{"id":956,"date":"2017-03-17T06:57:21","date_gmt":"2017-03-17T09:57:21","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=956"},"modified":"2025-12-01T16:36:06","modified_gmt":"2025-12-01T19:36:06","slug":"em-direcao-a-uma-generalizacao-da-clinica-dos-signos-discretos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2017\/03\/17\/em-direcao-a-uma-generalizacao-da-clinica-dos-signos-discretos\/","title":{"rendered":"Em Dire\u00e7\u00e3o A Uma Generaliza\u00e7\u00e3o Da Cl\u00ednica Dos Signos Discretos"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>YVES VANDERVEKEN<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/2-Bassols.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"600\" data-large_image_height=\"415\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-957\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/2-Bassols.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"415\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/2-Bassols.jpg 600w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/2-Bassols-300x208.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<h6><strong>Em dire\u00e7\u00e3o a uma generaliza\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica dos signos discretos[1]<\/strong><\/h6>\n<p>YVES VANDERVEKEN<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cA psican\u00e1lise muda. \u00c9 um fato\u201d (MILLER, 2016, p. 26). Essa \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o que Jacques- Alain Miller faz, em seu texto de apresenta\u00e7\u00e3o do tema do X Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise, que aconteceu no Rio de Janeiro em abril de 2016.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>De uma transforma\u00e7\u00e3o do inconsciente\u2026<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa constata\u00e7\u00e3o traz, ou mesmo se deduz, de uma transforma\u00e7\u00e3o do inconsciente. Jacques Lacan a havia antecipado em seu ensino. Ele acabou por abandonar o termo inconsciente para substitui-lo pelo neologismo falasser \u2013 em condi\u00e7\u00f5es melhores de represent\u00e1-lo. Essa transforma\u00e7\u00e3o tem sua origem na mudan\u00e7a de \u00e9poca e daquilo que decorre como muta\u00e7\u00e3o da estrutura do Outro. Ora, \u00e9 justamente no Outro que o sujeito encontra as coordenadas de seu inconsciente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 a quest\u00e3o do recalque que se encontra no cerne mesmo dessa muta\u00e7\u00e3o. Nascida na \u00e9poca vitoriana, em um contexto de quintess\u00eancia da repress\u00e3o sexual, a psican\u00e1lise se pratica hoje em um contexto de libera\u00e7\u00e3o dos costumes, do direito ao gozo e de um acesso generalizado \u00e0 pornografia. Para al\u00e9m do complexo de \u00c9dipo, que ele n\u00e3o deixar\u00e1 de desconstruir ao longo de seu ensino, n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que Lacan isolar\u00e1 a estrutura mitol\u00f3gica de Hamlet na medida em que ela se distingue daquele. A distin\u00e7\u00e3o entre o \u00c9dipo e Hamlet diz respeito justamente \u00e0 quest\u00e3o do recalque. Lacan insiste: l\u00e1 onde o \u00c9dipo n\u00e3o sabia, onde as coordenadas de seu crime eram recalcadas e n\u00e3o sabidas, Hamlet, ele sabe. \u00c9 nesse ponto de distin\u00e7\u00e3o que Hamlet aparece como sendo mais prop\u00edcio do que o \u00c9dipo a incarnar a estrutura da quest\u00e3o neur\u00f3tica de hoje. O importante \u00e9 perceber a que se refere esse saber revelado, essa \u00e9 a quest\u00e3o a ser delimitada. Eu usarei esta confer\u00eancia[2] para isolar essa resposta, como ponto final.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas digam-me: inconsciente, recalque, complexo de \u00c9dipo, n\u00e3o s\u00e3o justamente nessas refer\u00eancias que se fundamentam as distin\u00e7\u00f5es entre nossas grandes estruturas cl\u00ednicas \u2013 e a partir das quais situamos a orienta\u00e7\u00e3o do tratamento?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, nossa pr\u00e1tica se orienta, a partir de hoje, menos pela quest\u00e3o do recalque e de sua suspens\u00e3o em termos de verdade revelada do que pelo impacto do significante sobre o gozo do corpo enquanto tal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2026E de seu impacto<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que acontece, nesse contexto remanejado, com as nossas refer\u00eancias e categorias cl\u00ednicas? As coisas devem ser novamente definidas, os contornos devem ser constantemente redesenhados. Isso \u00e9 tudo, menos simples. \u00c9 nesse contexto que orientarei esta confer\u00eancia de abertura do ano de trabalho da London Society da New Lacanian School.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Trataremos aqui de quest\u00f5es cl\u00ednicas e das dificuldades que podemos encontrar nessa cl\u00ednica a partir de nossas refer\u00eancias cl\u00e1ssicas. Atrav\u00e9s do que se apresenta como quest\u00f5es diagn\u00f3sticas, colocam-se tamb\u00e9m quest\u00f5es muito concretas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em psican\u00e1lise, al\u00e9m do diagn\u00f3stico enquanto tal, apoiamo-nos em refer\u00eancias cl\u00ednicas diferenciais. Por que? Justamente porque elas s\u00e3o determinantes para orientar nosso ato e a dire\u00e7\u00e3o do tratamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Somos classicamente formados para saber que o tratamento de um sujeito psic\u00f3tico n\u00e3o se orienta como o de um sujeito neur\u00f3tico. \u00c9 por isso que nossas refer\u00eancias diagn\u00f3sticas importam, mesmo que, ao desenharmos grandes linhas estruturais, configura\u00e7\u00f5es precisas das coordenadas subjetivas, elas n\u00e3o digam nada sobre o que representa a singularidade de um sujeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 um paradoxo l\u00f3gico que sustentamos, diante do qual n\u00e3o recuamos: duas verdades opostas podendo ser verdadeiras ao mesmo tempo. Tudo depende do \u00e2ngulo pelo qual abordamos o real em jogo. Foi apoiando-se em um tal paradoxo que Lacan p\u00f4de dizer que nada se parece menos com um neur\u00f3tico obsessivo \u2013 uma categoria geral e universal \u2013 do que um outro neur\u00f3tico obsessivo \u2013 uma singularidade absoluta. \u00c9 o que torna a rela\u00e7\u00e3o entre o singular e o universal ao mesmo tempo t\u00e3o necess\u00e1ria, mas tamb\u00e9m t\u00e3o prec\u00e1ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A abordagem do real cl\u00ednico por um vi\u00e9s pode ser radicalmente diferente de sua abordagem por um outro, sem que um anule, no entanto, o outro \u2013 assim como a segunda t\u00f3pica freudiana n\u00e3o anula em nada a primeira, ou, ainda, o \u00faltimo ensino de Lacan n\u00e3o p\u00f5e um fim ao seu primeiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J.-A. Miller n\u00e3o hesita em nos convidar a fazer \u201cremendos\u201d a partir dos diferentes tempos dos ensinos freudianos e lacanianos porque eles nos permitem tomar conhecimento, visto que s\u00e3o verdadeiros, de um real que a verdade s\u00f3 consegue alcan\u00e7ar por partes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, n\u00f3s nos permitimos, por exemplo, apoiar-nos, ao mesmo tempo, em uma cl\u00ednica bin\u00e1ria, descontinu\u00edsta, e em uma cl\u00ednica continu\u00edsta, tomada por um outro \u00e2ngulo. Fazemos as duas; \u00e0s vezes at\u00e9 as duas ao mesmo tempo. As duas s\u00e3o importantes, cabe a n\u00f3s precis\u00e1-las.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O bin\u00e1rio neurose cl\u00e1ssica ou psicose desencadeada: sua efic\u00e1cia, um limite<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por um lado, apoiamo-nos em uma cl\u00ednica diferencial que se baseia no bin\u00e1rio neurose\/psicose. Podemos reduzi-la a esse bin\u00e1rio, pois a categoria de pervers\u00e3o est\u00e1 sujeita \u00e0 contesta\u00e7\u00e3o. Ela est\u00e1 caindo em desuso, devido ao fato de que as coordenadas da nossa \u00e9poca s\u00e3o, enquanto tais, perversas, e sem contar, voltaremos a isso, com a natureza perversa em si da sexualidade do falasser.