{"id":925,"date":"2017-03-17T06:57:21","date_gmt":"2017-03-17T09:57:21","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=925"},"modified":"2025-12-01T16:33:16","modified_gmt":"2025-12-01T19:33:16","slug":"the-wolfpack-entre-filmes-e-lobos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2017\/03\/17\/the-wolfpack-entre-filmes-e-lobos\/","title":{"rendered":"The Wolfpack: Entre Filmes E Lobos"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>GABRIEL SILVA MEDEIROS E ROBERTO CARLOS PIRES J\u00daNIOR<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/11-imagem-texto-the-wolfpack.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"1500\" data-large_image_height=\"1034\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-926\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/11-imagem-texto-the-wolfpack-1024x706.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"706\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/11-imagem-texto-the-wolfpack-1024x706.jpg 1024w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/11-imagem-texto-the-wolfpack-300x207.jpg 300w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/11-imagem-texto-the-wolfpack-768x529.jpg 768w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/11-imagem-texto-the-wolfpack.jpg 1500w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O cinema oferece hoje ocasi\u00e3o para reflex\u00f5es sobre a cl\u00ednica, j\u00e1 que, ao lado da psican\u00e1lise, a arte contempor\u00e2nea \u00e9 um discurso que p\u00f5e em relevo as mudan\u00e7as culturais hodiernas (BROUSSE, 2014). Nesse sentido, tomamos para aprecia\u00e7\u00e3o The Wolfpack (2015): um document\u00e1rio sobre a hist\u00f3ria da fam\u00edlia Angulo, cujos sete irm\u00e3os cresceram dentro de um apartamento e foram isolados do mundo exterior. Sa\u00edram pouqu\u00edssimas vezes, e at\u00e9 que se contrapusessem \u00e0 resolu\u00e7\u00e3o delirante imposta por um pai onipotente, muito tempo se passou. Portanto, debru\u00e7amo-nos primeiro sobre a paternidade psic\u00f3tica. Em seguida, investigamos como o cinema tornou a clausura poss\u00edvel por algum tempo e alicer\u00e7ou tamb\u00e9m uma inven\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da qual Mukunda, um dos irm\u00e3os, p\u00f4de se enla\u00e7ar ao \u201cmundo l\u00e1 fora\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A apresenta\u00e7\u00e3o de Oscar, o pai, prenuncia a t\u00f4nica paranoica intr\u00ednseca ao modo de organiza\u00e7\u00e3o dessa fam\u00edlia, correlata \u00e0 caracter\u00edstica disposi\u00e7\u00e3o de retorno da libido narc\u00edsica elucidada por Freud (1911\/1996) sobre a psicose. Sujeito distante e silencioso, Oscar revela ter grande influ\u00eancia no arranjo familiar, cujo fundamento parece convergir absolutamente ao seu ser: \u201cMeu poder est\u00e1 influenciando todos\u201d. Em resposta \u00e0s interfer\u00eancias manipuladoras da sociedade, protege a si e a sua fam\u00edlia na delimita\u00e7\u00e3o pan\u00f3ptica de um espa\u00e7o onde o seu olhar vigilante impera, detendo o controle e a guarda de sua comunidade. Compartilhando os valores hippies, o casal Oscar e Susanne (a m\u00e3e) aspiram \u00e0 cria\u00e7\u00e3o dos filhos na liberdade da natureza, purificados da babel civilizat\u00f3ria. Encontram na l\u00edngua primeira, o s\u00e2nscrito, os nomes de seus filhos. Ao mudarem-se para Nova York, onde teriam que somar recursos para tal projeto, veem-se cada vez mais sitiados na malha urbana. Ilhados num apartamento, o casal decide que a educa\u00e7\u00e3o dos filhos Bhagavan, Govinda, Narayana, Mukunda, Krsna, Jagadisa e Visnu aconteceria nos limites desse microcosmo, incontaminado pela viol\u00eancia, drogas, filosofia ou religi\u00e3o. A foraclus\u00e3o da norma simb\u00f3lica (LACAN, 1959\/1998) em Oscar se evidencia na radical separa\u00e7\u00e3o da \u201csociedade\u201d, seu Outro denso e n\u00e3o castrado. Fixando uma lei de ferro, ele tenta fazer barreira ao gozo ilimitado, estabelecendo um ponto cego ao real do olhar que goza dos corpos e os robotiza em favor dos interesses do sistema. Para a paternidade, Oscar