{"id":999,"date":"2017-07-17T06:57:40","date_gmt":"2017-07-17T09:57:40","guid":{"rendered":"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/new\/?p=999"},"modified":"2025-12-01T16:27:58","modified_gmt":"2025-12-01T19:27:58","slug":"a-violencia-no-jovem-sintoma-ou-nao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/index.php\/2017\/07\/17\/a-violencia-no-jovem-sintoma-ou-nao\/","title":{"rendered":"A Viol\u00eancia No Jovem: Sintoma Ou N\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"uk-margin-large-top uk-margin-remove-bottom uk-text-center uk-article-title\"><\/h1>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><strong>PHILIPPE LACAD\u00c9E<\/strong><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"dt-pswp-item\" href=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/8-ANA-ou-LACADE-Quebrar-leis.jpg\" data-dt-img-description=\"\" data-large_image_width=\"673\" data-large_image_height=\"320\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1000\" src=\"http:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/8-ANA-ou-LACADE-Quebrar-leis.jpg\" alt=\"\" width=\"673\" height=\"320\" srcset=\"https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/8-ANA-ou-LACADE-Quebrar-leis.jpg 673w, https:\/\/institutopsicanalise-mg.com.br\/revista_almanaque\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/8-ANA-ou-LACADE-Quebrar-leis-300x143.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 673px) 100vw, 673px\" \/><\/a><\/p>\n<h6><strong>ANA OU LACADE &#8211; QUEBRAR LEIS<\/strong><\/h6>\n<p>Por ocasi\u00e3o da Jornada do Instituto da Crian\u00e7a[1], Jacques-Alain Miller perguntava-se se a viol\u00eancia na crian\u00e7a era um sintoma. Pois quem diz sintoma, em psican\u00e1lise fala, em termos freudianos, de deslocamento, de substitui\u00e7\u00e3o de uma satisfa\u00e7\u00e3o pulsional, o que, em termos lacanianos, pode se traduzir como gozo. A viol\u00eancia produz-se quando, precisamente, n\u00e3o h\u00e1 esse deslocamento, essa substitui\u00e7\u00e3o? Eis a quest\u00e3o que se deve colocar: \u201cO surgimento da viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 testemunho de que n\u00e3o houve substitui\u00e7\u00e3o do gozo?\u201d, precisa J.-A. Miller.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No cap\u00edtulo II de \u201cInibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia\u201d, Freud (1926 [1925] 1980) define: \u201cUm sintoma \u00e9 um o sinal e o substituto de uma satisfa\u00e7\u00e3o pulsional que n\u00e3o ocorreu\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Recusa de gozo<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O sintoma caracteriza-se como substituto de um gozo recusado. A castra\u00e7\u00e3o \u00e9 definida por Lacan a partir de uma recusa do gozo, o que introduz uma refer\u00eancia \u00e0 iniciativa do sujeito no \u00e2mbito de uma escolha \u2013 aceita-se ou recusa-se.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Assim, a castra\u00e7\u00e3o como recusa de gozo implica o fato de que este n\u00e3o ocorrer\u00e1. Por\u00e9m, Lacan, em \u201cSubvers\u00e3o do sujeito e dial\u00e9tica do desejo\u201d (1998), introduz um racioc\u00ednio dial\u00e9tico: \u201cO gozo deve ser recusado para ser alcan\u00e7ado\u201d. Ele n\u00e3o deve ter tido lugar para advir. Trata-se do fato de que a castra\u00e7\u00e3o \u00e9 um deslocamento do gozo, de que o gozo deve ser recusado, em certo plano, para ser alcan\u00e7ado no n\u00edvel da lei. Ele deve ser recusado no real para ser alcan\u00e7ado sob a \u00e9gide do simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que Lacan chama de lei do desejo \u00e9 justamente essa recusa do gozo no real, a passagem do gozo para baixo (da barra). \u00c9 isso que repercute a met\u00e1fora paterna, que \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o, em termos ed\u00edpicos, do processo do recalque e pode ser generalizada, caso se postule que o operador essencial do recalque \u00e9 a pr\u00f3pria linguagem, a palavra, que opera essa passagem do gozo para baixo, no sentido de que bloqueia sua ocorr\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O resultado do \u2018processo do recalque\u2019, como esclarece Freud, \u00e9 precisamente o sintoma. O pre\u00e7o do recalque \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o do sintoma como signo e substituto de um gozo n\u00e3o realizado. Em outras palavras, a legaliza\u00e7\u00e3o do gozo paga-se com