{"id":940,"date":"2017-03-17T06:57:21","date_gmt":"2017-03-17T09:57:21","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=940"},"modified":"2025-12-01T16:34:30","modified_gmt":"2025-12-01T19:34:30","slug":"a-familia-contemporanea-e-o-real-do-sexo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2017\/03\/17\/a-familia-contemporanea-e-o-real-do-sexo\/","title":{"rendered":"A Fam\u00edlia Contempor\u00e2nea E O Real Do Sexo"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>SUZANA FALEIRO BARROSO<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/09-Imagem-Suzana-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"750\" data-large_image_height=\"708\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-941\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/09-Imagem-Suzana-1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"708\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/09-Imagem-Suzana-1.jpg 750w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/09-Imagem-Suzana-1-300x283.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/a><\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A constitui\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o sexual do sujeito, sua inscri\u00e7\u00e3o na sexua\u00e7\u00e3o \u2013 opera\u00e7\u00e3o que se inicia de modo decisivo na inf\u00e2ncia \u2013, parece estar cada vez mais desamparada da estrutura familiar do Outro. Da escuta dos pais na cl\u00ednica, tenho recolhido uma posi\u00e7\u00e3o de defesa decidida dessa igualdade e da liberdade suprema da escolha do sexo, deixada a cargo da crian\u00e7a. \u00c9 o que se verifica no v\u00eddeo de uma entrevista com uma crian\u00e7a, Brinsen, e seus pais, apresentada no programa Fant\u00e1stico da Rede Globo em 2015 e que podemos tomar como ilustrativa do que seria uma \u201ceduca\u00e7\u00e3o sem g\u00eanero\u201d[i]. Nesta fam\u00edlia, que vive em Portland, no Oregon, EUA, s\u00e3o as crian\u00e7as que escolhem se querem ser meninas ou meninos, n\u00e3o importa o g\u00eanero do nascimento. A m\u00e3e de Brinsen defende uma educa\u00e7\u00e3o unissex, educa\u00e7\u00e3o de g\u00eanero neutro e prop\u00f5e deixar aos filhos a escolha da identidade sexual. Depois de ver nos livros o quanto pode ser dif\u00edcil para uma crian\u00e7a ser um menino que se sente menina, essa m\u00e3e decidiu n\u00e3o dizer qual o sexo de seus filhos. Sua justificativa n\u00e3o deixa de indicar impasses pr\u00f3prios na subjetiva\u00e7\u00e3o dessa diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Diante da falha do saber sobre o enigma da diferen\u00e7a de sexos, visto que n\u00e3o h\u00e1 a priori uma f\u00f3rmula que os defina, a m\u00e3e de Brinsen age em nome da liberdade da crian\u00e7a de se fazer sozinha no processo de sexua\u00e7\u00e3o. O pai do menino n\u00e3o deixa de mencionar sua preocupa\u00e7\u00e3o com os efeitos da segrega\u00e7\u00e3o que poder\u00e3o atingir seu filho.<\/p>\n<p>\u201cQuando as pessoas perguntam se voc\u00ea \u00e9 menino ou menina, o que voc\u00ea diz?\u201d, pergunta a rep\u00f3rter a Brinsen, e ele responde: \u201ceu sou principalmente menino, mas um pouco menina\u201d. Essa suposta defini\u00e7\u00e3o, segundo a m\u00e3e de Brinsen, se deu por volta dos tr\u00eas anos de idade, acontecimento que foi seguido de uma mudan\u00e7a no temperamento da crian\u00e7a e das resson\u00e2ncias sociais de sua posi\u00e7\u00e3o \u2013 a saber, o menino passa a ser \u201czoado\u201d pelos colegas. Chamou-me a aten\u00e7\u00e3o a resposta de Brinsen \u00e0 entrevistadora, quando ela quis saber como ele descobriu que era principalmente menino e um pouco menina. Ele disse: \u201ceu descobri sozinho, meu corpo me disse e eu aceitei\u201d. O que quer dizer esse \u201cmeu corpo me disse\u201d da resposta de Brinsen?