EXPEDIENTE – ALMANAQUE ON-LINE 29

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PSICANÁLISE E POLÍTICA: UMA AMIZADE ESTRUTURAL[1]

GUSTAVO STIGLITZ
Psicanalista, AME da EOL/AMP
stiglitz.gustavo@gmail.com 

Resumo: O autor investiga a relação entre a psicanálise e a política e considera que Lacan tenha operado uma inversão na premissa freudiana. Se, para Freud, a política é o inconsciente, para Lacan, o inconsciente é a política. A partir daí, o autor delimita uma definição da política a partir da discussão sobre o final de análise, o que o conduz a abordar a política a partir de uma perspectiva não-toda. Por fim, se pergunta sobre qual seria a participação do psicanalista no campo político.

Palavras-chave: psicanálise; política; inconsciente, final de análise; não-todo.

Psychoanalysis and Politics: a structural friendship

Abstract: The author investigates the relationship between psychoanalysis and politics and proposes that Lacan operated an inversion of the freudian premise. If, for Freud, politics is the unconscious, for Lacan, the unconscious is politics. From there, the author delimits a definition of politics through the discussion of the end of analysis, which leads him to approach politics from a not-whole perspective. And finally, questions the participation of psychoanalyst’s in the political field.

Keywords: psychoanalysis; politics; unconscious; end of analysis; not-whole.

Imagem: Cecília Velloso Batista

 

A psicanálise, desde sua origem, esteve ligada à política.

Não é uma causalidade que tenha nascido na Viena de Freud, cosmopolita, multirracial e multirreligiosa, na qual o reinado do pai começava a se rachar e onde o social prescrevia a repressão da sexualidade.

Freud estabeleceu a relação entre psicanálise e política nos primeiros parágrafos de “Psicologia de grupo e a análise do ego”, ao afirmar que “a psicologia individual é, ao mesmo tempo, também psicologia social”, já que “Algo mais está envolvido na vida mental do indivíduo, como um modelo, um objeto, um auxiliar, um oponente” (FREUD, 1921/1996, p. 81).

Para Freud, portanto, a política é o inconsciente no sentido de que ambos respondem à mesma estrutura e causa. Lacan, por sua vez, foi imprimindo sua própria marca a essa relação até invertê-la.

Uma ideia inicial — a encontramos no Seminário 1 — é a de relacionar o final da análise com a política. Cito-o:

“Uma vez realizado o número de voltas necessárias para que os objetos do sujeito apareçam, e sua história imaginária seja completada, uma vez que os desejos sucessivos, tensionários, suspensos, angustiantes do sujeito estejam nomeados e reintegrados, nem por isso tudo está acabado. O que esteve inicialmente lá, em O e depois aqui em O’, depois de novo em O, deve ir se reportar no sistema completado dos símbolos. A saída mesma da análise o exige. Onde deve parar esse reenvio? Será que deveríamos levar a intervenção analítica até diálogos fundamentais sobre a justiça e a coragem, na grande tradição dialética? É uma questão. Não é fácil de resolver, porque, na verdade, o homem contemporâneo se tornou singularmente inábil para abordar esses grandes temas. Prefere resolver as coisas em termos de conduta, de adaptação, de moral de grupo e outras banalidades. Donde a gravidade do problema que coloca a formação humana do analista” (LACAN, 1953-54/1986, p. 229-230).

Não seria esse um convite para a participação política do analista, ou, pelo menos, sua entrada no debate?

É claro, como disse Miller, que o debate fundamental de Lacan sempre foi com a civilização, na medida em que ela elimina a vergonha com o que está em curso na globalização (MILLER, 2002).

“Nem tudo está acabado”, como diz a citação, o que faz do final de análise não um ponto de fechamento, mas sim de abertura em relação a uma lógica não-toda. Nesse sentido, a pergunta de Lacan — precedida por esse “nem tudo está acabado” — contém uma armadilha.

A grande tradição dialética é a que opõe tese e antítese para chegar a uma síntese, o que fecha a questão em jogo; enquanto a experiência analítica nos confronta hoje com uma dialética no campo social, mas mais no estilo da “dialética negativa” de Theodor Adorno (1966), que ataca a tradição libertando-a de sua natureza afirmativa e questionando qualquer totalidade.