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse bin\u00e1rio cl\u00ednico oferece uma base inestim\u00e1vel. Mas ele \u00e9 tamb\u00e9m r\u00edgido e restrito. Ele repousa sobre \u201cum \u2018ou isso, ou aquilo\u2019 absoluto\u201d (MILLER, 2015, p. 3). Foi preciso que constat\u00e1ssemos que toda uma parte da cl\u00ednica n\u00e3o entra nessa dicotomia neurose cl\u00e1ssica\/psicose desencadeada, se radicalizamos as coisas. Nem sempre \u00e9 f\u00e1cil decidir a partir dessa refer\u00eancia diagn\u00f3stica, e isso, \u00e0s vezes, depois de v\u00e1rios anos de an\u00e1lise.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa dimens\u00e3o n\u00e3o satisfat\u00f3ria, n\u00e3o discriminante do bin\u00e1rio cl\u00ednico neurose\/psicose, \u00e9 abordada h\u00e1 v\u00e1rios anos em nosso Campo Freudiano, atrav\u00e9s do que podemos chamar de um verdadeiro programa de pesquisa. O sintagma \u201cpsicose ordin\u00e1ria\u201d encontra sua origem nessa dificuldade. Ele encontra a\u00ed sua origem, para ultrapass\u00e1-la. Ele \u00e9 oriundo \u2013 ou melhor, constru\u00eddo \u2013 por J. -A. Miller a partir do \u00faltimo ensino de Lacan.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O impasse borderline<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A \u201cpsicose ordin\u00e1ria\u201d \u00e9 uma resposta \u00e0 categoria borderline, t\u00e3o desenvolvida no mundo anglo-sax\u00e3o, essa categoria borderline sendo, ela mesma, uma tentativa de resposta a essa mesma dificuldade cl\u00ednica. Entretanto, l\u00e1 onde a categoria borderline sup\u00f5e uma terceira estrutura cl\u00ednica (nem neurose, nem psicose) \u2013 o que s\u00f3 faz multiplicar os impasses das estruturas cl\u00ednicas \u2013, o sintagma \u201cpsicose ordin\u00e1ria\u201d insiste em fazer fundo ao bin\u00e1rio neurose e psicose \u2013 para finalmente subvert\u00ea-lo, ou mesmo ultrapass\u00e1-lo. Um pouco sob a modalidade de um \u201cprescindir dele, servindo-se dele\u201d (LACAN, 2007, p.132), \u00e9 precisamente o que Lacan acabar\u00e1 por dizer do Nome-do-Pai.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Classicamente, J.-A. Miller indica que havia uma certa diferencia\u00e7\u00e3o \u201csupostamente absoluta entre a neurose e a psicose\u201d (2015, p. 4). Se n\u00e3o fosse uma, seria a outra, e vice-versa. Essa dimens\u00e3o de diferencia\u00e7\u00e3o absoluta apoiava-se em um verdadeiro \u201ccredo lacaniano\u201d [dixit tamb\u00e9m J.-A. Miller]: aquele da foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o do Nome-do-Pai se apoia naquilo que hoje \u00e9 comumente definido sob o sintagma ordem simb\u00f3lica. Os padres da Igreja, assim como todos os tipos de conservadores, retiveram apenas essa dimens\u00e3o do ensino de Lacan, a ponto de se referirem a ela para tudo. Ora, \u00e9 importante compreender o que esse Nome-do-Pai recobre no ensino de Lacan.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan percebeu sua car\u00eancia, precisamente na psicose desencadeada. Foi a partir da\u00ed que ele elaborou o conceito da foraclus\u00e3o. Do que se trata? J.-A. Miller situa novamente a hip\u00f3tese que conduz a ela em seu texto \u201cEfeito de retorno sobre a psicose ordin\u00e1ria\u201d (MILLER, 2015) que pode constituir em si um argumento para nosso pr\u00f3ximo congresso da New Lacanian School.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A hip\u00f3tese do Nome-do-Pai<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan parte da experi\u00eancia de que, nos primeiros tempos da chegada do infans ao mundo, h\u00e1 uma viv\u00eancia de um sujeito \u00e0s voltas com um espa\u00e7o desorganizado, movente, n\u00e3o estruturado, onde predomina a experi\u00eancia subjetiva do corpo fragmentado, inteiramente submetido \u00e0s for\u00e7as pulsionais e \u00e0s significa\u00e7\u00f5es fora de sentido. \u00c9 um mundo em que o eu do sujeito e o Outro est\u00e3o indistintos. Lacan n\u00e3o desistir\u00e1 nunca dessa hip\u00f3tese de partida da subjetividade humana. Ele situa a prematuridade do filhote do homem como sua causa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nessa configura\u00e7\u00e3o e no classicismo do mundo \u00e0 moda antiga, a m\u00e3e, ou seu substituto, vinha sustentar essas caracter\u00edsticas, j\u00e1 que ela era supostamente a figura do primeiro representante encarnado desse Outro. O desejo da m\u00e3e era a manifesta\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, para o infans, dessa for\u00e7a pulsional e da figura desse Outro desorganizado, pulverulento, ileg\u00edvel e fora de sentido. Um mundo, uma experi\u00eancia de gozo fora de sentido e enigm\u00e1tica habitavam a figura do Outro materno. \u00c9 uma experi\u00eancia subjetiva precisamente id\u00eantica \u00e0quela encontrada pelo sujeito psic\u00f3tico depois de seu momento de desencadeamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No segundo tempo desse desenvolvimento, Lacan situa a entrada do simb\u00f3lico nesse mundo, como vindo para organiz\u00e1-lo, para colocar ordem nesse imagin\u00e1rio e nesse gozo sem r\u00e9deas. O simb\u00f3lico vem regul\u00e1-los, pelo menos para definir suas leis e seus interditos. Essa figura supostamente natural, que surge como terceiro entre este, o infans e esse Outro desregulado, e que nessa constru\u00e7\u00e3o supunha-se organizar o que est\u00e1 desorganizado por natureza, quem mais poderia ser, nesse caso, sen\u00e3o o pai, enquanto representante da lei e de sua suposta ordem simb\u00f3lica?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 a ideia de que h\u00e1 um Outro desse Outro primeiro, que tem como fun\u00e7\u00e3o vir domin\u00e1-lo, limit\u00e1-lo, definir sua organiza\u00e7\u00e3o e, principalmente, dar-lhe um sentido, torn\u00e1-lo leg\u00edvel. Trata-se da fun\u00e7\u00e3o ordenadora do Nome-do-Pai, sob a condi\u00e7\u00e3o de que ele venha nomear e organizar o desejo supostamente desorganizado da m\u00e3e. Ele se faz de destinat\u00e1rio, isto \u00e9, ele vem se definir como o que causa o desejo materno, e desde ent\u00e3o lhe d\u00e1 sentido. \u00c9 uma opera\u00e7\u00e3o de met\u00e1fora, que Lacan chamar\u00e1 de paterna. \u00c9 uma opera\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica, a partir do momento em que ela vem dar sentido a um x, uma inc\u00f3gnita situada no cerne do desejo, enquanto gozo. Essa \u00e9 a formaliza\u00e7\u00e3o que Lacan d\u00e1 ao complexo de \u00c9dipo freudiano.<\/p>\n<p>NP<\/p>\n<p>DM<\/p>\n<p>Essa opera\u00e7\u00e3o produz um efeito. A opera\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico, ao organiz\u00e1-lo, estanca o desencadeamento pulsional. Sup\u00f5e-se que essa opera\u00e7\u00e3o o limite. Nesse sentido, ela produz um efeito de perda, tanto quanto de localiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que quer dizer \u201ca castra\u00e7\u00e3o\u201d, ou, ainda, \u201co menos phi\u201d, \u201cuma subtra\u00e7\u00e3o de gozo\u201d (MILLER, 2015, p. 6), l\u00e1 onde, na psicose, ela se apresenta como n\u00e3o localiz\u00e1vel, n\u00e3o limitada, e desde sempre \u201cem excesso\u201d. O \u00f3rg\u00e3o peniano se faz o deposit\u00e1rio e o representante desse gozo a partir da\u00ed regulado por uma l\u00f3gica f\u00e1lica. Ele \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o precisamente apto a encarnar esse gozo marcado por um mais ou um menos. Ele tem seu significante: o falo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 uma constru\u00e7\u00e3o, se n\u00f3s a separarmos \u2013 a modernidade obriga \u2013 dos atores que s\u00e3o a m\u00e3e e o pai, extremamente robusta e clinicamente pertinente, pelo menos enquanto fun\u00e7\u00e3o e estrutura. Uma parte do gozo \u00e9 interdito, passa sob a barra, instalando o recalque, uma perda e a limita\u00e7\u00e3o do gozo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente essa fun\u00e7\u00e3o que o Presidente Schreber tenta restabelecer, depois de seu desencadeamento que desorganiza todas as significa\u00e7\u00f5es do mundo e sua rela\u00e7\u00e3o com o corpo. Ele tenta restabelec\u00ea-la de um outro modo, que n\u00f3s diremos delirante, a fim de tecer novamente e dar um outro sentido aos fen\u00f4menos que o assaltam, no ponto em que a significa\u00e7\u00e3o paterna se mostra foraclu\u00edda. A causa desses fen\u00f4menos \u00e9, da\u00ed em diante, Deus (nova figura de um pai), ele