{"id":900,"date":"2016-07-17T06:56:48","date_gmt":"2016-07-17T09:56:48","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=900"},"modified":"2025-12-01T16:48:15","modified_gmt":"2025-12-01T19:48:15","slug":"a-psicanalise-em-relacao-as-familias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2016\/07\/17\/a-psicanalise-em-relacao-as-familias\/","title":{"rendered":"A Psican\u00e1lise Em Rela\u00e7\u00e3o \u00c0s Fam\u00edlias"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>ROSE-PAULE VINCIGUERRA<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/2-Rose-Paule-Vinciguerra-foto.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"700\" data-large_image_height=\"450\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-901\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/2-Rose-Paule-Vinciguerra-foto.jpg\" alt=\"\" width=\"700\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/2-Rose-Paule-Vinciguerra-foto.jpg 700w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/2-Rose-Paule-Vinciguerra-foto-300x193.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Se o inconsciente \u00e9 pol\u00edtico, n\u00e3o \u00e9 \u201cfora das antinomias que constituem as rela\u00e7\u00f5es dos homens com a natureza e a sociedade\u201d (LACAN, 2001a, p.59)[1] que o psicanalista deve situar sua pesquisa. O que ocorre, ent\u00e3o, nas fam\u00edlias hipermodernas \u2013 fam\u00edlias recompostas ou apresentando todas as varia\u00e7\u00f5es que a procria\u00e7\u00e3o m\u00e9dica assistida autoriza nos casais heterossexuais ou homossexuais \u2013, com as inevit\u00e1veis quest\u00f5es em que se coloca a crian\u00e7a no momento da sua entrada na sexua\u00e7\u00e3o genital, concernindo o mist\u00e9rio do nascimento, a rela\u00e7\u00e3o sexual dos pais e a diferen\u00e7a dos sexos? E, especialmente, quando a separa\u00e7\u00e3o entre sexualidade, conjugalidade e filia\u00e7\u00e3o \u00e9 reivindicada pela liberdade contempor\u00e2nea? Quando tamb\u00e9m a ideologia da igualdade reina em todos os n\u00edveis da parentalidade? Quando, enfim, uma suposta \u201cfraternidade contratual\u201d vem no lugar da figura irredut\u00edvel e tr\u00e1gica do pai freudiano?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Desse ponto de vista, qual pode ser a efic\u00e1cia do discurso anal\u00edtico? H\u00e1 aquilo que os psicanalistas podem constatar das rela\u00e7\u00f5es reais no campo social e h\u00e1 o que eles podem fazer. Mas, quando o sofrimento insiste, o ato psicanal\u00edtico n\u00e3o pode se esquivar nem se opor \u2013 \u201cboca fechada\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Conjugalidade, sexualidade em suas rela\u00e7\u00f5es \u00e0 filia\u00e7\u00e3o: a era da liberdade\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise ensina que as esperan\u00e7as colocadas na reconcilia\u00e7\u00e3o do ser humano com sua sexualidade se verificam fechadas t\u00e3o logo elas s\u00e3o abertas. O parceiro \u00e9 sempre o parceiro-sintoma. A clivagem do desejo sexual e da conjugalidade j\u00e1 havia sido notada por Diderot no Suppl\u00e9ment au voyage de Bougainville. Quanto a isso, a institui\u00e7\u00e3o familiar sempre tentou arrumar e tamponar esse imposs\u00edvel. Mas esse paradoxo, mascarado at\u00e9 ent\u00e3o, tende hoje a aparecer claramente, pois a esfera do privado tende facilmente a se exibir, e a reivindica\u00e7\u00e3o do direito a gozar se afirma livremente; se revela, ent\u00e3o, ao mesmo tempo, o real imposs\u00edvel em torno do qual a fam\u00edlia era constitu\u00edda. Mais ainda, nas fam\u00edlias que n\u00f3s hoje chamamos \u201chipermodernas\u201d, chega-se at\u00e9 a pensar numa procria\u00e7\u00e3o \u201cpara al\u00e9m do sexo\u201d. Assim, as rela\u00e7\u00f5es sexuais, elas mesmas, se tornam separadas da gesta\u00e7\u00e3o (especialmente com as procria\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas assistidas).