se identifica ao deus Krishna, sustentando imaginariamente um lugar de Outro para a fam\u00edlia. A condi\u00e7\u00e3o subjetiva desse pai, sem a marca da divis\u00e3o, parece transmitir o apagamento da diferen\u00e7a no cl\u00e3 dos meninos-lobo. Com cabelos longos e corpos esguios, eles se apresentam homogeneizados, atuando como um s\u00f3 corpo; uma alcateia. De objeto privilegiado do olhar do Outro, Oscar, em sua tribo, encontra-se no lugar imperativo do \u201cOlho que tudo v\u00ea\u201d, convergindo para si a puls\u00e3o esc\u00f3pica que circula na fam\u00edlia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mukunda, por sua vez, afirma que o pai sempre encheu as cabe\u00e7as dos filhos com filmes. Ademais, argumenta que \u201ch\u00e1 um mundo l\u00e1 fora\u201d, e que devido ao fato de n\u00e3o o conhecerem, teve de criar, junto com a irmandade, um mundo pr\u00f3prio, servindo-se dos filmes para tal. Nessa cena, um dos outros irm\u00e3os chega a pontuar: \u201cmas sempre soubemos a diferen\u00e7a entre a vida real e os filmes\u201d. Segundo Metz (1980), o filme pode ser entendido como um espelho, pois tanto em um quanto em outro, qualquer coisa pode ser projetada. Inobstante, o primeiro diferencia-se do espelho primordial a partir do momento em que o espectador de cinema n\u00e3o tem, diante de si, sua imagem especular. Por j\u00e1 haver ultrapassado a primitiva indiferencia\u00e7\u00e3o entre eu e tu, o humano \u00e9 capaz de reconhecer que existem objetos; que ele pr\u00f3prio \u00e9 um sujeito e que h\u00e1 quem seja seu semelhante. Ele pode, portanto, acompanhar como observador o que se apresenta na tela. \u201cNo cinema, \u00e9 sempre o outro que est\u00e1 no \u00e9cran: eu estou l\u00e1 para o ver\u201d (METZ, 1980, p. 58).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Metz (1980) entende que h\u00e1 um saber do sujeito sem o qual nenhum filme seria poss\u00edvel. Vendo um filme, o indiv\u00edduo d\u00e1-se conta de que ele pr\u00f3prio percebe o imagin\u00e1rio; que seus \u00f3rg\u00e3os sensoriais s\u00e3o fisicamente atingidos e que n\u00e3o est\u00e1 \u201cfantasiando\u201d. Simultaneamente, o material percebido-imagin\u00e1rio dep\u00f5e-se no sujeito \u2013 estrutura de linguagem \u2013, sendo a\u00ed agrupado e organizado numa continuidade. H\u00e1, por parte de quem v\u00ea o filme, uma identifica\u00e7\u00e3o com o ato do perceber; um jogo dial\u00e9tico entre agente da percep\u00e7\u00e3o (sujeito) e percebido (tela), atrav\u00e9s do qual o imagin\u00e1rio do cinema, ao ser captado pelo espectador, acede ao simb\u00f3lico, fazendo-se por isso uma atividade social e institucionalizada. O que, todavia, n\u00e3o eclipsa as possibilidades identificat\u00f3rias, j\u00e1 que, na trilha de Brousse (2014), o imp\u00e9rio das imagens \u00e9 uma trademark de nosso tempo, da qual o cinema certamente n\u00e3o est\u00e1 livre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Portanto, na cria\u00e7\u00e3o de um mundo, curiosa solu\u00e7\u00e3o come\u00e7a a se apresentar. Pulp Fiction e Reservoir Dogs s\u00e3o algumas das obras cujas falas Mukunda transcreve, ipsis litteris, para o papel. Ele explica que a vida enclausurada fica muito entediante, e que, assim, interpreta com seus irm\u00e3os as cenas copiadas. O figurino dos personagens, pistolas de papel\u00e3o e uma sonoplastia improvisada se articulam em encena\u00e7\u00f5es fi\u00e9is aos m\u00ednimos detalhes. Parece estar em jogo um modo de gozo coletivizado. Mukunda fala que as encena\u00e7\u00f5es t\u00eam algo de m\u00e1gico, e fazem com que ele se sinta vivo. Afirma poder, com isso, ser os personagens que encarna. Lacan (1979\/2003) formular\u00e1 ao final de seu ensino que ser falante n\u00e3o \u00e9, mas tem e fala com seu corpo; tem um evento corporal, isto \u00e9, o sintoma. A gente o tem, e \u201cTer \u00e9 poder fazer alguma coisa com\u201d (LACAN, 1979\/2003, p. 562). Mukunda e os lobos p\u00f5em seus corpos em cena. Interpretam, sorriem, matam e morrem. Porque no parecer-real sobre o qual se erige um mundo-dentro-do-apartamento, isso se pode fazer. Para Lacan, o