{"id":896,"date":"2016-07-17T06:56:48","date_gmt":"2016-07-17T09:56:48","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=896"},"modified":"2025-12-01T16:47:40","modified_gmt":"2025-12-01T19:47:40","slug":"o-avesso-da-procriacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2016\/07\/17\/o-avesso-da-procriacao\/","title":{"rendered":"O Avesso Da Procria\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>FRAN\u00c7OIS ANSERMET<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3-Francois-Ansermet.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"500\" data-large_image_height=\"435\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-897\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3-Francois-Ansermet.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"435\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3-Francois-Ansermet.jpg 500w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3-Francois-Ansermet-300x261.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p>Poderia-se definir a fam\u00edlia como uma institui\u00e7\u00e3o feita para tratar a diferen\u00e7a dos sexos e das gera\u00e7\u00f5es. Baseado nessas diferen\u00e7as, ela \u00e9, ao mesmo tempo, uma constru\u00e7\u00e3o artificial que vela o real que essas diferen\u00e7as indicam. Ela \u00e9, portanto, fundamentalmente desnaturada, sempre para al\u00e9m dos fatos biol\u00f3gicos sobre os quais ela repousa, mudando de forma antes que se tenha tempo de entend\u00ea-la, mas permanecendo como uma necessidade \u2013 o que revelam, por exemplo, seus dispositivos contempor\u00e2neos, como no caso de casais homossexuais e transexuais e seu desejo, por vezes militante, de adotar ou mesmo conceber crian\u00e7as.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia fornece, em seu seio, procria\u00e7\u00e3o e genealogia. \u00c9 preciso, no entanto, compreender bem que procria\u00e7\u00e3o e genealogia s\u00e3o dois registros radicalmente heterog\u00eaneos. Mas a fascina\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea pela causalidade natural quer superp\u00f4-los a todo pre\u00e7o \u2013 inclusive com um recurso cada vez mais frequente aos testes de paternidade, tornados dispon\u00edveis para todos em caso de d\u00favida s\u00fabita, sob a forma de kits comand\u00e1veis pela internet. As cerdas de uma escova de dentes ou um pequeno resto sobre uma colher de sobremesa s\u00e3o suficientes para saber de onde vem ou se sua crian\u00e7a vem mesmo de si.<\/p>\n<p>O parentesco biol\u00f3gico \u00e9 assim frequentemente evocado, com veem\u00eancia, para negar aquilo que se teceu no fio das identifica\u00e7\u00f5es e da hist\u00f3ria \u2013 como se nada houvesse se passado desde o nascimento! \u00c9 o caso, em se tratando da insemina\u00e7\u00e3o com doador (IAD \u2013 ins\u00e9mination avec donneur), quando se convoca a gen\u00e9tica no lugar da hist\u00f3ria, ou seja, o doador de esperma no lugar do pai, como se ele pudesse se apagar diante do espermatozoide. \u00c9 tamb\u00e9m o caso no que concerne \u00e0 ado\u00e7\u00e3o, com os famosos pais ditos biol\u00f3gicos. Gera\u00e7\u00e3o e ado\u00e7\u00e3o s\u00e3o efetivamente duas vis\u00f5es concorrentes do parentesco. Existem, inclusive, casos limites em que a ado\u00e7\u00e3o foi vista como um \u201ca mais\u201d em rela\u00e7\u00e3o ao parentesco por gera\u00e7\u00e3o, como nos Mbaya-Guaicuru citados por L\u00e9vi-Strauss nos Tristes tr\u00f3picos (1955, p. 260):<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>\u201cEsta sociedade se mostrava muito adversa aos sentimentos que n\u00f3s consideramos como naturais; assim ela experimentava um forte nojo pela procria\u00e7\u00e3o. O aborto e o infantic\u00eddio eram praticados de maneira quase normal, e a perpetua\u00e7\u00e3o do grupo se efetuava bem mais por ado\u00e7\u00e3o que por gera\u00e7\u00e3o, um dos alvos principais das expedi\u00e7\u00f5es guerreiras sendo o de encontrar crian\u00e7as. Assim calcula-se, no come\u00e7o do s\u00e9culo XIX, que no m\u00e1ximo 10% dos membros de um grupo guaicuru lhe pertencia por la\u00e7os de sangue.