{"id":991,"date":"2017-07-17T06:57:40","date_gmt":"2017-07-17T09:57:40","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=991"},"modified":"2025-12-01T16:26:26","modified_gmt":"2025-12-01T19:26:26","slug":"passagem-ao-ato-e-adolescencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2017\/07\/17\/passagem-ao-ato-e-adolescencia\/","title":{"rendered":"Passagem Ao Ato E Adolesc\u00eancia"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>ANA MARIA C. S. LOPES<\/strong><\/h6>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3-Ana-Maria-Louise-Bourgeois-Femme-maison-1.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"407\" data-large_image_height=\"298\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-992\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3-Ana-Maria-Louise-Bourgeois-Femme-maison-1.jpg\" alt=\"\" width=\"407\" height=\"298\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3-Ana-Maria-Louise-Bourgeois-Femme-maison-1.jpg 407w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/3-Ana-Maria-Louise-Bourgeois-Femme-maison-1-300x220.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 407px) 100vw, 407px\" \/><\/a><\/p>\n<h6><strong>ANA MARIA &#8211; LOUISE-BOURGEOIS, FEMME MAISON<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na cl\u00ednica contempor\u00e2nea, deparamo-nos com uma significativa incid\u00eancia de novos sintomas, sobretudo aqueles nos quais se verifica o privil\u00e9gio do registro do ato; da convoca\u00e7\u00e3o do corpo que, por vezes, sup\u00f5e uma precariedade do registro simb\u00f3lico, uma tentativa de apagamento da dimens\u00e3o subjetiva. As m\u00eddias anunciam o aumento dos atos violentos no espa\u00e7o das escolas e da cidade, atos que se inscrevem via o ato compulsivo de utiliza\u00e7\u00e3o de subst\u00e2ncias t\u00f3xicas e atos infracionais que exp\u00f5em o sujeito adolescente a situa\u00e7\u00f5es de risco. Verifica-se, enfim, a cl\u00ednica da supremacia do imagin\u00e1rio, da impossibilidade de amarra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, independente da estrutura cl\u00ednica, e, por conseguinte, o imperativo da cl\u00ednica do ato.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, \u00e9 preciso perguntar: qual \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o que est\u00e1 em jogo na cl\u00ednica do ato? Lacan faz do ato suicida o modelo de ato, pensa o ato a partir do suic\u00eddio, independente da estrutura (neurose, psicose ou pervers\u00e3o). H\u00e1 algo no sujeito que n\u00e3o trabalha para o seu bem, n\u00e3o trabalha para o \u00fatil; ao contr\u00e1rio, trabalha para a destrui\u00e7\u00e3o. Na elabora\u00e7\u00e3o de Lacan, todo ato verdadeiro \u00e9 um \u201csuic\u00eddio do sujeito\u201d. O sujeito n\u00e3o \u00e9 o mesmo depois do ato, renasce desse ato de modo diferente. H\u00e1 um antes e um depois. Todo ato \u00e9 transgress\u00e3o, no sentido que cont\u00e9m, em si, um atravessamento de uma lei, de um conjunto simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O ato tem uma dimens\u00e3o paradoxal, pois o sujeito, ao cometer o ato contra o pr\u00f3prio organismo, visa \u00e0 homeostase. O ato se direciona ao cerne do ser: o gozo. Nessa perspectiva, na adolesc\u00eancia, s\u00e3o comuns os comportamentos de risco, tais como toxicomanias, transtornos alimentares, tentativas de suic\u00eddio, entre outras. Solu\u00e7\u00f5es que t\u00eam a ver com uma pr\u00e1tica da ruptura, um curto-circuito da rela\u00e7\u00e3o ao Outro. Alguns adolescentes prescindem do Outro e at\u00e9 mesmo recusam o Outro na medida em que esses sujeitos devem se separar da autoridade parental. O adolescente n\u00e3o possui palavras para traduzir o que acontece no corpo ou em seu pensamento. O que n\u00e3o se traduz em palavras tenta se inscrever via ato (LACAD\u00c9E, 2007).