<\/p>\n<p>Qual a repercuss\u00e3o sobre o \u201cser-para-o-sexo\u201d (LACAN, 1968\/2003, p.363) dessa extrema liberdade concedida \u00e0s crian\u00e7as quanto \u00e0 escolha do sexo? Se o ser para o sexo se define a partir da castra\u00e7\u00e3o, ou seja, a subtra\u00e7\u00e3o de gozo acarretada pela incid\u00eancia do significante sobre o corpo, que liberdade se pode ter quanto \u00e0 escolha do sexo?<\/p>\n<p>Na Nota sobre a crian\u00e7a (1969), texto sobre a crian\u00e7a, seu sintoma e a fam\u00edlia, Lacan tomou posi\u00e7\u00e3o ao abordar a fam\u00edlia para al\u00e9m dos ideais, definindo-a como agente da transmiss\u00e3o da verdade e como espa\u00e7o no qual se coloca em jogo a estrutura da linguagem e o gozo. O psicanalista enfatizou a dimens\u00e3o sintom\u00e1tica da fam\u00edlia humana por reconhecer sua tend\u00eancia ao recobrimento da verdade, a saber, aquela que implica o encontro sexual, que concerne ao gozo e ao desejo em jogo nas parcerias familiares. Trata-se, de fato, da verdade do dizer sobre o sexo, que encontra sempre um imposs\u00edvel. A fam\u00edlia \u00e9 uma resposta simb\u00f3lica ao real do sexo, ao fato de que n\u00e3o se pode escrever a rela\u00e7\u00e3o do sexo entre um homem e uma mulher. No lugar disso, tradicionalmente, a fam\u00edlia escreveu a rela\u00e7\u00e3o pai-m\u00e3e tal como se evidencia na f\u00f3rmula da met\u00e1fora paterna. \u00c9 o ponto de real da fam\u00edlia que pretendo considerar aqui e ao qual a crian\u00e7a responde, no melhor dos casos, sintomatizando esse imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Incid\u00eancia da ci\u00eancia na transmiss\u00e3o familiar<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Segundo a \u201cNota sobre a crian\u00e7a\u201d, uma especificidade da fam\u00edlia, preservada, a despeito da evolu\u00e7\u00e3o da sociedade e necess\u00e1ria \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o do sujeito, diz respeito ao campo da transmiss\u00e3o, que implica a l\u00edngua, o desejo e a rela\u00e7\u00e3o falo-castra\u00e7\u00e3o. Essa \u00faltima se d\u00e1, particularmente, a partir da interdi\u00e7\u00e3o do pai ao gozo supremo com a m\u00e3e. A transmiss\u00e3o familiar ganhou modula\u00e7\u00f5es na psican\u00e1lise em cada um dos tempos da obra de Lacan, dentre os quais podemos recortar tr\u00eas momentos. O primeiro momento, na d\u00e9cada de cinquenta, correspondente \u00e0 leitura da estrutura tradicional da institui\u00e7\u00e3o familiar, cuja transmiss\u00e3o dos significantes ideais do pai e da m\u00e3e, Desejo da M\u00e3e e Nome do Pai, constitui o simb\u00f3lico da fam\u00edlia. O segundo tempo, no final dos anos sessenta, corresponde \u00e0 leitura das transforma\u00e7\u00f5es familiares \u00e0 luz do res\u00edduo da inst\u00e2ncia do Outro simb\u00f3lico, que se condensa no objeto do fantasma e sua transmiss\u00e3o. E o terceiro tempo, a partir do final da d\u00e9cada de setenta, destaca a fun\u00e7\u00e3o do mal-entendido na transmiss\u00e3o familiar e sup\u00f5e a conjun\u00e7\u00e3o entre significante e gozo sob a forma da lalangue de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia organizada pelo Nome do Pai e pelo falo estabelecia a correla\u00e7\u00e3o entre gozo e sexualidade, entre corpo e gozo, isto \u00e9, sustentava um modo de gozo localizado fora do corpo atrav\u00e9s da pr\u00f3pria opera\u00e7\u00e3o do recalque. Dessa maneira, a travessia do \u00c9dipo e a elabora\u00e7\u00e3o do complexo de castra\u00e7\u00e3o possibilita ao ser falante sua inscri\u00e7\u00e3o numa posi\u00e7\u00e3o sexuada referida \u00e0 fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. A incid\u00eancia da fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica na subjetividade traduz a quest\u00e3o da intrus\u00e3o do significante no gozo, significando-o como castrado. A introdu\u00e7\u00e3o do sujeito na dial\u00e9tica do falo, seja menino, seja