{"id":881,"date":"2016-07-17T06:56:48","date_gmt":"2016-07-17T09:56:48","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=881"},"modified":"2025-12-01T16:46:14","modified_gmt":"2025-12-01T19:46:14","slug":"inconsciente-e-familia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2016\/07\/17\/inconsciente-e-familia\/","title":{"rendered":"Inconsciente E Fam\u00edlia"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>S\u00c9RGIO LAIA<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Foto4-SLaia.jpeg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"640\" data-large_image_height=\"480\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-882\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Foto4-SLaia.jpeg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"480\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Foto4-SLaia.jpeg 640w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Foto4-SLaia-300x225.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>A fam\u00edlia se configura como um tema de fundamental interesse para a sociedade contempor\u00e2nea e, consequentemente, para a cl\u00ednica psicanal\u00edtica. Em que sentido as profundas transforma\u00e7\u00f5es que essa institui\u00e7\u00e3o tem sofrido, acarretam consequ\u00eancias na transmiss\u00e3o de uma constitui\u00e7\u00e3o subjetiva?<\/strong><\/p>\n<p>A refer\u00eancia \u00e0 \u201ctransmiss\u00e3o\u2026 de uma constitui\u00e7\u00e3o subjetiva\u201d, como sabemos, pode ser encontrada no segundo par\u00e1grafo da c\u00e9lebre \u201cNota sobre a crian\u00e7a\u201d, escrita por Jacques Lacan[1]. Esse par\u00e1grafo, por sua vez, se conclui dizendo que tal transmiss\u00e3o implica \u201ca rela\u00e7\u00e3o com um desejo que n\u00e3o seja an\u00f4nimo\u201d[2]. J\u00e1 nessa conclus\u00e3o desse segundo par\u00e1grafo, temos elementos para responder \u00e0 quest\u00e3o sobre as transforma\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia e suas consequ\u00eancias na sociedade contempor\u00e2nea. Afinal, vivemos em um mundo onde os nomes proliferam, por exemplo, na designa\u00e7\u00e3o de orienta\u00e7\u00f5es ou mesmo identidades sexuais, de transtornos mentais, de modos de composi\u00e7\u00e3o familiar, de marcas de produtos de consumo, etc. Entretanto, ser\u00e1 que essa prolifera\u00e7\u00e3o ou, retomando outra express\u00e3o que Lacan utilizou em \u201cA subvers\u00e3o do sujeito e suas rela\u00e7\u00f5es com o inconsciente freudiano\u201d, esse \u201cmar dos nomes pr\u00f3prios\u201d[3], efetivamente deixa espa\u00e7o para um desejo n\u00e3o-an\u00f4nimo? Se tomarmos como refer\u00eancia para responder a essa quest\u00e3o um cl\u00e1ssico da sociologia como Durkheim[4], dir\u00edamos que n\u00e3o, porque esse soci\u00f3logo articula o aparecimento da ent\u00e3o sociedade industrial com o desvanecimento da \u201cfam\u00edlia patriarcal\u201d, o surgimento da \u201cfam\u00edlia conjugal\u201d e a intensifica\u00e7\u00e3o da \u201canomia\u201d, ou seja, do anonimato. Por\u00e9m, o ensino de Lacan nos abre outra via. Para tematiz\u00e1-la, me sirvo tamb\u00e9m do escrito lacaniano sobre a subvers\u00e3o do sujeito, produzido no in\u00edcio dessa d\u00e9cada de 1960 que, sabemos, foi um marco das transforma\u00e7\u00f5es familiares com o \u201camor livre\u201d, o aumento dos \u201cdesquites\u201d e dos \u201cdiv\u00f3rcios\u201d, a \u201clibera\u00e7\u00e3o feminina\u201d, a dissemina\u00e7\u00e3o