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nesse ponto, torna-se essencial distinguir passagem ao ato e acting out. Podemos falar de acting out quando h\u00e1 uma cena; essa cena \u00e9 a palavra, e o sujeito se coloca a atuar sobre essa cena sob o olhar do Outro. Necessita do Outro, do espectador. Ao contr\u00e1rio, a passagem ao ato n\u00e3o tem um espectador, o que se tem \u00e9 a desapari\u00e7\u00e3o da cena. Digamos que o sujeito est\u00e1, eventualmente, morto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A passagem ao ato<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A express\u00e3o \u201cpassagem ao ato\u201d tem sua origem na psiquiatria francesa dos anos 20 do s\u00e9culo XX, articulada \u00e0 criminologia, e \u00e9 utilizada para referir-se, de forma exclusiva, a atos violentos, delituosos. Lacan, na tese de 1932, Da psicose paranoica em suas rela\u00e7\u00f5es com a personalidade, e na an\u00e1lise do caso das irm\u00e3s Papin (1933), introduz a passagem ao ato como solu\u00e7\u00e3o mecanicista, liberadora do Kakon, palavra grega que significa \u201cdor\u201d, \u201cdesgra\u00e7a\u201d (VON MONAKOW; MOURGUE, 1928). Nas psicoses autopunitivas, que se traduzem pelo \u201cdel\u00edrio de interpreta\u00e7\u00e3o\u201d, as energias autopunitivas do superego se dirigem contra as puls\u00f5es agressivas provenientes do inconsciente do sujeito e visam a retardar, atenuar e desviar o impulso assassino. Guiraud (1931) apoia-se em von Monakow e Mourgue e destaca o Kakon como libera\u00e7\u00e3o de um complexo de natureza autom\u00e1tica que, por ato-reflexo, encontra uma sa\u00edda mecanicista. Para Guiraud, o objetivo da passagem ao ato \u00e9 o de desembara\u00e7ar o sujeito da sensa\u00e7\u00e3o dolorosa que o invade, concep\u00e7\u00e3o adotada por Lacan na tese de 1932, quando aproxima a passagem ao ato de Aim\u00e9e ao mecanismo liberador do Kakon, o inimigo interno (LACAN, 1932, p. 236).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em \u201cAgressividade em psican\u00e1lise\u201d (LACAN, 1948), o Kakon surge a prop\u00f3sito das rea\u00e7\u00f5es violentas na psicose. Em \u201cFormula\u00e7\u00f5es sobre a causalidade ps\u00edquica\u201d (1946), Lacan sublinha que Guiraud reconhece que o sujeito atinge, no objeto que ele fere, o Kakon de seu \u201cpr\u00f3prio ser\u201d (LACAN, 1946, p. 176). Silvia Tendlarz ressalta que Guiraud n\u00e3o relaciona o Kakon ao ser do sujeito, e sim ao mal, \u00e0 doen\u00e7a, transposto no mundo externo, de forma que Lacan utiliza o \u201cpr\u00f3prio ser\u201d para tratar o ser do sujeito, a saber, o conceito de gozo, como se Kakon nomeasse algo que estivesse fora de teoriza\u00e7\u00e3o naquela \u00e9poca e que, conceitualmente, seria abandonado posteriormente (TENDLARZ, 1990).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em O semin\u00e1rio 10: a ang\u00fastia, Lacan articula passagem ao ato, ang\u00fastia e objeto. Lacan concebe o acting out como dirigido ao outro e a \u201cpassagem ao ato\u201d como o instante em que o sujeito se coloca no lugar de puro objeto. Ent\u00e3o, no primeiro momento (1932), pode-se afirmar que o sujeito passa ao ato para liberar-se do mal interior, ou, por um imperativo superegoico, atinge no outro a imagem de si mesmo. No segundo momento (1962), a passagem ao ato representa o instante em que nenhuma media\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel e visa promover uma separa\u00e7\u00e3o radical do outro. O sujeito \u201cdeixa-se cair\u201d sai de cena (LACAN, 1963, p. 118).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O sujeito passa ao ato no momento em que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel a dist\u00e2ncia m\u00ednima entre o eu e o outro, numa regress\u00e3o t\u00f3pica ao especular. Ressalta-se, aqui, o que Lacan introduz como a situa\u00e7\u00e3o de j\u00fabilo da crian\u00e7a diante do espelho, em que ela pede ao outro uma confirma\u00e7\u00e3o do que experimenta ao ver sua imagem refletida. A crian\u00e7a, via olhar, via voz do outro, pode fazer a passagem dessa imagem, ainda n\u00e3o unificada do eu, para a unifica\u00e7\u00e3o da imagem. Ent\u00e3o, antes do est\u00e1dio do espelho, o que se tem \u00e9 a falta de contorno que a imagem do espelho poderia dar ao sujeito como eu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em suma, o sujeito se encontra face ao n\u00e3o reconhecimento da imagem especular: algo que n\u00e3o \u00e9 reconhecido como especulariz\u00e1vel pelo sujeito n\u00e3o \u00e9 pass\u00edvel de ser proposto ao reconhecimento do outro. A\u00ed o sujeito \u00e9 capturado por essa vacila\u00e7\u00e3o, por essa experi\u00eancia despersonalizante, cuja sa\u00edda \u00e9 a passagem ao ato que se inscreve na dimens\u00e3o do deixar cair, daquilo que \u00e9 resto. Na passagem ao ato, o sujeito sai da cena (LACAN, 1962). Nessa perspectiva, torna-se necess\u00e1rio distinguir passagem ao ato e acting out.