{"id":974,"date":"2017-07-17T06:57:40","date_gmt":"2017-07-17T09:57:40","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=974"},"modified":"2025-12-01T16:24:39","modified_gmt":"2025-12-01T19:24:39","slug":"entre-a-cruz-e-a-espada-culpa-e-gozo-em-um-caso-de-neurose-obsessiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2017\/07\/17\/entre-a-cruz-e-a-espada-culpa-e-gozo-em-um-caso-de-neurose-obsessiva\/","title":{"rendered":"Entre A Cruz E A Espada: Culpa E Gozo Em Um Caso De Neurose Obsessiva"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>RODRIGO ALMEIDA<\/strong><\/h6>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Rodrigo-Almeida-Gustav-Klimt.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"536\" data-large_image_height=\"375\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-975\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Rodrigo-Almeida-Gustav-Klimt.jpg\" alt=\"\" width=\"536\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Rodrigo-Almeida-Gustav-Klimt.jpg 536w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Rodrigo-Almeida-Gustav-Klimt-300x210.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 536px) 100vw, 536px\" \/><\/a><\/p>\n<p>RODRIGO ALMEIDA- GUSTAV KLIMT<\/p>\n<p>O tema do masoquismo aparece na obra de Freud em sua elabora\u00e7\u00e3o sobre as pervers\u00f5es, na fundamenta\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a perverso-polimorfa e, posteriormente, em rela\u00e7\u00e3o aos sintomas neur\u00f3ticos, em que sadismo e masoquismo s\u00f3 devem ser considerados patologias em casos extremos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na elabora\u00e7\u00e3o da teoria das puls\u00f5es, Freud afirma que as puls\u00f5es de autoconserva\u00e7\u00e3o s\u00e3o tamb\u00e9m puls\u00f5es sexuais. Em \u201cAs puls\u00f5es e seus destinos\u201d (1914), aponta os quatro destinos da puls\u00e3o: revers\u00e3o a seu oposto, retorno ao pr\u00f3prio eu, recalcamento e sublima\u00e7\u00e3o. Detendo-se aos dois primeiros, no retorno ao pr\u00f3prio eu, Freud prop\u00f5e que o sadismo \u00e9 anterior ao masoquismo e que o masoquismo \u00e9 um sadismo contra a pr\u00f3pria pessoa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>\u201cA observa\u00e7\u00e3o anal\u00edtica realmente n\u00e3o nos deixa duvidar de que o masoquista partilha da frui\u00e7\u00e3o do assalto a que \u00e9 submetido e de que o exibicionista partilha da frui\u00e7\u00e3o de sua exibi\u00e7\u00e3o. (\u2026) n\u00e3o podemos deixar de observar, contudo, que nesses exemplos o retorno em dire\u00e7\u00e3o ao eu do indiv\u00edduo e a transforma\u00e7\u00e3o da atividade em passividade convergem ou coincidem.\u201d (FREUD, 1914, p. 132)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Notamos, nesse momento de sua constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, que o masoquismo encontra satisfa\u00e7\u00e3o sexual no sadismo. A mudan\u00e7a da atividade para a passividade faz parte do mecanismo pelo qual a puls\u00e3o busca a satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No texto \u201cUma crian\u00e7a \u00e9 espancada\u201d (1919), Freud busca esclarecer sobre o masoquismo e faz uma leitura das pervers\u00f5es, argumentando que as fantasias s\u00e1dicas ou masoquistas podem estar presentes nas neuroses, em que algo de um tra\u00e7o perverso permaneceu. A primeira fase, representada pela frase \u201cmeu pai est\u00e1 batendo na crian\u00e7a que eu odeio\u201d, acontece em um per\u00edodo muito precoce, em que o sadismo ou o masoquismo n\u00e3o se define muito bem, visto que aquele que cria a fantasia n\u00e3o \u00e9 o mesmo que espanca; a segunda, \u201cestou sendo espancada pelo meu pai\u201d, \u00e9 importante porque mostra um car\u00e1ter masoquista, em que o que \u00e9 colocado em evid\u00eancia s\u00e3o os aspectos ps\u00edquicos, e n\u00e3o a dor. Freud nos orienta que o agente de mudan\u00e7a da fantasia \u00e9 a culpa, esta