do uso dos \u201canticoncepcionais\u201d, etc. Segundo Lacan, um \u201cser aparece como que faltando no mar dos nomes pr\u00f3prios\u201d[5] ou, em outras palavras, a prolifera\u00e7\u00e3o dos nomes n\u00e3o apaga o que lhe falta: o inomin\u00e1vel insiste, nesse \u201cmar dos nomes pr\u00f3prios\u201d, mas ele n\u00e3o deve ser confundido com o an\u00f4nimo, pois se insurge entre os nomes pr\u00f3prios, \u201ccomo que faltando\u201d[6]. Mas que ser inomin\u00e1vel \u00e9 esse? A resposta de Lacan, nesse mesmo escrito de 1960, n\u00e3o \u00e9 direta, mas articula tal ser a um lugar que ele chama de \u201cGozo\u2026 cuja falta tornaria v\u00e3o o universo\u201d[7]. Ora, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que as sociedades contempor\u00e2neas vivem sob a press\u00e3o de um gozo que sempre precisa dar mostras de sua exist\u00eancia e de sua efetividade, que n\u00e3o pode parar e cujo m\u00ednimo vacilo \u00e9 vivido como um desmoronamento do universo ou, para retomar os termos de Lacan, um universo v\u00e3o. Neste mundo do gozo a qualquer pre\u00e7o, a \u201ctransmiss\u00e3o de uma constitui\u00e7\u00e3o subjetiva\u201d n\u00e3o \u00e9 necessariamente abolida, nem apagada. Ela me parece transmutada. Antes, ela tentava se valer de referenciais que evocavam uma unicidade: na transmiss\u00e3o de tipo patriarcal, tudo se remetia ao \u201cnome de fam\u00edlia\u201d, \u00e0 \u201crefer\u00eancia paterna\u201d (a \u201cesposa de fulano\u201d, o \u201cfilho de beltrano\u201d\u2026) ou, por oposi\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m ao que esse nome e essa refer\u00eancia n\u00e3o conseguiam abarcar (a \u201cad\u00faltera\u201d, a \u201cprostituta\u201d, o \u201cbastardo\u201d, o \u201cdesviado\u201d\u2026). No mundo contempor\u00e2neo, a constitui\u00e7\u00e3o subjetiva se pluraliza: em vez de um referencial unit\u00e1rio, h\u00e1 muito mais uma \u201cconstela\u00e7\u00e3o\u201d de refer\u00eancias, e evoco essa dimens\u00e3o constelar me servindo de \u201cLituraterra\u201d[8]. Por\u00e9m, ao inv\u00e9s de simplesmente se entusiasmar ou ajudar a propagar essa prolifera\u00e7\u00e3o de nomes, a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana nos leva muito mais a interessar pela falha que, nesse \u201cmar dos nomes pr\u00f3prios\u201d, n\u00e3o deixa de se reiterar, mesmo se o gozo que a\u00ed transborda nem sempre a faz ser escutada. A experi\u00eancia anal\u00edtica \u00e9 uma esp\u00e9cie de amplificador dessa falha que, embora insistente no mundo contempor\u00e2neo, \u00e9 cada vez mais inaud\u00edvel em meio \u00e0 prolifera\u00e7\u00e3o dos nomes pr\u00f3prios. Atrav\u00e9s dessa experi\u00eancia e do que ela amplifica, verificamos que a especificidade de cada constitui\u00e7\u00e3o subjetiva, ou, para evocar um termo caro aos nossos dias, a \u201cdiferen\u00e7a\u201d, vir\u00e1 muito mais dessa falha que da prolifera\u00e7\u00e3o dos nomes pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>De que maneira as distintas fun\u00e7\u00f5es que coexistem no grupo familiar e os la\u00e7os sintom\u00e1ticos que se efetuam s\u00e3o afetados por uma \u00e9poca do Outro que n\u00e3o existe?