\u201d<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>[1]Vertigens biotecnol\u00f3gicas\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 preciso admitir que os universos subjetivos, simb\u00f3licos e imagin\u00e1rios da sexualidade, da procria\u00e7\u00e3o, da gesta\u00e7\u00e3o, do nascimento e da filia\u00e7\u00e3o s\u00e3o fundamentalmente sem rela\u00e7\u00e3o entre si, a n\u00e3o ser pelo fato de estarem \u00e0s voltas com o real impens\u00e1vel da origem, com as supl\u00eancias inventadas por cada um para compensar as disjun\u00e7\u00f5es \u2013 entre elas, a crian\u00e7a \u2013 que reconduzem mais ao real que \u00e0 origem. \u00c9 assim que, em an\u00e1lise, pode-se, por vezes, levantar o v\u00e9u que recobre esse real e distinguir, a prop\u00f3sito do que concerne \u00e0 fam\u00edlia, a vertente do semblante da vertente do gozo, este \u00faltimo sendo, definitivamente, o avesso da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Na cl\u00ednica s\u00f3 podemos nos orientar a partir de uma concep\u00e7\u00e3o desnaturalizada da estrutura familiar. \u00c9 o que revelam, de maneira expl\u00edcita, as procria\u00e7\u00f5es justamente chamadas artificiais, quando elas utilizam paradoxalmente a natureza como um art\u00edfice \u2013 mostrando, pela defasagem que elas implicam, aquilo sobre o qual repousa toda procria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As procria\u00e7\u00f5es medicamente assistidas (PMAs) revelam o diferencial sexual curto-circuitando-o. Elas desvelam tamb\u00e9m o \u00e2mbito do diferencial geracional congelando o tempo atrav\u00e9s da crioconserva\u00e7\u00e3o, que comporta o potencial, sen\u00e3o a possibilidade de saltar gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Seja como for, as PMAs for\u00e7am-nos a pensar a procria\u00e7\u00e3o da qual n\u00e3o temos habitualmente representa\u00e7\u00e3o. Temos uma data de nascimento, n\u00e3o uma data de procria\u00e7\u00e3o. Elas obrigam a pensar o impens\u00e1vel, a representar o irrepresent\u00e1vel. Nisso, as PMAs s\u00e3o uma falsa resposta a uma verdadeira quest\u00e3o, a uma quest\u00e3o imposs\u00edvel, aquela da origem e da procria\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 a\u00ed a fonte principal das vertigens que induzem as biotecnologias, que apontam justamente o real em torno do qual giram os la\u00e7os familiares.<\/p>\n<p>No buraco do imposs\u00edvel, tudo vem submergir, em particular as teorias sexuais infantis pr\u00f3prias a cada um dos pais, que t\u00eam a caracter\u00edstica de contornar o sexo, como nas biotecnologias da procria\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesse ponto que, finalmente, somos todos nascidos fantasmaticamente de PMA! Mas \u00e9 preciso tamb\u00e9m reconhecer que as PMAs podem acrescentar \u00e0 realidade modos de fazer in\u00e9ditos, ao ponto de tornar a natureza artificial, na medida da fantasia de cada um. Brevemente, tudo ser\u00e1 poss\u00edvel: at\u00e9 procriar a partir de c\u00e9lulas-tronco, podendo ser transformadas seja em espermatozoide, seja em \u00f3vulo \u2013 isso ainda \u00e9 experimental \u2013, com a perspectiva, melhor ainda que pela clonagem, de se tornar filho de si mesmo, como Galaad para Lancelot.<\/p>\n<p>As PMAs, dissociando a sexualidade da procria\u00e7\u00e3o e a procria\u00e7\u00e3o da gesta\u00e7\u00e3o, deixam finalmente \u00e0s \u00fanicas refer\u00eancias simb\u00f3licas \u2013 aquelas da diferen\u00e7a dos sexos e das gera\u00e7\u00f5es \u2013 a possibilidade de construir uma filia\u00e7\u00e3o, instalando, ao mesmo tempo e de maneira inesperada, as refer\u00eancias pr\u00f3prias \u00e0 psican\u00e1lise sobre o que est\u00e1 no centro da cena. Esse \u00e9 um efeito paradoxal das vertigens biotecnol\u00f3gicas que se trata de destacar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O avesso da biografia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A biografia n\u00e3o \u00e9 redut\u00edvel \u00e0 hist\u00f3ria, inclusive aquela da procria\u00e7\u00e3o. Como indica Lacan (2006a, p. 332), o que determina a biografia \u00e9 inicialmente \u201ca maneira pela qual se apresentaram os desejos do pai e da m\u00e3e\u201d, quer dizer, o modo \u201ccomo eles efetivamente ofereceram ao sujeito o saber, o gozo e o objeto a\u201d[2].