{"id":983,"date":"2017-07-17T06:57:40","date_gmt":"2017-07-17T09:57:40","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=983"},"modified":"2025-12-01T16:25:30","modified_gmt":"2025-12-01T19:25:30","slug":"o-mundo-do-trabalho-e-subjetividade-nas-psicoses-identificacoes-estabilizacoes-e-desencadeamentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2017\/07\/17\/o-mundo-do-trabalho-e-subjetividade-nas-psicoses-identificacoes-estabilizacoes-e-desencadeamentos\/","title":{"rendered":"O Mundo Do Trabalho E Subjetividade Nas Psicoses: Identifica\u00e7\u00f5es, Estabiliza\u00e7\u00f5es E Desencadeamentos"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>MARIA BERNADETE DE CARVALHO<\/strong><\/h6>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/8-ANA-ou-LACADE-Fosforos-2.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"750\" data-large_image_height=\"487\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-984\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/8-ANA-ou-LACADE-Fosforos-2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"487\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/8-ANA-ou-LACADE-Fosforos-2.jpg 750w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/8-ANA-ou-LACADE-Fosforos-2-300x195.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/a><\/p>\n<h6><strong>ANA OU LACADE &#8211; FOSFOROS<\/strong><\/h6>\n<p>Tempos atr\u00e1s, mais ou menos entre 2004 e 2008, integrei um grupo interessado pelas quest\u00f5es do mental no trabalho. Nossas pesquisas e reflex\u00f5es estiveram polarizadas pelas discuss\u00f5es a respeito dos nexos causais entre trabalho e adoecimento mental. Em que medida pode-se estabelecer um v\u00ednculo entre o trabalho e o adoecimento?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tratava-se de uma quest\u00e3o que nos chegava dos sindicatos, de inst\u00e2ncias jur\u00eddicas, de profissionais de sa\u00fade vinculados \u00e0 cl\u00ednica com trabalhadores e at\u00e9 da Secretaria de Sa\u00fade do Estado. O reconhecimento m\u00e9dico e jur\u00eddico de uma rela\u00e7\u00e3o causal entre um trabalho e certo adoecimento tem implica\u00e7\u00f5es em termos de direitos sociais, podendo o trabalhador receber ou n\u00e3o os aux\u00edlios previstos por lei. E, numa deforma\u00e7\u00e3o, o adoecimento vira, muitas vezes, a via de luta, ou melhor, a forma individual de responder a condi\u00e7\u00f5es degradantes de trabalho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nesse momento, chamava a aten\u00e7\u00e3o o n\u00famero de trabalhadores afastados por problemas de sa\u00fade mental e, marcadamente, em certas atividades laborais, como os teleatendentes, os professores, os trabalhadores da sa\u00fade. Sintomas transestruturais, como o alcoolismo, as depress\u00f5es, as fibromialgias e as perturba\u00e7\u00f5es do sono eram e, ainda s\u00e3o, frequentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Verificava-se tamb\u00e9m, estatisticamente, que algumas categorias profissionais eram especialmente afetadas por um ou outro desses sintomas, o que fazia pensar que as rela\u00e7\u00f5es no trabalho e\/ou sua organiza\u00e7\u00e3o poderiam estar na causa de certas manifesta\u00e7\u00f5es sintom\u00e1ticas, tal como se conseguiu comprovar para o caso de adoecimentos org\u00e2nicos, como a silicose.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Condi\u00e7\u00f5es sociais diferentes colocam desafios diferentes \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o subjetiva, que \u00e9 de cada um. Mas, capturados pelos discursos sociais, os sujeitos se manifestam, inclusive sintomaticamente, de formas semelhantes, como por meio dos sintomas citados acima, sintomas sociais. A rela\u00e7\u00e3o desses sintomas com o trabalho n\u00e3o \u00e9 sem as media\u00e7\u00f5es que s\u00e3o dadas pelas condi\u00e7\u00f5es subjetivas de cada um. S\u00e3o esses os sintomas ou nomea\u00e7\u00f5es do mal-estar que, muitas vezes, nos chegam na cl\u00ednica e cuja fun\u00e7\u00e3o e sentido vamos, aos poucos, entendendo em cada sujeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos, naquele momento, em outro n\u00edvel de an\u00e1lise em rela\u00e7\u00e3o ao que agora se coloca quando partimos da psicose.