Hoje, teria que acrescentar, deveríamos impulsionar a intervenção analítica para dialogar com algumas tantas novidades na civilização: com os defensores da tese neuro, que pretendem uma ciência natural da mente e dos fundamentos neuronais do pensamento separado da linguagem; com aqueles que defendem tomar ao pé da letra os dizeres de uma criança que, sem saber direito do que se trata, afirma que quer trocar de sexo; com os que acreditam que as neuroimagens permitem ver “o invisível do pensamento” (SANCLAY apud CASTENET, 2008, tradução nossa.).

Por fim, há um laço entre psicanálise e política — tanto a nível de micropolítica (condução de um tratamento analítico, intervenções analíticas em instituições de saúde, educação, jurídicas) como no nível da macropolítica (impacto na elaboração e regulação das leis, a difusão dos tratamentos, etc.) — que pode ser resumido na ideia de que os analistas têm uma responsabilidade no campo social, a de ler e interpretar as inconsistências dos discursos através dos quais a sociedade contemporânea se sustenta.

Assim, à pergunta de Lacan sobre se deveríamos promover a intervenção analítica seguindo a tradição dialética, podemos responder à maneira do conjunto aberto colocado pela dialética negativa, que se aproxima mais da ideia de resto — e de resto sintomático —, própria do ensino mais tardio de Lacan.

 

A inversão lacaniana

Lacan (1967) inverte a ideia freudiana das relações entre psicanálise e política no seminário “A lógica do fantasma”.

Ao contrário de Freud, que explica a política através do recurso ao inconsciente pela identificação, repressão das representações e satisfação e retorno do recalcado, Lacan enuncia: “não digo que a política é o inconsciente, digo simplesmente que o inconsciente é a política” (LACAN, 1967, tradução nossa). É a inversão da posição freudiana.

No desenvolvimento de “Intuições milanesas”, Miller (2011) ressalta que o interesse de tal afirmação é que ela levanta a questão da política como o que explicaria o inconsciente e encontra uma boa definição “infiltrada de lacanismo” na obra A democracia contra ela mesma, de Marcel Gauchet: “É nisto que consiste especificamente a política: ela é o lugar de uma fratura da verdade” (GAUCHET apud MILLER, 2011). Ou seja, a política definida como um campo estruturado em torno de uma falta, que podemos escrever com o matema lacaniano S(A/).

Para esse autor, a democracia implica um efeito depressivo devido a um consentimento com a divisão da verdade. E diz:

“Doravante sabemos que estamos destinados a encontrar o outro sob o signo de uma oposição sem violência, mas também sem retorno nem remédio. Encontrarei sempre diante de mim não um inimigo que deseja minha morte, mas um contraditor. Há qualquer coisa de metafisicamente aterrorizante nesse encontro pacificado — gosto muito dessa ligação entre terror e pacificação — a guerra se ganha, diz ele, embora essa confrontação nunca tenha terminado” (GAUCHET apud MILLER, 2011).

Novamente encontramos uma analogia com a lógica dos conjuntos abertos, como na dialética negativa de Adorno. É uma visão da política a partir de uma perspectiva que se opõe ao todo dos ideais.

 

Uma perspectiva não toda

Em “Nota italiana”, Lacan afirma que o analista surge do não todo. Há também um confronto que nunca termina: aquele que se dá frente ao real do psicanalista. O que é um psicanalista? É a pergunta que condensa a fratura da verdade no campo da psicanálise, de onde emerge seu próprio real.

Há uma espécie de “amizade estrutural” entre a posição do analista e a política, não necessariamente a dos políticos.

Pela via da orientação lacaniana e com as perspectivas de Adorno sobre a dialética e de Gauchet sobre a política, podemos sustentar que, assim como a transferência analítica coloca em ato a realidade sexual do inconsciente — ou seja, a inexistência da relação sexual —, a política coloca em ato a inexistência do Outro.

A perspectiva não-toda, na psicanálise e na política, justifica e orienta a questão da incidência política da psicanálise.

 

O corpo político

“Lacan fala em algum lugar de uma participação política onde o psicanalista teria o seu lugar se fosse capaz disso. Vamos tomar como um desafio e ver se podemos enfrentá-lo”, disse Miller em 1997.

