{"id":995,"date":"2017-07-17T06:57:40","date_gmt":"2017-07-17T09:57:40","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=995"},"modified":"2017-07-17T06:57:40","modified_gmt":"2017-07-17T09:57:40","slug":"a-radicalizacao-da-recusa-frente-a-inexistencia-da-relacao-sexual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2017\/07\/17\/a-radicalizacao-da-recusa-frente-a-inexistencia-da-relacao-sexual\/","title":{"rendered":"A Radicaliza\u00e7\u00e3o Da Recusa Frente \u00c0 Inexist\u00eancia Da Rela\u00e7\u00e3o Sexual"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>CRISTIANE DE FREITAS CUNHA VINICIUS MOREIRA LIMA<\/strong><\/h6>\n<p>Domenico Cosenza (2014) percorre a \u2018delicada transi\u00e7\u00e3o\u2019 da adolesc\u00eancia em tr\u00eas tempos l\u00f3gicos. O primeiro \u00e9 o tempo dos sonhos; sem eles, n\u00e3o se pode pensar em fazer amor (LACAN, 1974). O segundo tempo \u00e9 o do trauma; a inconsist\u00eancia dos sonhos se revela, constata-se que, sob o v\u00e9u, n\u00e3o h\u00e1 nada. No terceiro tempo, o percurso se bifurca; alguns adolescentes aceitam entrar no jogo da vida amorosa, sem garantia. O amor e a linguagem seriam sa\u00eddas elegantes que podem fazer supl\u00eancia \u00e0 inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual (LACAN, 1972-73\/1975). Outros permanecem em uma posi\u00e7\u00e3o de recusa. A posi\u00e7\u00e3o da recusa coloca em cena o objeto nada, causa de n\u00e3o desejo (COSENZA, 2017).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No laborat\u00f3rio Janela da Escuta, temos nos deparado com casos de adolescentes que se nomeiam trans ou travestis nos quais a posi\u00e7\u00e3o da recusa frente \u00e0 inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 not\u00e1vel. O corpo se revela como um territ\u00f3rio de investimento pulsional intenso, que absorve o sujeito. Demandas s\u00e3o tecidas e endere\u00e7adas \u00e0 tecnoci\u00eancia, abrangendo a administra\u00e7\u00e3o de horm\u00f4nios e interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas e, ao campo do direito, para a mudan\u00e7a do nome de registro. Temos, assim, o discurso universit\u00e1rio, na posi\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria de semblante, com o objetivo de melhorar a rela\u00e7\u00e3o entre os sexos (LACAN, 1973\/1975, p.63) ou de velar a falta da rela\u00e7\u00e3o entre eles. No discurso de alguns desses jovens, n\u00e3o h\u00e1 refer\u00eancia ao amor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um jovem trans, Ivan, procura o Janela da Escuta com a demanda de se submeter \u00e0 mastectomia. Ele nos conta que a transi\u00e7\u00e3o para uma identidade masculina foi harm\u00f4nica: come\u00e7ou a se hipertrofiar com a muscula\u00e7\u00e3o, depois come\u00e7ou a usar horm\u00f4nios masculinos. Obteve o registro do nome social, com o qual se matriculou na universidade. Os pais t\u00eam aceitado o processo. A \u00fanica \u2018desarmonia\u2019 \u00e9 no campo amoroso, ao qual ele renuncia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Do outro lado do Atl\u00e2ntico, na Fran\u00e7a, somos convidados a participar de uma pesquisa cl\u00ednica com jovens extremistas que aderiram ao Estado Isl\u00e2mico (EI). Na constru\u00e7\u00e3o dos casos, desvela-se uma outra forma de recusa. Jovens que recusam qualquer dial\u00e9tica, qualquer opacidade, qualquer equ\u00edvoco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Hana, 13 anos, encontrava-se presa em uma cidade de fronteira, na Fran\u00e7a. Hana \u00e9 neta de marroquinos e, assim como seus pais, nasceu na Fran\u00e7a. A inf\u00e2ncia \u00e9 marcada pela viol\u00eancia sexual. Desde os onze anos, apresenta anorexia. A assistente social, que foi visit\u00e1-la na pris\u00e3o, se impressionou com sua magreza, evidenciada pela retirada dos v\u00e9us e t\u00fanicas. E, sobretudo, com o olhar de Hana: \u201cela j\u00e1 est\u00e1 morta\u201d. A incorpora\u00e7\u00e3o da morte que antecede a sua anunciada e abortada explos\u00e3o de si mesma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O radicalismo isl\u00e2mico usa a tecnoci\u00eancia para se difundir, captando adeptos nas redes sociais. As redes e m\u00eddias s\u00e3o tamb\u00e9m o ve\u00edculo de difus\u00e3o do terror; as imagens captadas no momento dos atentados se imp\u00f5em, sem media\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. N\u00e3o h\u00e1 uma narrativa em torno dos atentados, uma demanda (LACHANCE, 2016). O enigma se instala do lado do Outro, assim como a ang\u00fastia. Tentativa de fazer o Outro existir?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Do lado dos extremistas, vemos a simplifica\u00e7\u00e3o do discurso isl\u00e2mico, que produz conceitos inequ\u00edvocos sobre a sexualidade e os pap\u00e9is a serem desempenhados no la\u00e7o sexual.