pr\u00f3prio tornando-se o objeto de gozo desse Deus. Toda uma nova constru\u00e7\u00e3o complexa elabora e determina as vias em condi\u00e7\u00f5es de explicar, e leg\u00edveis para ele, o que ele experimenta como fen\u00f4menos de gozo desenfreado e n\u00e3o localiz\u00e1vel falicamente. \u00c9 seu trabalho de elabora\u00e7\u00e3o, assim como de interpreta\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que Lacan qualifica essa opera\u00e7\u00e3o de met\u00e1fora delirante, na medida em que ela vem suprir a foraclus\u00e3o da met\u00e1fora paterna, e isso precisamente na linha freudiana, que j\u00e1 compreendia o del\u00edrio como uma tentativa de cura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A car\u00eancia paterna neur\u00f3tica<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu dizia que essa constru\u00e7\u00e3o era robusta. No entanto, ela n\u00e3o conduzir\u00e1 Lacan a uma religi\u00e3o do pai. E isso por v\u00e1rias raz\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan s\u00f3 constr\u00f3i a l\u00f3gica da met\u00e1fora paterna na medida em que ela se revela, digamos, a c\u00e9u aberto, sem recalque, como faltante, ou mesmo carente, na psicose desencadeada. Mas, logo depois que sua constru\u00e7\u00e3o \u00e9 feita como n\u00e3o operando na psicose, Lacan se encarrega de demonstrar, pela cl\u00ednica, a generaliza\u00e7\u00e3o da car\u00eancia da met\u00e1fora paterna em rela\u00e7\u00e3o ao gozo, e isso para todo o campo da cl\u00ednica: a saber, que nem tudo do gozo passa pelo crivo f\u00e1lico e pela l\u00f3gica da met\u00e1fora paterna, que nem tudo do gozo se deixa negativar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 o que demonstra o neur\u00f3tico Pequeno Hans. Em seu pr\u00f3prio corpo, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida de seu \u00f3rg\u00e3o peniano, a significa\u00e7\u00e3o paterna e f\u00e1lica, n\u00e3o consegue explicar o Krawall que a\u00ed se manifesta. Ele tamb\u00e9m tem que recorrer a uma constru\u00e7\u00e3o paliativa: o significante f\u00f3bico, na medida em que ele vem em seu socorro para poder signific\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m nessa falha que se situa o que produz o encontro traum\u00e1tico de Hamlet. Bem al\u00e9m da morte real de seu pai, \u00e9 justamente com a parte do desejo de sua m\u00e3e que n\u00e3o responde, ou melhor, que excede e transgride a lei do pai, que ele se debate. \u00c9 o traumatismo eletivo do neur\u00f3tico obsessivo: o encontro da m\u00e3e com sua feminilidade que n\u00e3o se reduz ao materno, se articula com a rela\u00e7\u00e3o ao pai. Lacan zomba do esfor\u00e7o de Hamlet, que ele considera pat\u00e9tico, em querer fazer entrar o desejo de sua m\u00e3e n\u00e3o referido ao pai no n\u00edvel da dec\u00eancia. \u00c9 o encontro com esse ponto que mergulha Hamlet no luto do pai, bem al\u00e9m de sua morte, e precisa do apelo de todo o jogo simb\u00f3lico \u2013 o trabalho dito de luto \u2013 para fazer face \u00e0 sua car\u00eancia encontrada no buraco que perfura, no limite f\u00e1lico, o gozo feminino. Ele construir\u00e1 para si uma fantasia pessoal, em condi\u00e7\u00f5es de responder sua pr\u00f3pria vers\u00e3o da coisa: a saber, que nenhuma palavra vale e que h\u00e1, desde ent\u00e3o, \u201calgo de podre\u201d (SHAKESPEARE, 1995, p. 547) no mundo \u2013 eu acrescento: no mundo suposto da ordem simb\u00f3lica. \u00c9 o grande segredo que Lacan acabar\u00e1 por revelar aos pr\u00f3prios psicanalistas: a saber, que \u201cn\u00e3o h\u00e1 Outro do Outro\u201d (LACAN, 1958-1959\/2016, p. 322) em posi\u00e7\u00e3o de normalizar o gozo, de conseguir dar-lhe um sentido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A compensa\u00e7\u00e3o generalizada<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em uma outra vertente, a foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai na psicose, que s\u00f3 se revela por seu desencadeamento, conduz \u00e0 dedu\u00e7\u00e3o l\u00f3gica de que outra coisa, antes, ficava no lugar, como uma bengala, uma compensa\u00e7\u00e3o; assim como a met\u00e1fora delirante indica ao mesmo tempo que alguma outra coisa pode exercer essa fun\u00e7\u00e3o depois.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A met\u00e1fora delirante, a psicose compensada e n\u00e3o desencadeada, assim como a fobia de Hans ou a fantasia de Hamlet, demonstram seu car\u00e1ter de constru\u00e7\u00e3o ou de tentativa de constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica sobre o real, que faz obje\u00e7\u00e3o a eles. Nesse contexto, toda constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, na medida em que visa a dar sentido a alguma coisa profundamente fora de sentido, tem a estrutura do del\u00edrio e do religioso. Para diz\u00ea-lo de maneira mais leve, isso relega a significa\u00e7\u00e3o paterna e f\u00e1lica do gozo a uma significa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, dentre outras. Ela perde ent\u00e3o sua primazia. \u00c9 o que a cl\u00ednica demonstra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O fim do ordin\u00e1rio neur\u00f3tico?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Isso interroga a neurose. Em setembro de 2015, o Kring voor Psychoanalyse van de NLS iniciava em Gand um ciclo de confer\u00eancias sob o t\u00edtulo \u201cA neurose de hoje \u00e9 assim t\u00e3o ordin\u00e1ria?\u201d[3]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A neurose tinha, no in\u00edcio do ensino de Lacan, uma conex\u00e3o com a normalidade; pelo menos a psicose derivava dela. Essa \u00faltima era uma varia\u00e7\u00e3o, pelo modo da car\u00eancia, da estrutura considerada como fundamental da neurose, da normalidade e matura\u00e7\u00e3o que encarnava o complexo de \u00c9dipo. No tempo da pot\u00eancia dos grandes discursos da tradi\u00e7\u00e3o \u2013 o pai \u00e9 isso \u2013, que s\u00e3o finalmente tantas prescri\u00e7\u00f5es ensinadas e transmitidas para saber como fazer com o gozo, com a sexualidade, com o ser homem e mulher, etc., a neurose era considerada como a normalidade. Nesse sentido, ela era o ordin\u00e1rio. Certamente, a neurose era o pre\u00e7o a pagar pela lei do pai e pela tradi\u00e7\u00e3o, com toda a s\u00e9rie de sintomas que tornaram necess\u00e1rias e conduziram \u00e0 inven\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise. Mas n\u00f3s t\u00ednhamos ent\u00e3o prescri\u00e7\u00f5es para saber fazer com o gozo, que retiravam mais ainda sua for\u00e7a do fato de que eles imitavam o dito e o suposto natural. Por seu pr\u00f3prio desvio, em nossas refer\u00eancias cl\u00ednicas, dizia-se que a psicose n\u00e3o enganava. A psicose era clara: na medida em que n\u00e3o era \u201cnormal\u201d, n\u00e3o era \u201cordin\u00e1ria\u201d, ou ainda n\u00e3o era \u201ct\u00edpica\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio da sequ\u00eancia do ensino de Lacan, a perspectiva mudou radicalmente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Inicialmente foi a cl\u00ednica que levou a demonstrar a natureza essencialmente perversa, sempre n\u00e3o ordin\u00e1ria, sua dimens\u00e3o \u201cnunca a boa\u201d e \u201cnunca a necess\u00e1ria\u201d da sexualidade humana. \u00c9 o que o retorno do recalcado do sintoma neur\u00f3tico dizia, significava, ou mesmo gritava, de algum modo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Hoje, a desconstru\u00e7\u00e3o dos grandes discursos, sob o efeito conjugado da ci\u00eancia, do capitalismo, da democracia \u2013 e ousemos acrescentar, da psican\u00e1lise \u2013 acabou por desnudar sua natureza de semblantes. Foi justamente sua \u00fanica natureza de tradi\u00e7\u00e3o que foi revelada, em rela\u00e7\u00e3o a uma sexualidade que, no ser humano, n\u00e3o \u00e9 de forma alguma natural ao passar pela linguagem. O grande edif\u00edcio falocr\u00e1tico da lei do pai, que \u00e9 tudo, menos igualit\u00e1rio e democr\u00e1tico, foi contestado e rejeitado por toda parte. Ora, a rejei\u00e7\u00e3o ao pai \u00e9 precisamente o que constitu\u00eda o elemento determinante da psicose (MILLER, 1987).