<\/strong><\/p>\n<p>Efetivamente, o que voc\u00ea chama de \u201cdistintas fun\u00e7\u00f5es que coexistem no grupo familiar\u201d s\u00e3o, para Lacan (e aqui retorno ao escrito \u201cNota sobre a crian\u00e7a\u201d), apenas duas: a fun\u00e7\u00e3o do pai e a fun\u00e7\u00e3o da m\u00e3e. Sobretudo tendo em vista os debates atuais sobre as diferentes formas de se compor uma fam\u00edlia, e que s\u00e3o diferentes especialmente frente ao chamado \u201cmodelo heteronormativo\u201d, sublinho que, por estarem associados ao termo fun\u00e7\u00e3o, as palavras pai e m\u00e3e n\u00e3o correspondem respectivamente a homem e mulher anatomicamente falando. Como nossa \u00e9poca \u00e9 tamb\u00e9m tomada pelo que se apresenta como performance, acho igualmente importante lembrar que, para Lacan, fun\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de \u201cpapel\u201d ou \u201cdesempenho\u201d: ele me parece extrair esse termo da matem\u00e1tica e, assim, fun\u00e7\u00e3o \u00e9 o que, por exemplo, estabelece uma rela\u00e7\u00e3o entre dois diferentes conjuntos, entre elementos heterog\u00eaneos. Assim, a fun\u00e7\u00e3o da m\u00e3e \u00e9 tematizada por Lacan como aquela cujos \u201ccuidados trazem a marca de um interesse particularizado, nem que seja por interm\u00e9dio de suas pr\u00f3prias faltas\u201d[9], ou seja, essa fun\u00e7\u00e3o relaciona, pelo vi\u00e9s dos cuidados, a crian\u00e7a (conjunto 1) e o que diz respeito \u00e0 pr\u00f3pria particularidade de quem dela cuida, ou seja, ao modo como a crian\u00e7a vem responder \u00e0s \u201cfaltas\u201d de quem ela recebe os cuidados, \u00e0s formas como a m\u00e3e \u00e9 parte interessada (conjunto 2) nos cuidados da crian\u00e7a. Nesse vi\u00e9s, os cuidados ditos maternos implicam interesses que extrapolam a maternidade. Por sua vez, a fun\u00e7\u00e3o do pai tamb\u00e9m relaciona elementos provenientes de distintos conjuntos, porque, segundo Lacan, \u201cseu nome \u00e9 o vetor de uma encarna\u00e7\u00e3o da Lei no desejo\u201d[10] e, assim, temos, por um lado, numa esp\u00e9cie de conjunto B, os elementos, digamos, mais abstratos que s\u00e3o \u201cnome\u201d, \u201cvetor\u201d, \u201cLei\u201d e, por outro lado, numa esp\u00e9cie de conjunto C, os elementos que eu chamaria de mais corporais e que s\u00e3o \u201cencarna\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cdesejo\u201d. Tanto na fun\u00e7\u00e3o da m\u00e3e, quanto na fun\u00e7\u00e3o do pai, reencontramos o que, na resposta \u00e0 quest\u00e3o anterior, eu assinalei como o que falha na prolifera\u00e7\u00e3o dos nomes pr\u00f3prios: se h\u00e1 um interesse particular da m\u00e3e ao cuidar da crian\u00e7a, cada m\u00e3e ser\u00e1 muito diferente do que se idealiza ou padroniza como sendo \u201cA M\u00e3e\u201d e estar\u00e1 em falta frente a todos os nomes pr\u00f3prios que procuram designar o que \u00e9 ser m\u00e3e; por sua vez, um pai estar\u00e1 em falta com \u201cO Pai\u201d idealizado ou padronizado e com os nomes pr\u00f3prios que pretendem referenciar o que \u00e9 ser pai, na medida em que a encarna\u00e7\u00e3o da Lei no desejo n\u00e3o comporta um padr\u00e3o ou o que valeria para tudo e para todos. Nesse contexto, e retomando o final de sua quest\u00e3o, se nossa \u00e9poca est\u00e1 efetivamente marcada pela inexist\u00eancia do Outro, isto \u00e9, desse lugar onde encontrar\u00edamos todos os significantes que procuram designar-nos, os nomes pr\u00f3prios proliferam como tentativas de serem referenciais. Assim, o Outro n\u00e3o existe, mas os mais diversos nomes pr\u00f3prios podem ser acessados, o que cada um deseja toma a dimens\u00e3o de lei inexor\u00e1vel, as crian\u00e7as se tornam objetos de cuidados