imagin\u00e1rio \u00e9 o corpo, que se introduz justamente como imagem (MILLER, 2015). Aqui, tal registro ganha tonalidade sobretudo na afinidade dos irm\u00e3os com os filmes de Tarantino, que, al\u00e9m de ofertarem muitos personagens que a irmandade pode ser e encenar, sempre retratam a selvageria da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ademais, o espectador notar\u00e1 que mesmo antes de The Wolfpack (2015), a c\u00e2mera j\u00e1 n\u00e3o era estranha aos Angulo. Veem-se as filmagens caseiras da fam\u00edlia em que as crian\u00e7as se assemelham a aut\u00f4matos, corpos inertes \u00e0 deriva dos caprichos de seu diretor todo-poderoso. O close em suas faces, posicionadas rentes ao rosto do pai, parece figurar o seu duplo especular. A c\u00e2mera e a televis\u00e3o s\u00e3o os objetos de fasc\u00ednio nessa fam\u00edlia; recursos que permitem a proje\u00e7\u00e3o e a captura da imagem e o emparelhamento do gozo esc\u00f3pico em curto-circuito. Para Metz (1980), se no cinema, o espectador identifica-se consigo mesmo enquanto olhar, pura percep\u00e7\u00e3o, ele tamb\u00e9m se identifica com a c\u00e2mera, que, antes dele, olhou aquilo que ele v\u00ea agora. Para o autor, n\u00f3s mantemos verdadeiras rela\u00e7\u00f5es de objeto com o filme e, em Lacan (1971\/2009), \u00e9 o objeto a a preencher \u2013 enquanto olhar, seio, voz e excrementos \u2013 o local do mais-de-gozar. Mas atrav\u00e9s dessas filmagens, os membros da fam\u00edlia n\u00e3o veem sen\u00e3o a si mesmos, aproximando-se o filme mais do imagin\u00e1rio que do simb\u00f3lico. Sobretudo porque o olhar dos irm\u00e3os \u00e9 controlado pelo pai onipotente, quem, por sua vez, se refugia do olhar do Outro. O cl\u00e3 s\u00f3 assiste aos filmes e ao outro lado da janela. Tamanho \u00e9 o controle, que Mukunda lembra-se de seus quinze anos, quando o pai detinha as chaves da casa e, mais ainda, ditava os c\u00f4modos em que o garoto poderia ou n\u00e3o estar. Os irm\u00e3os chegam a se descrever como trabalhadores de uma terra da qual o pai \u00e9 o senhor; veem-se prisioneiros de seu del\u00edrio tribal. Segundo Mukunda, \u201c\u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o poder querer sair dessa caixa\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As imposi\u00e7\u00f5es excessivas atingiam o insuport\u00e1vel. Certo dia, pela manh\u00e3, ainda aos 15 anos, Mukunda se levantou, vestiu-se de preto, respirou fundo, colocou uma m\u00e1scara e partiu para a rua. Afirma que sentiu uma urg\u00eancia de sair e n\u00e3o ser reconhecido por ningu\u00e9m \u2013 nem mesmo Oscar. Algo a\u00ed se assemelha a uma cena na qual o jovem, trajando uma bela armadura do Batman, confeccionada por ele pr\u00f3prio com caixas de cereal e tapete de yoga, argumenta que interpretar o her\u00f3i \u00e9 muito pessoal, uma grande responsabilidade. Ap\u00f3s haver assistido a Batman: The Dark Knight, Mukunda fala que passou a acreditar que algo era poss\u00edvel de acontecer. A experi\u00eancia o fez sentir como se estivesse num outro mundo, o qual ele fez de tudo para tornar realidade, podendo, assim, escapar de seu pr\u00f3prio. Sendo um super-her\u00f3i de identidade secreta, o garoto consegue, \u00e0 maneira de sua fuga e num s\u00f3 tempo, vigiar e permanecer invis\u00edvel. Como justiceiro e combatente do crime, ele parece encarnar em si uma lei que faz anteparo aos excessos do pai.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cEntrar na mente\u201d de Bruce Wayne abre caminho, no sentido de que agora Mukunda pode se servir de um olhar o qual, at\u00e9 o momento, foi t\u00e3o controlado. Emocionado, descreve sua evas\u00e3o do apartamento e afirma que, ap\u00f3s ela, confrontou Oscar lhe dizendo que n\u00e3o mais seguiria suas ordens: \u201cme livrei das amarras e me libertei\u201d. Talvez um passo a mais em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cidade; ao salto do homem-morcego que voar\u00e1 livre pela noite de Gotham City.