{"id":873,"date":"2016-07-17T06:56:48","date_gmt":"2016-07-17T09:56:48","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=873"},"modified":"2025-12-01T16:45:10","modified_gmt":"2025-12-01T19:45:10","slug":"erguer-a-cabeca-e-tomar-a-palavra-efeitos-socioeducativos-na-adolescencia-de-malony","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2016\/07\/17\/erguer-a-cabeca-e-tomar-a-palavra-efeitos-socioeducativos-na-adolescencia-de-malony\/","title":{"rendered":"Erguer A Cabe\u00e7a E Tomar A Palavra: Efeitos Socioeducativos Na Adolesc\u00eancia De Malony"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>MARIA JOS\u00c9 GONTIJO SALUM<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/10-words-don-t-work-bruceclarke-1Depelse-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"603\" data-large_image_height=\"323\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-874\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/10-words-don-t-work-bruceclarke-1Depelse-1.jpg\" alt=\"\" width=\"603\" height=\"323\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/10-words-don-t-work-bruceclarke-1Depelse-1.jpg 603w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/10-words-don-t-work-bruceclarke-1Depelse-1-300x161.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 603px) 100vw, 603px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De cabe\u00e7a erguida[1], uma produ\u00e7\u00e3o francesa de 2014, mostra situa\u00e7\u00f5es da vida de um adolescente em conflito com a lei \u2013 que guarda similaridades com o que acomete muitos desses jovens no Brasil. O filme relata o percurso do personagem principal, Malony, pelas institui\u00e7\u00f5es assistenciais e socioeducativas que percorreu durante a maior parte de sua vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Logo no in\u00edcio, vemos o primeiro encontro de Malony e sua fam\u00edlia com a justi\u00e7a, aos seis anos de idade. Na primeira cena do filme, ficamos sabendo que sua m\u00e3e fora denunciada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico por n\u00e3o se responsabilizar pela escolaridade do filho. Anteriormente, a escola e o servi\u00e7o social haviam tentado fazer contato sobre o problema escolar da crian\u00e7a. Como ela n\u00e3o se manifestou, ocorreu a intima\u00e7\u00e3o a pedido do promotor. Ela comparece ao juizado com Malony e seu outro filho, um beb\u00ea. Quando indagada pela situa\u00e7\u00e3o educativa do filho, ela se mostra acuada e tenta se defender atacando \u00e0queles que ela julga acusarem-na: professores, assistentes sociais, promotor, ju\u00edza. Por fim, a m\u00e3e entrega seu filho para a justi\u00e7a e a ju\u00edza o encaminha para um abrigo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quanto a Malony, ele demonstra curiosidade pelo que est\u00e1 acontecendo. Ele conversa, responde, brinca, interage, se interessa pelo que est\u00e1 sendo dito. Ele mostra seu la\u00e7o com o Outro: olha, atentamente, para os que est\u00e3o na sala, fala com as pessoas presentes e recebe os afagos da assistente social quando sua m\u00e3e vai embora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na cena seguinte, Malony tornou-se um adolescente e est\u00e1 com a m\u00e3e e o irm\u00e3o, agora crian\u00e7a. Ele dirige um carro no qual os tr\u00eas est\u00e3o juntos, e vibram com o passeio. A m\u00e3e se empolga com as manobras que o filho realiza ao dirigir e grita: Malony, campe\u00e3o do mundo!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ap\u00f3s essa cena, vemos Malony e sua fam\u00edlia retornarem ao tribunal, para a primeira de muitas audi\u00eancias com a ju\u00edza por toda a sua adolesc\u00eancia. Ficamos sabendo que ele \u00e9 bastante conhecido na pequena cidade de Dunquerque pelos furtos de carro que comete com frequ\u00eancia. O Outro social o v\u00ea como um delinquente. De bon\u00e9, ele se mant\u00e9m de cabe\u00e7a baixa, cortando o olhar e a fala: ele n\u00e3o olha para as pessoas no juizado, se esconde por tr\u00e1s do bon\u00e9, n\u00e3o fala, n\u00e3o se interessa pelo que est\u00e1 acontecendo, pelo que est\u00e3o falando, e n\u00e3o responde ao que lhe \u00e9 perguntado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A partir dessa cena, inicia-se a entrada de Malony no que seria o equivalente franc\u00eas das medidas socioeducativas no Brasil. Primeiramente, ele \u00e9 advertido pela ju\u00edza e, na sequ\u00eancia, percorre as institui\u00e7\u00f5es para adolescentes em conflito com a Lei; desde as educativas at\u00e9 as prisionais. No decorrer do filme, at\u00e9 os 17 anos, Malony estar\u00e1 \u00e0s voltas com as medidas jur\u00eddicas em resposta \u00e0s suas infra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As atua\u00e7\u00f5es de Malony s\u00e3o a t\u00f4nica do filme. N\u00e3o somente aquelas que s\u00e3o tipificadas como atos infracionais, mas, tamb\u00e9m, suas agress\u00f5es diante dos embara\u00e7os e impasses para lidar com as situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis da vida: retorno \u00e0 escola, n\u00e3o ver a m\u00e3e, afastamento do irm\u00e3o, ter um