menina, sup\u00f5e a l\u00f3gica que se desenrola no inconsciente das diversas etapas da identifica\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da rela\u00e7\u00e3o primitiva com a m\u00e3e e a entrada em jogo do \u00c9dipo e da lei. \u00c9 pela via do desejo que a m\u00e3e tem para com o filho que este \u00e9 confrontado com o significante falo na sua polaridade imagin\u00e1ria e simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia designa um lugar de enla\u00e7amento do Um e do Outro. De acordo com essa estrutura cl\u00e1ssica, era impens\u00e1vel uma fam\u00edlia que n\u00e3o fosse marcada pela oposi\u00e7\u00e3o entre um homem e uma mulher, masculino e feminino. Essa diferen\u00e7a se apoiava na conjun\u00e7\u00e3o entre reprodu\u00e7\u00e3o e sexua\u00e7\u00e3o. Dessa maneira, os signos imagin\u00e1rios da posi\u00e7\u00e3o sexuada e os significantes mestres do masculino e do feminino tinham o prop\u00f3sito de domesticar o gozo sexual conectado \u00e0 transmiss\u00e3o da vida. De acordo com Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse, o discurso da ci\u00eancia introduziu uma modifica\u00e7\u00e3o profunda nessa estrutura familiar quando tocou o real da reprodu\u00e7\u00e3o da vida e desencadeou uma separa\u00e7\u00e3o entre reprodu\u00e7\u00e3o e sexua\u00e7\u00e3o, entre reprodu\u00e7\u00e3o e diferen\u00e7a sexual. A ci\u00eancia hoje se incumbe do real da transmiss\u00e3o da vida mais al\u00e9m das imagens do corpo e dos sujeitos e suas identifica\u00e7\u00f5es. Diferentemente da ci\u00eancia contempor\u00e2nea, para a psican\u00e1lise, \u201cn\u00e3o tem marcadores claros da diferen\u00e7a de sexos, do lado gen\u00e9tico, cromoss\u00f4mico, end\u00f3crino, cerebral, morfol\u00f3gico, ou de g\u00eanero. Nenhum deles permite saber algo sobre a quest\u00e3o do masculino ou do feminino\u201d (ANSERMET, 2014, p. 16).<\/p>\n<p>Na confer\u00eancia \u201cFuera do sexo: extensi\u00f3n del imp\u00e9rio materno\u201d, Brousse discute o desenla\u00e7amento da reprodu\u00e7\u00e3o da estrutura simb\u00f3lica da fam\u00edlia, que promoveu uma redefini\u00e7\u00e3o dos pais em termos de cuidados e n\u00e3o mais em termos da diferen\u00e7a sexual. S\u00e3o cuidados unissex, isto \u00e9, fora-do-sexo. A entrevista com Brinsen e sua fam\u00edlia mostra essa nova configura\u00e7\u00e3o, a saber, a m\u00e3e e o pai em posi\u00e7\u00f5es muito similares, ambos cuidando de seus filhos, penteando e tran\u00e7ando seus cabelos. \u00c9 um cen\u00e1rio t\u00edpico do discurso do mestre contempor\u00e2neo, que faz declinar toda a hierarquia dos lugares simbolicamente constitu\u00eddos, seja o do pai, isto \u00e9, aquele que interdita e limita o gozo, seja o da m\u00e3e, aquela que exerce os cuidados da crian\u00e7a a partir de suas pr\u00f3prias faltas. A extens\u00e3o do imp\u00e9rio materno fica tamb\u00e9m patente na entrevista, visto que a op\u00e7\u00e3o pela \u201ceduca\u00e7\u00e3o sem g\u00eanero\u201d \u00e9 predominantemente um direcionamento da m\u00e3e, acatado pelo pai, n\u00e3o sem algumas reservas.<\/p>\n<p>Na atualidade, portanto, a fam\u00edlia n\u00e3o \u00e9 mais necessariamente edipiana, o que repercute no tratamento do real do sexo. A articula\u00e7\u00e3o entre gozo e sexualidade caracter\u00edstica da estrutura simb\u00f3lica da fam\u00edlia edipiana se torna cada vez mais prec\u00e1ria. \u00c9 o destino do gozo que fica em quest\u00e3o. Os corpos podem gozar de pr\u00e1ticas que n\u00e3o t\u00eam necessariamente nada a ver com o gozo sexual, demonstrando a err\u00e2ncia do gozo quando o Nome do Pai j\u00e1 n\u00e3o orienta a articula\u00e7\u00e3o entre o corpo e o gozo. O gozo se mostra cada vez mais deslocalizado em decorr\u00eancia da falta de conex\u00e3o com o Outro. Estamos, portanto, segundo as palavras de Lacan na \u201cNota sobre o pai\u201d (1968), diante da \u201cevapora\u00e7\u00e3o do pai\u201d e de suas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A escolha do sexo<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Falar de escolha do sexo implica o campo das sutilezas, isto \u00e9, da linguagem. \u00c9 uma escolha que se orienta pelo labirinto da linguagem.