que aparece com a interdi\u00e7\u00e3o do incesto. Assim podemos aferir que algo do amor que foi interditado e da culpa est\u00e3o presentes no masoquismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na terceira, \u201cO meu pai est\u00e1 batendo nas crian\u00e7as, ele s\u00f3 ama a mim\u201d, apesar de s\u00e1dica, Freud orienta que nessa fantasia a satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 masoquista, pois a outra crian\u00e7a nada mais \u00e9 que a pr\u00f3pria crian\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma nova mudan\u00e7a se d\u00e1 em 1920, em \u201cAl\u00e9m do princ\u00edpio do prazer\u201d. Atento ao que percebe como compuls\u00e3o, a repeti\u00e7\u00e3o em sua cl\u00ednica, Freud nota que o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 uma busca pelo prazer, mas algo que se satisfazia ali no ato de repetir uma experi\u00eancia desprazerosa para o sujeito. Com o dualismo pulsional, puls\u00e3o de vida e puls\u00e3o de morte, Freud prop\u00f5e que sadismo e masoquismo est\u00e3o presentes em todo sujeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por\u00e9m a grande mudan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao masoquismo se confirma em sua elabora\u00e7\u00e3o de 1924, \u201cO problema econ\u00f4mico do masoquismo\u201d, em que no par de oposi\u00e7\u00e3o prazer-dor h\u00e1 um ponto de vista econ\u00f4mico em rela\u00e7\u00e3o ao princ\u00edpio do prazer e \u00e0 amea\u00e7a que o masoquismo representa para a vida ps\u00edquica. O masoquismo, sempre \u201cenigm\u00e1tico\u201d, aparece agora no que guarda rela\u00e7\u00e3o com os componentes libidinais em cada indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nesse texto, o masoquismo n\u00e3o \u00e9 mais oriundo de um sadismo. Freud reconhece e nomeia tr\u00eas formas de masoquismo: o prim\u00e1rio, o feminino e o moral. Este \u00faltimo permite a Freud avan\u00e7ar em rela\u00e7\u00e3o aos problemas ligados ao sentimento de culpa. \u201cO masoquismo apresenta-se a nossa observa\u00e7\u00e3o sob tr\u00eas formas: como condi\u00e7\u00e3o imposta a excita\u00e7\u00e3o sexual, como express\u00e3o da natureza feminina e como norma de comportamento\u201d (1924, p. 179).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa dimens\u00e3o econ\u00f4mica, colocada aqui de forma mais evidente, nos abre os olhos para a puls\u00e3o de morte que, de forma silenciosa, se apresenta nos sintomas do sujeito. O masoquismo \u00e9 o sinal da presen\u00e7a da puls\u00e3o de morte na puls\u00e3o de vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No masoquismo moral, o que vai importar \u00e9 o sofrimento, j\u00e1 que o verdadeiro masoquista sempre oferece a face, onde quer que a oportunidade se apresente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 o que se pode observar nos fragmentos de um caso cl\u00ednico que trazemos. Jo\u00e3o relata situa\u00e7\u00f5es nas quais o outro sempre se aproveita da sua boa inten\u00e7\u00e3o e da sua disponibilidade. Apesar de saber que ao final ele ser\u00e1 prejudicado, n\u00e3o consegue negar ao outro que lhe pede. O mal-estar que dizer n\u00e3o ao outro produz em Jo\u00e3o \u00e9 que faz com que o sentimento de culpa apare\u00e7a. Podemos perceber a satisfa\u00e7\u00e3o que a culpa traz a este sujeito, que na sua estrat\u00e9gia para lidar com o outro abra\u00e7a o seu sintoma. O que importa \u00e9 manter o sofrimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>\u201cA satisfa\u00e7\u00e3o desse sentimento inconsciente de culpa \u00e9 talvez o basti\u00e3o do indiv\u00edduo no lucro que aufere da doen\u00e7a (\u2026) o sofrimento acarretado pelas neuroses \u00e9 exatamente o fator que as torna valiosas para a tend\u00eancia masoquista.