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A lei do pai, que d\u00e1 acesso ao gozo num contexto de interdi\u00e7\u00e3o, aparece desde ent\u00e3o como uma modalidade, dentre outras, de tratamento do gozo. Digamos ainda: um modo de gozar, particular, onde isso se goza da interdi\u00e7\u00e3o, outros modos podendo ser poss\u00edveis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O ordin\u00e1rio da foraclus\u00e3o generalizada<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A psicose ordin\u00e1ria \u00e9 um sintagma que nasceu dessa mudan\u00e7a de perspectiva. Ele faz da neurose um caso inteiramente particular sobre um pano de fundo, em que a estrutura da psicose domina e \u00e9 primeira. O ordin\u00e1rio se traduz em termos de foraclus\u00e3o generalizada na medida em que falta no Outro o significante que venha significar o gozo, e isso, para todo ser falante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mesmo que ela continue a se fundamentar no bin\u00e1rio neurose\/psicose, entramos aqui para nos orientar numa abordagem clinica mais continu\u00edsta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Poder\u00edamos representar essa nova perspectiva cl\u00ednica como uma curva de Gauss. Em uma de suas extremidades, est\u00e1 a psicose desencadeada com todos os seus fen\u00f4menos de desconex\u00e3o, fen\u00f4menos de corpo e do significante. De acordo com as nossas primeiras refer\u00eancias clinicas, \u00e9 uma dimens\u00e3o que, quando a encontramos, n\u00e3o nos engana. Mas, na outra extremidade dessa hipot\u00e9tica curva de Gauss, temos tamb\u00e9m alguma coisa que, particularmente na atualidade, n\u00e3o engana: a neurose. \u00c9 o que me ensina minha experi\u00eancia de psicanalista. O ordin\u00e1rio, se voc\u00eas quiserem, torna-se de algum modo um \u201centre-dois\u201d. Nas duas extremidades do campo clinico, voc\u00eas est\u00e3o no extraordin\u00e1rio, voc\u00eas est\u00e3o no claro, no bin\u00e1rio. O ordin\u00e1rio diz respeito a um registro mais dif\u00edcil: o da tonalidade, dos ind\u00edcios, em que as oposi\u00e7\u00f5es s\u00e3o menos formais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O que n\u00e3o engana na neurose<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O efeito da mudan\u00e7a nos discursos nos obriga a uma afina\u00e7\u00e3o do conceito de neurose. Em \u201cEfeito de retorno sobre a psicose ordin\u00e1ria\u201d, J.-A. Miller (2015) \u00e9 claro. A neurose \u00e9 algo preciso, muito constru\u00eddo. Ela traz nela algo que n\u00e3o engana. \u00c9 nesse sentido que ela traz, como ele diz, uma assinatura. Ele utiliza outros termos: \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o que apresenta uma estabilidade, uma const\u00e2ncia. H\u00e1 uma repeti\u00e7\u00e3o da neurose. Em termos estruturais, de arquitetura geral se voc\u00eas quiserem. J.-A. Miller precisa o que \u00e9 necess\u00e1rio ter para estar na presen\u00e7a desta constru\u00e7\u00e3o t\u00e3o singular que \u00e9 uma neurose: ele fala mesmo de \u201ccrit\u00e9rios\u201d. Eu o cito:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">Voc\u00eas precisam de certos crit\u00e9rios para dizer \u201c\u00e9 uma neurose\u201d: de uma rela\u00e7\u00e3o ao Nome-do-Pai \u2014 n\u00e3o um Nome-do-Pai \u2014 voc\u00eas devem encontrar algumas provas da exist\u00eancia do menos fi, da rela\u00e7\u00e3o \u00e0 castra\u00e7\u00e3o, \u00e0 impot\u00eancia e \u00e0 impossibilidade; \u00e9 preciso ter \u2014 para utilizar os termos freudianos da segunda t\u00f3pica \u2014 uma diferencia\u00e7\u00e3o n\u00edtida entre o Eu e o Id, entre os significantes e as puls\u00f5es, um Supereu claramente tra\u00e7ado. Se n\u00e3o h\u00e1 tudo isso e outros sinais, ent\u00e3o n\u00e3o se trata de uma neurose, \u00e9 outra coisa (MILLER, 2015, p. 13-14).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Isso \u00e9 forte! \u00c9 preciso se curvar a isso, a essa disciplina e a essa precis\u00e3o. N\u00e3o estou certo se tiramos sempre todas as consequ\u00eancias cl\u00ednicas disso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, a imagem da curva de Gauss n\u00e3o \u00e9 aqui satisfat\u00f3ria. O \u201centre-dois\u201d, nessa l\u00f3gica, deve ser situado ao mesmo tempo, de um lado. Se n\u00e3o for uma neurose, \u00e9 uma psicose \u2013 a compreender, j\u00e1 que isso se apoia no bin\u00e1rio, que n\u00e3o \u00e9 uma neurose.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sob o efeito da desconstru\u00e7\u00e3o dos discursos da tradi\u00e7\u00e3o \u2013 o Nome-do-Pai sendo colocado na categoria de um dos semblantes dentre outros \u2013, tende-se a generalizar a dimens\u00e3o encontrada na cl\u00ednica de um semblante compensat\u00f3rio que possa funcionar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A categoria epist\u00eamica da psicose ordin\u00e1ria\u2026<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Retornemos ao campo cl\u00ednico. No registro da psicose ordin\u00e1ria, como a psicose n\u00e3o est\u00e1 desencadeada, j\u00e1 que ela n\u00e3o \u00e9 n\u00edtida e n\u00e3o \u00e9 uma neurose, \u00e9 preciso supor que alguma coisa faz fun\u00e7\u00e3o ou serve como Nome-do-Pai, na medida em que ele estabiliza e enla\u00e7a os diferentes registros \u2013 do corpo e do significante \u2013 sem que seja o Nome-do-Pai. Um outro elemento, n\u00e3o t\u00edpico, exerce essa fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J.-A Miller constata que<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Isso introduz uma mudan\u00e7a de estatuto para o Nome-do-Pai. Nos textos cl\u00e1ssicos de Lacan, utiliza-se o Nome-do-Pai enquanto nome pr\u00f3prio. Quando se pergunta: \u201cO sujeito tem o Nome-do-Pai ou h\u00e1 a foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai?\u201d, utiliza-se logicamente o Nome-do-Pai como nome pr\u00f3prio, o nome pr\u00f3prio de um elemento particular que \u00e9 chamado o Nome-do-Pai.<\/p>\n<p>Seguindo a ideia da ordem simb\u00f3lica delirante, pode-se dizer que o Nome-do-Pai, n\u00e3o \u00e9 mais um nome pr\u00f3prio, mas um predicado definido na l\u00f3gica simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>Um tal elemento funciona como um Nome-do-Pai para o sujeito. Esse elemento \u00e9 o princ\u00edpio que ordena seu mundo. Isso n\u00e3o \u00e9 o Nome-do-Pai, mas tem essa qualidade, essa propriedade (MILLER, 2015, p. 8).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Podemos ent\u00e3o ter um quadro cl\u00ednico que pode se assemelhar a uma neurose, apesar de n\u00e3o ser uma. \u00c9 precisamente nesse singular entre-dois \u2013 que n\u00e3o \u00e9, portanto, um \u2013 que \u00e9 convocada e deve ser desenvolvida toda uma fineza e uma riqueza cl\u00ednica. Longe de se constituir como uma zona indefinida, de um n\u00e3o-saber, isso obriga e produz um apelo na dire\u00e7\u00e3o de um refinamento cada vez maior de nossas refer\u00eancias cl\u00ednicas. Inversamente ao que n\u00e3o est\u00e1 n\u00edtido, ou de uma zona onde tudo cabe, h\u00e1 uma convoca\u00e7\u00e3o a um maior rigor. \u00c9 precisamente a\u00ed que todo o saber da distin\u00e7\u00e3o cl\u00ednica \u00e9 convocado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2026E seu apelo a um saber cl\u00ednico renovado<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 um programa de pesquisa, um work in progress. As indica\u00e7\u00f5es de cl\u00ednicas diferenciais que J.-A. Miller abre em seu texto s\u00e3o um recurso muito precioso. Nesse registro em que a clareza dos tra\u00e7os do grande bin\u00e1rio cl\u00e1ssico psicose desencadeada\/neurose est\u00e1 ausente, somos confrontados com a necessidade de produzir distin\u00e7\u00f5es que n\u00e3o pertencem ao registro dos grandes tra\u00e7os, mas do detalhe, da distin\u00e7\u00e3o fina. J.