{"id":885,"date":"2016-07-17T06:56:48","date_gmt":"2016-07-17T09:56:48","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=885"},"modified":"2025-12-01T16:46:46","modified_gmt":"2025-12-01T19:46:46","slug":"entrevista-com-marcia-tiburi-sobre-o-livro-uma-fuga-perfeita-e-sem-volta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2016\/07\/17\/entrevista-com-marcia-tiburi-sobre-o-livro-uma-fuga-perfeita-e-sem-volta\/","title":{"rendered":"Entrevista Com M\u00e1rcia Tiburi Sobre O Livro \u201cUma Fuga Perfeita \u00c9 Sem Volta"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>LUDMILLA F\u00c9RES FARIA E M\u00c1RCIA MEZ\u00caNCIO<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/fundo-4-e1488753400903.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1890\" data-large_image_height=\"471\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-886\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/fundo-4-e1488753400903-1024x255.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"255\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/fundo-4-e1488753400903-1024x255.jpg 1024w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/fundo-4-e1488753400903-300x75.jpg 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/fundo-4-e1488753400903-768x192.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/fundo-4-e1488753400903-1536x383.jpg 1536w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/fundo-4-e1488753400903.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p><strong>SWAYING 1<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/marcia_tiburi_0091-400x600-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"400\" data-large_image_height=\"600\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-887\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/marcia_tiburi_0091-400x600-1.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/marcia_tiburi_0091-400x600-1.jpg 400w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/marcia_tiburi_0091-400x600-1-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p>Nosso encontro com seu livro foi provocado por uma entrevista a uma r\u00e1dio de BH, por ocasi\u00e3o do seu lan\u00e7amento, que ressoou com o tema de trabalho ao qual nos dedicaremos no ano de 2017 na Jornada da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, se\u00e7\u00e3o Minas Gerais, que s\u00e3o os assuntos de fam\u00edlia. Nessa entrevista, voc\u00ea localizava o ponto de partida da trama e a not\u00edcia da morte do pai transmitida entre trivialidades e dizia ter se perguntado se n\u00e3o havia exagerado ao propor essa situa\u00e7\u00e3o. Em nossos consult\u00f3rios, tem nos chamado a aten\u00e7\u00e3o justamente a forma como s\u00e3o relatadas algumas situa\u00e7\u00f5es, entre banalidades, particularmente alguns assuntos de fam\u00edlia, de forma alguma banais.<br \/>\nAssim, nossa entrada se d\u00e1 por esse vi\u00e9s e, ainda que os temas abordados pelo livro nos proponham in\u00fameras quest\u00f5es, foi ele o que nos orientou a<br \/>\nleitura, prazerosa e desconcertante, desse romance.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Em sua entrevista, ao blog da Editora Record, sobre o livro \u201cUma fuga perfeita \u00e9 sem volta\u201d, voc\u00ea afirma que o romance nasceu de alguns sonhos seus, e que a psican\u00e1lise n\u00e3o daria conta daqueles sonhos. Em que sentido voc\u00ea faz essa afirma\u00e7\u00e3o? A escrita do livro foi, ent\u00e3o, uma forma de responder as quest\u00f5es que os sonhos colocaram?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O livro nasceu apenas porque eu tinha um sonho recorrente. A cena inicial na qual Klaus demonstra sua perplexidade com a not\u00edcia, e a forma como ela \u00e9 dada, era o conte\u00fado com o qual sonhei v\u00e1rias vezes. No sonho, eu ligava para uma de minhas irm\u00e3s e ela me dizia, entre trivialidades, que meu pai tinha morrido. No sonho, eu ficava perplexa. Ao acordar, permanecia perplexa. Inclusive, em algum momento, cheguei a pensar que pudesse ser verdade e que minha fam\u00edlia fosse t\u00e3o estranha que pudesse deixar de me falar uma coisa dessas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Embora