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma das consequ\u00eancias \u00e9 que, na sociedade dita \u201cp\u00f3s-sexual\u201d, a crian\u00e7a nascida sem ato sexual se torna objeto de direito ou de contrato quando n\u00e3o \u00e9 pura quest\u00e3o de mulher. \u201cN\u00f3s cortamos alguma coisa do pai\u201d, notava Lacan (1994, p.350)[2] j\u00e1 h\u00e1 cinquenta anos. \u00c9 preciso ver, nessa clivagem prazer sexual\/gesta\u00e7\u00e3o \u2013 e nas montagens das fic\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas que as validam \u2013, um progresso irreprim\u00edvel das Luzes e do Direito contra o obscurantismo do segredo concernente ao desejo e ao gozo dos pais? O que se passa, a partir de ent\u00e3o, para a crian\u00e7a que se v\u00ea tornar-se receptora do dever de transpar\u00eancia dos quais os adultos se dizem os portadores? Como se formular\u00e1 essa exig\u00eancia de transpar\u00eancia se, porventura, a tecnologia do \u00fatero artificial vier a se realizar?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No inconsciente, entretanto, a crian\u00e7a n\u00e3o cessa de colocar a quest\u00e3o de sua origem de ser vivo. O mist\u00e9rio da origem resta como aquele do sujeito. A crian\u00e7a particulariza a quest\u00e3o leibniziana \u201cPor que existe alguma coisa ao inv\u00e9s do nada?\u201d para uma \u201cpor que eu existo?\u201d. Existe a \u201cest\u00fapida e inef\u00e1vel exist\u00eancia\u201d. Existe o corpo falante, do qual nenhum saber objetivo pode esgotar o real. Fica a cargo de cada sujeito encontrar o significante mestre da sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa quest\u00e3o, a crian\u00e7a vai colocar buscando sempre desvendar o segredo da sexualidade dos adultos. O segredo do gozo parental \u00e9 o lugar de uma cena primitiva, vista, ouvida ou fantasiada pela crian\u00e7a, e, como tal, \u00e9 a tentativa de pensar o impens\u00e1vel. Freud foi o primeiro a reparar que esse enigma constitu\u00eda o n\u00f3 das quest\u00f5es infantis: o que fazem os pais na sua intimidade? N\u00f3s podemos ent\u00e3o pensar que, no melhor dos casos, a crian\u00e7a reconstituir\u00e1 a esfera do interdito, pois o recalque n\u00e3o se edifica da repress\u00e3o do gozo; \u00e9 o inverso. A fam\u00edlia \u00e9, ela mesma, uma cria\u00e7\u00e3o que se edifica do recalque, como evoca Lacan, que acrescenta: \u201cMesmo se as lembran\u00e7as da repress\u00e3o familiar n\u00e3o forem verdades \u00e9 preciso invent\u00e1-las\u201d (1956-1957\/1994, p. 350)[3].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Igualdade e diferen\u00e7a\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00f3s podemos constatar que a fam\u00edlia hoje n\u00e3o \u00e9 mais vista como uma estrutura da parentalidade assegurando a passagem da natureza \u00e0 cultura atrav\u00e9s de interditos e de fun\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas, ou mesmo como manifestando a deser\u00e7\u00e3o da autoridade paterna, mas como um lugar descentrado e polimorfo. Como j\u00e1 podemos dizer, essa fam\u00edlia horizontal parece \u201cuma rede assexuada (\u2026) sem hierarquia nem autoridade\u201d (ROUDINESCO, 2002, p. 191)[4]. Em resumo, a fam\u00edlia \u00e9 pensada