-A. Miller utiliza ainda outros termos que tentam descrever o que \u00e9 exigido aqui: \u00e9 uma cl\u00ednica dos \u201cpequenos ind\u00edcios variados\u201d (MILLER, 2015, p. 5). N\u00e3o estamos, nesse campo circunscrito pelo sintagma \u201cpsicose ordin\u00e1ria\u201d, no registro de uma \u201cdefini\u00e7\u00e3o r\u00edgida\u201d (MILLER, 2015, p. 2). N\u00e3o \u00e9 uma cl\u00ednica da categoria \u201cobjetiva\u201d (MILLER, 2015, p. 4), \u00e9 uma cl\u00ednica da \u201ccategoria epist\u00eamica\u201d (MILLER, 2015, p. 5) que est\u00e1 \u00e0 procura de uma \u201csinaliza\u00e7\u00e3o[4]\u201d. Resumindo, \u00e9 uma cl\u00ednica do registro dos \u201csignos discretos\u201d! Anuncio aqui o que est\u00e1 em jogo e a envergadura do t\u00edtulo do pr\u00f3ximo congresso da New Lacanian Scholl: \u201cSignos discretos nas psicoses ordin\u00e1rias. Cl\u00ednica e tratamento\u201d. Ele acontecer\u00e1 este ano, no come\u00e7o de julho e tamb\u00e9m pela primeira vez em Dublin \u2013 cidade cujo la\u00e7o com a psicanalise lacaniana \u00e9 evidente atrav\u00e9s de James Joyce, cuja figura est\u00e1 precisamente na origem de uma nova abordagem da cl\u00ednica e do sintoma para a psican\u00e1lise lacaniana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 interessante notar que, em franc\u00eas, o termo \u201cdiscreto\u201d (discret) comporta uma dupla significa\u00e7\u00e3o das mais interessantes, que n\u00e3o \u201cpassa\u201d pelo ingl\u00eas. Ele significa o que n\u00e3o se mostra facilmente, o que \u00e9 pequeno, o que n\u00e3o \u00e9 evidente \u2013 quase escondido -, mas ele comporta tamb\u00e9m a significa\u00e7\u00e3o, em outros registros, daquilo que determina, aquilo que d\u00e1 a assinatura e decide.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Partir da n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Resultado de uma necessidade cl\u00ednica que o sintagma \u201cpsicose ordin\u00e1ria\u201d tenta delimitar, essa l\u00f3gica cl\u00ednica dos signos discretos, das \u201ctonalidades\u201d a encontrar e precisar se inscreve em uma l\u00f3gica que nos cabe ampliar. Por causa da muta\u00e7\u00e3o da estrutura dos grandes discursos, \u00e9 uma l\u00f3gica que acaba por concernir o conjunto do campo da cl\u00ednica. Situo a\u00ed a envergadura do pr\u00f3ximo congresso da NLS.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00f3s escorregamos, oscilamos, entramos em um contexto de binaridade, em uma cl\u00ednica que se inscreve tamb\u00e9m, pouco a pouco, em um registro continu\u00edsta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 um registro de distin\u00e7\u00e3o cl\u00ednica que acompanhada de um tra\u00e7o geral, comum a todo ser falante, que \u00e9 experimentado por todos. Em seu texto, J.-A. Miller aponta esse tra\u00e7o comum como uma discord\u00e2ncia. Uma discord\u00e2ncia experimentada por todos, no registro ou na rela\u00e7\u00e3o com o ser, com o sentimento de ser. Para se referir a esse tra\u00e7o, ele lan\u00e7a m\u00e3o de uma express\u00e3o originada nos primeiros tempos do ensino de Lacan, que diz respeito precisamente \u00e0 psicose desencadeada: \u201cuma desordem provocada na jun\u00e7\u00e3o mais \u00edntima do sentimento de vida no sujeito\u201d (LACAN, 1958\/1998, p. 565). Trata-se de um sentimento de alguma coisa que n\u00e3o vai bem, que n\u00e3o se encaixa, n\u00e3o anda como deveria. De fato, se fizermos refer\u00eancia aos termos mais tardios de seu ensino, veremos que se trata de uma \u201cn\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o\u201d. Essa n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o resulta da conjun\u00e7\u00e3o ou do encontro do registro do corpo, portanto, do imagin\u00e1rio, e o registro do significante, o simb\u00f3lico. Esse encontro estrutural provoca uma \u201cdesordem\u201d, que produz uma n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o \u2013 nos deparamos com o encontro dos registros imagin\u00e1rio e simb\u00f3lico que serviam de base para a constru\u00e7\u00e3o edipiana, tomada aqui de outra maneira. Sim, mas se a n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o \u00e9 experimentada por todos, em que modalidade ou tonalidade ela se declina? Em que registro, por exemplo, ela se manifesta mais eletivamente?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa \u00faltima quest\u00e3o permite situar uma primeira distin\u00e7\u00e3o: entre histeria e obsess\u00e3o. J.-A. Miller (2015, p. 9-10) precisa: o sujeito hist\u00e9rico experimenta essa desordem, mais precisamente, na rela\u00e7\u00e3o com seu corpo, e o sujeito obsessivo mais eletivamente na sua rela\u00e7\u00e3o com as ideias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sim, mas \u2013 precis\u00e3o suplementar necess\u00e1ria \u2013 quando essa disc\u00f3rdia se inscreve prioritariamente no registro da rela\u00e7\u00e3o identificat\u00f3ria narc\u00edsica com o corpo pr\u00f3prio, quando essa rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 \u201dsuficientemente boa\u201d (MILLER, 2015, p. 4), quando ela se manifesta pelo sentimento de n\u00e3o ter corpo, quando a rela\u00e7\u00e3o com o corpo se inscreve em uma dimens\u00e3o de \u201cderrota\u201d (MILLER, 2015, p. 4), isso tudo faria parte do campo hist\u00e9rico e do sentimento de vazio que os sujeitos podem experimentar em si, ou isso denotaria uma rela\u00e7\u00e3o com o \u201cburaco psic\u00f3tico\u201d (MILLER, 2015, p. 4)? O que, nesse \u00faltimo caso, revela que nenhuma marca da identifica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica grampeia o corpo, e denota, dito de outro modo, uma disjun\u00e7\u00e3o total dos dois registros do corpo e do significante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Do mesmo modo, quando nos situamos no registro da rela\u00e7\u00e3o discordante com o pensamento, podemos nos perguntar se o sujeito mant\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o muito erotizada com o pensamento, se ele est\u00e1 sobrecarregado por seus pensamentos de forma obsessiva \u2013 o que J.-A. Miller lembrava recentemente (Bosquin-Caroz, 2015), que ele apresentava ent\u00e3o uma estrutura extremamente constru\u00edda, decorrente de um edif\u00edcio muito complexo, como para o Homem dos ratos e a an\u00e1lise estrutural que Lacan (2008) desenvolve sobre ele em O mito individual do neur\u00f3tico? Ou, ainda, podemos nos perguntar se isso vai at\u00e9 o sentimento de que seu pensamento, de uma forma ou de outra, \u00e9 influenciado, por exemplo? Ou se ele acontece de maneira aut\u00f4noma, nas modalidades do automatismo mental? Ou ainda se ele \u00e9 habitado pelo sentimento de ser manipulado por um Outro exterior ao sujeito \u2013 o que faz parte ent\u00e3o precisamente do registro psic\u00f3tico?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O prescindir, se servir do bin\u00e1rio cl\u00ednico \u2013 Da tonalidade nos registros cl\u00ednicos<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mesmo em rela\u00e7\u00e3o ao fato de que ainda resta uma grande oposi\u00e7\u00e3o entre o corpo e o significante, tudo isso exige uma localiza\u00e7\u00e3o mais precisa. Nem sempre \u00e9 simples decidir, exatamente quando isso n\u00e3o se apresenta de uma forma n\u00edtida, quando, por exemplo, uma amarra\u00e7\u00e3o n\u00e3o t\u00edpica dos registros evocados \u201cvela\u201d (MILLER, 2015, p. 4), \u201cdissimula\u201d (MILLER, 2015, p. 9) ou compensa os efeitos potencialmente maiores e excessivos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando \u00e9 esse o caso, \u00e9 ent\u00e3o a dimens\u00e3o da \u201ctonalidade\u201d, da \u201cintensidade\u201d (MILLER, 2015, p. 9) que \u00e9 exigida. \u00c9 um manejo muito delicado. J.