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O acting out e a cl\u00ednica do imposs\u00edvel de dizer a cl\u00ednica do Real<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fenichel (1945), no artigo intitulado \u201cNeurotic Acting-Out\u201d, considera que o acting out alivia, inconscientemente, a tens\u00e3o interna e produz uma descarga parcial de impulsos, como sentimentos de culpa. A presente situa\u00e7\u00e3o se encontra conectada com o conte\u00fado recalcado e \u00e9 utilizada como uma ocasi\u00e3o para a descarga de energias recalcadas. O acting out \u00e9, ent\u00e3o, considerado uma descarga de energia egossint\u00f4nica. \u00c9 uma forma especial de representa\u00e7\u00e3o na qual a recorda\u00e7\u00e3o antiga \u00e9 representada de uma maneira mais ou menos disfar\u00e7ada. A experi\u00eancia recordada conserva sua organiza\u00e7\u00e3o original. Fenichel considera que estar em an\u00e1lise favorece o acting out e h\u00e1 sempre uma qualidade motora da a\u00e7\u00e3o que se difunde a todo o acting out (FENICHEL, 1945, apud GREENACRE, 1950).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No acting-out, a a\u00e7\u00e3o \u00e9 mais importante do que a linguagem. Em geral, a crian\u00e7a que sofreu frustra\u00e7\u00f5es orais expressa seu sofrimento atrav\u00e9s de uma motilidade difusa e uma exacerbada incapacidade para tolerar frustra\u00e7\u00f5es. Possui tamb\u00e9m uma exacerba\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao ver e ser visto, que marca a fragilidade narcisista do eu, e apresenta, ainda, uma dificuldade de fazer a passagem do pr\u00e9-verbal ao verbal (FENICHEL, 1945, apud GREENACRE, 1950). Lacan, no Semin\u00e1rio 10: a ang\u00fastia, na aula de 23\/1\/1963, ir\u00e1 articular o acting out \u00e0 cena anal\u00edtica e enfatizar que n\u00e3o se trata da quest\u00e3o da fragilidade do eu, mas de casos n\u00e3o analis\u00e1veis e da supremacia do pr\u00e9-verbal. Para Lacan, no acting out, est\u00e1 em jogo a quest\u00e3o do objeto, por isso n\u00e3o se trata de intervirmos no sentido de um fortalecimento ou n\u00e3o do ego. O acting out articula-se \u00e0 cena anal\u00edtica; a cl\u00ednica do acting out coloca em jogo o que n\u00e3o pode ser dito \u2013 n\u00e3o por um d\u00e9ficit do simb\u00f3lico, mas por quest\u00e3o de estrutura, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que o simb\u00f3lico delimita como resto, o objeto a. Se o que est\u00e1 em quest\u00e3o no acting out \u00e9 o objeto a, a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 in\u00fatil. O acting coloca em jogo a cl\u00ednica do imposs\u00edvel de dizer a cl\u00ednica do real (RUBISTEIN, 1993).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para Lacan, o acting out n\u00e3o deve de ser interpretado, mas pode ser respondido, via manejo da transfer\u00eancia. Via acting out, o sujeito coloca em jogo, desde a tenra inf\u00e2ncia, a causa do desejo, via o ato que se dirige ao Outro. Nessa perspectiva, como pensar a cl\u00ednica do ato na contemporaneidade, sobretudo na adolesc\u00eancia? Aqui, recorro \u00e0 s\u00e9rie da Netflix, adaptada do original 13 Reasons Why, t\u00edtulo original do romance de Jay Asher, cujo t\u00edtulo da edi\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 Os 13 porqu\u00eas, como paradigma ou modelo para se pensar a cl\u00ednica do ato na adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>13 Reasons Why e a cl\u00ednica do ato<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O autor Jay Asher, em 13 Reasons Why, desenvolve o tema do suic\u00eddio de uma adolescente e tenta demonstrar que a decis\u00e3o de tirar a pr\u00f3pria vida \u00e9 dela, mas destaca que as pessoas causam impacto na vida umas das outras. Na narrativa do livro Os 13 porqu\u00eas, os motivos que a levaram ao suic\u00eddio est\u00e3o gravados em fita cassete. O romance \u00e9 constru\u00eddo com duas narrativas simult\u00e2neas. Na primeira, Hannah conta suas motiva\u00e7\u00f5es para o ato suicida e, na segunda, o autor descreve imediatamente as rea\u00e7\u00f5es de Clay, personagem escolhido para ser os \u201colhos e ouvidos\u201d do leitor ao longo do romance.