como nunca antes se viu em nossa civiliza\u00e7\u00e3o. Entretanto, a experi\u00eancia anal\u00edtica ensina-nos que a imposi\u00e7\u00e3o da lei do desejo n\u00e3o \u00e9 efetivamente encarnar a lei no desejo, ou seja n\u00e3o \u00e9 articular elementos distintos (lei e desejo); nesse mesmo vi\u00e9s, o af\u00e3 contempor\u00e2neo de se tomar a crian\u00e7a como objeto inquestion\u00e1vel de cuidados muitas vezes desconsidera completamente as particularidades espec\u00edficas de cada crian\u00e7a, assim como a diversidade sempre crescente dos nomes pr\u00f3prios n\u00e3o favorece necessariamente um saber sobre o que nos designa ou nomeia em nossas particularidades. Por conseguinte, neste mundo do Outro que n\u00e3o existe, os sintomas continuam proliferando, mesmo se j\u00e1 n\u00e3o se manifestam mais exatamente como chegavam, no final do s\u00e9culo XIX e nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, ao consult\u00f3rio de Freud.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Em cada \u00e9poca, cabe aos analistas interpretar e responder \u00e0s conjun\u00e7\u00f5es de cada cultura, com uma posi\u00e7\u00e3o \u00e9tica e eficaz, considerando a psican\u00e1lise enquanto uma pr\u00e1tica aplicada ao sofrimento humano. Nessa perspectiva, at\u00e9 que ponto a Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana se configura como um vetor da pr\u00e1tica psicanal\u00edtica em nossos dias?<\/strong><\/p>\n<p>Sem d\u00favida, a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, ao poder amplificar e responder, sem calar ou suturar, a falha que insiste meio a todas as nomea\u00e7\u00f5es que proliferam em nossos dias, tem muito a fazer neste mundo e \u00e9 uma ferramenta de grande efetividade. Por\u00e9m, essa orienta\u00e7\u00e3o nos exige conceber a psican\u00e1lise muito mais do que, nesta terceira pergunta, \u00e9 evocado como \u201cpr\u00e1tica aplicada ao sofrimento humano\u201d. Certamente, ela incide e se aplica a tal sofrimento, mas sua for\u00e7a est\u00e1 muito mais em nos permitir a nos interessar pelo que est\u00e1 al\u00e9m do que um Nietzsche chamou de \u201chumano demasiadamente humano\u201d. Por isso, de acordo com o que Jacques-Alain Miller diversas vezes ressaltou, Lacan vai preferir em falar de \u201cexperi\u00eancia anal\u00edtica\u201d: a no\u00e7\u00e3o de experi\u00eancia pode comportar inclusive o que extrapola as concep\u00e7\u00f5es do que \u00e9 humano, mas sem que isso implique qualquer desumaniza\u00e7\u00e3o \u2013 ela nos convoca a estarmos atentos \u00e0s inven\u00e7\u00f5es, a como cada um se vira frente ao que n\u00e3o lhe \u00e9 \u201chumano, demasiadamente humano\u201d e que ao mesmo tempo lhe habita e transtorna.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 parte da sua pergunta que procura averiguar se a orienta\u00e7\u00e3o lacaniana pode ser \u201cum vetor da pr\u00e1tica psicanal\u00edtica\u201d hoje, considero que, embora estejamos em muitos lugares e muito al\u00e9m de nossos consult\u00f3rios particulares, n\u00e3o \u00e9 ainda poss\u00edvel sustentar que tal orienta\u00e7\u00e3o seja um vetor da pr\u00e1tica anal\u00edtica. Como um exemplo, contemplando o tema \u201cInconsciente e fam\u00edlia\u201d, cito o livro Francisco Bosco, Orfeu de bicicleta: um pai no s\u00e9culo XXI, publicado pela Editora Foz, do Rio de Janeiro, em 2015. Trata-se de um depoimento sobre como a paternidade se apresentou por duas vezes na vida