-A. Miller situa alguns registros onde ela pode ser delimitada. Eles s\u00e3o apaixonantes. Sua delicadeza exige que eles sejam desdobrados, refinados. O que produz, em contrapartida, um novo enriquecimento das distin\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um primeiro registro \u00fatil deve ser situado no n\u00edvel da inscri\u00e7\u00e3o e do la\u00e7o social do sujeito. Por esse registro, n\u00e3o se trata de promover a inser\u00e7\u00e3o social, do mesmo modo que tamb\u00e9m n\u00e3o se trata de erigir sua rejei\u00e7\u00e3o como ideal. Mas, com rela\u00e7\u00e3o a esse registro, o que poderia ser lido nele de particular em um dado sujeito? Mais precisamente, que ind\u00edcios poderiam ser lidos na maneira como ele se identifica com sua fun\u00e7\u00e3o social? Mais precisamente ainda, que tipo de \u201crela\u00e7\u00e3o negativa\u201d o sujeito manteria com ela? Aqui tamb\u00e9m h\u00e1 um desacordo para todos. Mas de que tipo seria ele? Seria na modalidade de uma rebeli\u00e3o \u2013 toque hist\u00e9rico? Seria na modalidade \u201caut\u00f4nomo\u201d, do tipo \u201cn\u00e3o tenho nada a ver com isso, n\u00e3o pense que eu acredito nisso, isso n\u00e3o me interessa nem um pouco, mas tudo bem\u2026\u201d \u2013 assinatura mais obsessiva? Ou ainda, a n\u00e3o inser\u00e7\u00e3o seria mais forte? A impossibilidade de se inscrever seria mais forte e de que tipo? Sob que coordenadas? A dificuldade de se inscrever em um la\u00e7o social seria imposs\u00edvel, ou ela seria necess\u00e1ria e iria de ruptura em ruptura, at\u00e9 o extremo de ter que romper todo la\u00e7o com o outro \u2013 assinatura esquizofr\u00eanica? Uma dificuldade relacional conduziria \u00e0 necessidade de tomar dist\u00e2ncia a cada vez, at\u00e9, \u00e0s vezes, de maneira vital, ter que colocar v\u00e1rios quil\u00f4metros entre as coisas \u2013 esse n\u00famero de quil\u00f4metros sendo, literalmente, proporcional \u00e0 dist\u00e2ncia subjetiva que o sujeito precisa para n\u00e3o ser capturado pelo Outro? Que facilidade teria o sujeito com a ruptura, l\u00e1 onde certos neur\u00f3ticos se fixam por anos, e t\u00eam uma ang\u00fastia diante da ideia de qualquer mudan\u00e7a? Ou, ainda, no outro extremo da tonalidade identificat\u00f3ria, esta seria completamente fora da dial\u00e9tica? Ela apresentaria uma inser\u00e7\u00e3o imediata sem discord\u00e2ncia, ou ainda uma identifica\u00e7\u00e3o completa e total com a fun\u00e7\u00e3o \u2013 o que poderia n\u00e3o produzir um d\u00e9ficit, mas justamente uma compet\u00eancia multiplicada nessa ocasi\u00e3o? Essa identifica\u00e7\u00e3o com a posi\u00e7\u00e3o social seria justamente a amarra\u00e7\u00e3o at\u00edpica que permitiria ao sujeito psic\u00f3tico dar a si mesmo um ser, uma posi\u00e7\u00e3o no social, um eu e uma imagem, da qual s\u00f3 perceber\u00edamos a medida \u201ccompensat\u00f3ria\u201d quando a perda desse apoio real n\u00e3o fosse super\u00e1vel pelo sujeito e pudesse conduzir ao desencadeamento ou ao desligamento psic\u00f3tico?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Temos aqui variedades que somente o bin\u00e1rio neurose\/psicose no quadro da presen\u00e7a ou n\u00e3o do Nome-do-Pai, nem sempre pode ser identificado. Antes de tudo, a aus\u00eancia da fun\u00e7\u00e3o Nome-do-Pai somente se deduz a partir desses tra\u00e7os e da dimens\u00e3o de intensidade que apresentam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A mesma fineza do detalhe deve se mostrar necess\u00e1ria na rela\u00e7\u00e3o com o corpo, com o sentimento de estranheza que se pode manter com ele. N\u00f3s j\u00e1 o evocamos brevemente. Como o sujeito habitaria, sempre de maneira mais ou menos ruim, seu corpo? Quanto a esse corpo, essa discord\u00e2ncia apresentaria uma dimens\u00e3o acabada, localizada, bordejada? Seria uma parte do corpo \u2013 o p\u00eanis, por exemplo \u2013 que escaparia ao controle e ao comando e seria objeto de todas as disfun\u00e7\u00f5es? Ou ent\u00e3o ele n\u00e3o seria jamais atingido por elas e, portanto, n\u00e3o estaria submetido ao vai e vem do desejo? Essa discord\u00e2ncia se deveria a um sentimento de impot\u00eancia localizada, com rela\u00e7\u00e3o, por exemplo, a um funcionamento ideal e idealizado? Ela seria ent\u00e3o marcada por essa fun\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do menos, do menos-phi em que se situa o registro do bin\u00e1rio neur\u00f3tico da impot\u00eancia e do imposs\u00edvel? Ou ent\u00e3o seria todo o corpo que escaparia? A localiza\u00e7\u00e3o seria mais fluida? As l\u00e1grimas, por exemplo, estariam ligadas a um acontecimento, fosse ele acompanhado de um sentimento de vacuidade, ou ent\u00e3o tivesse ele um car\u00e1ter radicalmente imotivado? Em resumo, J.-A. Miller diz isso de uma maneira muito bonita: \u00e9 uma discord\u00e2ncia submetida a uma imposi\u00e7\u00e3o, no limite que imp\u00f5e o menos-phi da estrutura exigida pela neurose, ou ent\u00e3o a falha \u00e9 n\u00e3o marcada por esse limite e apresenta uma caracter\u00edstica muito mais insond\u00e1vel?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os detalhes podem se multiplicar e se entrecruzar ou podem ainda se acumular. J.-A. Miller toma o exemplo da marca real no corpo, que pode constituir uma compensa\u00e7\u00e3o \u00e0 n\u00e3o-inscri\u00e7\u00e3o, \u00e0 falta de marca simb\u00f3lica, \u00e0 n\u00e3o-amarra\u00e7\u00e3o do simb\u00f3lico na rela\u00e7\u00e3o com o corpo. N\u00e3o \u00e9 simples elucidar o alcance disso, ainda mais com a mudan\u00e7a de \u00e9poca e o enfraquecimento justamente da for\u00e7a de marca de inscri\u00e7\u00e3o dos discursos da tradi\u00e7\u00e3o. Alguns rituais tradicionais, por exemplo, constitu\u00edam as marcas do corpo inscrevendo-as em um registro social e dando-lhes fun\u00e7\u00e3o, eu diria, de corpo. Vemos, hoje, na era da queda desses grandes marcadores, a utiliza\u00e7\u00e3o generalizada, \u201cdemocratizada\u201d, das marcas reais no corpo: piercings, tatuagens, etc., \u00e0s vezes, mesmo que raramente, nos lugares mais sens\u00edveis deste. De que eles seriam marca? L\u00e1 onde \u2013 certamente de maneira errada \u2013 elas eram consideradas muito rapidamente como signos de psicose, n\u00e3o faz ainda muito tempo. L\u00e1 tamb\u00e9m \u00e9 a tonalidade que informa. Seria em um registro do limitado? Ou ent\u00e3o carregaria uma outra caracter\u00edstica, que d\u00e1 corpo ao sujeito psic\u00f3tico, l\u00e1 onde ele n\u00e3o disp\u00f5e de nenhum outro grampo para ele?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da dial\u00e9tica, ou ao contr\u00e1rio, de uma fixidez ou insist\u00eancia estranha, se coloca igualmente no n\u00edvel da identifica\u00e7\u00e3o com o objeto dejeto. Seria a rela\u00e7\u00e3o com a falta ou com a falta da falta? A autodesvaloriza\u00e7\u00e3o, por exemplo, seria a m\u00e1scara de um narcisismo e de um ideal bem enraizados, em rela\u00e7\u00e3o aos quais o sujeito teria um jogo dial\u00e9tico \u2013 o que n\u00e3o o impediria de sofrer por isso \u2013 isso se inscreveria novamente em uma dimens\u00e3o de falta, de limita\u00e7\u00e3o? Ou ent\u00e3o o sujeito estaria, sem dial\u00e9tica, inteiramente identificado com essa falta que ele encarna? Ele chegaria at\u00e9 mesmo a ser, realmente, na rela\u00e7\u00e3o com o corpo e com sua forma de se vestir, um verdadeiro dejeto? Isso aconteceria em um registro onde a tonalidade \u00e9 menos marcada? Al\u00e9m disso, como essa identifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o dial\u00e9tica se manifestaria? Como tal ela conseguiria se velar-desvelar por uma afeta\u00e7\u00e3o, uma higiene, uma forma de se vestir espec\u00edfica que carregaria essa marca?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que aconteceria ainda, por exemplo, no registro da culpa? De que ordem e intensidade seria ela em rela\u00e7\u00e3o a suas manifesta\u00e7\u00f5es extremas? De tipo neur\u00f3tico, ou ainda insond\u00e1vel, identificando-se com falta e com o objeto que acabo de evocar? Como no caso de Franz Kafka, por exemplo, na medida em que a culpa acontece, entretanto, e precisamente com ele em sua rela\u00e7\u00e3o com o pai. Com que tipo de figura de pai o sujeito teria que se haver?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que dizer da rela\u00e7\u00e3o com a linguagem? Em sua cl\u00ednica generalista, Lacan terminar\u00e1 por dizer que ela \u00e9 um parasita para todos. Sim, mas de que forma e em quais modalidades para cada um, no singular?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A lista n\u00e3o termina. O continente \u00e9 imenso. Tanto para os registros como tamb\u00e9m particularmente no seio mesmo da cada entidade cl\u00ednica. J.-A. Miller toma o exemplo na psicose:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vejam a diferen\u00e7a entre um bom paranoico, fino e musculoso, que se construiu verdadeiramente um mundo para ele e para outros, e o esquizofr\u00eanico que n\u00e3o pode sair de seu quarto. N\u00f3s nomeamos tudo isso psicose.