a forma\u00e7\u00e3o do sintoma. O ser humano, como falasser, est\u00e1 condenado a ser sintom\u00e1tico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan, em seu retorno a Freud, especifica que o advers\u00e1rio de Eros, do amor, n\u00e3o \u00e9 o \u00f3dio; \u00e9 a morte, Thanatos. \u00c9 preciso diferenciar a viol\u00eancia do \u00f3dio. O amor, como o \u00f3dio, s\u00e3o modos de express\u00e3o afetiva de Eros. O \u00f3dio est\u00e1 do lado de Eros e \u00e9, de fato, um v\u00ednculo muito forte ao outro, \u00e9 um la\u00e7o social eminente, como se viu na Jornada. Quanto \u00e0 viol\u00eancia, ela est\u00e1 do lado de Thanatos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Uma pragm\u00e1tica da abordagem da viol\u00eancia, retorno \u00e0 agressividade<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Proponho retomar o conceito de agressividade tal como Lacan o elabora em \u201cAgressividade na psican\u00e1lise\u201d (1998), de 1948, para esclarecer a viol\u00eancia a partir da agressividade, j\u00e1 que ele diferencia inten\u00e7\u00e3o agressiva de tend\u00eancia \u00e0 agress\u00e3o. Durante a delicada transi\u00e7\u00e3o da adolesc\u00eancia, a quest\u00e3o do corpo entra em jogo de maneira violenta, seja sobre o corpo do outro, seja sobre o pr\u00f3prio corpo mediante mutila\u00e7\u00f5es ou escarifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Constatei, ap\u00f3s 35 anos de pr\u00e1tica com muitos em hospital-dia para adolescentes, que a viol\u00eancia \u00e9 mais presente na cl\u00ednica hoje, frequentemente porque os jovens que recebemos foram tratados, antes, em programas de terapias cognitivo-comportamentais (TCC), em que n\u00e3o s\u00e3o acostumados a falar e dizer de seus sofrimentos, em que s\u00e3o reduzidos a objetos que devem entrar em escores terap\u00eauticos sem que seja reconhecida a rela\u00e7\u00e3o deles com a l\u00edngua e com o corpo. Encontram-se, portanto, novas modalidades de se fazer ouvir pelo Outro, que passam por fen\u00f4menos de gozo de corpos, sob o modo de viol\u00eancia verbal ou de viol\u00eancia sobre o corpo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Inten\u00e7\u00e3o agressiva e tend\u00eancia \u00e0 agress\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o agressiva, Lacan situa na vertente de uma vontade de dizer do sujeito que n\u00e3o chega a se revelar ao Outro numa dial\u00e9tica do sentido. Ela pressup\u00f5e um sujeito que se manifesta na inten\u00e7\u00e3o de um Outro. Lacan chega at\u00e9 a introduzir a no\u00e7\u00e3o de reivindica\u00e7\u00e3o como modo fundamental de se endere\u00e7ar ao Outro. A reivindica\u00e7\u00e3o \u00e9 demandar alguma coisa que se cr\u00ea merecer. Se, mais tarde, Lacan vai declarar que todo discurso \u00e9 demanda, em 1948, ele afirma que toda palavra \u00e9 agress\u00e3o. A posi\u00e7\u00e3o de neutraliza\u00e7\u00e3o da agressividade que o discurso anal\u00edtico oferece permite que a intens\u00e3o de significa\u00e7\u00e3o mascarada pela inten\u00e7\u00e3o agressiva surja. O analista n\u00e3o se apresenta como aquele contra quem se dirige a agress\u00e3o, mas enseja \u00e0 agress\u00e3o se inscrever no registro verbal. Para Lacan, a inten\u00e7\u00e3o significa que a agress\u00e3o \u00e9 decifr\u00e1vel como acting-out a ser lido como sintoma \u2013 h\u00e1, pois, uma possibilidade de interpreta\u00e7\u00e3o. Trata-se, precisamente, de encontrar um lugar de destina\u00e7\u00e3o do sofrimento inerente \u00e0 inten\u00e7\u00e3o agressiva. Seu mecanismo evidencia, antes, a nega\u00e7\u00e3o, e, portanto, o recalque est\u00e1 inclu\u00eddo, preferencialmente a uma falha da defesa. Nesse caso, n\u00e3o \u00e9 a foraclus\u00e3o que est\u00e1 em jogo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lacan passa \u201cda subjetividade da inten\u00e7\u00e3o \u00e0 no\u00e7\u00e3o de tend\u00eancia \u00e0 agress\u00e3o\u201d, isto \u00e9, faz uma transposi\u00e7\u00e3o da fenomenologia \u00e0 metapsicologia. E, assim, ele vai esclarecer n\u00e3o s\u00f3 uma cl\u00ednica de psicose mas tamb\u00e9m os acessos de viol\u00eancia dos jovens em fun\u00e7\u00e3o da tend\u00eancia \u00e0 agress\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A tend\u00eancia \u00e9, como esclarece J.