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De um modo geral, se o trabalho pode ser degradante, exigente e se constituir como a encarna\u00e7\u00e3o do Outro mal\u00e9volo ou como espa\u00e7o de realiza\u00e7\u00f5es, ele \u00e9, sobretudo, o local, por excel\u00eancia, do la\u00e7o social. Vale retomar o que Freud diz em O mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o e que Nicola Purgato recorta, no seu texto intitulado \u201cA ben\u00e7\u00e3o do trabalho\u201d (PURGATO, 2017, p. 10):<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>Nenhuma outra t\u00e9cnica para a conduta da vida prende o indiv\u00edduo t\u00e3o firmemente \u00e0 realidade quanto a \u00eanfase concedida ao trabalho, pois este, pelo menos, fornece-lhe um lugar seguro numa parte da realidade, na comunidade humana. A possibilidade que essa t\u00e9cnica oferece de deslocar uma grande quantidade de componentes libidinais, sejam eles narc\u00edsicos, agressivos ou mesmo er\u00f3ticos, para o trabalho profissional e para os relacionamentos humanos a ele vinculados, empresta-lhe um valor que de maneira alguma est\u00e1 em segundo plano quanto ao de que goza como algo indispens\u00e1vel \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o e justifica\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia em sociedade (FREUD, 1930\/1996., p. 87-88.).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Hoje, mais que nunca, o trabalho \u00e9 central em nossas vidas, medida do seu valor e mediador de la\u00e7os sociais. E, como um universal, o trabalho tem a qualidade de estar posto para todos. Ele \u00e9 parte da condi\u00e7\u00e3o humana. Desse modo, quando nos fazemos representar pelo trabalho, isso, por si s\u00f3, nos garante um lugar na comunidade humana. Essa possibilidade \u00e9 preciosa para todos, mas, na psicose, quando o campo do Outro \u00e9 especialmente insuport\u00e1vel, as identifica\u00e7\u00f5es com o trabalho podem oferecer a sensa\u00e7\u00e3o de ocupar um lugar no mundo e viabilizar estabiliza\u00e7\u00f5es e trajet\u00f3rias de vida bastante normais. Alguns casos nos ajudam a avan\u00e7ar, j\u00e1 que isso ocorre de formas singulares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma vinheta de Nicola Purgato \u00e9 exemplar a respeito da estabiliza\u00e7\u00e3o pela identifica\u00e7\u00e3o ao S1 trabalho, e a transcrevo abaixo:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>Giuseppe, cinquent\u00e3o single, h\u00e1 anos trabalha part-time em uma institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica, orgulha-se de fazer o seu trabalho, [\u2026] porque se sente o \u00fanico que realmente trabalha e faz a institui\u00e7\u00e3o andar pra frente com certo cuidado, uma vez que todos os seus colegas s\u00e3o pregui\u00e7osos, s\u00f3 conversam e \u2013 por isso \u2013 o denigrem. N\u00e3o h\u00e1 muitos sinais de psicose manifesta nele, embora se possa intuir sua estrutura subjacente [\u2026]. O trabalho para ele, por isol\u00e1-lo dos outros, o conecta com uma sensa\u00e7\u00e3o que o mant\u00e9m, de algum modo, ligado ao Outro (PURGATO, 2017, p. 11).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 algum tempo, acompanhei um jovem, Jota, 30 anos, cuja rela\u00e7\u00e3o com o trabalho e com os colegas em muito se aproxima \u00e0 descri\u00e7\u00e3o acima. No entanto, ele chegou at\u00e9 mim num momento em que algo na jun\u00e7\u00e3o com o sentimento de vida se desarranjou e que ele experimentou, repentinamente, uma total aus\u00eancia de interesse pelo mundo. Tudo ficou cinza, diz ele, indicando um forte recolhimento libidinal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ap\u00f3s uma licen\u00e7a e n\u00e3o sem dificuldades, Jota conseguiu reconstruir seu retorno ao trabalho. Sua explica\u00e7\u00e3o para o ocorrido e sua