<\/p>\n<p>\u00c9 disso que a crian\u00e7a deve advir, ela que faz sua entrada no mundo no lugar de objeto a \u2013 \u201caborto do que foi, para aqueles que a engendraram, causa do desejo\u201d (LACAN, 1991, p. 207)[3]. Ela deve advir como sujeito a partir desse estatuto de objeto, para vir \u201cse substituir \u00e0 hi\u00e2ncia que se designa no impasse da rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d (Idem, 2006a, p. 347)[4]: essa \u00e9 uma marca particularmente forte na cl\u00ednica das PMA.<\/p>\n<p>Eu poderia citar o caso desse casal que quer dizer a seus filhos, nascidos de esperma doado, a verdade sobre sua origem. A m\u00e3e me fala do pai biol\u00f3gico. O pai se retrai. Por que falar do pai biol\u00f3gico e n\u00e3o de doador de esperma? O que \u00e9 um pai? O que \u00e9 um espermatozoide? O que \u00e9 um doador de esperma? Eles retornam para repensar no fato de dizer mais do que na maneira de dizer\u2026 A m\u00e3e me fala de sua fantasia: se as crian\u00e7as desejarem um dia encontrar o doador de esperma \u2013 as duas crian\u00e7as s\u00e3o do mesmo doador depois de uma \u00fanica insemina\u00e7\u00e3o \u2013, ela ser\u00e1 perturbada a ponto de ser tomada de paix\u00e3o por esse homem\u2026 Afirma\u00e7\u00e3o que a surpreende a ponto de deixar a quest\u00e3o momentaneamente em suspenso.<\/p>\n<p>Eu poderia tamb\u00e9m evocar o caso de Pierre-Marie, que n\u00e3o para de perguntar \u201conde est\u00e1 papai?\u201d. Pierre-Marie tem tr\u00eas anos. Sua m\u00e3e \u00e9 uma mulher que concebeu essa crian\u00e7a sozinha, de maneira artificial por FIV (fecunda\u00e7\u00e3o in vitro) em Boston, com doa\u00e7\u00e3o de esperma. Ela queria oferecer fantasmaticamente essa crian\u00e7a \u00e0 sua m\u00e3e, que teve que d\u00e1-la, no seu nascimento, \u00e0 sua pr\u00f3pria m\u00e3e e n\u00e3o podia mais ter filhos, em consequ\u00eancia de complica\u00e7\u00f5es ginecol\u00f3gicas consecutivas \u00e0 gravidez.<\/p>\n<p>Pierre-Marie veio de um doador de esperma americano, definido pela ficha do banco de esperma californiano como de origem francesa e alem\u00e3 \u2013 o que representa alguma coisa na hist\u00f3ria dessa mulher \u2013 mas tamb\u00e9m cherokee (etnia ind\u00edgena norte-americana), tendo como principal qualidade o otimismo, como principal defeito a procrastina\u00e7\u00e3o e como livro preferido: The power of one. Eis que ela volta para a Su\u00ed\u00e7a, gr\u00e1vida, depois de uma FIV que lhe deixa ainda um zigoto \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, crioconservado em Boston.<\/p>\n<p>Ela deu \u00e0 luz, sem problemas, uma crian\u00e7a que se desenvolver\u00e1 normalmente, mas a inquietando \u2013 inquietante estranheza \u2013 ainda mais depois do dia em que ele come\u00e7a a falar e n\u00e3o para de invocar o pai: Quem \u00e9 papai? Onde est\u00e1 papai? Quest\u00f5es reiteradas que deixam a m\u00e3e completamente desprovida, sem voz. Tais quest\u00f5es tornam-se progressivamente, para Pierre-Marie, a principal via para agredir sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>Depois de uma aventura, ao modo de Wim Wenders, atrav\u00e9s dos Estados Unidos para encontrar os tra\u00e7os do doador, de centros de PMA aos bancos de esperma, ela acaba por fazer um novo implante do zigoto crioconservado que restou \u2013 dessa vez, sem sucesso. Da \u00e1rvore geneal\u00f3gica conhecida \u00e0 \u00e1rvore geneal\u00f3gica suposta, tudo isso n\u00e3o cessar\u00e1 at\u00e9 que