desse autor e de como ele a vive de modo completamente diferente do que acontecia, em geral, aos pais de algumas d\u00e9cadas atr\u00e1s. J\u00e1 no in\u00edcio da Primeira Parte, por exemplo, poderemos ler uma frase que, recortada, soa bem lacaniana: \u201ca paternidade \u00e9 uma quest\u00e3o\u201d (p. 17). Ao longo do livro, vemos Francisco Bosco, mesmo perpassado pela inexist\u00eancia do Outro, tendo de se colocar como um Outro, por exemplo, para sua filha primog\u00eanita e seu filho ca\u00e7ula. Entretanto, quando ele busca a psican\u00e1lise para tematizar a quest\u00e3o que lhe toma o corpo especialmente com o nascimento de seus filhos, suas refer\u00eancias s\u00e3o Sigmund Freud, Donald Winnicott, Fran\u00e7oise Dolto, Contardo Caligaris e Maria Rita Khel. Embora, de algum modo, a refer\u00eancia a Lacan n\u00e3o deixa de estar presente em Dolto, Caligaris e Khel, n\u00e3o se trata propriamente ainda da orienta\u00e7\u00e3o lacaniana e, quando li os diferentes (e bem contempor\u00e2neos) modos como Francisco Bosco \u00e9 afetado e responde ao que ele mesmo chama de \u201cimpacto enorme\u201d da paternidade em sua vida, diversas vezes me ocorreu o quanto a orienta\u00e7\u00e3o lacaniana poderia contribuir para suas elabora\u00e7\u00f5es e seus impasses\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Na sua opini\u00e3o quais as quest\u00f5es fundamentais dever\u00e3o orientar a nossa reflex\u00e3o sobre o tema: Inconsciente e fam\u00edlia?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Acho que sobretudo suas duas primeiras quest\u00f5es e a \u00faltima s\u00e3o guias excelentes para essa reflex\u00e3o. Al\u00e9m delas, eu acrescentaria, a princ\u00edpio, mais duas.<\/p>\n<p>Uma, me ocorreu outro dia, quando relia \u201cAlgumas consequ\u00eancias ps\u00edquicas da diferen\u00e7a anat\u00f4mica entre os sexos\u201d e me deparei com a seguinte considera\u00e7\u00e3o freudiana sobre uma das possibilidades de se sair do complexo de \u00c9dipo: \u201cno caso normal \u2013 melhor dizendo: ideal \u2013 n\u00e3o subsiste mais um complexo de \u00c9dipo no inconsciente, o Super-eu \u00e9 seu herdeiro\u201d[11]. Parece-me que n\u00e3o \u00e9 incomum, sobretudo em certos casos de adolescentes e jovens adultos que chegam hoje a nossos consult\u00f3rios, nos depararmos com esse tipo de situa\u00e7\u00e3o \u201cideal\u201d aludida por Freud: eles n\u00e3o nos reportam propriamente o que o criador da psican\u00e1lise localizava como \u201cconflitos edipianos\u201d, a vida familiar que t\u00eam (mesmo com os problemas que ela comporta) \u00e9 considerada por eles como absolutamente \u201cnormal\u201d e, de fato, parece ser mesmo. Alguns sequer conseguem localizar exatamente o que lhes levam a procurar-nos, embora queiram analisar-se e s\u00e3o frequentes nas sess\u00f5es. Mas, imerso nessa \u201cnormalidade\u201d, n\u00e3o deixamos de encontrar a presen\u00e7a insidiosa do supereu. Nesse contexto, parece-me interessante explorar como, em casos assim, a n\u00e3o subsist\u00eancia do complexo de \u00c9dipo no inconsciente poderia implicar a presen\u00e7a insidiosa do supereu que, no entanto, \u00e9 herdeiro desse mesmo complexo. Em outros termos, se o complexo de \u00c9dipo n\u00e3o subsiste no inconsciente, tal \u201cnormalidade\u201d seria tomada pelo supereu que alguns p\u00f3s-freudianos preferiram qualificar de \u201cpr\u00e9-ed\u00edpico\u201d e que Lacan p\u00f4de destacar