como o lugar de uma igualdade formal, sem princ\u00edpio de garantia nem de diferencia\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 ela a \u00faltima das comunidades ut\u00f3picas? A crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 mais como pensava o poeta rom\u00e2ntico Wordsworth, o pai do homem; ao inv\u00e9s disso, temos que nos haver com a crian\u00e7a companheira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se h\u00e1 igualdade, essa s\u00f3 pode ser no encontro da linguagem com o pulsional, como Lacan o sublinhava no seu Semin\u00e1rio XI, Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise: \u201cDo ponto de vista da inst\u00e2ncia da sexualidade, todos os sujeitos est\u00e3o em igualdade, desde a inf\u00e2ncia at\u00e9 a idade adulta\u201d (1973). Eles n\u00e3o t\u00eam, com efeito, \u201cque se haver a n\u00e3o ser com o que da sexualidade passa nas redes da constitui\u00e7\u00e3o subjetiva, nas redes do significante\u201d (LACAN, 1973). Podemos ent\u00e3o nos perguntar se essa igualdade formal no seio das novas fam\u00edlias n\u00e3o esconde um del\u00edrio social partilhado, aquele da possibilidade de se emancipar da diferen\u00e7a e, especialmente, da diferen\u00e7a dos sexos. \u00c9 preciso dizer que a fascina\u00e7\u00e3o pelas explora\u00e7\u00f5es da ci\u00eancia moderna n\u00e3o contradiz essa ideia, que fez com que Michel Houellebecq sustentasse essa proposi\u00e7\u00e3o delirante: \u201cLogo vai haver tr\u00eas, quatro, cinco sexos diferentes\u201d. Chegar\u00e1 talvez um tempo em que n\u00f3s poderemos escolher o sexo das crian\u00e7as. Mas o desejo de ter uma crian\u00e7a \u2013 a ser distinguido de querer \u2013 faz obje\u00e7\u00e3o a \u201cmesmidade\u201d (LACAN, 1965)[5] do Outro, ao amor a sua pr\u00f3pria imagem, que \u00e9 a ess\u00eancia da simetria. Ele aposta na conting\u00eancia da anatomia, do aleat\u00f3rio do momento, do encontro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Do mesmo modo podemos dizer que o que \u00e9 o real do sexo \u00e9 n\u00e3o sabido; ele est\u00e1 em falta no saber no Outro, escapa a toda mestria; ele \u00e9 \u201c\u00e0 exaust\u00e3o imposs\u00edvel\u201d (Ibid.)[6], diz Lacan. O que vem a\u00ed fazer supl\u00eancia \u00e9 o phallus; \u00e9 ao falo como significante da falta que \u00e9 atribu\u00edda a dissimetria entre os sexos. \u00c9 na medida em que o instrumento de conjun\u00e7\u00e3o (a c\u00f3pula) \u00e9 negativizado no inconsciente que o sujeito entra na verdade do sexo. Esse vi\u00e9s se chama castra\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, h\u00e1 sempre desigualdade do sujeito a toda subjetiva\u00e7\u00e3o de sua realidade sexual. O voto de igualdade sem diferen\u00e7a \u00e9, ent\u00e3o, um del\u00edrio sobre a aboli\u00e7\u00e3o da c\u00f3pula.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>De uma dita fraternidade\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Enfim, ap\u00f3s a reivindica\u00e7\u00e3o de liberdade e de igualdade, n\u00e3o assistimos ent\u00e3o ao aparecimento de uma falsa fraternidade contratual entre pais e crian\u00e7as, que viria substituir a hierarquia implicada na lei do desejo? Se, com efeito, o pai n\u00e3o \u00e9 mais essa figura \u201cde peso\u201d da hist\u00f3ria como havia pensado Freud, \u00e9 a uma rede de apar\u00eancia fraternal, em que cada um se sente \u201cfuncionalizado\u201d, que parece a fam\u00edlia. Essa forma de contrato \u00e9 uma das figuras da pr\u00f3pria ordem social, uma ordem social desde ent\u00e3o sem transcend\u00eancia, repartindo os lugares aos quais o sujeito se conforma em uma identifica\u00e7\u00e3o \u00e0s ins\u00edgnias. Em 1974, Lacan notava que n\u00f3s hav\u00edamos chegado a um ponto da hist\u00f3ria no qual o \u201cnomeado \u00e0\u201d, do qual o social det\u00e9m o poder, se via ultrapassar o que era do Nome-do-Pai. Ele notava a\u00ed o car\u00e1ter de \u201cdegenera\u00e7\u00e3o catastr\u00f3fica\u201d (LACAN, 1974)[7].