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Hannah escolhe, entre os colegas da escola, treze, aos quais diz: \u201cVou contar aqui a hist\u00f3ria da minha vida. Mais especificamente, por que ela chegou ao fim. E, se estiver escutando estas fitas, voc\u00ea \u00e9 um dos motivos.\u201d Hannah convoca cada colega escolhido a escutar todas as fitas. No momento das grava\u00e7\u00f5es doa \u00e1udios, talvez seja poss\u00edvel formular que h\u00e1 uma dimens\u00e3o de acting out. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 a quest\u00e3o do objeto \u2013 voz e olhar \u2013, a tentativa da articula\u00e7\u00e3o a uma cena, colocar em jogo o que n\u00e3o pode ser dito, aquilo que o simb\u00f3lico delimita como resto, o objeto a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O acting coloca em jogo a cl\u00ednica do imposs\u00edvel de dizer a cl\u00ednica do real. No momento em que Hannah grava essas fitas, a dimens\u00e3o do Outro est\u00e1 presente. Por\u00e9m, \u00e9 poss\u00edvel articular que, no momento em que cada fita \u00e9 escutada pelos colegas, algumas semanas depois do seu suic\u00eddio, a dimens\u00e3o que o envio dessas fitas provoca \u00e9 da passagem ao ato. Ou seja, cada um dos lados dessas fitas s\u00e3o tentativas de solu\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, que se inscrevem somente na perspectiva especular e criam um percurso que d\u00e1 consist\u00eancia \u00e0 erotomania mort\u00edfera, que finalizar\u00e1 no ato suicida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A s\u00e9rie Os 13 porqu\u00eas narra, desde o in\u00edcio, situa\u00e7\u00f5es habituais da adolesc\u00eancia atual, tal como o primeiro beijo da adolescente \u2013 uma experi\u00eancia que deveria ter sido maravilhosa e que, pela transmiss\u00e3o de uma imagem via WhatsApp por um colega, se torna um dos pontos que, segundo a adolescente, arruinou sua vida. Hannah revela seu sentimento de ter sido tra\u00edda e as consequ\u00eancias de boatos geradores de uma s\u00e9rie de hist\u00f3rias sobre si, entre as quais nem ela mesma sabe qual seria a mais popular. Nessa perspectiva, h\u00e1, na grava\u00e7\u00e3o das fitas, uma tentativa de desembara\u00e7ar-se da sensa\u00e7\u00e3o dolorosa que a invade, do inimigo interno inscrevendo-se no campo da passagem ao ato, enquanto, definido, a partir da no\u00e7\u00e3o de Kakon, como libera\u00e7\u00e3o do mal interior. Os relatos de Hannah evidenciam a progress\u00e3o da impossibilidade de distin\u00e7\u00e3o m\u00ednima entre o eu e o outro e a passagem ao ato e o acting out s\u00e3o tentativas, por vezes prec\u00e1rias, de solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais:<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o percorrida por Hannah ao gravar as fitas se revela \u2013 como solu\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria para a aus\u00eancia de um aparato simb\u00f3lico \u2013 para lidar com a problem\u00e1tica da castra\u00e7\u00e3o, que, aqui, se presentifica no real. Hanna grava as fitas e as destina a cada um dos colegas. A Justin e Jessica, que a magoaram; a Alex, Tyler, Courtney e Marcus, que destru\u00edram sua reputa\u00e7\u00e3o; a Zack e Bryan, que abalaram sua alegria; e a Bryce Walker, que destruiu sua alma. O percurso de grava\u00e7\u00e3o das fitas, pelo menos momentaneamente, possibilita a ela algum al\u00edvio, momento em que procura o orientador da escola e fala sobre seu sofrimento subjetivo; pede ajuda, mas n\u00e3o \u00e9 escutada. Ressalta-se, aqui, que o modelo do ato, a partir do suic\u00eddio, independe da estrutura. O ato \u00e9 sempre auto: autocastigo, autopuni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nesse sentido, torna-se poss\u00edvel formular que a adolesc\u00eancia \u00e9 marcada por algo da ordem do gozo sem sentido, da busca pela constru\u00e7\u00e3o de respostas. Por vezes, o sujeito adolescente convoca a dimens\u00e3o do olhar do Outro, momentos em que se verifica a cl\u00ednica do acting out, mas, na passagem ao ato, n\u00e3o tem um espectador, tem-se a desapari\u00e7\u00e3o da cena; o ato \u00e9 um autocastigo, uma tentativa de separa\u00e7\u00e3o do Outro. A psican\u00e1lise pode oferecer interven\u00e7\u00f5es aos adolescentes, tais quais espa\u00e7os de conversa\u00e7\u00e3o para que possam surgir solu\u00e7\u00f5es para al\u00e9m do puro ato.