mais claramente nas psicoses? Eu n\u00e3o incluo, nas psicoses, os casos a que fa\u00e7o alus\u00e3o aqui, mas me parece impressionante que, no mundo onde o Outro n\u00e3o existe, tudo tende a ser considerado \u201cnormal\u201d e, nesse vi\u00e9s, poder\u00edamos investigar se o supereu se imporia, ent\u00e3o, como uma esp\u00e9cie de retorno no real de conflitos que, por n\u00e3o mais subsistirem no inconsciente, n\u00e3o se apresentam na realidade e, assim, fazem com que a realidade pare\u00e7a normal embora, efetivamente, ela seja perturbada pela presen\u00e7a real do supereu.<\/p>\n<p>Uma outra quest\u00e3o seria sobre o estatuto do falo hoje e de como Lacan, sobretudo no final de seu ensino, tematiza o falo. Por um lado, vivemos em um mundo que confere a todo tempo descr\u00e9dito ao falo, sobretudo porque o toma como \u201cpatriarcal\u201d, \u201cheteronormativo\u201d, basti\u00e3o de um \u201cbinarismo\u201d que desconsidera completamente a \u201cdiversidade sexual\u201d. Por outro lado, no Semin\u00e1rio 23, Lacan aborda o falo como \u201cfal\u00e1cia\u201d que \u201ctestemunha\u201d o real e como \u201c\u00fanico real que verifica o que quer que seja\u201d[12]. Nessa abordagem, n\u00e3o encontrar\u00edamos meios para enfrentarmos o descr\u00e9dito contempor\u00e2neo atribu\u00eddo ao falo e at\u00e9 de \u2013 sem qualquer retorno ao chamado \u201cfalocentrismo\u201d \u2013 irmos al\u00e9m dos impasses que tal descr\u00e9dito n\u00e3o deixa de implicar?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Considerando-se o fen\u00f4meno do \u201cdom\u00ednio materno\u201d, indicado por Miller como uma \u201cexpress\u00e3o da feminiza\u00e7\u00e3o da nossa \u00e9poca\u201d, qual a contribui\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise, tendo em vista as dificuldades das fam\u00edlias contempor\u00e2neas para articular lei e desejo, no processo de transmiss\u00e3o de uma constitui\u00e7\u00e3o subjetiva?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vivemos em um mundo onde cada vez mais a fala tende a perder o lastro corporal (por exemplo nas \u201cconversas\u201d intermin\u00e1veis por Whatsapp) e os corpos tendem a se mostrar como se pudessem desconectar-se da fala (por exemplo, na demanda imperativa \u201cmanda nudes!\u201d). Antes, a fun\u00e7\u00e3o paterna procurava dar algum lugar \u00e0 conjuga\u00e7\u00e3o da fala e do corpo, mas que se demonstra hoje muitas vezes insustent\u00e1vel porque soa (ou mesmo efetivamente \u00e9) autorit\u00e1ria, centralista, pouco ou nada afeita \u00e0s nuances do que lhe escapa e se apresenta como \u201cfeminino\u201d. A meu ver, a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana apresenta-nos um uso in\u00e9dito da conjuga\u00e7\u00e3o da fala e do corpo porque esse uso implica ir \u201cmais al\u00e9m do complexo de \u00c9dipo\u201d e outro modo de \u201cviver as puls\u00f5es\u201d. Nesse contexto, ela tem muito a contribuir, inclusive para que descubramos, nas tramas da feminiza\u00e7\u00e3o do mundo, a reitera\u00e7\u00e3o, mesmo de modo transmutado, do dom\u00ednio materno. Mas devemos tamb\u00e9m zelar para que essa contribui\u00e7\u00e3o n\u00e3o tome, como algumas vezes escuto (at\u00e9 mesmo entre n\u00f3s, psicanalistas de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana) uma perspectiva messi\u00e2nica e salvacionista. Afinal, o pr\u00f3prio Freud j\u00e1 nos ensinou que, sob a face sacrificial do filho salvador, o que insiste \u00e9 o sacrif\u00edcio do pai que torna o pai morto mais forte que o pai quando vivo. Logo, se a contribui\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana tomar uma perspectiva messi\u00e2nica e salvacionista, ela se far\u00e1 em \u201cNome do Pai\u201d e perder\u00e1 seu ineditismo de conjugar corpo e fala e de dar um lugar ao feminino como uma exce\u00e7\u00e3o diversa do pai, da m\u00e3e e mesmo d\u2019A mulher.