{"id":930,"date":"2017-03-17T06:57:21","date_gmt":"2017-03-17T09:57:21","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=930"},"modified":"2025-12-01T16:33:44","modified_gmt":"2025-12-01T19:33:44","slug":"os-filhos-dos-toxicomanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2017\/03\/17\/os-filhos-dos-toxicomanos\/","title":{"rendered":"Os Filhos Dos Toxic\u00f4manos"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>MARIANA FURTADO VIDIGAL<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/612734_orig.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"666\" data-large_image_height=\"487\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-931\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/612734_orig.jpg\" alt=\"\" width=\"666\" height=\"487\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/612734_orig.jpg 666w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/612734_orig-300x219.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 666px) 100vw, 666px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p><strong>BRIGID MARLIN<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Falar sobre os filhos dos toxic\u00f4manos nos exige definir antes a quem chamamos de toxic\u00f4manos. N\u00e3o poder\u00edamos, orientados pela \u00e9tica da psican\u00e1lise, estabelecer uma categoria universal para os toxic\u00f4manos e seus filhos. Verificamos, h\u00e1 anos, os efeitos ineficazes e catastr\u00f3ficos de interven\u00e7\u00f5es que afetam os usu\u00e1rios de drogas e desconsideram sua condi\u00e7\u00e3o de sujeitos e cidad\u00e3os, inferindo uma indiferencia\u00e7\u00e3o entre o sujeito e o objeto-dejeto-droga. Entretanto, sabemos como uma rela\u00e7\u00e3o toxic\u00f4mana com a droga pode provocar efeitos nefastos que comprometem a rela\u00e7\u00e3o com a pr\u00f3pria subjetividade e com o outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Percorreremos, portanto, dois eixos: o que a teoria psicanal\u00edtica e a cl\u00ednica podem nos indicar sobre os poss\u00edveis efeitos subjetivos em uma fam\u00edlia com pais toxic\u00f4manos e, a partir da no\u00e7\u00e3o lacaniana de fun\u00e7\u00e3o social de nomea\u00e7\u00e3o, ler o lugar do toxic\u00f4manos e de seus filhos no discurso atual de \u201cos filhos do crack\u201d e \u201cas m\u00e3es do crack\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A fun\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan (1969\/2003) apresenta a fun\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia conjugal na constitui\u00e7\u00e3o subjetiva da crian\u00e7a como a de uma transmiss\u00e3o irredut\u00edvel que implica a rela\u00e7\u00e3o de um \u201cdesejo que n\u00e3o seja an\u00f4nimo\u201d (p. 369). Trata-se de uma fun\u00e7\u00e3o de outra ordem que n\u00e3o a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades, cabendo \u00e0 m\u00e3e, a partir de seus cuidados, transmitir \u201ca marca de um interesse particularizado, nem que seja por interm\u00e9dio de suas pr\u00f3prias faltas\u201d (p. 369) e, ao pai, em seu nome, ser o \u201cvetor de uma encarna\u00e7\u00e3o da Lei no desejo\u201d (p. 369).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estando em jogo a dimens\u00e3o da falta materna, o pai \u2013 enquanto fun\u00e7\u00e3o \u2013 pode intervir como lei na rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e-crian\u00e7a, dando uma significa\u00e7\u00e3o ao desejo materno, a significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. A m\u00e3e \u00e9 aquela que deve transmitir o Nome do Pai, consentindo, com a regula\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio gozo, o que permitir\u00e1 ao filho sair do lugar de objeto (falo) e lan\u00e7\u00e1-lo na meton\u00edmia do desejo. Mas, mesmo com a significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, o enigma sobre o desejo do Outro permanece indecifr\u00e1vel, assim como o objeto \u00faltimo do pr\u00f3prio desejo. A perda do objeto \u00e9 estrutural, tornando-se aquilo que causa o desejo e fazendo com que busquemos substitutos para o objeto a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A crian\u00e7a se identifica ao que sup\u00f5e ser o desejo do Outro, produzindo uma resposta sintom\u00e1tica ao sintoma do par parental e denunciando a verdade em jogo ali. Inscrita a fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, o sujeito poder\u00e1 se posicionar sexualmente tanto em rela\u00e7\u00e3o ao gozo quanto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escolha de objeto, sustentado por identifica\u00e7\u00e3o ao pai ou \u00e0 m\u00e3e e orientado pela significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Contudo, quando temos a forclus\u00e3o do Nome-do-Pai, a crian\u00e7a resta como objeto tamp\u00e3o da falta da m\u00e3e, que se torna presen\u00e7a maci\u00e7a, permanecendo identificada ao gozo do Outro. Permance no lugar de objeto, comprometendo o desejo e a metaforiza\u00e7\u00e3o do gozo no corpo \u2013 que retorna do real como delirio ou alucina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No \u00faltimo momento do ensino lacaniano h\u00e1 a reformula\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o do par parental como a de transmitir, enquanto homem e mulher, uma rela\u00e7\u00e3o com o objeto a \u2013 tanto como causa de desejo quanto como gozo. Para ser um pai digno de amor e de respeito, deve-se apresentar uma vers\u00e3o de como p\u00f4de fazer com uma mulher, tomando-a como causa de seu desejo enquanto ela se ocupa de seus filhos, semblantes de objeto a para ela. Aqui a fun\u00e7\u00e3o paterna \u00e9 transmitir ao filho o que ele pode inventar diante da n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vimos que o desejo n\u00e3o an\u00f4nimo pela crian\u00e7a \u00e9 pe\u00e7a constitutiva de sua subjetividade, mas, para Miller (2005) \u00e9 em torno de um segredo que se une uma fam\u00edlia: \u201cde que gozam a m\u00e3e e o pai\u201d. Um n\u00e3o-dito sobre o gozo, indevido, \u00e9 o que se transmite entre as gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Isso nos permite localizar uma vers\u00e3o de fam\u00edlia menos idealizada do que as dos discursos normatizadores. As fun\u00e7\u00f5es parentais s\u00e3o fun\u00e7\u00f5es exercidas por homens e mulheres de maneiras particularizadas; o que se transmite \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o singular para o imposs\u00edvel em jogo para todo ser falante e um res\u00edduo sobre o gozo. Mesmo o desejo n\u00e3o an\u00f4nimo por um filho mant\u00e9m um car\u00e1ter enigm\u00e1tico irredut\u00edvel, e ao filho caber\u00e1, em alguns casos, responder ao que ele toma dessa transmiss\u00e3o residual com seu sintoma e formulando uma fantasia particular sobre o desejo do Outro, constituindo, assim, sua pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com o objeto a (S\/ \u25ca a). E, nos casos em que h\u00e1 uma presen\u00e7a maci\u00e7a da m\u00e3e, desejosa demais, o sujeito pode se colocar alienado como o pr\u00f3prio objeto a da fantasia do Outro como objeto tamp\u00e3o (LACAN, 1969\/2003).