eu fa\u00e7a an\u00e1lise (ainda que esteja, exatamente neste momento, em uma lacuna no tempo da an\u00e1lise), creio que, depois de Lacan, o sonho n\u00e3o importa mais do mesmo modo como importava em uma leitura freudiana. Mas os sonhos s\u00e3o importantes para mim, mais do que por quest\u00f5es psicanal\u00edticas, porque s\u00e3o narrativas elementares que mostram coisas muito evidentes. S\u00e3o ideias em estado primitivo. Pensamentos primitivos, cheios de conte\u00fado, \u00e0s vezes melhor formulados do que pensamentos racionais. Meu personagem empresta muito da minha pr\u00f3pria pessoa, inclusive meus sonhos. Com exce\u00e7\u00e3o do sonho do gago com o morto no s\u00f3t\u00e3o, os demais s\u00e3o sonhos que eu realmente tive. Ou seja, esse livro \u00e9 atravessado por um caderno de sonhos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Desde o in\u00edcio, o tema da fam\u00edlia ocupa um lugar preponderante no desenrolar da trama e, em especial, na escritura da identidade\u201d do protagonista, que, conforme voc\u00ea afirma, est\u00e1 aprisionado nos ditos e nas hist\u00f3rias familiares. Ao final, ele afirma ter encontrado uma \u201cnova forma de viver\u201d. Seria essa sua metamorfose, desaprisionar-se da fam\u00edlia \u201cdas paredes g\u00e9lidas e escuras da lembran\u00e7a que desabam sobre n\u00f3s um dia\u201d (p. 98)?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Meu personagem nasceu de um modo muito espont\u00e2neo, mas aos poucos fui me dando conta de que ele era uma esp\u00e9cie de estrangeiro desde o nascimento. Um estrangeiro na pr\u00f3pria casa. H\u00e1 algo nele de Ant\u00edgona, mas s\u00f3 percebi essa quest\u00e3o bem tarde. Ele vive aquela ideia benjaminiana de que n\u00e3o h\u00e1 nada mais estrangeiro do que o corpo. Ora, a cidade \u00e9 corpo. A pol\u00edtica \u00e9 corpo. Digamos que o pr\u00f3prio corpo \u00e9 uma primeira experi\u00eancia de estrangeirismo. A nova forma de viver \u00e9 um modo de assumir sua condi\u00e7\u00e3o estrangeira. \u00c9 saber-se diferente no meio de uma identidade amea\u00e7adora e aniquiladora. A fam\u00edlia nos constr\u00f3i, pouco do que somos \u00e9 aut\u00f4nomo. O desejo \u00e9 essa porta que se abre, ou a porta que conseguimos abrir para escapar da pris\u00e3o, digamos assim. Nesse sentido, a fuga do meu personagem \u00e9 uma fuga da pris\u00e3o da fam\u00edlia. A fam\u00edlia que permanece dentro de n\u00f3s, para sempre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ao tema da fam\u00edlia, ent\u00e3o, se liga o tema da fuga. Considerando a fuga perfeita, sem volta, como afirmado no t\u00edtulo, e ainda \u201cque a grande fuga se d\u00e1 de fora para dentro, n\u00e3o de dentro para fora\u201d (p. 139), que \u00e9 seguida da ideia da possibilidade de retorno ao Brasil, perguntamo-nos se existe fuga perfeita e se o personagem a atinge. Podemos ler assim quando, referindo-se ao conto de A. A., ele diz que Saint-\u00c9xupery \u201cprecisava de uma fuga perfeita que pudesse salvar sua pr\u00f3pria vida, e o \u00fanico modo era acabar com ela e redimension\u00e1-la\u201d (p. 574), e ainda que \u201cEle organizou a fuga perfeita. A fuga por metamorfose. A fuga sem volta.\u201d (p. 588)? Voltar para confirmar-se (p. 199) n\u00e3o ser o que eles s\u00e3o, desobrigado de qualquer d\u00edvida, ainda que preso a si mesmo (p. 143)?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que significa essa fuga perfeita? Fugas h\u00e1 muitas, mas uma perfeita \u00e9 mais bem complicado. Klaus experimenta um aprisionamento em si mesmo ao qual foi condenado pela fam\u00edlia, incapaz de olhar para ele. A m\u00e3e que morre louca, o pai que n\u00e3o suportava sua figura, a irm\u00e3 que era uma esperan\u00e7a e que, infelizmente, n\u00e3o foi capaz de perceber o car\u00e1ter extraordin\u00e1rio que os unia. Mas ele se sente culpado, sobretudo pela irm\u00e3. Ao mesmo tempo, ele se considera digno de uma outra vida poss\u00edvel. Da\u00ed o papel de A. A. A cria\u00e7\u00e3o de Agnes Atanassova a partir do que est\u00e1 dispon\u00edvel, os objetos da casa, as roupas e acess\u00f3rios do velho guarda-roupa, um peda\u00e7o de