-A. Miller, algo j\u00e1 objetivado, algo que se apresenta de maneira bruta, sem qualquer dial\u00e9tica de sentido, e algo sobre que a interpreta\u00e7\u00e3o permanece sem efeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na tend\u00eancia \u00e0 agress\u00e3o, o sujeito \u00e9 tomado por uma experi\u00eancia de vida em que ele n\u00e3o \u00e9 mais um efeito de sentido, mas encontra no real alguma coisa fixada no corpo que o arromba. Pode-se apreender essa tend\u00eancia destacando-se do registro da foraclus\u00e3o do sujeito, e, portanto, da passagem ao ato. Lacan desenvolve, desse modo, uma tese: o homem deve assumir seu despeda\u00e7amento original, em decorr\u00eancia do qual se pode dizer que, a cada momento, ele constitui seu mundo pelo pr\u00f3prio suic\u00eddio e do qual Freud teve a aud\u00e1cia de formular a experi\u00eancia ps\u00edquica t\u00e3o paradoxal como express\u00e3o, em termos biol\u00f3gicos, do instinto de morte \u2013 que, mais tarde, chamar\u00e1 de puls\u00e3o de morte \u2013 ou mesmo como gozo fora de sentido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A orienta\u00e7\u00e3o lacaniana em face da viol\u00eancia \u00e9, pois, essencial. N\u00e3o se deve desconhecer que h\u00e1 um despeda\u00e7amento original do sujeito, que Freud chama de Hiflosigheist, situado por Lacan principalmente na perspectiva da paranoia. Quando o sujeito se encontra sem o recurso a um discurso estabelecido e que se reatualiza no momento do despertar da primavera.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em texto de Lacan sobre a agressividade, o despeda\u00e7amento do sujeito apresentado como a forma mais essencial da subjetividade humana \u00e9 a paranoia \u2013 e essa paranoia como rela\u00e7\u00e3o ao Outro imprime a modalidade da agress\u00e3o. Pode-se compreender, em duas hist\u00f3rias, com base em dois sujeitos adolescentes, como os acessos de viol\u00eancia se desencadeiam para eles em consequ\u00eancia do fracasso no estabelecimento da defesa. Ali\u00e1s, ambos dizem muito claramente que s\u00e3o violentos para se defender, que essa \u00e9 a \u00fanica possibilidade. O operador essencial do recalque, que \u00e9 a linguagem, n\u00e3o opera, para eles, a passagem do gozo para baixo, n\u00e3o bloqueia sua ocorr\u00eancia. No caso dos dois, o gozo n\u00e3o \u00e9 recusado, nenhuma castra\u00e7\u00e3o se opera. Alexis, jovem her\u00f3i de A Virgem dos assassinos, ilustra essa tend\u00eancia \u00e0 agress\u00e3o enodada ao pr\u00f3prio corpo como \u00fanica sa\u00edda para se defender de um real pulsional que o persegue, no seio mesmo de seu corpo, e atualiza sua viol\u00eancia sobre o corpo dos outros e, tamb\u00e9m, na cidade. Definitivamente, \u00e9 o triunfo da puls\u00e3o de morte e da viol\u00eancia como ato gratuito. Para Alexis, \u00e9 o sinal da liberdade, porque desligada de qualquer causa. Os sic\u00e1rios, contudo, rendem homenagem \u00e0 Virgem, j\u00e1 que encontram, nesse ato, um ponto de apoio essencial para justificar, na falta da met\u00e1fora paterna, suas exist\u00eancias. Petit Roi, o her\u00f3i da novela Inferno, ensina como as marcas violentas dos golpes de sua m\u00e3e, na falta de um pai para se apoiar, o confrontam com uma escolha for\u00e7ada: matar ou morrer, a solu\u00e7\u00e3o de ser um ator da viol\u00eancia na cidade. Ele ilustra plenamente o mais de gozo implicado na sua viol\u00eancia, como se estivesse preso no turbilh\u00e3o de uma viol\u00eancia sem porqu\u00ea. Ele nunca teve lugar nem endere\u00e7o, devido \u00e0 aus\u00eancia de seu pai e \u00e0 viol\u00eancia de sua m\u00e3e, para situar uma poss\u00edvel raz\u00e3o para o enigma de sua exist\u00eancia. Nenhuma explica\u00e7\u00e3o prov\u00e1vel para o desejo do Outro e, por via de consequ\u00eancia, n\u00e3o pode se vincular ao Outro. Como resultado, \u00e9 a viol\u00eancia que se tornar\u00e1 sua \u00fanica resposta conceb\u00edvel em face do real que o persegue. \u00c9 poss\u00edvel que a viol\u00eancia da crian\u00e7a anuncie, exprima, uma psicose em forma\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso, ent\u00e3o, se questionar o intento da agress\u00e3o e tentar apreender se a viol\u00eancia \u00e9 uma viol\u00eancia com palavras \u2013 ou seja, se o paciente pode exp\u00f4-la em palavras, se ela \u00e9 simbolizada ou simboliz\u00e1vel. Ou se a viol\u00eancia resulta da tend\u00eancia agressiva pelo puro surgimento da puls\u00e3o de morte, por um gozo no real. Se \u00e9 um puro gozo no real, isso n\u00e3o sinaliza, necessariamente, psicose. Isso traduz, em qualquer caso, uma ruptura na trama simb\u00f3lica, de que \u00e9 preciso saber se \u00e9 pontual ou dur\u00e1vel, o que ver\u00e1 no caso de Jean. Um apelo urgente da m\u00e3e de Jean no momento em que se revela um acontecimento de viol\u00eancia Certa manh\u00e3, a m\u00e3e de Jean me telefona, \u00e0s 8h, para dizer que n\u00e3o pode mais e quer que eu a receba com urg\u00eancia, porque seu filho havia destru\u00eddo tudo em casa. Digo-lhe: \u201cMas voc\u00ea sabe que devo v\u00ea-lo \u00e0s 17h\u201d. E ela responde: \u201cSei. Ele est\u00e1 ao meu lado\u201d. E acrescenta: \u201cPor\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel. \u00c9 preciso fazer alguma coisa, e ele concorda com que eu o acompanhe\u201d. Recebo os dois. A m\u00e3e est\u00e1 com muita raiva do filho e explica-me que ele tinha quebrado tudo. Ele diz que arrebentou uma corda grossa e bateu a cabe\u00e7a contra a parede, para se acalmar. Decido n\u00e3o aceitar sem discutir a imposi\u00e7\u00e3o do significante \u2018violento\u2019 usado pela m\u00e3e e por seu filho. Isso pode ser apenas um fator secund\u00e1rio. Tento n\u00e3o ignorar que h\u00e1 uma revolta da crian\u00e7a, que pode ser s\u00e3 e se distinguir da viol\u00eancia err\u00e1tica. Pode ser que ele teve raz\u00e3o de se revoltar? \u201cTem-se raz\u00e3o de se revoltar\u201d[2]. Com Jean, nesse dia acompanhado de sua m\u00e3e, devo, ent\u00e3o, entrar no plano da investiga\u00e7\u00e3o sobre crian\u00e7as violentas proposto por J.-A. Miller. Trata-se de uma viol\u00eancia que pode ser falada e, em caso afirmativo, resta saber o que ela diz? N\u00e3o \u00e9, tamb\u00e9m, o caso de se procurarem os tra\u00e7os discretos da paranoia precoce, sem se esquecer de que o sujeito aparece, que a crian\u00e7a nasce sob a \u00e9gide da paranoia? A viol\u00eancia que fala pode ser tanto de ordem paranoica quanto de ordem hist\u00e9rica. No que concerne mais propriamente ao recalque, levando-se em conta o Freud posterior a Inibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia, deve-se, igualmente, questionar a defesa da puls\u00e3o, uma defesa que se inscreve aqu\u00e9m do n\u00edvel do recalque. \u00c9 preciso \u2018distinguir quando a viol\u00eancia resulta de um fracasso no processo do recalque ou de uma falha no estabelecimento da defesa\u2019. Evidentemente, ela \u00e9 mais facilmente alcan\u00e7ada no primeiro caso. A m\u00e3e insiste sobre a viol\u00eancia do filho e diz que esta deve ter uma causa, que ela n\u00e3o a aguenta mais, e detalha-me as circunst\u00e2ncias da situa\u00e7\u00e3o. Dou-me conta de que ao filho foi destinado, muito cedo, o lugar de violento, de quebrador.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mesmo considerando que a viol\u00eancia na crian\u00e7a talvez seja de ordem psic\u00f3tica, tento implantar-lhe um significante de autoridade, um ersatz com of\u00edcio de significante mestre, pois a m\u00e3e n\u00e3o para de afirmar que \u00e9 a \u00fanica a tomar posi\u00e7\u00e3o e que, divorciada, o marido se recusa a intervir. Digo-lhe que, se isso \u00e9 insuport\u00e1vel, ela pode chamar a pol\u00edcia, pois n\u00e3o tem de suportar tudo, que h\u00e1 limites e que a pol\u00edcia, como guardi\u00e3 da paz, tamb\u00e9m pode ser usada para tanto, que \u201c\u00e0s vezes \u00e9 preciso de um terceiro para parar\u201d. Ela perturba-se: \u201cMas meu filho n\u00e3o \u00e9 um delinquente e vim falar com um psicanalista e n\u00e3o com um comiss\u00e1rio de pol\u00edcia\u201d. Minha interven\u00e7\u00e3o visava a introduzir um significante com a fun\u00e7\u00e3o, o valor, de S1. Procuro \u2018distinguir a viol\u00eancia como surgimento de uma pot\u00eancia no real da viol\u00eancia simb\u00f3lica inerente ao significante\u2019 que se sustenta na imposi\u00e7\u00e3o de um significante mestre. Se essa imposi\u00e7\u00e3o de um significante mestre falta, Jean n\u00e3o precisa encontrar um substituto e acaba impondo viol\u00eancia a seu corpo, porque n\u00e3o \u00e9 a primeira vez.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Embora eu tenha evocado verbalmente um apelo ao guardi\u00e3o da paz, o analista n\u00e3o deve se tornar o guardi\u00e3o da realidade social. Ele tem apenas o poder de reparar, eventualmente, um defeito do simb\u00f3lico ou de reordenar a defesa. E, de qualquer forma, o efeito de seus atos ocorre apenas lateralmente. Decido, ent\u00e3o, manejar uma contraviol\u00eancia simb\u00f3lica, procedendo, antes, de forma suave, utilizando o poder da palavra, j\u00e1 que resta, de fato, saber por que Jean cometeu viol\u00eancia contra o pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Quando come\u00e7a o dom\u00ednio da viol\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\">\u201cN\u00e3o sabemos em que confins a palavra se destitui e come\u00e7a o dom\u00ednio da viol\u00eancia, em que ela reina sem ser preciso provoc\u00e1-la\u201d (LACAN, 1998, p. 375).