estrat\u00e9gia para o retorno centraram-se no excesso de trabalho: foi porque ele trabalhava demais, assumindo tarefas que eram dif\u00edceis para os outros e o lugar de um consultor, que ele terminou por ficar deprimido. Ao lado disso, e penso que mais importante, ele experimentou uma descren\u00e7a na possibilidade de conseguir fazer o seu setor funcionar direito. Ele relata sobre uma conversa que teve com um diretor, em que este o teria sondado a respeito de como empregar os recursos destinados ao treinamento do pessoal da casa. Nessa conversa, Jota n\u00e3o s\u00f3 descobre a total ignor\u00e2ncia do chefe a respeito dos problemas e seu menosprezo pela quest\u00e3o como tamb\u00e9m se v\u00ea colocado numa posi\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse relato, a perplexidade que o acompanha e sua desorganiza\u00e7\u00e3o corporal nas ocasi\u00f5es em que \u00e9 chamado a se responsabilizar por seu sobrinho, levou-me a trabalhar com a hip\u00f3tese de que seu desencadeamento se devia \u00e0 impossibilidade de ocupar esse lugar de exce\u00e7\u00e3o. Nesse momento, as solicita\u00e7\u00f5es de que era alvo come\u00e7aram a se tornar invasivas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Seu retorno ao trabalho se construiu sobre a limita\u00e7\u00e3o das tarefas de que se encarrega, embora permane\u00e7a sendo aquele que, diferente dos colegas, trabalha corretamente. Sua descren\u00e7a quanto \u00e0 possibilidade de mudar o funcionamento do mundo introduz um peso em sua rela\u00e7\u00e3o com o trabalho e ele procura por alternativas. Esse trabalho, no entanto, com a flexibilidade que ele admite, d\u00e1 um lugar no mundo a esse sujeito, cuja exist\u00eancia \u00e9 bastante restrita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Muito mais tarde no tratamento, Jota revelar\u00e1 que sua depress\u00e3o sobreveio no momento em que iniciava um relacionamento com uma colega. Esse relacionamento, \u00fanico em sua vida, n\u00e3o passou de alguns encontros, pois o estado em que se viu o levou a por um fim na hist\u00f3ria. Ele diz que, quando entendeu que estava deprimido, telefonou para a mo\u00e7a e falou que n\u00e3o poderia continuar. Aqui, tamb\u00e9m, o sujeito n\u00e3o p\u00f4de ocupar uma posi\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nicola Purgato (2017, p. 11) chama a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que, muitas vezes, n\u00e3o \u00e9 preciso que o trabalho seja formalizado ou socialmente muito significativo para sustentar uma exist\u00eancia e possibilitar a sensa\u00e7\u00e3o de um lugar no mundo. Ele d\u00e1 o exemplo de um jovem desempregado que se incumbe de estudar para descobrir como os pol\u00edticos e economistas nos enganam. Com isso, ele escreve pequenos artigos para um jornal local, pelos quais nada recebe, mas que, para ele, \u00e9 o trabalho mais importante para a constru\u00e7\u00e3o de um mundo melhor. Aqui, tamb\u00e9m, o significante \u2018trabalho\u2019, sozinho, opera de modo a sustentar o sujeito e a dar-lhe um lugar no mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Podemos lembrar do caso da Estamira, cuja vida foi alvo de um document\u00e1rio que est\u00e1 dispon\u00edvel no Youtube. Ela encontrar\u00e1 um lugar no mundo atrav\u00e9s de um trabalho bastante \u00e0 margem, o trabalho de catadora no lix\u00e3o. Ela encontra, nesse trabalho, a oportunidade de constru\u00e7\u00e3o de um cotidiano e de la\u00e7os sociais, ao mesmo tempo em que trata seu ser de dejeto, pelo reaproveitamento do que ela a\u00ed encontra e que ela compartilha com seus familiares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J\u00e1 o caso do Homem do Rel\u00f3gio, parece-me exemplar a respeito do recurso \u00e0s identifica\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias pelo trabalho. Trata-se de um caso sobre o qual escrevemos um artigo h\u00e1 tempos (CARVALHO; MACEDO, 2007), investigando tanto as condi\u00e7\u00f5es de estabilidade quanto o que se revelou insuport\u00e1vel para esse