\u201d (FREUD, 1924, p. 183)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Recolhemos outros pontos na fala deste sujeito, que colocam mais luz sobre o seu modo de gozo. O fato de sempre \u201cse colocar em risco\u201d, como deixar o carro em lugar que pode ser roubado ou arriscar-se contratando garotos de programa e indo com eles para lugares desertos, tendo sido por duas vezes espancado e roubado, atesta para o seu modo de masoquismo. \u00c9 como se apenas ser roubado ou espancado fosse pouco para este sujeito, que est\u00e1 sempre \u00e0 espreita para que algo pior lhe aconte\u00e7a. A dimens\u00e3o mort\u00edfera e silenciosa da puls\u00e3o aparece como que orientando a sua vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O outro, que aparece aqui como um abusador, e o sujeito que n\u00e3o sabe sobre o seu pr\u00f3prio gozo nos colocam diante do seu car\u00e1ter masoquista. Vemos, assim, a preval\u00eancia do que Freud nomeia de verdadeiro masoquista, que est\u00e1 sempre pronto para dizer ao outro como abusar dele, e alcan\u00e7ar a puni\u00e7\u00e3o. O masoquista \u00e9 quem diz como quer ser espancado, tem a posi\u00e7\u00e3o ativa mascarada pela passividade, pois \u00e9 quem procura por aquele que vai lhe infligir a tortura; tortura essa que v\u00e1 de encontro ao ponto fantasm\u00e1tico do seu sintoma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan (1956), ao retomar Freud em \u201cUma crian\u00e7a \u00e9 espancada\u201d, nos aponta a quest\u00e3o da satisfa\u00e7\u00e3o pulsional. No primeiro momento existe o \u00f3dio ao rival espancado pelo pai, o segundo momento \u00e9 quando, atrav\u00e9s da fantasia masoquista primordial, o sujeito d\u00e1 sua entrada no simb\u00f3lico, onde se coloca na dial\u00e9tica significante. \u00c9 no terceiro momento que Lacan prop\u00f5e uma reformula\u00e7\u00e3o: bate-se numa crian\u00e7a, acrescentando o \u00edndice de indetermina\u00e7\u00e3o do sujeito, em que a fun\u00e7\u00e3o paterna surge de maneira vaga. A produ\u00e7\u00e3o fantas\u00edstica faz com que qualquer um possa bater, n\u00e3o s\u00f3 o pai. A posi\u00e7\u00e3o do sujeito ser\u00e1 por ele reeditada nos seus sintomas e na sua repeti\u00e7\u00e3o. Podemos pensar este como o momento em que o sujeito fabrica a sua fantasia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A atualiza\u00e7\u00e3o deste ponto fantasm\u00e1tico \u00e9 o lugar de onde o sujeito constr\u00f3i sua rela\u00e7\u00e3o com o outro. Acreditamos ser importante abordar o sujeito obsessivo e sua rela\u00e7\u00e3o com o Outro:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>\u201cMas aquele que importa \u00e9 o Outro diante de quem tudo isso se passa. \u00c9 esse que \u00e9 preciso preservar a qualquer pre\u00e7o, o lugar onde se registra a fa\u00e7anha, onde se inscreve sua hist\u00f3ria. (\u2026) O que o obsessivo quer manter acima de tudo, sem dar a impress\u00e3o disso, com um jeito de quem almeja outra coisa \u00e9 esse Outro onde as coisas se articulam em termos de significante.\u201d (LACAN, p. 431)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ainda no caso de Jo\u00e3o, um indicativo dessa import\u00e2ncia com o Outro aparece no seu relacionamento amoroso, em que o dinheiro n\u00e3o pode deixar de se apresentar nada pode faltar ao Outro. Diz ele: \u201cquando o dinheiro acaba, o amor voa pela janela\u201d. Com o relacionamento a que ele sempre se refere como \u201cabusivo\u201d, podemos articular v\u00e1rias quest\u00f5es: sua posi\u00e7\u00e3o de gozo, sua forma de n\u00e3o suportar a falta do Outro e a dimens\u00e3o da culpa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Durante o seu percurso de an\u00e1lise, Jo\u00e3o pergunta por que se coloca sempre em risco, por que se deixa abusar. \u201cDeixa?