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Relatos das convers\u00f5es na Tun\u00edsia nos mostram as prescri\u00e7\u00f5es da incorpora\u00e7\u00e3o dos textos, do treinamento corporal e da aquisi\u00e7\u00e3o de h\u00e1bitos e costumes (corte do cabelo, barba, comprimento da t\u00fanica, perfume). Diante das mulheres, o olhar deve se desviar para baixo. As mulheres s\u00e3o classificadas dicotomicamente: as mu\u00e7ulmanas s\u00e3o candidatas ao casamento, muitas vezes mediado por ag\u00eancias matrimoniais do pr\u00f3prio EI. As outras mulheres, as n\u00e3o crentes, podem ser objeto de viol\u00eancia sexual e\/ou f\u00edsica. H\u00e1 um esvaziamento do simb\u00f3lico, que permitiria o equ\u00edvoco do inconsciente, em favor de uma prolifera\u00e7\u00e3o dos signos (SELAMI e SALEM, 2016).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma nova rela\u00e7\u00e3o se instaura: entre irm\u00e3os. Oliver Roy (2016) enfatiza a inexist\u00eancia de extremistas mais velhos. De uma forma diferente da observada em grupos como o Hamas, no EI h\u00e1 uma ruptura geracional. Quando j\u00e1 havia uma evapora\u00e7\u00e3o do pai, um enfraquecimento da fun\u00e7\u00e3o paterna, delineia-se um corte, a sa\u00edda de casa, a ado\u00e7\u00e3o de ritos e refer\u00eancias alheios \u00e0 fam\u00edlia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os novos nomes trazem na raiz o Abu, o pai. Jeffrey (2016) nos lembra que o termo radicaliza\u00e7\u00e3o se refere \u00e0 raiz, \u00e0 filia\u00e7\u00e3o. Um novo pertencimento se instaura, destruindo o que havia antes. Assim, cada um porta um nome do pai, uma vers\u00e3o do pai, que d\u00e1 acesso a uma rela\u00e7\u00e3o fraternal e a uma rela\u00e7\u00e3o regulada com as mulheres.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O \u00f3dio de si pode se externalizar no \u00f3dio do Outro, com a permiss\u00e3o e a exalta\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia. \u00c9 uma cultura da puls\u00e3o de morte. Oliver Roy (2016) diz que n\u00e3o se trata de um islamismo radical, mas da radicaliza\u00e7\u00e3o do islamismo. A radicaliza\u00e7\u00e3o seria a pura recusa da opacidade do sexual.<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>COSENZA, D. Le refus dans l\u2019anorexie. Rennes: Presses Universitaires de Rennes, 2014.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>COSENZA, D. La dimensione S0 e l\u2019oggetto niente nelle psicosi ordinarie. Dispon\u00edvel em: https:\/\/congresoamp2018.com\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/PAPERS-7.7.7.-N%C2%B01-Multilingue.pdf &gt; Acesso em 21 de agosto de 2017.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>JEFFREY, D. \u201cLa radicalisation des jeunes djihadistes\u201d. In: JEFFREY, D. et al. Jeunes et djihadisme \u2013 les conversions interdites. Paris: Les Presses de l\u2019Universit\u00e9 Laval, 2016.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. Pref\u00e1cio a O despertar da primavera (1974). In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p.557-559.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1972-73\/1975). Le S\u00e9minaire, livre XX: Encore. Texte \u00e9tabli par Jacques-Alain Miller. Paris: \u00c9ditions du Seuil.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACHANCE, J. In: JEFFREY, D. et al. Jeunes et djihadisme \u2013 les conversions interdites. Clamecy: Les Presses de l\u2019Universit\u00e9 Laval, 2016.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>ROY, O. L\u2019interview: Rencontre avec Oliver Roy \u201cLa crise du monde musulman\u201d. In: Mental: Identit\u00e9s en crise. Paris: La nouvelle imprimerie laballery, 2016.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>SELAMI, M., SALEM, J. H. \u201cConversion djihadiste des jeunes en Tunisie postr\u00e9volucionaire: alterit\u00e9, corporalit\u00e9 et spatialit\u00e9\u201d. In: JEFFREY, D. et al. Jeunes et djihadisme \u2013 les conversions interdites. Paris: Les Presses de l\u2019Universit\u00e9 Laval, 2016.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><\/h6>\n<h6><strong>CRISTIANE DE FREITAS CUNHA VINICIUS MOREIRA LIMA<\/strong><\/h6>\n<h6>Membro da Escola Brasileira de Psicanalise (AMP)\u00a0<span id=\"cloakf5e07df304b13932a62071ecbded6504\"><a href=\"mailto:cristianedefreitascunha@gmail.com\">cristianedefreitascunha@gmail.com<\/a><\/span>\u00a0VINICIUS MOREIRA LIMA<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CRISTIANE DE FREITAS CUNHA VINICIUS MOREIRA LIMA Domenico Cosenza (2014) percorre a \u2018delicada transi\u00e7\u00e3o\u2019 da adolesc\u00eancia em tr\u00eas tempos l\u00f3gicos. O primeiro \u00e9 o tempo dos sonhos; sem eles, n\u00e3o se pode pensar em fazer amor (LACAN, 1974). 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