sujeito. A import\u00e2ncia do trabalho, para ele, pode ser transmitida pelo trecho abaixo, passagem do depoimento colhido em entrevista por pesquisadores das rela\u00e7\u00f5es entre trabalho e adoecimento, ap\u00f3s o seu desencadeamento:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>N\u00e3o gosto de olhar no espelho. Quando eu ia trabalhar, eu gostava. Tinha aquele pensamento bom: \u201cSou vigia, vou vencer mais este turno\u201d. Mas, agora, n\u00e3o tenho mais esse gosto. Fui \u00e0 barbearia, tinha um espelho muito grande, e eu fiquei muito aborrecido em ver essa imagem minha. Deu medo de me ver naquele espelho e n\u00e3o poder dizer comigo mesmo: \u201cEu sou vigia noturno\u201d (LIMA et al, 2002, p. 236).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 o trabalho que lhe permite construir uma imagem de si. Isso se reafirma com o seu relato de que, ap\u00f3s o desencadeamento, se entrega a devaneios em que se trata de rever, como num filme, todo o ritual de se aprontar, olhar-se no espelho e dirigir-se ao trabalho; n\u00e3o sem marcar seu orgulho em se ver fardado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Trabalhador impec\u00e1vel, esse sujeito que zela por seu bom nome atrav\u00e9s de recursos imagin\u00e1rios sucumbir\u00e1 ao encontrar um chefe que quer tudo controlar. Esse chefe, ao mesmo tempo tirano com os empregados e permissivo em seu comportamento, presentifica um Outro abusador, que se tornar\u00e1 mais e mais insuport\u00e1vel para esse sujeito. Esse chefe, com sua presen\u00e7a e seus dispositivos de vigil\u00e2ncia, ir\u00e1 desaloj\u00e1-lo da posi\u00e7\u00e3o de quem vigia, de quem olha, e transform\u00e1-lo no objeto de um olhar invasivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse senhor passa a apresentar sobressaltos, aus\u00eancias, inseguran\u00e7a, sinais de desorganiza\u00e7\u00e3o corporal que v\u00e3o de diarreias a dores e tonteiras, al\u00e9m da extrema rigidez na obedi\u00eancia \u00e0s determina\u00e7\u00f5es insanas do chefe. Ap\u00f3s seu desligamento do trabalho, ele desenvolve a compuls\u00e3o de desenhar o rel\u00f3gio que, no trabalho, devia ser acionado de 20 em 20 minutos, para provar que estava desperto. Sem o trabalho e sem o rel\u00f3gio, ele o desenha para poder acion\u00e1-lo, o que tem o efeito de acalm\u00e1-lo. \u00c9 interessante que, at\u00e9 com o rel\u00f3gio, ele termine por estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o especular, de rivalidade: quem vigia quem? Quando ele perde seu posto, ele quer manter o trabalho com seu rel\u00f3gio, de quem se tornou amigo. Sen\u00e3o, ele pergunta, \u201ccomo explicar por que que ele faz falta pra mim?\u201d (LIMA, 2002).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Evoco ainda outro caso, que li recentemente no livro da Nieves Soria Dafunchio, Confines de las psicoses (2008). Trata-se de uma jovem que desencadeia aos 19 anos, no momento em que seu pai e sua m\u00e3e sofrem quedas e fraturas, um ap\u00f3s o outro. Eme, como a chamaremos, cai, como seus pais, e passa por uma interna\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica, iniciando a\u00ed, uma depress\u00e3o e anorexia radical. Sete anos depois, ela ser\u00e1 internada por desnutri\u00e7\u00e3o e iniciar\u00e1 o tratamento psicanal\u00edtico. Conforme se revelar\u00e1, para Eme, o alimento e a voz da m\u00e3e se sobrep\u00f5em, fazendo com que, quando ela come, n\u00e3o tem como n\u00e3o escutar a voz da m\u00e3e. Quando ela come, escuta a voz da m\u00e3e por dentro. Nieves isola a express\u00e3o \u201cn\u00e3o tem como n\u00e3o\u201d. Ela comenta que falta a Eme o \u201cn\u00e3o\u201d do Nome-do-Pai, que permitiria limitar a voz superegoica da m\u00e3e.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas o que me interessou nesse caso, para inclu\u00ed-lo aqui, \u00e9 que, para al\u00e9m das interven\u00e7\u00f5es de sua analista, no sentido de deslocar essa sobreposi\u00e7\u00e3o entre a voz superegoica e o alimento, um trabalho sobre o objeto voz ser\u00e1 possibilitado pela escolha profissional de Eme.