graduada em Psicologia pela UFMG em 2017. Pesquisadora de Inicia\u00e7\u00e3o Cientifica com bolsa da FAPEMIG (2014-2015). Rua S\u00e3o Roque 676 apto 401. Sagrada Fam\u00edlia. Belo Horizonte. MG. Fone 996712242.\u00a0<span id=\"cloakd9df47191ea3686fbd426ab88d6a50b1\"><a href=\"mailto:laurafelixreis@gmail.com\">laurafelixreis@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<h6>M\u00e1rcia Rosa. P\u00f3s-Doutorado em Teoria Psicanal\u00edtica (UFRJ). Doutorado em Literatura Comparada (UFMG). Professora na P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia (UFMG). Psicanalista. Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise. Rua Xingu 115. Alto Santa L\u00facia. Belo Horizonte. MG. CEP 30360690. Fone (31)996176443.\u00a0<span id=\"cloak0d742fead6eb6dd329d909d3b820fb68\"><a href=\"mailto:marcia.rosa@globo.com\">marcia.rosa@globo.com<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LAURA F\u00c9LIX REIS MACIEL \/ M\u00c1RCIA ROSA &nbsp; &nbsp; VICTOR BRAUNER SURREALIST PAINTER Ao formular as estruturas de parentesco, o antrop\u00f3logo Claude L\u00e9vi-Strauss (1947\/2009)[1] evidenciou a presen\u00e7a de um conjunto de regras muito restritas que comportam uma primeira lei, a exogamia. 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