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Respostas redigidas por S\u00e9rgio Laia<\/strong><\/p>\n<p>Psicanalista, Analista Membro da Escola (AME), pela Escola Brasileira de Psican\u00e1lise (EBP) e Membro da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise (AMP); Professor Titular IV do Mestrado de Estudos Culturais Contempor\u00e2neos e do Curso de Psicologia da Universidade FUMEC (Funda\u00e7\u00e3o Mineira de Educa\u00e7\u00e3o e Cultura); Pesquisador com projeto aprovado pela Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) e pelo Programa de Pesquisa e Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica (ProPIC) da Universidade FUMEC; Mestre em Filosofia e Doutor em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<h6>[1] LACAN, Jacques (1969\/2003). Nota sobre a crian\u00e7a. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, p. 369.<\/h6>\n<h6>[2] LACAN, Jacques (1969\/2003). Nota sobre a crian\u00e7a. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, p. 369.<\/h6>\n<h6>[3] LACAN, Jacques (1960\/1998). \u201cSubvers\u00e3o do sujeito e dial\u00e9tica do desejo no inconsciente freudiano\u201d, in: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, p. 834.<\/h6>\n<h6>[4] DURKHEIM, \u00c9mile (1892\/1975). La famille conjugale. In: Textes. Paris: Minuit.<\/h6>\n<h6>[5] LACAN, Jacques (1960\/1998). \u201cSubvers\u00e3o do sujeito e dial\u00e9tica do desejo no inconsciente freudiano\u201d, in: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar,, p. 834.<\/h6>\n<h6>[6] LACAN, Jacques (1960\/1998). \u201cSubvers\u00e3o do sujeito e dial\u00e9tica do desejo no inconsciente freudiano\u201d, in: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, p. 834.<\/h6>\n<h6>[7]LACAN, Jacques (1960\/1998). \u201cSubvers\u00e3o do sujeito e dial\u00e9tica do desejo no inconsciente freudiano\u201d, in: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, p. 834.<\/h6>\n<h6>[8] LACAN, Jacques (1971\/2003). \u201cLituraterra\u201d, in: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, p. 24.<\/h6>\n<h6>[9] LACAN, Jacques (1969\/2003). Nota sobre a crian\u00e7a. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, p. 369.<\/h6>\n<h6>[10] LACAN, Jacques (1969\/2003). Nota sobre a crian\u00e7a. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, p. 369.<\/h6>\n<h6>[11] FREUD, S. (1925\/2011). Algumas consequ\u00eancias ps\u00edquicas da diferen\u00e7a anat\u00f4mica entre os sexos. In: Obras Completas, vol. 16. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, p. 297.<\/h6>\n<h6>[12] LACAN, Jacques (1975-1976\/2007). O semin\u00e1rio. Livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, p. 101-115.<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00c9RGIO LAIA &nbsp; &nbsp; A fam\u00edlia se configura como um tema de fundamental interesse para a sociedade contempor\u00e2nea e, consequentemente, para a cl\u00ednica psicanal\u00edtica. 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