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse dom\u00ednio da viol\u00eancia d\u00e1 testemunho de fen\u00f4menos de corpos aberrantes, como o acesso de viol\u00eancia sobre si mesmo ou sobre o outro, o que nos leva a investigar o tempo que a precedeu e em que tais fen\u00f4menos v\u00eam se inscrever. Qual \u00e9 a articula\u00e7\u00e3o significante que, por essa via, produz esses fen\u00f4menos de corpo?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cEu proporia que, quando se lida com o que chamamos, na nossa vulgata, fen\u00f4menos pr\u00f3prios de gozo, se busque sempre articul\u00e1-los em seu lugar no processo simb\u00f3lico, porque isso continua a ser a li\u00e7\u00e3o fundamental de Lacan\u201d (MILLER, 2003, p. 239).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em \u201cQuest\u00e3o preliminar\u201d, Lacan sugere uma articula\u00e7\u00e3o em dois tempos: um primeiro, no \u00e2mbito de um processo simb\u00f3lico, em que h\u00e1 uma articula\u00e7\u00e3o significante S1-S2; um segundo, quando h\u00e1 irrup\u00e7\u00e3o de um gozo. O fen\u00f4meno do corpo transborda a dimens\u00e3o simb\u00f3lica, mas inscreve-se no contexto de uma l\u00f3gica. Jamais se deve, por\u00e9m, deixar de associ\u00e1-lo ao processo simb\u00f3lico anterior. Tratando-se da crian\u00e7a violenta, n\u00e3o se pode deixar fascinar pela causa. \u2018H\u00e1 uma viol\u00eancia sem porqu\u00ea, que \u00e9, em si mesma, sua pr\u00f3pria raz\u00e3o, que \u00e9, em si mesma, gozo\u2019. Somente num segundo momento, buscar-se-\u00e1 o determinismo, a causa, o mais de gozar que \u00e9 o motivo do desejo de destruir, da ativa\u00e7\u00e3o desse desejo. H\u00e1, no caso de Jean, um \u2018defeito no processo de recalque ou, em termos ed\u00edpicos, um malogro da met\u00e1fora paterna\u2019.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito de Jean, interrogo-me, ent\u00e3o, sobre a defesa no que concerne \u00e0 puls\u00e3o, defesa que se inscreve aqu\u00e9m do n\u00edvel do recalque. \u00c9 preciso \u2018distinguir quando a viol\u00eancia resulta de um malogro no processo do recalque ou de uma falha no estabelecimento da defesa\u2019.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O processo simb\u00f3lico<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Proponho-me, em seguida, tomar dist\u00e2ncia do significante designado pelo Outro. O sujeito deve ser considerado um lugar de indetermina\u00e7\u00e3o. Pergunto-me ent\u00e3o: que escolha ele fez? Que dire\u00e7\u00e3o tomou?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Isso s\u00f3 pode ser abordado mais tarde. Resolvo, nesse momento, ser muito minucioso no levantamento dos prop\u00f3sitos da m\u00e3e no que concerne a seu \u201cdestruiu tudo\u201d, solicitando-lhe especificar o que Jean tinha destru\u00eddo e, levantando-me da minha cadeira, olho a cabe\u00e7a dele e digo-lhe: \u201cSua cabe\u00e7a, por\u00e9m, n\u00e3o tem nada. N\u00e3o vejo onde ela arrebentou\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esclare\u00e7o aos dois que, \u00e0s vezes, \u00e9 preciso prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s palavras que se emprega, porque, depois, n\u00e3o se apreende muito bem o que aconteceu. Ap\u00f3s a invoca\u00e7\u00e3o ao guardi\u00e3o da paz, empreendo um processo simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A m\u00e3e explica-me ent\u00e3o, que, na verdade, Jean quebrou o vidro de uma mesa, socando-a com o punho cerrado, e, em seguida, quebrou a porta de seu quarto com um soco. \u201cVoc\u00ea sabe que essa n\u00e3o \u00e9 a primeira vez. Na escola tamb\u00e9m, um dia, por causa de sua namorada, L\u00e9a, ao socar a porta do banheiro, com raiva, ele luxou o pulso. Logo voc\u00ea v\u00ea bem que ele \u00e9 violento com ele mesmo, que ele se bate. E estou farta de ele quebrar tudo\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jean explica-me que, de fato, n\u00e3o arrebentou a cabe\u00e7a, mas que a bateu contra a parede, para acalmar \u201cseu surto de viol\u00eancia\u201d:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u2013 Ah, bom! Voc\u00ea teve um surto de viol\u00eancia? Pode explicar como isso aconteceu?