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A toxicomania e a fam\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A toxicomania n\u00e3o \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o qualquer com a droga, mas um ato cont\u00ednuo e desenfreado de consumo, \u201cum gozo que vale mais do que o amor \u00e0 vida\u201d (MILLER, 2000, p. 176). Lacan (1975) formula a droga como aquilo que permitiria o \u201crompimento do casamento do corpo com o petit-pipi\u201d romper tamb\u00e9m com o excesso de gozo que invade o corpo, referenciando-se ao caso do pequeno Hans. Entretanto, tratar o excesso libidinal sem o recurso da linguagem que permitiria metaforiz\u00e1-lo, sem os limites da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, pode provocar um gozo experienciado de maneira ainda mais desenfreada e mort\u00edfera no corpo pr\u00f3prio. Em outros casos, a droga se torna um tratamento para esse real pulsional que invade o corpo desde sempre, amenizando estes efeitos nefastos, como os dos del\u00edrios, que atormentam o sujeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na toxicomania, a droga \u00e9 um objeto \u201ccausa de gozo\u201d (MILLER, 1995, p.17), um gozo aut\u00edstico que pode provocar uma suspens\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o do desejo em torno de outros objetos e da rela\u00e7\u00e3o com o outro. Em tese, pode-se concluir que comprometeria a transmiss\u00e3o pela m\u00e3e de um cuidado particularizado com o beb\u00ea e a transmiss\u00e3o de um desejo n\u00e3o an\u00f4nimo direcionado a ele. Em tese.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A droga, em alguns casos, entra como uma resposta \u00e0 n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o sexual, fazendo do corpo pr\u00f3prio o seu \u00fanico parceiro e objeto, o que poderia comprometer o casal por excluir o parceiro sexuado como causa de desejo para obter uma rela\u00e7\u00e3o assexuada e aut\u00edstica com a droga (MILLER, 2000). E se o que a fam\u00edlia transmite \u00e9 um segredo sobre o gozo, de que gozam o pai e a m\u00e3e, o que se transmite quando o gozo que deveria se manter obsceno se coloca t\u00e3o em cena, como geralmente acontece na toxicomania?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Contudo, na cl\u00ednica \u00e9 poss\u00edvel encontrar respostas diversas dos toxic\u00f4manos e de seus filhos. H\u00e1 sujeitos que t\u00eam dificuldade em exercer as fun\u00e7\u00f5es parentais pelo uso de drogas ou por sua condi\u00e7\u00e3o de err\u00e2ncia, de \u201cdesarraigamento\u201d de toda refer\u00eancia simb\u00f3lica (GELLER, 2016). Nesses casos, \u00e9 poss\u00edvel um tratamento para se estabilizarem enquanto s\u00e3o auxiliados nos cuidados com os filhos, por outros membros da fam\u00edlia e por pol\u00edticas p\u00fablicas competentes, mas preservando o v\u00ednculo parental. Em outro caso, \u201cser m\u00e3e\u201d introduziu um intervalo na rela\u00e7\u00e3o toxic\u00f4mana com a droga em nome dessa nova nomea\u00e7\u00e3o e amor ao filho. Assim como a paternidade fez com que um sujeito quisesse ser um exemplo diferente para o filho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 pacientes que edipicamente elegem parceiros tomando o gozo toxic\u00f4mano do pai como tra\u00e7o que se repete, identificando-se com o lugar da m\u00e3e na parceria sintom\u00e1tica do casal, ou tentando salvar o pai toxic\u00f4mano assassinado ao tentar salvar os homens toxic\u00f4manos com os quais se relacionam. Um jovem toma a imagem do pai toxic\u00f4mano e traficante como identifica\u00e7\u00e3o especular maci\u00e7a e de dif\u00edcil dialetiza\u00e7\u00e3o da nomea\u00e7\u00e3o \u201cpatr\u00e3o\u201d, repetindo o car\u00e1ter mort\u00edfero desse gozo. Em muitos outros casos, o sintoma e a fantasia do sujeito n\u00e3o se d\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao uso de drogas dos pais e a droga n\u00e3o se torna uma quest\u00e3o em suas vidas adultas. Um homem produz um curto-circuito na rela\u00e7\u00e3o amorosa ao eleger momentaneamente a droga como objeto de gozo, retirando-se da rela\u00e7\u00e3o e repetindo o sintoma de seu par parental. Ter\u00edamos elementos para afirmar que a toxicomania em um par parental