trabalho, estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o com uma mulher. Percebemos como essas atua\u00e7\u00f5es acontecem nas vezes em que ele se mostra angustiado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A adolesc\u00eancia \u00e9 um sintoma da puberdade, como nos indicou Stevens (2004)[2]. Ser adolescente, identificar-se com esse significante \u00e9 uma maneira de tentar atravessar esse dif\u00edcil t\u00fanel, a puberdade, como metaforiza Freud (1905\/1969)[3]. E essa travessia n\u00e3o se faz sem ang\u00fastia. No encontro com a ang\u00fastia, usualmente, o sujeito busca sa\u00eddas pelo via sintom\u00e1tica ou pela inibi\u00e7\u00e3o, t\u00e3o t\u00edpicas da adolesc\u00eancia. Mas, tamb\u00e9m, pela passagem ao ato ou pelo acting-out. No caso de Malony, prevalecem os acting-outs como formas de tentar lidar com a ang\u00fastia suscitada por suas dificuldades consigo mesmo e com o outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essas diferentes sa\u00eddas frente \u00e0 ang\u00fastia ocorrem por circunst\u00e2ncias distintas, como nos esclarece Lacan (1962-63\/2004)[4]. Uma resposta sintom\u00e1tica acontece quando o sujeito encontra, em sua hist\u00f3ria, coordenadas simb\u00f3licas para subjetivar a castra\u00e7\u00e3o como falta, tanto a sua como a do Outro. Isso ocorre quando a sa\u00edda encontrada est\u00e1 relacionada ao dispositivo simb\u00f3lico. Assim, de forma metaforizada, o sujeito pode dizer de suas dificuldades e embara\u00e7os.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A passagem ao ato e o acting-out s\u00e3o formas de atuar no lugar de dizer. Isso acontece quando a via sintom\u00e1tica n\u00e3o consegue se formular, ou seja, quando n\u00e3o se elabora, subjetivamente, uma resposta. Nessa situa\u00e7\u00e3o, no lugar de surgir o sujeito do desejo inconsciente, aparece um atuar. \u00c9 isso o que ocorre nas passagens ao ato e nos acting-outs. Essas duas formas de agir dizem respeito a um sujeito que n\u00e3o encontrou um apoio simb\u00f3lico para inscrever a castra\u00e7\u00e3o como falta. Dessa forma, ou ele reproduz seu embara\u00e7o em uma encena\u00e7\u00e3o, caso do acting-out, ou sucumbe a ele, como na passagem ao ato.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No filme, vemos os atos infracionais de Malony acontecerem como uma sequ\u00eancia de acting-outs, a cada vez que ele se depara com os impasses pr\u00f3prios da adolesc\u00eancia. Inicialmente, sem o amparo das coordenadas simb\u00f3licas do Outro, Malony n\u00e3o consegue construir uma forma sintom\u00e1tica de atravessar o t\u00fanel que concerne \u00e0 adolesc\u00eancia. Ele se encontra sozinho e sem recursos para enfrentar esse real. Mas, ao longo do filme, vemos surgir para ele as figuras do Outro, e elas adquirirem import\u00e2ncia para que ele possa construir novos caminhos e projetos para sua vida. Ele passa a estabelecer la\u00e7os com a ju\u00edza, o educador, a namorada, a pr\u00f3pria m\u00e3e. Com muita dificuldade, Malony vai mostrando-nos a contund\u00eancia da frase de Lacan, que nos adverte: \u201cNo desatino de nosso gozo, s\u00f3 h\u00e1 o Outro para situ\u00e1-lo, mas na medida em que estamos separados dele.\u201d (LACAN,1973\/2003 p. 533)[5]. Inicialmente, Malony n\u00e3o pensa, ele age. As figuras do Outro e seu desejo permitem a ele separar-se do gozo ao qual se encontrava entregue, colocando um corte na repeti\u00e7\u00e3o de atua\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pode-se dizer que o filme retrata a constru\u00e7\u00e3o, com muita dificuldade, dos dispositivos simb\u00f3licos para enfrentar a dureza da vida de um adolescente. Aos dezessete anos, Malony vai recuperando o olhar, a voz, o la\u00e7o com o Outro que vimos no in\u00edcio do filme, quando ele era uma crian\u00e7a. Nesse processo, ele vai se colocando como um sujeito que pode desejar: uma mulher, um trabalho, um filho, um projeto. Ele pode, com seu desejo, investir na vida. Torna-se algu\u00e9m que pode fazer uso dos objetos do desejo para circular no social, podendo dispensar as fal\u00e1cias das atua\u00e7\u00f5es para fazer-se reconhecer no campo social. Como efeito, ele pode erguer a cabe\u00e7a, olhar e tomar a palavra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>[1] STEVENS, A. Adolesc\u00eancia, sintoma da puberdade. Revista Curinga n. 20. Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 Minas Gerais. p. 27-39. 2004<\/h6>\n<h6>[2] FREUD, S. Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. v. VII. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1969.<\/h6>\n<h6>[3] LACAN, J. O Semin\u00e1rio Livro 10: A ang\u00fastia (1962-63). Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 2004.<\/h6>\n<h6>[4] ______. Televis\u00e3o (1973). In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARIA JOS\u00c9 GONTIJO SALUM &nbsp; De cabe\u00e7a erguida[1], uma produ\u00e7\u00e3o francesa de 2014, mostra situa\u00e7\u00f5es da vida de um adolescente em conflito com a lei \u2013 que guarda similaridades com o que acomete muitos desses jovens no Brasil. 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