<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 Sim. A coisa sobe e a \u00fanica maneira de acalmar tudo \u00e9 a minha tend\u00eancia, s\u00e3o os punhos cerrados.<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0Explique-me isso: \u201cminha tend\u00eancia s\u00e3o os punhos cerrados\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 Come\u00e7a no baixo ventre e, depois, me toma o corpo, a garganta, fixa-se em mim e faz c\u00f3cegas nos bra\u00e7os. Meus bra\u00e7os contraem-se, como em convuls\u00f5es, e a \u00fanica maneira de se resolver, de fazer isso parar, \u00e9 socar com os punhos cerrados, para o arrancar.\u2013 Arrancar o qu\u00ea?<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 \u00c9 como alguma coisa em excesso, fixada em mim, c\u00f3cegas enormes.\u2013 Ah, bom! Por\u00e9m, \u00e0s vezes, sentir c\u00f3cegas \u00e9 agrad\u00e1vel, n\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 N\u00e3o. De fato, no caso, \u00e9 a c\u00f3lera que me faz c\u00f3cegas no corpo; s\u00e3o as observa\u00e7\u00f5es que fazem a meu respeito. Guardo-as para mim, em mim, e, depois, isso transborda do meu corpo e sai pelos punhos cerrados.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em seguida, conta-me que, sem d\u00favida, ele passa por um registro muito diferente, quando bate a cabe\u00e7a contra as paredes \u2013 trata-se, na verdade, do muro da linguagem, pois afirma, com seguran\u00e7a, ter arrebentado a cabe\u00e7a, o que n\u00e3o parece uma met\u00e1fora, mas, sim, o que ele viveu no real. Parece que esse fen\u00f4meno traduz, ent\u00e3o, o fracasso do processo de defesa, e \u00e9 por isso que tentei, ao me levantar e olhar a cabe\u00e7a de Jean, um processo de deslocamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Quando a viol\u00eancia parece ser o contr\u00e1rio de um sintoma<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A viol\u00eancia de Jean parece ser o oposto do sintoma. Ela n\u00e3o \u00e9 resultado do recalque, mas, antes, a marca de que este n\u00e3o se operou. E n\u00e3o parece ser um substituto da puls\u00e3o, mas, ao contr\u00e1rio, a satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o de morte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A crian\u00e7a violenta \u00e9 aquela que quebra e encontra prazer no simples fato de quebrar, de destruir. Ser\u00e1 preciso interrogar Jean sobre o gozo implicado nisso e sobre o que se poderia chamar de \u201co puro desejo de destrui\u00e7\u00e3o\u201d. J.-A. Miller determina: \u201cQuando se denunciam os quebradores, denuncia-se, no final das contas, o puro gozo de quebrar. N\u00e3o se denuncia a pol\u00edtica dos quebradores, denuncia-se o \u2018mais de gozar\u2019 impl\u00edcito na viol\u00eancia dos quebradores\u201d. \u00c9, pois, esse \u2018mais de gozar\u2019 que conv\u00e9m questionar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para Jean, esse n\u00e3o parece ser o caso. Ele declara que n\u00e3o tem palavras no momento da ocorr\u00eancia, portanto, n\u00e3o pode repeti-las, j\u00e1 que \u00e9 como uma puls\u00e3o, algo que cresce e se replica. Ele tenta, ent\u00e3o, um esfor\u00e7o de tradu\u00e7\u00e3o do que lhe parece aumentar esse gatilho de viol\u00eancia. \u00c9, no mais das vezes, uma recusa de sua m\u00e3e, mas ligada, sobretudo, \u00e0s palavras ditas por ela. Afirma, a prop\u00f3sito, que s\u00e3o essas que o ferem, principalmente as observa\u00e7\u00f5es dela, que se repetem em sua cabe\u00e7a e se transformam nele, como se ele pr\u00f3prio se dissesse: \u201cVoc\u00ea s\u00f3 faz merda. Ainda que trabalhe, n\u00e3o conseguir\u00e1 nada\u201d. O que o deixa col\u00e9rico \u00e9 o fato de as advert\u00eancias de sua m\u00e3e lhe tomarem o corpo, como se ele os contivesse em si mesmo, quando, como explica, \u201celas s\u00e3o dela e, de repente, me encontro com elas em mim, o que me faz perder a cabe\u00e7a\u201d. Jean n\u00e3o compreende os coment\u00e1rios dela, porque ele sabe que consegue:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>Tiro boas notas, embora seja verdade que n\u00e3o fa\u00e7o os exerc\u00edcios de revis\u00e3o, pois, para mim, \u00e9 perda de tempo. Presto aten\u00e7\u00e3o \u00e0s aulas, tenho uma mem\u00f3ria excelente e isso \u00e9 suficiente. No entanto, ela quer que eu deixe minha tela e fa\u00e7a as revis\u00f5es. E, de noite, ela toma meu celular.