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>ASCHER, J. Os 13 porqu\u00eas. 1\u00aa. Ed. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 2009.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FENICHEL, O. \u201cTeoria psicanal\u00edtica das neuroses\u201d. Rio de Janeiro: Ateneu. 1945 [1981]. Citado por LOMBARDI, G. Infort\u00fanios del acto anal\u00edtico. Buenos Aires: Atuel, 1993. p. 31-38.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>GUIRAUD, P. \u201cLes meurtres immotiv\u00e9s\u201d. L\u2019Evolution Psychiatrique. 2\u00aa s\u00e9rie, mar. 1931.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>GREENACRE, P. \u201cGeneral problems of acting out\u201d. In: Psychoanalitic Quaterly, n. 19, 1950, p. 455-467.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAD\u00c9E, P. \u201cA passagem ao ato nos adolescentes\u201d. (2007). Dispon\u00edvel em: Revista eletr\u00f4nica do N\u00facleo Sephora. www.isepol.com\/assephalus\/numero 04.pdf. p. 85-91. Acesso em 29\/1\/2018.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. Da psicose paranoica em suas rela\u00e7\u00f5es com a personalidade (1932). Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, 1987.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>______. \u201cOs complexos familiares\u201d (1938). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1984. In: O semin\u00e1rio 10: a ang\u00fastia. [1962-63 (2005)]. 1962-1963. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>______. \u201cA agressividade em psican\u00e1lise\u201d (1948). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>______. \u201cO est\u00e1dio do espelho como formador da fun\u00e7\u00e3o do eu\u201d (1949). In: Ibidem.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>______. \u201cFormula\u00e7\u00f5es sobre a causalidade ps\u00edquica\u201d. (1950). In: Ibidem.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MONAKOW, C. Von, MOURGUE, R. \u201cIntroduction biologique \u00e0 la neurologie pathologique\u201d (1928). In: LACAN, J. Da psicose paran\u00f3ica em suas rela\u00e7\u00f5es com a personalidade (1932). Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria, 1987.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>RUBISTEIN, Adriana. \u201cAcerca Del coment\u00e1rio de Lacan ao art\u00edculo de Greenacre: problemas generals del acting out\u201d. In: Infort\u00fanios del acto anal\u00edtico. Buenos Aires: Atuel, 1993. p. 31-38.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>TENDLARZ, S; GOROG, F.; CHOURAQUI-SEPEL, C. \u201cNouvelles consid\u00e9rations sur les meuertres immotiv\u00e9s\u201d. Nervure, t. III, n\u00ba. 6, set. 1990.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>ANA MARIA C. S. LOPES<\/strong><\/h6>\n<h6>Psicanalista praticante, membro aderente da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 MG. E-mail:\u00a0<span id=\"cloakb2458fba84285dcedd0b583379ade0c5\"><a href=\"mailto:amcslopes@ig.com.br\">amcslopes@ig.com.br<\/a><\/span><\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ANA MARIA C. S. LOPES ANA MARIA &#8211; LOUISE-BOURGEOIS, FEMME MAISON &nbsp; Na cl\u00ednica contempor\u00e2nea, deparamo-nos com uma significativa incid\u00eancia de novos sintomas, sobretudo aqueles nos quais se verifica o privil\u00e9gio do registro do ato; da convoca\u00e7\u00e3o do corpo que, por vezes, sup\u00f5e uma precariedade do registro simb\u00f3lico, uma tentativa de apagamento da dimens\u00e3o subjetiva.&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":58061,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-991","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-almanaque-20","category-16","description-off"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/991","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=991"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/991\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58062,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/991\/revisions\/58062"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58061"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=991"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=991"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=991"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}