ela aceite meu dizer, endere\u00e7ado a ela e a seu filho, de que a \u00fanica resposta a essa quest\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 resposta. Essa interven\u00e7\u00e3o traz uma pacifica\u00e7\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o com o filho e uma melhora sintom\u00e1tica quase imediata para a crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Em resumo, \u00e9 a partir de um lugar j\u00e1 estabelecido e de decis\u00f5es j\u00e1 tomadas que a crian\u00e7a ter\u00e1 que fazer suas pr\u00f3prias escolhas para ir al\u00e9m de seu estatuto de objeto, al\u00e9m dos modos de gozo dos quais ela descende.<\/p>\n<p>O que ele inventa, ent\u00e3o, o separa para al\u00e9m daquilo que o determina, segundo um desejo que lhe \u00e9 pr\u00f3prio, que emerge das respostas atrav\u00e9s das quais ele se constitui, qualquer que seja o modo de procria\u00e7\u00e3o ou os modos de gozo dos quais ele adv\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A morte na procria\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pode-se ent\u00e3o observar o gozo como uma primeira vers\u00e3o desse avesso da procria\u00e7\u00e3o. Mas o avesso da procria\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m a morte, com o estatuto nem vivo nem morto dos embri\u00f5es crioconservados em suspenso no nitrog\u00eanio l\u00edquido a -196 graus. \u00c9 uma esp\u00e9cie de avesso de Senhor Waldemar, de Edgar Allan Poe, que queria manter-se por hipnose entre a vida e a morte no momento de morrer. Aqui, ao contr\u00e1rio, \u00e9 no momento de emerg\u00eancia da vida que o futuro \u00e9 congelado. Novas formas de demanda se articulam concernindo os embri\u00f5es e os gametas crioconservados: assim, uma mulher gostaria de congelar seus \u00f3vulos no momento de aceitar um emprego importante que lhe tomar\u00e1 todo seu tempo, para dispor deles quando sua carreira estiver estabelecida. \u00c9 tamb\u00e9m institu\u00edda hoje a oferta de separar e crioconservar os espermatozoides, ou, mais recentemente, os \u00f3vulos, quando um tratamento oncol\u00f3gico ofere\u00e7a risco de esterilidade \u2013 esses gametas podem inclusive sobreviver \u00e0queles de quem eles prov\u00e9m. Encontramos as mesmas quest\u00f5es com os embri\u00f5es que se acumulam nos laborat\u00f3rios. Da\u00ed uma nova lei na Su\u00ed\u00e7a que obriga a tomar uma decis\u00e3o ap\u00f3s cinco anos de crioconserva\u00e7\u00e3o \u2013 ou se implanta o embri\u00e3o, ou se o destr\u00f3i \u2013 escolha imposs\u00edvel para a maior parte.<\/p>\n<p>Temos ent\u00e3o uma cl\u00ednica nova nutrida de enunciados in\u00e9ditos, testemunhando sobre o estranho estatuto dado \u00e0s crian\u00e7as vindas dos zigotos crioconservados entre procria\u00e7\u00e3o e gesta\u00e7\u00e3o, como essa m\u00e3e que, no final da consulta, diz para seu filho: \u201cVem, meu pequeno Findus, est\u00e1 na hora!\u201d[5]. Ou essa outra que fala de seu filho como seu \u201cpequeno congelado\u201d. Qualquer que seja seu modo, toda procria\u00e7\u00e3o visa a parte imortal no vivente mortal, para retomar a express\u00e3o de S\u00f3crates referindo-se \u00e0s proposi\u00e7\u00f5es de Diotima no Banquete de Plat\u00e3o. Para que procriar tenha seu sentido pleno, como o enuncia Lacan: \u201c\u00c9 preciso ainda, que nos dois sexos, haja apreens\u00e3o, rela\u00e7\u00e3o com a experi\u00eancia da morte\u201d (1981, p. 330)[6]. \u00c9 esse avesso da procria\u00e7\u00e3o que o projeto de clonagem rejeita, como os del\u00edrios de procria\u00e7\u00e3o dos psic\u00f3ticos, com a perspectiva prometida de poder se recriar id\u00eantico a si, portanto, eterno \u2013 o que \u00e9 imposs\u00edvel, pois o clone ser\u00e1 de toda maneira outro independente daquele de onde ele vem, devido \u00e0 exist\u00eancia do Outro e do sujeito, ele mesmo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>P\u00f3s-cria\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Isso nos leva a