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E, nesse momento, pesa, cada vez mais, o fato de a m\u00e3e se recusar a aceitar L\u00e9a, a namorada dele, ou de concordar que ele saia pela cidade com ela. Al\u00e9m disso, \u00e0 noite, toma-lhe o celular, para que eles n\u00e3o se falem pelo telefone por toda a noite. \u00c9, portanto, essa recusa de sua m\u00e3e, ligada \u00e0 sua maneira de falar com ele, que o faz explodir. \u00c9, pois, essa recusa do gozo no real que ele n\u00e3o pode simbolizar. No caso de Jean, mostra-se defeituoso o pr\u00f3prio operador da linguagem \u2013 ou seja, a palavra. Ent\u00e3o, sobrev\u00e9m-lhe um gozo sem sentido e a viol\u00eancia, para tentar se liberar disso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De fato, Jean tamb\u00e9m explica muito bem que o que ele n\u00e3o suporta \u00e9 o tom de voz de sua m\u00e3e, sua maneira de lhe dirigir observa\u00e7\u00f5es. Ele sente na entona\u00e7\u00e3o dela o fato de o tratar como um c\u00e3o, que deve obedecer, e sente-se um pouco humilhado. H\u00e1 nisso um tra\u00e7o discreto de paranoia? Porque ele se sente perseguido por essa voz, que parece doutrinar seu ser. Sente-se que, quando sua m\u00e3e lhe fala, isso fala dele e, mesmo, fala nele. Como indica Lacan, em \u201cPosi\u00e7\u00e3o do inconsciente\u201d, para o sujeito, \u201cisso fala dele e \u00e9 nisso que ele se apreende\u201d (LACAN, 1998, p. 843). Em \u201cObserva\u00e7\u00e3o sobre o relat\u00f3rio de Daniel Lagache\u2026\u201d (LACAN, ibid. 653-691), h\u00e1 uma passagem muito elucidativa sobre a determina\u00e7\u00e3o do sujeito pelo discurso que o precede. Antes mesmo que ele surja, isso fala dele. Por\u00e9m, de fato, Jean ser\u00e1 mais preciso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Quando a viol\u00eancia parece fazer sintoma<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ele dir\u00e1 que sente, nessa voz, o fato de sua m\u00e3e n\u00e3o ser feliz, visto que ela declarou, um dia, aos filhos, que tinha sacrificado tudo \u2013 sua carreira, sua vida de mulher \u2013 para cri\u00e1-los sozinha. Ent\u00e3o, ele lhe fala que n\u00e3o entende por que ela n\u00e3o \u00e9 feliz; que se isso lhe \u00e9 insuport\u00e1vel, ela deveria refazer sua vida, ter um companheiro e, sobretudo, tentar de novo o curso superior, a fim de ganhar mais e parar de se queixar de sua vida diante deles:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px;\"><em>Eu queria me orgulhar dela, mas ela n\u00e3o se orgulha de si mesma, n\u00e3o se ama e isso eu n\u00e3o suporto. (\u2026) Quando ela, do seu jeito, me impede de aproveitar a vida, de sair com minha namorada, de jogar no computador, isso me encoleriza e me faz ter esses surtos de viol\u00eancia, quebrar tudo e me bater, para tentar parar o que acontece comigo (\u2026) Pois n\u00e3o tenho vontade de fazer o que ela faz: n\u00e3o aproveita a pr\u00f3pria vida e me condena a ser igual a ela. (\u2026) Amo minha m\u00e3e, mas sinto que ela n\u00e3o se ama; ent\u00e3o n\u00e3o quero ser igual a ela e, ao mesmo tempo, do mesmo modo, n\u00e3o me amo e bato para parar isso.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A viol\u00eancia de que Jean fala pode ser tanto de ordem paranoica quanto de ordem hist\u00e9rica. Com base no que ele informa, pode-se levantar a hip\u00f3tese de que, numa cl\u00ednica sob transfer\u00eancia, no ponto em que a palavra permite encontrar um lugar de endere\u00e7amento, tal viol\u00eancia \u00e9 de ordem hist\u00e9rica. Ela tem o valor de demanda de amor ou de queixa contra a falta a ser. E encontra seu lugar no registro de Eros. Nesse registro, a viol\u00eancia da crian\u00e7a \u00e9 o substituto de uma satisfa\u00e7\u00e3o n\u00e3o advinda da demanda de amor. Em tal contexto, com efeito, a viol\u00eancia \u00e9 um sintoma e \u00e9 o que permite marcar e tornar operat\u00f3ria uma cl\u00ednica anal\u00edtica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vimos que \u00e9 preciso \u2018distinguir a viol\u00eancia como surgimento de uma pot\u00eancia no real e da viol\u00eancia simb\u00f3lica inerente ao significante\u2019, que se sustenta na imposi\u00e7\u00e3o de um significante mestre: \u201cQuando essa imposi\u00e7\u00e3o do significante mestre falta, o sujeito pode se encontrar um ersatz, marcando-se a si mesmo \u2013 escarifica\u00e7\u00e3o, tatuagem, piercing, diferentes maneiras de se cortar, de se torturar, de impor viol\u00eancia contra o pr\u00f3prio corpo\u201d, como afirma J.