\u201d \u00e9 a forma com que intervenho na tentativa de implicar o sujeito em seu modo de gozo. Mais adiante, ele passa a falar de situa\u00e7\u00f5es pontuais no trato com o outro em que se destaca sua pr\u00f3pria demanda de ser abusado. Conclui, destes relatos, que ele mesmo busca situa\u00e7\u00f5es sem sa\u00edda, como se tivesse entre a cruz e a espada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o se sente culpado de negar o que o outro lhe pede. A necessidade de puni\u00e7\u00e3o aparece ao se colocar em situa\u00e7\u00f5es de risco e o sujeito se v\u00ea sem sa\u00edda, a culpa cumpre seu papel, fazendo o desejo ficar subsumido, e a dimens\u00e3o do gozo aparece no que ela guarda de mais mort\u00edfero para este sujeito. A puni\u00e7\u00e3o est\u00e1 sempre no seu horizonte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Podemos pensar aqui no que concerne \u00e0 culpa e ao supereu na neurose obsessiva. O supereu desempenha o papel de figura feroz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como nos orienta Freud em \u201cO mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o\u201d:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>\u201cO sentimento de culpa, a severidade do superego, \u00e9, portanto, o mesmo que a severidade da consci\u00eancia. \u00c9 a percep\u00e7\u00e3o que o ego tem de estar sendo vigiado dessa maneira, a avalia\u00e7\u00e3o da tens\u00e3o entre os seus pr\u00f3prios esfor\u00e7os e as exig\u00eancias do superego. O medo deste agente cr\u00edtico, a necessidade de puni\u00e7\u00e3o, constitui uma manifesta\u00e7\u00e3o instintiva por parte do ego, que se tornou masoquista sob a influ\u00eancia de um superego s\u00e1dico; \u00e9, por assim dizer, uma parcela da puls\u00e3o voltada para a destrui\u00e7\u00e3o interna presente no ego, empregado para formar uma liga\u00e7\u00e3o er\u00f3tica com o superego\u201d. (FREUD, 1930, p. 139)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Portanto, vemos que a agressividade que \u00e9 percebida como tens\u00e3o pelo ego retorna ao pr\u00f3prio ego em raz\u00e3o do supereu. O eu, ao tornar-se masoquista, cria uma rela\u00e7\u00e3o er\u00f3tica com o supereu. Esse ponto se apresenta pelo sentimento de culpa, o eu vai usar da culpabilidade para se proteger.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Neste fragmento cl\u00ednico, as rela\u00e7\u00f5es do obsessivo com a culpa e o gozo est\u00e3o presentes; a culpa se apresenta de forma silenciosa, advinda dessa satisfa\u00e7\u00e3o masoquista do eu em que o sujeito est\u00e1 sempre \u00e0 espera de puni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Outro ponto importante \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o do obsessivo e seu desejo, no que diz respeito ao Outro, \u00e0 demanda e ao gozo. Em O semin\u00e1rio, livro 5, Lacan nos fala sobre o obsessivo e seu desejo, denegado pelo sujeito. Para o te\u00f3rico, essa denega\u00e7\u00e3o vai surgir como a express\u00e3o do sentimento de culpa. Esta se inscreve, no que concerne ao desejo e \u00e0 demanda. Como percebemos no obsessivo, a culpa seria o sinal do desejo. Na rela\u00e7\u00e3o com a demanda que o mata, nada pode ser desejado pelo obsessivo sem que esteja recoberto pela culpa. \u201cO obsessivo resolve a quest\u00e3o do esvaecimento de seu desejo fazendo dele um desejo proibido. Faz com que ele seja sustentado pelo Outro, precisamente pela proibi\u00e7\u00e3o do Outro\u201d. (LACAN, 1957-8, p. 427).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Preservar o Outro \u00e9 a estrat\u00e9gia pela qual o obsessivo consegue tornar v\u00e1lido algo do seu desejo. Portanto, o mecanismo de defesa do obsessivo est\u00e1 posto em rela\u00e7\u00e3o ao seu desejo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o passa a se antecipar antes de ser capturado pelo seu gozo de arriscar-se. Um saber sobre o seu sintoma come\u00e7a a ser constru\u00eddo. Come\u00e7a a se perguntar se n\u00e3o est\u00e1 se colocando em risco e se a resposta \u00e9 sim, tenta fazer diferente. Diante disso, lhe observo que ele est\u00e1 trazendo uma novidade. Jo\u00e3o se posiciona como aquele que sabe algo sobre a sua repeti\u00e7\u00e3o e a satisfa\u00e7\u00e3o presente no seu sintoma. Ent\u00e3o ele questiona se realmente \u00e9 preciso oferecer tudo ao outro, quando intervenho com um corte e a pergunta: \u201co que \u00e9 poss\u00edvel oferecer ao outro?