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Atuando junto a um comissariado de prote\u00e7\u00e3o de mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia familiar, ela produz peti\u00e7\u00f5es, slogans e textos de divulga\u00e7\u00e3o que buscam dar voz aos que n\u00e3o t\u00eam voz. Ela se ocupa em dizer pelos que n\u00e3o podem ou n\u00e3o sabem dizer, apropriando-se de sua voz. O reconhecimento de seu trabalho pelos colegas permite a Eme tomar a palavra e ser escutada, no lugar de escutar a voz da m\u00e3e. Nesse tratamento, est\u00e1 colocada a possibilidade de que a nomina\u00e7\u00e3o de Eme pelo trabalho fa\u00e7a supl\u00eancia ao Nome-do-Pai e se constitua como um suporte para o sujeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Depois de afirmar a import\u00e2ncia do trabalho como forma de inscri\u00e7\u00e3o dos sujeitos no Outro e como um campo de solu\u00e7\u00f5es para as inclina\u00e7\u00f5es do gozo, indo at\u00e9 \u00e0 supl\u00eancia do Nome-do-pai, gostaria tamb\u00e9m de dizer que ele \u00e9 um contexto fecundo para as interpreta\u00e7\u00f5es delirantes na paranoia. Facilmente um pedido ou uma observa\u00e7\u00e3o de um chefe ou colega s\u00e3o interpretados como humilha\u00e7\u00e3o, persegui\u00e7\u00e3o ou avan\u00e7o de car\u00e1ter sexual. Alguns sujeitos conseguem inventar artif\u00edcios, por vezes discretos, como hor\u00e1rios alternativos, que servem para limitar o gozo do Outro, experimentado como invasivo. S\u00e3o manobras que visam esvaziar a consist\u00eancia do Outro e diferenciar o sujeito. Aqui, como na cl\u00ednica com esses sujeitos, o que se viabiliza \u00e9 o tratamento do Outro.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>CARVALHO, M. B.; MACEDO, L. F. (relat.) \u201cO Homem do rel\u00f3gio\u201d. In: Curinga: a variedade da pr\u00e1tica anal\u00edtica. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 Se\u00e7\u00e3o Minas, n\u00ba 25, nov. 2007, p. 55-59.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>DAFUNCHIO, N. S. \u201cConfines entre esquizofrenia y melancolia \u2013 el miedo al cuerpo\u201d. In: Confines de las psicoses: teoria e pr\u00e1tica. Buenos Aires: Del Bucle, 2008, p. 211-235.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FREUD, S. [1930] \u201cO mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o\u201d. In: Obras completas de Sigmund Freud. ESB. Rio de Janeiro: Imago, vol. XXI, 1996, p. 65-148.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LIMA, M. E. A.; ASSUN\u00c7\u00c3O, A. A.; FRANCISCO, J. M. S.D. \u201cAprisionado pelos ponteiros de um rel\u00f3gio: o caso de um transtorno mental desencadeado no trabalho\u201d, In: JACQUES, M. G.; CODO, W. (orgs.). Sa\u00fade mental &amp; trabalho: leituras. Petr\u00f3polis: Vozes, 2002, p. 209-246.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>PURGATO, N. (2017) \u201cA ben\u00e7\u00e3o do trabalho\u201d, in Papers n\u00ba 2: Desordens, sintomas e sinais discretos: XI Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise. Dispon\u00edvel em https:\/\/congresoamp2018.com\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/PAPERS-7.7.7.-N%C2%B02-Portugu%C3%AAs.pdf. Acesso em: 8 fev. 2018.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>MARIA BERNADETE DE CARVALHO<\/strong><\/h6>\n<h6>Analista praticante. Membro aderente da EBP-MG. Soci\u00f3loga. Mestre em Sociologia. Doutora em Psican\u00e1lise.\u00a0<span id=\"cloakfd2caec817ecd4cffd314f5589a07354\"><a href=\"mailto:bernadetec59@gmail.com\">bernadetec59@gmail.com<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARIA BERNADETE DE CARVALHO &nbsp; ANA OU LACADE &#8211; FOSFOROS Tempos atr\u00e1s, mais ou menos entre 2004 e 2008, integrei um grupo interessado pelas quest\u00f5es do mental no trabalho. Nossas pesquisas e reflex\u00f5es estiveram polarizadas pelas discuss\u00f5es a respeito dos nexos causais entre trabalho e adoecimento mental. 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