-A. Miller (2003).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Hoje, isso est\u00e1 de tal forma generalizado, que se torna moda, \u00e9 um fen\u00f4meno de civiliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 superficial; mas eu diria que \u00e9 o sintoma da perturba\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria da ordem simb\u00f3lica herdeira da tradi\u00e7\u00e3o. Isso dito, restar\u00e1 sempre saber por que alguns sujeitos s\u00e3o mais sens\u00edveis que outros, a ponto de cometerem viol\u00eancia contra seus corpos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por isso, levar em considera\u00e7\u00e3o apenas o comportamento violento pode confirmar e produzir ainda mais viol\u00eancia, como pude verificar no final de minha pr\u00e1tica em institui\u00e7\u00e3o. E \u00e9 por isso, ainda, que importa, como prop\u00f5e J.-A. Miller, referir-se ao \u00faltimo ensino de Lacan e considerar, tamb\u00e9m, a viol\u00eancia na crian\u00e7a como um sinthoma, ou seja, imp\u00f5e-se dar lugar a \u201cuma viol\u00eancia infantil como modo de gozo, mesmo quando isso \u00e9 uma mensagem, o que significa n\u00e3o a atacar de frente\u201d (MILLER, 2003).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o a atacar de frente implica saber responder \u00e0 margem, se deslocar, propondo modalidades de respostas variadas, e saber lidar com certa agressividade necess\u00e1ria, que, como afirma Lacan no in\u00edcio de seu ensino, \u00e9 a via para se apoiar sobre uma identifica\u00e7\u00e3o ao outro como semelhante. Da\u00ed a necessidade de uma pr\u00e1tica por v\u00e1rios. N\u00e3o \u00e9, afinal, o que tentei, ao oferecer um espa\u00e7o de conversa\u00e7\u00e3o a Jean e a sua m\u00e3e, para destravar as identifica\u00e7\u00f5es muito petrificantes que, frequentemente, levam ao pior?<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<div class=\"uk-margin-medium-top\">\n<h6><\/h6>\n<h6>Refer\u00eancias<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>FREUD, Sigmund. Inibi\u00e7\u00f5es, sintomas e ansiedade (1926 [1925]). In: Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud. Ed. Standard Brasileira, Rio de Janeiro: Imago, 1980. vol. XX, p. 107-200.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. \u201cSubvers\u00e3o do sujeito e dial\u00e9tica do desejo no inconsciente freudiano\u201d. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 807-864.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. \u201cA agressividade em psican\u00e1lise\u201d. In: ______. p. 104-126.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>LACAN, Jacques. Introdu\u00e7\u00e3o ao coment\u00e1rio de Jeans Hyppolite sobre a \u201cVerneinung\u201d de Freud. In: \u00ad\u00ad______. p. 375.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>MILLER, Jacques.-Alain. Conversation sur les embrouilles du corps. Ornicar? Revue du Champ Freudien, n. 50, 2003, p. 239.<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>VALLEJO, Fernando. La Vierge des tueurs (1942) [La Virgen de los sicarios]. Paris: Belfond, 1997. Romance adaptado para o cinema pela cineasta Barbet Schroeder (2000).<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o<\/h6>\n<h6>Ana Lydia Santiago e Cristina Vidigal<\/h6>\n<h6><\/h6>\n<h6>[1] Trata-se da 4\u00aa Journ\u00e9e de l\u2019Institut Psychanalytique de l\u2019Enfant \u2013 Ap\u00f3s a inf\u00e2ncia \u2013, promovida pela Universit\u00e9 Populaire Jacques-Lacan, no Palais de Congr\u00e8s d\u2019Issy-les-Moulineaux, em Paris, em 18 de mar\u00e7o de 2017. No encerramento desse encontro, em confer\u00eancia proferida de praxe por Jacques-Alain Miller, ele propos para a pr\u00f3xima jornada, em 2019, o tema Crian\u00e7as violentas. Tal confer\u00eancia, objeto do presente artigo, est\u00e1 publicada em Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, n\u00ba 77, ago. 2017, p. 23-31.<\/h6>\n<h6>[2] Cf. MILLER, J.-A. \u201cComment se r\u00e9volter?\u201d, In: La Cause freudienne, no 75, jul. 2010, p. 212-217.<\/h6>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PHILIPPE LACAD\u00c9E &nbsp; ANA OU LACADE &#8211; QUEBRAR LEIS Por ocasi\u00e3o da Jornada do Instituto da Crian\u00e7a[1], Jacques-Alain Miller perguntava-se se a viol\u00eancia na crian\u00e7a era um sintoma. 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