<\/p>\n<p>Quando se trata de uma paranoia, o make-believe do Nome-do-Pai \u00e9 melhor do que o seu, ele \u00e9 mais s\u00f3lido. [\u2026] Mas, h\u00e1 algumas, como o g\u00eanero paranoia sensitiva, que mencionei anteriormente, que n\u00e3o s\u00e3o claras, desde o in\u00edcio. Foi apenas ap\u00f3s tr\u00eas anos de an\u00e1lise que o analista percebeu que alguma coisa n\u00e3o estava certa, que o sujeito constru\u00eda, cada dia, sua paranoia. H\u00e1 tamb\u00e9m os esquizofr\u00eanicos socialmente desconectados, enquanto os paranoicos s\u00e3o socialmente, totalmente conectados. Algumas grandes organiza\u00e7\u00f5es s\u00e3o frequentemente dirigidas por psic\u00f3ticos em potencial, cuja identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 super social. O campo das psicoses \u00e9, portanto, imenso (MILLER, 2015, p. 16).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que ele toma o exemplo da amplitude do campo cl\u00ednico no registro da psicose, a neurose sendo provavelmente mais espec\u00edfica, mais \u201cextraordin\u00e1ria\u201d e, portanto, mais precisa e circunscrita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O que n\u00e3o se distingue<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A lista \u00e9 infinita. Eu a fecharei \u2013 e isso \u00e9 crucial \u2013 somente por um contraexemplo. Um registro a prop\u00f3sito do qual J.-A. Miller insiste que justamente ele n\u00e3o \u00e9 pertinente, que ele n\u00e3o \u00e9 \u201cdiscreto\u201d, no sentido de determinante, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s distin\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas: a saber, o registro da sexualidade. N\u00e3o se pode basear um diagn\u00f3stico cl\u00ednico apoiado nas pr\u00e1ticas sexuais enquanto tais precisamente porque \u00e9 o lugar eletivo da n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o, em que a normalidade, o ordin\u00e1rio, n\u00e3o existem no ser falante. O ordin\u00e1rio, o natural, em termos de sexualidade, \u00e9 o instinto. Ele \u00e9, por natureza, desregulado no ser falante. N\u00e3o h\u00e1 \u201cvida sexual t\u00edpica\u201d (MILLER, 2015, p. 19). \u00c9 um ponto para se recordar sempre: se as pr\u00e1ticas sexuais podem revelar, ou mesmo permitir refinar, as distin\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas, estando colocadas em rela\u00e7\u00e3o aos elementos dos outros registros percorridos (rela\u00e7\u00e3o ao corpo, etc), elas n\u00e3o o podem per se (por elas mesmas).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O ensino com o qual rompemos<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As \u201cpequenas chaves\u201d (MILLER, 2015, p. 13), outro nome dos signos discretos, devem ser precisados a cada vez naquilo que podemos ler deles da rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria para cada sujeito, tomado em sua singularidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa estreita fineza exigida, levada ao extremo de sua l\u00f3gica, nos conduz a um mais-al\u00e9m da cl\u00ednica bin\u00e1ria, hierarquizada. Ela n\u00e3o a anula enquanto tal, mas pode faz\u00ea-la passar para segundo plano; ou mesmo, ela desloca o \u00e2ngulo do modo pelo qual podemos consider\u00e1-la.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A cl\u00ednica se orienta, assim, mais na dire\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica dos n\u00f3s borromeanos, que interessou Lacan em seu ensino tardio, a partir precisamente de J. Joyce. \u00c9 uma l\u00f3gica que tira todas as consequ\u00eancias da desorganiza\u00e7\u00e3o inicial dos campos da subjetividade humana que n\u00f3s hav\u00edamos evocado como estando na base da concep\u00e7\u00e3o lacaniana da psicose. Lacan \u00e9 levado pela cl\u00ednica a generaliz\u00e1-los. A mudan\u00e7a de estatuto no Nome-do-Pai que evocamos, de se encontrar \u201creduzido\u201d a uma modalidade dentre outras, de amarrar os tr\u00eas registros com os quais Lacan dividiu, desde o in\u00edcio de seu ensino, o campo da subjetividade humana, \u00e9 o que leva a isso. A l\u00f3gica \u00e9 invertida. \u00c9 o campo da psicose extraordin\u00e1ria que revela o estatuto inicialmente solto e independente dos registros. Eles certamente encontraram uma modalidade t\u00edpica, socialmente compartilhada, decorrente da tradi\u00e7\u00e3o, de se atar: o modo neur\u00f3tico e edipiano. Pelo fato de ser t\u00edpico, ele poderia ser pensado como ordin\u00e1rio, e mesmo \u201cnatural\u201d. Essa tipicidade foi diminu\u00edda e contestada at\u00e9 o osso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O campo imenso que n\u00e3o diz respeito a isso, o vasto campo que n\u00f3s tentamos capturar pelo registro da psicose ordin\u00e1ria, a psicose dita compensada e n\u00e3o desencadeada, o registro no qual outras amarra\u00e7\u00f5es se revelam eficazes, constitui o ensino de uma outra l\u00f3gica com a qual devemos abrir um espa\u00e7o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A abordagem n\u00e3o \u00e9 mais tanto a de se identificar o que \u00e9 deficiente em rela\u00e7\u00e3o a um standard e a uma norma suposta \u2013 de fato inexistentes. Deve-se tentar apreender e delimitar o modo flex\u00edvel e em movimento pelo qual cada sujeito, em sua singularidade, se vira ou n\u00e3o para enodar e ligar o real que constitui a n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o sexual, com o corpo \u2013 o imagin\u00e1rio \u2013 e o significante \u2013 o simb\u00f3lico \u2013, como n\u00f3s come\u00e7amos a fazer nas declina\u00e7\u00f5es dos registros cl\u00ednicos. Essa amarra\u00e7\u00e3o \u00e9, por exemplo, t\u00edpica, singular ou inexistente?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para dizer de outra maneira, citando J.-A. Miller, nosso trabalho \u00e9, antes de isolar e \u201cde captar sua maneira particular, ins\u00f3lita, [no sentido pr\u00f3prio de cada um e a nenhum outro semelhante] de dar sentido \u00e0s coisas, de dar sempre o mesmo sentido \u00e0s coisas, de dar sentido \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o em sua vida\u201d (MILLER, 2015, p. 8). Isso significa, se quiserem, delimitar seu \u201cdel\u00edrio privado\u201d, o que, em uma \u00e9poca, foi isolado por Lacan pelo termo fantasia fundamental, na medida em que daria o algoritmo do ser do sujeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O fen\u00f4meno cl\u00ednico, ou o anti-DSM<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nessa l\u00f3gica, o diagn\u00f3stico, particularmente o bin\u00e1rio neurose\/psicose, \u00e9 grosseiro, no sentido de que ele \u00e9 uma ofensa precisamente \u00e0 fineza exigida. Ele \u00e9 demasiado espesso, \u00e9 muito abrangente. Essa l\u00f3gica nos conduz menos \u00e0s classifica\u00e7\u00f5es do que ao isolamento do \u201cfen\u00f4meno cl\u00ednico\u201d enquanto tal. Retornamos, assim, aos \u201csignos discretos\u201d do congresso da NLS, no ponto que podemos considerar que ele s\u00f3 \u00e9 estreito na medida em que ele escapa \u00e0s classifica\u00e7\u00f5es conhecidas e toca na singularidade absoluta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J.-A. Miller precisava, durante a \u00faltima reuni\u00e3o da FIPA em Paris (BOSQUIN-CAROZ, 2015, p. 4-5), que os relatos cl\u00ednicos de G. de Cl\u00e9rambault s\u00e3o os modelos: a saber, uma precis\u00e3o rica de todos os recursos da l\u00edngua, em sua dimens\u00e3o liter\u00e1ria, no ajuste do fen\u00f4meno cl\u00ednico, at\u00e9 poder tentar dizer, e reduzir, em uma ou duas frases, o que faz o osso e a depura\u00e7\u00e3o para cada sujeito. \u00c9 uma abordagem em que o diagn\u00f3stico n\u00e3o \u00e9 mais dito. Ele se deduz em cada oportunidade, sem mais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Observemos que s\u00e3o os recursos de que a psiquiatria cl\u00e1ssica dispunha e sobre os quais ela se apoiava. Ela os perdeu em sua biologiza\u00e7\u00e3o desenfreada. A psican\u00e1lise se tornou sua deposit\u00e1ria. Ela tamb\u00e9m tem a tarefa de reinvent\u00e1-los a partir de suas pr\u00f3prias refer\u00eancias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A captura por um dizer aproximado do fen\u00f4meno cl\u00ednico, na medida em que ele \u00e9 pr\u00f3prio a um sujeito, \u00e9 o avesso mesmo, radicalmente, da refer\u00eancia do DSM. Aqui, \u00e9 a singularidade absoluta que est\u00e1 em quest\u00e3o. No DSM, trata-se de um corte e de um corte e de um desfiar, por um recenseamento estat\u00edstico ac\u00e9falo de sintomatologias standards e quantific\u00e1veis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Em dire\u00e7\u00e3o a uma nova orienta\u00e7\u00e3o do tratamento<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Concluirei por destacar a ponta do que J.