hist\u00f3ria escrita em um caderno abandonado, os restos deixados pelos outros nos achados e perdidos. Klaus \u00e9, a meu ver, um efeito do abandono ao qual estamos todos condenados. A. A. tem o teor de um encontro. Eu fui abandonado, mas eu posso encontrar, no que foi abandonado, uma sa\u00edda para o meu pr\u00f3prio abandono. Todo encontro, todo \u201cencontrar\u201d \u00e9, tamb\u00e9m, em alguma medida, inventar. \u00c9 isso o que Klaus nos faz saber. Agnes Atanassova \u00e9 a fuga perfeita. A meu ver, a hist\u00f3ria da morte de Saint-\u00c9xupery \u00e9 redimensionada porque o pr\u00f3prio Klaus percebe que ele pode desaparecer para ser outro. No caso, ele escolher\u00e1 ser outra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea afirma ter se inspirado livremente na passagem de Saint-\u00c9xupery pelo Brasil para construir a quest\u00e3o da fuga que permite a evolu\u00e7\u00e3o do romance, e que se torna uma quest\u00e3o mais decisiva no fim do livro. Destaca tamb\u00e9m a quest\u00e3o do Desterro, nome original da ilha, articulada ao personagem desterrado da pr\u00f3pria casa e da pr\u00f3pria l\u00edngua. Para a condi\u00e7\u00e3o de estrangeiro e exilado, uma passagem parece decisiva: que a not\u00edcia da morte do pai tenha sido dada em portugu\u00eas e n\u00e3o na \u201cnossa l\u00edngua\u201d materna. M\u00e3e que d\u00e1 a vida e a morte (p. 403). Humanidade relacionada ao estatuto de falante, o que n\u00e3o significa comunica\u00e7\u00e3o (p. 64). Qual o estatuto dessa l\u00edngua materna? Em que medida constitui a fam\u00edlia, ou seu \u201cpano quente de sil\u00eancio\u201d?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Aqui tenho que falar novamente de algo muito pessoal. No momento em que respondo essa entrevista, tive que passar dois dias em Portugal e tive uma sensa\u00e7\u00e3o nova. A l\u00edngua portuguesa falada por l\u00e1 me deu a sensa\u00e7\u00e3o de que eu falo uma l\u00edngua estrangeira. \u00c9 verdade que o portugu\u00eas \u00e9 a nossa l\u00edngua materna, mas confesso que sinto como se n\u00e3o fosse a minha. Eu me sinto totalmente estrangeira ao falar e escrever em portugu\u00eas; ao mesmo tempo, a sensa\u00e7\u00e3o de paradoxo n\u00e3o me deixa, porque n\u00e3o aprendi outra l\u00edngua antes da l\u00edngua portuguesa, ainda que meus av\u00f3s paternos, com quem cresci, falassem italiano. Estou sempre com a impress\u00e3o de que falo a l\u00edngua errada. N\u00e3o procuro na literatura a l\u00edngua correta, mas a l\u00edngua que eu posso falar. A literatura \u00e9 a minha l\u00edngua materna em certo sentido. A l\u00edngua de quem n\u00e3o tem l\u00edngua. De quem tem, como Klaus, a l\u00edngua quebrada. Verdade que criei a gagueira de Klaus porque, pessoalmente, a gagueira sempre me impressiona, sempre me comove. Mas havia um sentido necess\u00e1rio ao personagem: ele n\u00e3o poderia ser um falante comum, algu\u00e9m capaz de conversar e de se sair bem na vida porque tinha essa habilidade. A gagueira \u00e9 esse impedimento, essa marca f\u00edsica e metaf\u00edsica de um erro original, de uma impossibilidade. Eu me sinto gaga de alma. E me tornei falante como fil\u00f3sofa, uma estudiosa do di\u00e1logo humano. Minha profiss\u00e3o me levou a ser falante at\u00e9 demais, na vida real, devido \u00e0 minha profiss\u00e3o de professora. Fora isso, na vida cotidiana, eu prefiro o sil\u00eancio, pois nunca sei o que dizer. A literatura certamente permite o sil\u00eancio como a sua forma de fala. Klaus tamb\u00e9m a encontrar\u00e1 no caderninho vermelho e a transformar\u00e1 em performance. Ele ser\u00e1 A.A.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>De que forma voc\u00ea descreveria a rela\u00e7\u00e3o entre a irm\u00e3 Agnes e a solu\u00e7\u00e3o encontrada pelo protagonista Klaus Wolf Sebasti\u00e3o? Em um dado momento do livro, ele chega a afirmar: \u201cAgnes, sou eu, Agnes, sou eu\u201d (p. 53). Isso poderia, a posteriori, ser escutado \u201ceu sou Agnes\u201d?