produziria efeitos na constitui\u00e7\u00e3o subjetiva de seus filhos, pois suporia um colapso nas posi\u00e7\u00f5es referidas \u00e0 fun\u00e7\u00e3o paterna e materna \u2013 em tese, pois o que a cl\u00ednica nos ensina \u00e9 que as rela\u00e7\u00f5es familiares s\u00e3o absolutamente singulares e o que cada filho toma como transmiss\u00e3o sobre o desejo e o gozo do Outro \u00e9 enredado em uma fic\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, n\u00e3o previs\u00edvel e n\u00e3o necessariamente a ver com um ideal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Objeto-dejeto-crack<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O lugar da fam\u00edlia e da droga s\u00e3o atrelados ao discurso social prevalente em uma \u00e9poca, com efeito na forma\u00e7\u00e3o dos sintomas e no tratamento dado a eles. Com o decl\u00ednio do pai, Lacan (1973\/1974) advertiu sobre os riscos de a m\u00e3e tomar exclusivamente para si a fun\u00e7\u00e3o de \u201cnomear para\u201d ou, ainda mais grave, de o social deter esse poder de nomea\u00e7\u00e3o determinando \u201ca trama de tantas exist\u00eancias\u201d com uma ordem de ferro. Interessa-nos analisar as consequ\u00eancias na exist\u00eancia de fam\u00edlias que recebem nomea\u00e7\u00f5es pelo social como \u201cm\u00e3es do crack\u201d e \u201cfilhos do crack\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os toxic\u00f4manos s\u00e3o frequentemente nomeados como \u201czumbis\u201d e \u201ccrackeiros\u201d e sofrem com pol\u00edticas higienistas que pretendem elimin\u00e1-los do olhar dos \u201ccidad\u00e3os de bem\u201d. V\u00ea-se, nessa l\u00f3gica de \u201cm\u00e3es do crack\u201d e \u201cfilhos do crack\u201d, mais uma vers\u00e3o em que sujeito e objeto-dejeto sofrem uma hol\u00f3frase \u2013 s\u00e3o o objeto-dejeto-crack, desalojados de um lugar social, de sua subjetividade e de sua condi\u00e7\u00e3o civil de direitos. Nessa trama discursiva, tem sua condi\u00e7\u00e3o jur\u00eddica pr\u00f3xima ao homo sacer[i] de Agabem (2002, p. 71): \u201cn\u00e3o \u00e9 l\u00edcito sacrific\u00e1-lo, mas quem o mata n\u00e3o ser\u00e1 condenado por homic\u00eddio\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em Belo Horizonte, em 2014, a 23\u00aa Promotoria de Justi\u00e7a da Inf\u00e2ncia e Juventude C\u00edvel lan\u00e7ou as recomeda\u00e7\u00f5es 05 e 06\/2014 \u00e0s maternidades p\u00fablicas e \u00e0s Unidades B\u00e1sicas de Sa\u00fade para notificar a Vara sobre \u201cas gestantes ou m\u00e3es\u201d que \u201cmanifestem interesse em entregar os seus filhos para ado\u00e7\u00e3o\u201d. Al\u00e9m disso, os profissionais de sa\u00fade deveriam notificar sobre \u201cm\u00e3es usu\u00e1rias de subst\u00e2ncias entorpecentes\u201d, (nomeadas extra-oficialmente como \u201cm\u00e3es do crack\u201d), os casos de \u201cgestantes que recusam fazer o pr\u00e9-natal\u201d e as \u201csitua\u00e7\u00f5es de abandono de rec\u00e9m-nascido nos estabelecimentos de sa\u00fade, de neglig\u00eancia e maus\u2013tratos ao nascituro ou ao rec\u00e9m-nascido\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 2016, a Vara C\u00edvel da Inf\u00e2ncia e da Juventude baixou a portaria N\u00b0 3\/VCIJBH\/2016, que disp\u00f5e sobre o encaminhamento ao Juizado de rec\u00e9m-nascidos e dos genitores em grave suspeita de situa\u00e7\u00e3o de risco para oitiva e aplica\u00e7\u00e3o de medidas de prote\u00e7\u00e3o. Essa \u201csitua\u00e7\u00e3o\u201d se refere a casos em que \u201ca fam\u00edlia n\u00e3o apresenta ambiente que garanta o desenvolvimento integral, em especial em virtude da depend\u00eancia qu\u00edmica e\/ou trajet\u00f3ria de rua dos genitores, sem condi\u00e7\u00f5es imediatas de exercer a maternidade e a paternidade respons\u00e1vel\u201d para decidir sobre \u201ca aplica\u00e7\u00e3o de medidas protetivas, inclusive, se for o caso, a medida de acolhimento familiar ou institucional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No entanto, segundo o movimento \u201cDe quem \u00e9 este beb\u00ea?