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse \u201cser nomeado \u00e0\u201d, perguntar\u00edamos ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 \u201cindicado, tra\u00e7ado, projetado pela unicamente pela m\u00e3e?\u201d. A m\u00e3e moderna n\u00e3o traduz o Nome-do-Pai por um n\u00e3o; ela pode agora bastar-se a si mesma para exercer essa fun\u00e7\u00e3o de \u201cnomear \u00e0\u201d. Essa m\u00e3e totalmente s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 o nome do gozo Da mulher colocada em posi\u00e7\u00e3o absoluta, o que seria retornar a um aqu\u00e9m da ess\u00eancia classificat\u00f3ria devotada ao pai do nome e a um aqu\u00e9m do pai da alian\u00e7a? Esse seria ent\u00e3o o imp\u00e9rio ilimitado do gozo feminino para al\u00e9m do phallus, que daria o \u201ca\u201d. O contrato da ordem social, a fortiori o contrato fraternal pais-crian\u00e7as, mascararia assim a ferocidade da \u201cordem de ferro\u201d materna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como, desde ent\u00e3o, a proibi\u00e7\u00e3o do incesto pode ser ainda veiculada e, a fun\u00e7\u00e3o paterna, inscrita?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se, como notava Lacan em 1971, as m\u00e3es s\u00e3o incont\u00e1veis[8] \u2013 e n\u00e3o s\u00e3o os efeitos das novas tecnologias de procria\u00e7\u00e3o que poderiam o desmentir \u2013, o mesmo n\u00e3o se pode dizer da fun\u00e7\u00e3o do pai, que, ele, resta \u201ccont\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o do pai enquanto \u201cvalor de uso\u201d, enquanto \u201cutilidade social\u201d, como \u00c9ric Laurent (2005)[9] havia observado, que pode conectar o desejo maternal faltoso ou seu gozo transbordante. Nem o jur\u00eddico, nem o biol\u00f3gico, nem mesmo o afetivo saberia responder de maneira apropriada ao que \u00e9 a utilidade do pai, pois esse pai n\u00e3o \u00e9 \u201cde modo algum um ser consciente\u201d (LACAN, 1973, p. 58.)[10].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Da mesma maneira, tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o com os \u201csubstitutos imagin\u00e1rios\u201d do pai que as crian\u00e7as se p\u00f5em a forjar quando entram numa transfer\u00eancia anal\u00edtica a que poderiam responder. Por esses substitutos, os sujeitos tentam simbolizar um real sem lei, inventar uma norma social de uso interno, mas essa liga\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria n\u00e3o parece ser suficiente para fazer um n\u00f3 que segure. A partir de ent\u00e3o a crian\u00e7a, confrontada cedo ou tarde \u00e0 quest\u00e3o da emerg\u00eancia da sexualidade na puberdade, ver\u00e1 esse edif\u00edcio desmoronar-se. O pai enquanto real permanece desconhecido. A ordem familiar, dizia Lacan, n\u00e3o faz sen\u00e3o traduzir que \u201co Pai n\u00e3o \u00e9 o genitor\u201d (LACAN, 2001c, p. 532)[11].