<\/p>\n<p>A linguagem est\u00e1 sulcada de canaizinhos, de sutilezas, de obst\u00e1culos criados para embolar as coisas e conduzir a lugares onde nos perdemos. A escolha do sexo, pega neste labirinto, nos deixa sem sa\u00edda, falando como tontos, inventando sentidos, sempre se pode agregar um significante a mais. (LACAN, 1973-74).<\/p>\n<p>A esse labirinto subjetivo podemos acrescentar os discursos sobre o sexo de cada \u00e9poca.<\/p>\n<p>A sexua\u00e7\u00e3o, termo que vem acompanhado em Lacan da no\u00e7\u00e3o de escolha, definida como escolha de gozo, \u00e9 diferente da identifica\u00e7\u00e3o sexual. Esta \u00faltima, embora implique a sexualidade, adv\u00e9m da transmiss\u00e3o familiar, mas n\u00e3o determina o sexo para o sujeito. A sexua\u00e7\u00e3o implica a escolha real do modo de gozo entre dois modos distintos de uso do falo no la\u00e7o com o outro sexo. O encontro com o heteros, palavra grega que se refere ao outro, introduz uma descontinuidade, um antes e um depois, na quest\u00e3o do sexo. Ultrapassar a solu\u00e7\u00e3o unissex significa passar de uma l\u00f3gica cuja norma \u00e9 que todos s\u00e3o iguais, isto \u00e9, uma l\u00f3gica universalizante, para outra que sustente a alteridade. A teoria lacaniana da sexua\u00e7\u00e3o surge no in\u00edcio dos anos setenta e sup\u00f5e o conceito de n\u00e3o-toda.<\/p>\n<p>Na primeira etapa da sexua\u00e7\u00e3o est\u00e1 em jogo a diferen\u00e7a anat\u00f4mica natural, assinalada desde o momento do nascimento. O segundo tempo desse processo \u00e9 o do discurso sexual, no qual a diferen\u00e7a anat\u00f4mica \u00e9 simbolizada e recebe uma significa\u00e7\u00e3o. A posi\u00e7\u00e3o sexual, ser homem ou ser mulher, depende ent\u00e3o do discurso do Outro, da significa\u00e7\u00e3o particular atribu\u00edda a cada sexo. A terceira etapa da sexua\u00e7\u00e3o \u00e9 aquela da escolha do sujeito, que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 uma escolha for\u00e7ada. Trata-se do que cada um faz com aquilo que lhe foi transmitido pelo discurso do Outro; mas n\u00e3o s\u00f3. Porque nem tudo \u00e9 poss\u00edvel de ser dito sobre o sexual. Nem tudo se resolve atrav\u00e9s da transmiss\u00e3o familiar. H\u00e1 a dimens\u00e3o real do sexo, que escapa \u00e0 simboliza\u00e7\u00e3o, \u00e0 inscri\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. H\u00e1 algo relativo ao sexual que permanece enigm\u00e1tico, o real do sexo, que confere a essa quest\u00e3o seu estatuto de trauma. Lacan vai nos apontar uma orienta\u00e7\u00e3o do real para o sexo, que ultrapassa a pol\u00eamica do binarismo do g\u00eanero.<\/p>\n<p>O gozo sexual coloca em jogo o corpo a partir das primeiras marcas de gozo nele depositadas pela l\u00edngua do Outro. \u201cNa escolha do sexo sempre se enodam a invariante de um gozo primeiro e as vari\u00e1veis que interv\u00eam na resposta do sujeito\u201d (T\u00c1BOAS, 2011). A invariante do gozo diz respeito \u00e0 puls\u00e3o enquanto eco de um dizer no corpo. As respostas do sujeito dependem dos encontros contingentes com o gozo do corpo escrito precocemente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>V\u00e1rios aspectos da entrevista divulgada pela Rede Globo podem ser comentados a prop\u00f3sito da quest\u00e3o da escolha do sexo. De uma parte, o testemunho do menino Brinsen comprova o que a psican\u00e1lise desde sempre sustentou, ou seja, que a posi\u00e7\u00e3o sexual do sujeito n\u00e3o se reduz jamais ao seu sexo biol\u00f3gico, tampouco \u00e0s normas e conven\u00e7\u00f5es sociais