-A. Miller disse a respeito em sua apresenta\u00e7\u00e3o do congresso da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise \u2013 refer\u00eancia com a qual fiz a abertura dessa confer\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma nova inflex\u00e3o de \u00e2ngulo est\u00e1 a\u00ed ainda presente, a partir do ultim\u00edssimo ensino de Lacan, aquele que antecipava as consequ\u00eancias cl\u00ednicas das figuras do Outro de hoje.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se a psican\u00e1lise muda, diz J.-A. Miller, \u00e9 porque ela \u201cdeve levar em conta outra ordem simb\u00f3lica e outro real diferentes daqueles sobre os quais ela se estabelecera\u201d (MILLER, 2016, p. 26). Ele precisa: n\u00e3o \u00e9 que a ordem simb\u00f3lica tenha vacilado, mas que a verdadeira muta\u00e7\u00e3o que ela sofreu foi o desvelamento de que ela n\u00e3o passa de uma articula\u00e7\u00e3o de semblantes, de simples constru\u00e7\u00f5es sociais, cada dia mais votadas \u00e0 desconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente isso, como para o ser falante de hoje, que Hamlet sabe, l\u00e1 onde para \u00c9dipo era n\u00e3o sabido. \u00c9 a natureza da dimens\u00e3o de semblante do pai e de sua pr\u00f3pria ordem que lhe \u00e9 des-velada. Doravante, tudo \u00e9 apenas semblante. \u00c9 o que faz a err\u00e2ncia \u2013 a \u00e9poca e seus errantes \u2013 do ser falante de hoje e faz tamb\u00e9m dele, fundamentalmente, um n\u00e3o-tolo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Foi a psican\u00e1lise que veio recolocar que tudo \u00e9 apenas semblante. Que existe um real, fora de sentido: aquele da n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o, a respeito do qual o ser falante se encontra em uma posi\u00e7\u00e3o de debilidade que o destina, em sua busca de sentido, ao del\u00edrio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A esse respeito, J.-A. Miller prossegue \u2013 eu o cito brevemente, isso merece evidentemente ser desdobrado \u2013<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Enquanto a ordem simb\u00f3lica era concebida como um saber regulando o real e lhe impondo sua lei, a cl\u00ednica era dominada pela oposi\u00e7\u00e3o entre neurose e psicose. Agora, a ordem simb\u00f3lica \u00e9 reconhecida como um sistema de semblantes que n\u00e3o comanda o real, mas lhe \u00e9 subordinada. [\u2026]<\/p>\n<p>Disso resulta, se assim posso dizer, uma declara\u00e7\u00e3o de igualdade cl\u00ednica fundamental entre os falasseres (MILLER, 2016, p. 31).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Aquele que fez uma an\u00e1lise sabe que a respeito do real, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma normalidade que valha \u2013 nenhum \u201cordin\u00e1rio\u201d n\u00e3o \u00e9 conveniente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J.-A. MILLER isola um tern\u00e1rio que \u201crepercute\u201d, ele diz, aquele cl\u00e1ssico dos registros real, simb\u00f3lico, imagin\u00e1rio: del\u00edrio, debilidade, tapea\u00e7\u00e3o (duperie).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A \u00fanica via que se abre mais al\u00e9m \u00e9, para o falasser, fazer-se tolo [dupe] de um real, quer dizer, montar um discurso no qual os semblantes obstringem um real, um real no qual se cr\u00ea sem a ele aderir, um real que n\u00e3o tem sentido, indiferente ao sentido e que s\u00f3 pode ser aquilo que ele \u00e9. A debilidade \u00e9, ao contr\u00e1rio, a tapea\u00e7\u00e3o [duperie] do poss\u00edvel. Ser tolo, tapeado por um real \u2013 que ostento \u2013 \u00e9 a \u00fanica lucidez aberta ao corpo falante para se orientar (MILLER, 2016, p. 31).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu acrescento: \u00e9 o que se chama se fazer tolo de seu inconsciente. Uma nova defini\u00e7\u00e3o de uma orienta\u00e7\u00e3o do tratamento resulta disso. Ela \u00e9, contrariamente \u00e0quela que se fundamentava em nossas refer\u00eancias cl\u00ednicas bin\u00e1rias, transestrutural: \u201cAnalisar o falasser demanda jogar uma partida entre del\u00edrio, debilidade e tapea\u00e7\u00e3o. \u00c9 dirigir um del\u00edrio [a decifra\u00e7\u00e3o do inconsciente no tratamento] de maneira que sua debilidade ceda \u00e0 tapea\u00e7\u00e3o do real\u201d (MILLER, 2016, p. 31-32). \u00c9 a esta escola que n\u00f3s devemos tentar nos situar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><strong>Tradu\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o: M\u00e1rcia Bandeira e M\u00e1rcia Mez\u00eancio<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>BOSQUIN-CAROZ, P. \u201cCompte rendu de la Journ\u00e9e casuistique du 28 mars 2015\u201d, Apr\u00e8s-midi casuistique-Dossier des textes des CPCT et associations apparent\u00e9es (FIPA). Paris, documente interne, abr. 2015.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1958) \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel das psicoses\u201d. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 537-590.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1958-1959) O Semin\u00e1rio, livro 6: o desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1975-1976) O Semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1978) O mito individual do neur\u00f3tico. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cSur la le\u00e7on des psychoses\u201d. In: Actes de l\u2019\u00c9cole de la Cause Freudienne XIII, ECF. Paris, 1987.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cEfeito retorno sobre a psicose ordin\u00e1ria\u201d. In: Almanaque On-line N\u00ba 5. Dispon\u00edvel em: http:\/\/almanaquepsicanalise.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/09\/Jacques.pdf<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. \u201cApresenta\u00e7\u00e3o do tema do X Congresso da AMP, no Rio, em 2016 \u2013 O inconsciente e o corpo falante\u201d. In: AMP, Scilicet: O corpo falante \u2013 Sobre o inconsciente no s\u00e9culo XXI. S\u00e3o Paulo, EBP, 2016. p. 19-32.<\/h6>\n<h6>SHAKESPEARE, W. Hamlet. In: Obra Completa. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar, 1995, vol. I, p. 529-619.<\/h6>\n<h6>YVES VANDERVEKEN \u2013 Psicanalista em Bruxelas, AME, membro da ECF e da AMP. Foi presidente da NLS. E-mail:\u00a0<span id=\"cloak19c3ed847b70a9719cebd58a6ba25038\"><a href=\"mailto:yves.vanderveken@skynet.be\">yves.vanderveken@skynet.be<\/a><\/span><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>[1]Tradu\u00e7\u00e3o da vers\u00e3o publicada na Revista Mental n. 35, Paris, jan\/2017, p. 13-33. Uma primeira vers\u00e3o deste texto foi publicada no Quarto, Revista de Psican\u00e1lise publicada na B\u00e9lgica, no 112\/113.<\/h6>\n<h6>[2]Um primeiro esbo\u00e7o desta confer\u00eancia foi feito em Gand, em 24 de setembro de 2015, sob o t\u00edtulo, A cl\u00ednica binaria e seu al\u00e9m. Ela se deu na abertura de um ciclo de confer\u00eancias do Kring voor Psychoanalyse van da NLS sobre o tema: \u201c\u00e9 a neurose de hoje sempre t\u00e3o ordin\u00e1ria?\u201d Ela foi retrabalhada em sua vers\u00e3o aqui publicada, para a confer\u00eancia de abertura do ano de trabalho da London Society da NLS, que aconteceu em Londres, em 10 de outubro de 2015.<\/h6>\n<h6>[3]Cf. Programme de l\u2019ACF-Belgique 2015-2016 en ligne, p. 30-31. http:\/\/www.ch.freudien-be.org\/WordPress\/wp\/content\/programme-adf-belgique-2015-2016.pdf<\/h6>\n<h6>[4]NT: Em franc\u00eas \u201csignal\u00e9tique\u201d de acordo com o Petit Robert, significa \u201cconjunto dos elementos de uma sinaliza\u00e7\u00e3o\u201d, ou seja, uma refer\u00eancia, um descritivo, um identificador.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>YVES VANDERVEKEN<\/strong><\/h6>\n<h6>Psicanalista em Bruxelas, AME, membro da ECF e da AMP. Foi presidente da NLS.<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>YVES VANDERVEKEN &nbsp; Em dire\u00e7\u00e3o a uma generaliza\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica dos signos discretos[1] YVES VANDERVEKEN &nbsp; \u201cA psican\u00e1lise muda. \u00c9 um fato\u201d (MILLER, 2016, p. 26). 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