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que pode ent\u00e3o a psican\u00e1lise, se um pai n\u00e3o vem particularizar em um desejo vivo o cuidado que ele pode assegurar \u00e0 crian\u00e7a? \u00c9 aqui que um analista pode, nos bons casos, fazer intervir uma nomea\u00e7\u00e3o que venha se sobrepor (e n\u00e3o se opor) ao real do gozo e permitir, assim, se servir dela, indo al\u00e9m do gozo. Certamente n\u00e3o \u00e9 toda nomea\u00e7\u00e3o que pode ter essa fun\u00e7\u00e3o de particularizar o Nome-do-Pai em um desejo vivo. Entretanto, o analista, quanto a isso, n\u00e3o \u00e9 menos requisitado em seu ato. O sujeito pode ent\u00e3o reencontrar a falta, pr\u00f3pria ao seu desejo, l\u00e1 onde o peso do gozo do Outro havia feito traumatismo. N\u00e3o h\u00e1, portanto, nenhum conselho nem preceito geral do ato anal\u00edtico, tampouco existem solu\u00e7\u00f5es ready-made face ao que fez car\u00eancia paterna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Assim, que a psican\u00e1lise tenha alguma coisa a dizer sobre a fam\u00edlia n\u00e3o quer dizer que ela coloque a fam\u00edlia no lugar. Ela permitiria, sobretudo, a cada um, reinventar sua fam\u00edlia. Em todo caso, a psican\u00e1lise, se ela funda a liberdade de desejar, p\u00f5e-se fora das promessas de liberdade e de fraternidade. \u00c9 sobretudo no discurso anal\u00edtico que n\u00f3s podemos perceber o \u00edndice da fraternidade. Em 1972, Lacan dizia: \u201cN\u00e3o vos parece que esta palavra \u2018irm\u00e3o\u2019, \u00e9 justamente aquela a qual o discurso anal\u00edtico d\u00e1 a sua presen\u00e7a, ao menos pelo que ele traz da bagagem familiar?\u201d Ele acrescenta: \u201cIsso tem haver com muitas outras coisas e n\u00e3o somente a bagun\u00e7a familiar. N\u00f3s somos irm\u00e3os de nosso paciente enquanto que como ele, n\u00f3s somos os filhos do discurso\u201d (LACAN, 1972)[12]. N\u00e3o se trata aqui de uma rela\u00e7\u00e3o \u201ca eu e a mim\u201d pois cada um sabe que ela pode ser \u201cbastante conflituosa\u201d (LACAN, 1966, p. 591)[13], nem de um contrato de boa inten\u00e7\u00e3o nem de bons sentimentos. \u00c9 uma outra rela\u00e7\u00e3o que est\u00e1 em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Trata-se, sobretudo, enquanto somos filhos do discurso anal\u00edtico, de sustentar com ele \u201co compl\u00f4 da verdade\u201d (LACAN, 1974)[14]. A pol\u00edtica da psican\u00e1lise consiste em liberar, contra \u201ca ordem de ferro do nomear \u00e0\u201d, o lugar da verdade; n\u00f3s n\u00e3o podemos, com efeito, \u201cser nomeados \u00e0 psican\u00e1lise\u201d (LACAN, 1974)[15]. \u00c9 o saber no lugar da verdade que pode se opor aos saberes que reinam na cidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9, entretanto, poss\u00edvel, sen\u00e3o porque, no interior de uma cura, o analista n\u00e3o \u00e9 \u201cum puro\u201d. Sua posi\u00e7\u00e3o tem \u201cqualquer coisa de obscuro\u201d (LACAN, 1968)[16]; ele sabe se fazer \u201co que o outro quer fazer dele\u201d (LACAN, 1973, p. 58)[17] para permitir, no final, ao analisante, a b\u00e1scula de sua posi\u00e7\u00e3o e fazer nascer \u201co piv\u00f4 no qual uma balan\u00e7a pode se estabelecer e que se chama justi\u00e7a\u201d (LACAN, 1972)[18]. O discurso anal\u00edtico, s\u00f3, permite \u201crespeitar no Outro [\u2026] sua diferen\u00e7a, seu incompar\u00e1vel\u201d (MILLER, 1997\/1998)[19], que se esclarece a partir da destitui\u00e7\u00e3o subjetiva; s\u00f3, ele permite isso que Lacan um dia chamou \u201cnosso irm\u00e3o transfigurado que nasce da conjura\u00e7\u00e3o anal\u00edtica\u201d (LACAN, 1972)[20].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6>\n[1] LACAN, J. Les complexes familiares dans la formation de l\u2019individu, Autres \u00e9crits, Paris, Le Seuil. 2001a.