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A partir da\u00ed a alcateia inicia uma gradual ruptura do isolamento. O document\u00e1rio mostra os rapazes na praia, no parque e no cinema. Surpreendentemente, Mukunda chega a contar como procurou e conseguiu um emprego. Mais ainda, j\u00e1 na conclus\u00e3o de The Wolfpack (2015), diz estar trabalhando num filme pr\u00f3prio, a ser mostrado nos cr\u00e9ditos finais. \u00c9 a hist\u00f3ria de um homem que, de sua poltrona, assiste aos sentimentos que passam do outro lado da janela. Cada afeto \u00e9 interpretado por um irm\u00e3o: raiva, tristeza e felicidade. O jovem descreve sua produ\u00e7\u00e3o ressaltando que \u201ctudo era, praticamente, medo. O medo foi colocado. Eu ainda tenho medo\u201d. Mas ainda que o tenha, Mukunda coloca. Eis a novidade: ele introduz algo de seu. Se num primeiro tempo os filmes trazidos pelo pai eram fielmente reproduzidos, agora se inaugura um lugar de cria\u00e7\u00e3o, em que Mukunda \u00e9 agente. Ele coloca numa obra sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria: a de um menino que, do apartamento, apenas via passar em sua frente o mundo-l\u00e1-fora. Essa solu\u00e7\u00e3o deslinda extraordin\u00e1ria metalinguagem: h\u00e1 um filme sobre a vida dos Angulo, o document\u00e1rio, que, por sua vez, desfecha com outro filme: o dos sentimentos na tela. E isso passa pelo Outro social, porque circula na cultura introduzindo os Irm\u00e3os Lobo (2015) na institui\u00e7\u00e3o-cinema. Tal fen\u00f4meno convida-nos a p\u00f4r em cena a no\u00e7\u00e3o de escabelo. Para Miller (2015), essa palavra, que \u00e9 do s\u00e9culo XXI, tempo do falasser, pode ser entendida como um pedestal sobre o qual o ser falante se ergue para elevar a si mesmo \u00e0 dignidade da Coisa. \u201cO que chamamos de cultura n\u00e3o \u00e9 nada al\u00e9m da reserva dos escabelos na qual se vai buscar com o que esticar o colarinho e bancar o glorioso\u201d (MILLER, 2015, p.129). Tra\u00e7ando um paralelo entre escabelo e sinthoma, Miller (2015) situar\u00e1 o primeiro no n\u00edvel do gozo da fala, que inclui o sentido e \u00e9 sustent\u00e1culo dos ideais do Bem, do Verdadeiro e do Belo. O segundo j\u00e1 diz respeito ao corpo, relacionado a um gozo que, noutra via, exclui o sentido. O que deixa Lacan (1979\/2003) perplexo em Joyce \u00e9 que este, al\u00e9m de haver gozado com Finnegan\u2019s Wake, o publicou, deixando toda a literatura com o flanco \u00e0 mostra. \u00c9 a fa\u00e7anha de Joyce que fez convergir sintoma e escabelo; fez do pr\u00f3prio sintoma, fora de sentido e inintelig\u00edvel, o escabelo de sua arte (MILLER, 2015). Joyce se consuma como sintoma; \u00e9 sintomatologia; um fabricante de escabelo que fez arte com o gozo opaco do sintoma (MILLER, 2015), e o fez sem recorrer \u00e0 experi\u00eancia de uma an\u00e1lise (LACAN, 1979\/2003). \u201c[\u2026] a ironia do inintelig\u00edvel \u00e9 o escabelo de que algu\u00e9m se mostra mestre\u201d (LACAN, 1979\/2003, p. 566).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>The Wolfpack (2015) \u00e9 riqu\u00edssimo nesse aspecto. De um lado, o \u201cprimeir\u00edssimo\u201d Lacan (1938\/2003) argumentar\u00e1 que a conserva\u00e7\u00e3o e progresso humanos, por serem indissoci\u00e1veis da comunica\u00e7\u00e3o, delimitam uma obra coletiva que constitui a pr\u00f3pria cultura e \u201cintroduz uma nova dimens\u00e3o na realidade social e na vida ps\u00edquica. Essa dimens\u00e3o especifica a fam\u00edlia humana, bem como, ali\u00e1s, todos os fen\u00f4menos sociais no homem\u201d (LACAN, 1938\/2003, p. 29). De outro, temos os Angulo, submetidos a esse sistema paranoico que os isola e prefigura uma horda de iguais. Nesse setting, est\u00e1 o percurso de Mukunda: prisioneiro de um capricho delirante, ele n\u00e3o deixa de sentir medo. Mas para sair de sua caixa, deve colocar isso em algum lugar. Talvez esteja a\u00ed sua sublima\u00e7\u00e3o; seu savoir-faire com esse gozo opaco, sem sentido, atrav\u00e9s do qual o jovem lobo faz algum enlace com o \u201cmundo-l\u00e1-fora\u201d para ent\u00e3o deixar na cultura seu escabelo; sua marca radicalmente singular. Afinal, sabemos de Lacan (1949\/1998) que n\u00e3o s\u00f3 a an\u00e1lise pode levar o sujeito ao limite ext\u00e1tico do tu \u00e9s isto, em que se revela para ele a cifra de seu destino mortal; momento em que come\u00e7a a verdadeira viagem.