\u201d[ii], na pr\u00e1tica, mulheres, em sua maioria negras e pobres,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>(\u2026) est\u00e3o sendo retidas nas maternidades, sem justificativa m\u00e9dica e sem necessidade cl\u00ednica. Seus beb\u00eas est\u00e3o sendo abrigados sem o levantamento da fam\u00edlia extensa e sem a cria\u00e7\u00e3o de um fluxo de atendimento que vise a sua recupera\u00e7\u00e3o. S\u00e3o sumariamente separadas de seus filhos, sem a possibilidade do alojamento conjunto. Existem muitos relatos de mulheres que sequer s\u00e3o aditas mas que s\u00e3o denunciadas por n\u00e3o terem feito o pr\u00e9-natal, estarem infectadas com s\u00edfilis, terem feito uso recreativo de alguma subst\u00e2ncia antes mesmo de saberem que estavam gr\u00e1vidas.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sendo esse o cen\u00e1rio, os nomeados \u201cfilhos do crack\u201d e \u201cm\u00e3es do crack\u201d constituiriam uma nova categoria de crian\u00e7as e de m\u00e3es, ambos nomeados como o pior, como o crack, vidas das quais o Estado se sente no direito de dispor \u00e0 revelia da Constitui\u00e7\u00e3o. Como ser filho de um objeto como o crack? Como ser o crack? Qual trama est\u00e1 sendo tra\u00e7ada para essas exist\u00eancias com essa nomea\u00e7\u00e3o pelo social?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para Lacan (1973\/1974), quando o social toma a fun\u00e7\u00e3o de nomear, tem efeito de uma \u201cdegeneresc\u00eancia cast\u00e1str\u00f3fica\u201d, ou seja, um lugar como esse no discurso social n\u00e3o d\u00e1 outro destino que n\u00e3o a cat\u00e1strofe. J\u00e1 o encontro com esses sujeitos \u2013 quando tomados nessa condi\u00e7\u00e3o \u2013 nos ensina que \u00e9 preciso aguardar a constru\u00e7\u00e3o dos lugares de pai, m\u00e3e e filho e como cada fam\u00edlia se configurar\u00e1. Uma separa\u00e7\u00e3o precoce e sem c\u00e1lculo retira da fam\u00edlia a possibilidade de constru\u00edrem uma fic\u00e7\u00e3o singular para o que lhe acomete. Como nos diz Laurent, citado por Campos (2017):<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O sujeito \u00e9 que ter\u00e1, portanto, a tarefa de constituir sua fam\u00edlia, no sentido em que ela institui uma distribui\u00e7\u00e3o dos nomes do pai e da m\u00e3e. A tarefa n\u00e3o \u00e9, portanto, aliviada pela fic\u00e7\u00e3o jur\u00eddica (\u2026) alguma coisa dos lugares do pai e da m\u00e3e \u00e9 inelimin\u00e1vel: n\u00e3o como garantidor, mas como res\u00edduo.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A toxicomania n\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o permanente. \u00c9 poss\u00edvel um tratamento que possibilite uma regula\u00e7\u00e3o do gozo, um suporte para uma outra inven\u00e7\u00e3o menos danosa para conter o sofrimento e uma nova rela\u00e7\u00e3o com o corpo pr\u00f3prio e com o Outro\/outro. Permanentes talvez sejam os danos da nomea\u00e7\u00e3o \u201cobjeto-dejeto-crack\u201d na exist\u00eancia desses sujeitos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>AGAMBEM, G. Homo Sacer \u2013 o poder soberano e a vida nua. Henrique Burigo (trad). Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.<\/h6>\n<h6>CAMPOS, M. A familia na interface direito e psican\u00e1lise. Almanaque, revista eletr\u00f4nica do IPSMMG, n.18, 2017. Dispon\u00edvel em http:\/\/almanaquepsicanalise.com.br\/a-familia-na-interface-direito-e-psicanalise\/, acesso em maio de 2017.<\/h6>\n<h6>GELLER, S. Pref\u00e1cio. In: MILLER, J.-A. y otros: Desarraigados. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2016.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1969) \u201cDuas notas sobre a crian\u00e7a\u201d. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2003, pp. 369-370.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cRadiofonia\u201d. In: Ibidem. pp. 403-447.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1973\/74) El seminario 21: los no incautos yerran. Clase 10. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975) \u201cJornada de estudos dos cart\u00e9is da Escola Freudiana: Sess\u00e3o de encerramento\u201d. Documentos para uma Escola. Letra Freudiana: Escola, psican\u00e1lise e Transmiss\u00e3o. Ano 1, n\u00ba0, p. 117. Circula\u00e7\u00e3o interna.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. \u201cA teoria do parceiro\u201d. In: Os circuitos do desejo na vida e na an\u00e1lise. Rio de Janeiro: Contracapa, 2000, pp. 153-207.<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. Para una investigaci\u00f3n sobre el goce auto-er\u00f3tico. In Sujeto, goce y modernidade, fundamentos de la cl\u00ednica. Buenos Aires: Instituto del Campo Freudiano \u2013 Atuel-TYA, 1995, p.17<\/h6>\n<h6>MILLER, J-A. Assuntos de fam\u00edlia no inconsciente. Recuperado em 05 de abril de 2017 em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.isepol.com\/asephallus\/numero_04\/traducao_01.htm\">http:\/\/www.isepol.com\/asephallus\/numero_04\/traducao_01.htm<\/a><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>[i] Homem sacro (ou sacer) \u00e9, portanto, aquele que o povo julgou por um delito; e n\u00e3o \u00e9 l\u00edcito sacrific\u00e1-lo, mas quem o mata n\u00e3o ser\u00e1 condenado por homic\u00eddio; na verdade, na primeira lei tribun\u00edcia se adverte que \u201cse alguem matar aquele que por plebiscito \u00e9 sacro, n\u00e3o ser\u00e1 considerado homicida\u201d. Disso advem que um homem malvado ou impuro costuma ser chamado sacro\u201d.<\/h6>\n<h6>[ii] Dispon\u00edvel em https:\/\/dequemeestebebe.wordpress.com\/entenda-o-caso\/, acesso em abril de 2017.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>MARIANA FURTADO VIDIGAL<\/strong><\/h6>\n<h6>Psicanalista em Belo Horizonte, mestre em Estudos Psican\u00e1l\u00edticos pelo Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia e Ciencias Humanas da UFMG.\u00a0<span id=\"cloakbacfb6425e5fe31919999a33fc6c99e8\"><a href=\"mailto:marianafvidigal@yahoo.com.br\">marianafvidigal@yahoo.com.br<\/a><\/span>\u00a0(31) 991646605<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARIANA FURTADO VIDIGAL &nbsp; &nbsp; BRIGID MARLIN &nbsp; Falar sobre os filhos dos toxic\u00f4manos nos exige definir antes a quem chamamos de toxic\u00f4manos. N\u00e3o poder\u00edamos, orientados pela \u00e9tica da psican\u00e1lise, estabelecer uma categoria universal para os toxic\u00f4manos e seus filhos. Verificamos, h\u00e1 anos, os efeitos ineficazes e catastr\u00f3ficos de interven\u00e7\u00f5es que afetam os usu\u00e1rios de&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58085,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[15],"tags":[],"class_list":["post-930","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-19","category-15","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/930","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=930"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/930\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58086,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/930\/revisions\/58086"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58085"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=930"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=930"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=930"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}