<\/h6>\n<h6>[2] ______. Le S\u00e9minaire, livre IV, La Relation d\u2019objet (1956-1957), Paris, Le Seuil, 1994.<\/h6>\n<h6>[3] ______. T\u00e9l\u00e9vision, In: op.cit. 2001b.<\/h6>\n<h6>[4] Roudinesco, E. La famille em d\u00e9sorde, Paris, Fayard, 2002.<\/h6>\n<h6>[5] LACAN, J., Le S\u00e9minaire, livre XII, Probl\u00e8mes cruciaux pour la psychanalyse, 12 mar. 1965, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>[6] Ibid., 9 jun. 1965.<\/h6>\n<h6>[7] ______. Le S\u00e9minaire, livre XXI, Les non-dupes errent, 19 mar. 1974, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>[8] ______. Le S\u00e9minaire, livre XVIII, D\u2019um discours qui ne serait pas du semblant, 19 jun. 1971, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>[9] LAURENT, \u00c9. \u201cLe nom-du-P\u00e9re entre r\u00e9alisme et nominalisme\u201d, La Cause Freudienne, No 60, Paris, Le Seuil\/Navarin, jun. 2005.<\/h6>\n<h6>[10] LACAN, J. Le S\u00e9minaire, livre XI, Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse, Paris, Le Seuil, 1973.<\/h6>\n<h6>[11] ______. T\u00e9l\u00e9vision, In: op.cit. 2001c.<\/h6>\n<h6>[12] ______. Le S\u00e9minaire, livre XIX, \u2026ou pire, 21 jun. 1972, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>[13] ______. La direction de la cure et les principesde son pouvoir (1958), \u00c9crits, Paris, Le Seuil, 1966.<\/h6>\n<h6>[14] ______. Le S\u00e9minaire, livre XXI, In: op.cit. 1974.<\/h6>\n<h6>[15] Ibid., abr. 1974.<\/h6>\n<h6>[16] ______. Le S\u00e9minaire, livre XV, L\u2019acte psychanalytique, 24 jan. 1968, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>[17] ______. Le S\u00e9minaire, livre XI, Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse, Paris, Le Seuil, 1973.<\/h6>\n<h6>[18] ______. Le S\u00e9minaire, livre XIX, In: op.cit. 1972.<\/h6>\n<h6>[19] MILLER J.-A. S\u00e9minaire de politique lacanienne, 1997-1998, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>[20] LACAN, J. Le S\u00e9minaire, livre XIX, \u2026ou pire, 21 jun. 1972, in\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><strong>ROSE-PAULE VINCIGUERRA<\/strong><\/h6>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Let\u00edcia Soares<br \/>\nRevis\u00e3o: Luciana Andrade<br \/>\nRose-Paule Vinciguerra \u00e9 psicanalista, membro da Escola da Causa Freudiana.<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ROSE-PAULE VINCIGUERRA &nbsp; Se o inconsciente \u00e9 pol\u00edtico, n\u00e3o \u00e9 \u201cfora das antinomias que constituem as rela\u00e7\u00f5es dos homens com a natureza e a sociedade\u201d (LACAN, 2001a, p.59)[1] que o psicanalista deve situar sua pesquisa. O que ocorre, ent\u00e3o, nas fam\u00edlias hipermodernas \u2013 fam\u00edlias recompostas ou apresentando todas as varia\u00e7\u00f5es que a procria\u00e7\u00e3o m\u00e9dica assistida&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58125,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[],"class_list":["post-900","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-18","category-14","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/900","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=900"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/900\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58126,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/900\/revisions\/58126"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58125"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=900"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=900"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=900"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}