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>BROUSSE, M.-H. Corpos lacanianos: novidades contempor\u00e2neas sobre o Est\u00e1dio do Espelho. In: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online nova s\u00e9rie, n. 15, p. 1-17, nov. 2014. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_15\/Corpos_lacanianos.pdf&gt;. Acesso em jun. 2017.<\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1911\/1996). \u201cNotas psicanal\u00edticas sobre um relato autobiogr\u00e1fico de um caso de paranoia (dementia paranoides).\u201d In: Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. 12, p. 13-89.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1938\/2003). Os complexos familiares. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.<\/h6>\n<h6>LACAN, J (1949\/1998). O est\u00e1dio do espelho como formador da fun\u00e7\u00e3o do eu. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1959\/1998). De uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel da psicose. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1971). De um discurso que n\u00e3o fosse semblante. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1979\/2003). Joyce, o Sintoma. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.<\/h6>\n<h6>METZ, C. O significante imagin\u00e1rio \u2013 Psican\u00e1lise e Cinema. Livros Horizonte: Lisboa, 1980.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cO INCONSCIENTE E O CORPO FALANTE\u201d. In: O osso de uma an\u00e1lise + o inconsciente e o corpo falante. Rio de Janeiro: Zahar, 2015. p. 115-138.<\/h6>\n<h6>The Wolfpack. Dire\u00e7\u00e3o: Crystal Moselle. Estados Unidos, 2015 (1h29min), cor.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6>GABRIEL SILVA MEDEIROS E ROBERTO CARLOS PIRES J\u00daNIOR<\/h6>\n<h6>GABRIEL SILVA MEDEIROS Acad\u00eamico de Psicologia das Faculdades Integradas Pit\u00e1goras de Montes Claros (FIPMoc) e aluno do N\u00facleo de Investiga\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental (NIPSM).\u00a0<span id=\"cloak2d3385dadd2a452f85439b9bbdb8d74c\"><a href=\"mailto:gabrielsmedeiros@hotmail.com\">gabrielsmedeiros@hotmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<h6>ROBERTO CARLOS PIRES J\u00daNIO Psic\u00f3logo, Especialista em Sa\u00fade Mental pelo Programa de Resid\u00eancia Multiprofissional em Sa\u00fade Mental do Hospital Universit\u00e1rio Clemente de Faria\/ Universidade Estadual de Montes Claros (HUCF\/Unimontes), foi aluno do N\u00facleo de Investiga\u00e7\u00e3o em Psican\u00e1lise e Sa\u00fade Mental (NIPSM).\u00a0<span id=\"cloakc1311081535a5cbf56f3fa814e84cf1b\"><a href=\"mailto:robertopiresjr@yahoo.com\">robertopiresjr@yahoo.com<\/a><\/span>.<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GABRIEL SILVA MEDEIROS E ROBERTO CARLOS PIRES J\u00daNIOR O cinema oferece hoje ocasi\u00e3o para reflex\u00f5es sobre a cl\u00ednica, j\u00e1 que, ao lado da psican\u00e1lise, a arte contempor\u00e2nea \u00e9 um discurso que p\u00f5e em relevo as mudan\u00e7as culturais hodiernas (BROUSSE, 2014). Nesse sentido, tomamos para aprecia\u00e7\u00e3o The Wolfpack (2015): um document\u00e1rio sobre a hist\u00f3ria da fam\u00edlia&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58083,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[15],"tags":[],"class_list":["post-925","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-19","category-15","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/925","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=925"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/925\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58084,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/925\/revisions\/58084"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58083"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=925"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=925"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=925"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}