e culturais. De outra parte, as respostas de Brinsen s\u00e3o respostas de um sujeito desamparado do ponto de vista da transmiss\u00e3o familiar das identifica\u00e7\u00f5es sexuais, um sujeito sem o Outro. Sua fala evoca uma disjun\u00e7\u00e3o, uma dissocia\u00e7\u00e3o entre o sujeito e seu corpo. Sua posi\u00e7\u00e3o parece mais aquela do \u201cfora-do-sexo\u201d do que propriamente uma posi\u00e7\u00e3o do ser sexuado. \u00c9 preciso considerar que a escolha do sexo implica o assentimento ou a recusa do sujeito. Por isso Lacan nos diz que o ser sexuado n\u00e3o se autoriza sen\u00e3o de si mesmo.<\/p>\n<p>Embora a mat\u00e9ria divulgada pela Rede Globo tenha destacado a irrever\u00eancia da educa\u00e7\u00e3o do g\u00eanero neutro, para a psican\u00e1lise, os efeitos da n\u00e3o transmiss\u00e3o da significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica do desejo, dos tra\u00e7os de identifica\u00e7\u00e3o sexual, n\u00e3o parecem trazer nenhuma ajuda \u00e0 quest\u00e3o da escolha do sexo para cada sujeito. Aliada \u00e0s demais transforma\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia, deixa a crian\u00e7a muito mais exposta ao gozo do Um sozinho desenla\u00e7ado do Outro. Esse desenla\u00e7amento parece evidente na resposta de Brinsen \u00e0 entrevistadora ao dizer que foi seu corpo que lhe disse sobre ser principalmente menino e um pouco menina. Seus pais se abdicaram da transmiss\u00e3o quanto \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o sexual do menino, demonstrando uma retirada do Outro familiar do assunto do sexo. \u00c9 nesse contexto que o corpo vai ganhando sua soberania, contrariando a localiza\u00e7\u00e3o da sexualidade fora-do-corpo.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>AFLALO, A. O assassinato frustrado da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Contracapa, 2012.<\/h6>\n<h6>ANSERMET, F. \u201cProcreaci\u00f3n m\u00e9dicamente assistida\u201d. In: Registros, Madres e Padres. 2014, Colecci\u00f3n Di\u00e1logos, p. 16.<\/h6>\n<h6>BROUSSE, M. H. \u201cFuera do sexo: extensi\u00f3n del imp\u00e9rio materno\u201d. In: Videoteca de Psicoanalisis. http:\/\/marioelkin.com\/videoteca-de-psicoanalisis\/. Acesso em 25\/06\/2017.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cAlocu\u00e7\u00e3o sobre as psicoses da crian\u00e7a\u201d. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1969, p. 361.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cNota sobre o pai\u201d. In: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, n. 71. S\u00e3o Paulo: E\u00f3lia, 2015, p. 7.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cLe s\u00e9minaire, livre 21: les non dupes errent\u201d. Semin\u00e1rio in\u00e9dito, aula de 12 de fevereiro de 1974.<\/h6>\n<h6>T\u00c1BOAS, C. G. \u201cS\u00e9culo XXI: a escolha do sexo no labirinto\u201d. In: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana on line, n. 5, 2011.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>[i] http:\/\/g1.globo.com\/fantastico\/noticia\/2015\/10\/familia-cria-filhos-sem-genero-definido-nos-estados-unidos.html. Acesso em abr. 2017.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>SUZANA FALEIRO BARROSO<\/strong><\/h6>\n<h6>Psicanalista em Belo Horizonte, Membro da EBP e da AMP. E-mail :\u00a0<span id=\"cloak202124d9af6e1520cfa781a63083c34b\"><a href=\"mailto:suzanafaleirobarroso@gmail.com\">suzanafaleirobarroso@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SUZANA FALEIRO BARROSO Introdu\u00e7\u00e3o &nbsp; A constitui\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o sexual do sujeito, sua inscri\u00e7\u00e3o na sexua\u00e7\u00e3o \u2013 opera\u00e7\u00e3o que se inicia de modo decisivo na inf\u00e2ncia \u2013, parece estar cada vez mais desamparada da estrutura familiar do Outro. 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