uma terceira vers\u00e3o do avesso da procria\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m do gozo e da morte: aquela da cria\u00e7\u00e3o, onde o sujeito realiza para al\u00e9m de sua procria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se a procria\u00e7\u00e3o realiza uma supl\u00eancia \u00e0 n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual, uma conex\u00e3o para al\u00e9m da disjun\u00e7\u00e3o entre o gozo e o Outro, entre o homem e a mulher, o avesso da procria\u00e7\u00e3o se apoia sobre uma parte de intransmiss\u00edvel que oferece, paradoxalmente, ao sujeito, o espa\u00e7o de cria\u00e7\u00e3o, de uma \u201cp\u00f3s-cria\u00e7\u00e3o\u201d para retomar uma formula\u00e7\u00e3o de Joyce em Ulisses (1995, p. 442)[7], que d\u00e1 sua vers\u00e3o do avesso da procria\u00e7\u00e3o como cria\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do que foi procriado.<\/p>\n<p>De todo modo, a partir de acasos que empurram para a direita ou para a esquerda, o sujeito vai se fazer um destino (LACAN, 2006b, p.162)[8] que ele recomp\u00f5e a posteriori. A grande lei do universo \u00e9, com efeito, a conting\u00eancia. Tudo depende do imprevisto, do encontro. Como o enuncia Lacan (1998, p.18), \u201cVoc\u00eas surgiram desta coisa fabulosa, totalmente imposs\u00edvel, que \u00e9 a linhagem geradora. Voc\u00eas nasceram de duas c\u00e9lulas que n\u00e3o tinham nenhuma raz\u00e3o para se conjugar, se n\u00e3o fosse por esta esp\u00e9cie de maluquice que se convencionou chamar de amor.\u201d[9] De qualquer modo, o sujeito \u00e9 fundamentalmente disjunto de seu modo de procria\u00e7\u00e3o. Qualquer que seja a t\u00e9cnica pela qual a crian\u00e7a nasceu, nada pode resolver para o sujeito o enigma de sua vinda ao mundo. S\u00f3 lhe resta se inventar, encontrar suas pr\u00f3prias respostas \u2013 e, por que n\u00e3o, tamb\u00e9m, por meio de uma an\u00e1lise \u2013 desorganizando e reorganizando diferentemente o que estava no seu nascimento para al\u00e9m do que presidiu sua concep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><\/h6>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<hr \/>\n<h6><strong>REFER\u00caNCIAS:<\/strong><\/h6>\n<h6>[1] L\u00e9vi-Strauss, Claude. Tristes tropiques, Paris. Librairie Plon. Terre Humaine, 1955, p.260.<\/h6>\n<h6>[2] ______. Le S\u00e9minaire, Livre XVI. \u2019un Autre \u00e0 l\u2019autre. Paris, Le Seuil, 2006a, p.332.<\/h6>\n<h6>[3] ______. Le S\u00e9minaire, Livre XVII. L\u2019envers de la psychanalyse. Paris, Le Seuil, 1991, p. 207.<\/h6>\n<h6>[4] ______. Le S\u00e9minaire, Livre XVI, Op. cit., p.347.<\/h6>\n<h6>[5] Ansermet, F. Le roman de la congelation. La Cause Freudienne, n.60. Paris, Navarin \u00c9diteur, 2005, p.55-61.<\/h6>\n<h6>[6] LACAN, J. Le S\u00e9minaire, Livre III, Les psychoses, Paris, Le Seuil, 1981, p.330.<\/h6>\n<h6>[7] Joyce, J. Les breufs du soleil, Ulisses. Oeuvres Compl\u00e8tes II. Paris, Gallimard. La Pl\u00e9iade, 1995, p.442.<\/h6>\n<h6>[8] ______. Le S\u00e9minaire, Livre XXIII, Le synthome. Paris, Le Seuil, 2006b, p.162.<\/h6>\n<h6>[9] ______. Le ph\u00e9nom\u00e8ne lacanien . Confer\u00eancia de 30 de novembro em Nice. Les cahiers cliniques de Nice n. 1, 1998, p.18.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><strong>FRAN\u00c7OIS ANSERMET<\/strong><\/h6>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: L\u00facia Grossi<br \/>\nRevis\u00e3o: Luciana Andrade<br \/>\nFran\u00e7ois Ansermet \u00e9 psiquiatra, psicanalista e membro da \u00c9cole de la Cause Freudienne.<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FRAN\u00c7OIS ANSERMET &nbsp; &nbsp; Poderia-se definir a fam\u00edlia como uma institui\u00e7\u00e3o feita para tratar a diferen\u00e7a dos sexos e das gera\u00e7\u00f5es. Baseado nessas diferen\u00e7as, ela \u00e9, ao mesmo tempo, uma constru\u00e7\u00e3o artificial que vela o real que essas diferen\u00e7as indicam. 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