\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mais adiante admite que se n\u00e3o tivesse buscado uma an\u00e1lise, poderia j\u00e1 ter morrido. Vemos aqui algo desse gozo mort\u00edfero, com que o sujeito, nesta frase direcionada para a sua an\u00e1lise, demonstra que foi poss\u00edvel conter algo da ordem da sua atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nosso tema n\u00e3o se esgota neste artigo. Propomos, para al\u00e9m deste trabalho, uma articula\u00e7\u00e3o em torno da quest\u00e3o da defesa no fazer da cl\u00ednica. Para pensar na dire\u00e7\u00e3o da cura na neurose obsessiva, \u00e9 preciso levar em conta os pontos da defesa nas estrat\u00e9gias do sujeito, em que reconhecer a inconsist\u00eancia do outro n\u00e3o traga algo de terr\u00edvel e que n\u00e3o necessite mais ser um trabalhador incans\u00e1vel do supereu.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1915\/2006). \u201cOs instintos e suas vicissitudes\u201d. In: _____. Obras completas de Sigmund Freud. A hist\u00f3ria do movimento psicanal\u00edtico, artigos sobre a metapsicologia e outros trabalhos (1914-1916). Rio de Janeiro: Imago, vol. XIV, p. 117-144.<\/h6>\n<h6>_____. (1919\/2006) \u201cUma crian\u00e7a \u00e9 espancada\u201d. In: _____. Obras completas de Sigmund Freud. Uma neurose infantil e outros trabalhos (1917-1918). Rio de Janeiro: Imago, vol. XVII, p. 193-218.<\/h6>\n<h6>_____. (1920\/2006). \u201cAl\u00e9m do princ\u00edpio do prazer\u201d. In: _____. Obras completas de Sigmund Freud. Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer, psicologia de grupo e outros trabalhos (1920-1922). Rio de Janeiro: Imago, vol. XVII, p. 13-75.<\/h6>\n<h6>_____. (1924\/2006). \u201cO problema econ\u00f4mico do masoquismo\u201d In: _____. Obras completas de Sigmund Freud. O ego e o id e outros trabalhos (1923-1925). Rio de Janeiro: Imago, vol. XIX, p. 175-188.<\/h6>\n<h6>_____. (1930\/2006). \u201cO mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o\u201d. In: _____. Obras completas de Sigmund Freud. O futuro de uma ilus\u00e3o, o mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o e outros trabalhos (1927-1931). Rio de Janeiro: Imago, vol. XXI, p. 67-148.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1956-57). O semin\u00e1rio, livro 4: a rela\u00e7\u00e3o de objeto. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1995.<\/h6>\n<h6>_____. (1957-58). O semin\u00e1rio, livro 5: as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1999.<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RODRIGO ALMEIDA RODRIGO ALMEIDA- GUSTAV KLIMT O tema do masoquismo aparece na obra de Freud em sua elabora\u00e7\u00e3o sobre as pervers\u00f5es, na fundamenta\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a perverso-polimorfa e, posteriormente, em rela\u00e7\u00e3o aos sintomas neur\u00f3ticos, em que sadismo e masoquismo s\u00f3 devem ser considerados patologias em casos extremos. &nbsp; Na elabora\u00e7\u00e3o da teoria das puls\u00f5es, Freud afirma&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58053,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-974","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-20","category-16","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/974","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=974"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/974\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58054,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/974\/revisions\/58054"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58053"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=974"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=974"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=974"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}