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lembro bem quando escrevi essa frase. Eu mesma me surpreendi. Ele tinha percebido que, j\u00e1 naquele momento, ele estava diante de um espelho. Depois, esse espelho se materializar\u00e1. Penso que n\u00e3o h\u00e1 nada de mais apavorante do que a nossa semelhan\u00e7a com os nossos. Nesse sentido, sermos adotivos \u00e9 sempre menos pavoroso, ainda que, para muitas pessoas, possa parecer um desabono. Recorrendo novamente a um fato pessoal, confesso que passei a minha inf\u00e2ncia tentando entender se eu era ou n\u00e3o adotiva. Havia na minha fam\u00edlia esse registro amb\u00edguo que era quase um bulliyng que as pessoas faziam comigo. Eu nasci com cabelos pretos e crespos em um ambiente de gente loira com olhos azuis. Nesse caso, creio que Klaus vive de modo muito mais sofisticado algo que eu vivia. Emprestei a ele essa experi\u00eancia riqu\u00edssima de horror daquilo que \u00e9 familiar e a estanha satisfa\u00e7\u00e3o de descobrir em si uma dimens\u00e3o de diferen\u00e7a em si mesma redentora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O que significa dizer \u201c\u00c9 o pacto do enterro que define a fam\u00edlia. N\u00e3o o parentesco, mas o enterro\u201d (p. 100)? \u00c9 desse pacto que o personagem se v\u00ea exclu\u00eddo, como lemos em \u201cN\u00e3o se pode negar a heran\u00e7a\u201d (p. 386), \u201cIrm\u00e3os como esp\u00f3lio um do outro\u201d (p. 444) e \u201cEm uma fam\u00edlia s\u00f3 os testamentos s\u00e3o verdadeiros\u201d (p. 511)?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Talvez o que eu v\u00e1 responder soe um pouco m\u00f3rbido. Talvez seja muito particular e n\u00e3o vou sugerir que isso tenha validade universal. A meu ver, h\u00e1 muita coisa em comum entre fam\u00edlias e romances, mas sobretudo um elemento: os mortos. Todos os livros que escrevi foram livros sobre a morte e sobre os mortos. Todos foram, em certa medida, para poder conviver e, quem sabe, poder enterrar meus mortos. Aqueles mortos, inclusive, que n\u00e3o sei se poderei enterrar um dia, pois talvez eu morra antes. Nesse sentido, o racioc\u00ednio \u00e9 l\u00f3gico. Enterrar os outros significa ter sobrevivido. Escrevo, nesse sentido, para sobreviver. Nessa frase em particular, eu vejo um sinal de profunda solidariedade. Somos irm\u00e3os quando enterramos nossos mortos comuns, somos filhos quando enterramos nossos pais, aqueles que, simbolicamente, ajudamos a matar, para lembrar do Totem e Tabu. Mas, sobretudo, vejo o registro de Ant\u00edgona, para quem o enterro do irm\u00e3o era uma quest\u00e3o essencial. O \u00faltimo gesto \u00e9tico, um gesto que vai al\u00e9m da generosidade e do dever, um gesto de compaix\u00e3o final. Um gesto que equivale, por certa invers\u00e3o, por estar pr\u00f3ximo de uma invers\u00e3o, ao gesto do nascimento. Pode parecer morbidez em torno de um niilismo, mas se trata, muito mais, de um acordo que se fecha. De um profundo companheirismo em torno de um projeto no qual a morte n\u00e3o \u00e9 o coroamento, mas o fracasso inexoravelmente experimentado e que merece toda a compaix\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LUDMILLA F\u00c9RES FARIA E M\u00c1RCIA MEZ\u00caNCIO &nbsp; &nbsp; SWAYING 1 &nbsp; &nbsp; Nosso encontro com seu livro foi provocado por uma entrevista a uma r\u00e1dio de BH, por ocasi\u00e3o do seu lan\u00e7amento, que ressoou com o tema de trabalho ao qual nos dedicaremos no ano de 2017 na Jornada da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, se\u00e7\u00e3o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58119,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[],"class_list":["post-885","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-18","category-14","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/885","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=885"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/885\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58120,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/885\/revisions\/58120"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58119"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=885"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=885"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=885"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}