Esse desafio, ao qual nos convidou formalmente em 2017, na conferência de Madrid, com a criação da rede Zadig, tem seu fundamento no fato de que o não todo — aquele com que se depara ao final de análise — se conecta com a política entendida como a arte de lidar com o Outro que não existe (VICENS, 2018) e com os outros que, sim, existem.

É um desafio porque “o discurso político, o discurso do mestre, faz da identificação a chave de uma captura” (LAURENT, 2018), enquanto, no nível do corpo, temos que “Um corpo é o lugar que experimenta afetos e paixões, tanto o corpo político como individual. Paixões políticas novas surgem como acontecimentos de corpos políticos novos, e logo se transformam” (LAURENT, 2018).

Sobre o que aprendemos com os movimentos sociais no Brasil em 2013, Éric Laurent afirma que, nas mobilizações contemporâneas, se trata de

“[…] dois tempos da fantasia, que indicam perfeitamente um modo de laço social que não passa pela identificação de um traço comum, mas que, no entanto, funciona no registro de um corpo político produzido na qualidade de existência lógica, atravessado pelas paixões fantasísticas” (LAURENT, 2018).

O primeiro tempo do fantasma é do sujeito sem lugar, fading; o segundo é o “surgimento da articulação do sujeito com o gozo” (LAURENT, 2018).

A estrutura do Witz pode nos auxiliar a articular o corpo próprio com o corpo político. O Witz é um processo social em que a satisfação ressoa nos corpos ao mesmo tempo que produz, em cada um, uma satisfação singular no momento de rir (MILLER, 2011).

 

O destino é a política

O inconsciente é a política é um ponto de chegada que abre uma série de questões, dentre as quais destacamos a potência para a incidência política da psicanálise. Potência, que devemos dizer, não se efetiva como gostaríamos, questão que, no momento, deixaremos na nossa conta, como devedores.

É um ponto de chegada que tem como ponto de partida a ideia de que o sujeito do inconsciente é transindividual, como Lacan coloca em “Função e campo da palavra e da linguagem em psicanálise” e está demonstrado pela estrutura do Witz. Também é ponto de chegada a partir de “A anatomia é o destino”, de Freud (1924), que parafraseia “O destino é a política”, de Napoleão.

Se substituirmos a anatomia pelo corpo que fala, no lugar do destino teremos a palavra que condiciona o gozo, que, por sua vez, pela ausência da relação sexual, condiciona seu destino a ser social, político.

O destino do ser que fala é a política, devido à ausência de relação sexual.

E então?

Uma vez articulados inconsciente e política, qual seria a participação política da psicanálise?

“Talvez um efeito de despertar. Um despertar em relação ao que é, em última análise, sobre os ideais sociais” (MILLER, 1997, tradução nossa.), mesmo que isso seja… “pouca coisa”. Mas não importa quão pouco seja, não é pouco, por exemplo, demonstrar e transmitir a ideia do epistemólogo Georges Canguilhem de que a saúde é eminentemente social. Isso quer dizer que depende do discurso dominante, ou seja, para nós, os discursos da tecnociência e do capitalismo.

Não é pouca coisa apontar que as investigações no campo da saúde não começam por evidências, mas por decisões de mercado. E se há um tema em que a participação da psicanálise é necessária e urgente — inclusive para sua própria sobrevivência —, é o discurso avaliativo, e seu “grito estatístico”, que tem uma longa história.

Nosso adversário constante é a sociedade preditiva, na qual o desejo, o risco e o amor se desfazem frente à fascinação do regime do todo.

Não se trata de eliminá-lo, já que isso poderia nos eliminar, mas de mantê-lo assim, como adversário, porque, paradoxalmente, torna-se, desse modo, um fiador do não todo que pretende eliminar.

 

Tradução: Bernardo Micherif
Revisão: Cecília Batista 

Referências
ADORNO, T. Dialética negativa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.
FREUD, S. “A dissolução do complexo de édipo”. In: obras completas de Sigmund Freud: o ego e o id, uma neurose demoníaca do séc. XVII e outros trabalhos. 1923-1925. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, S. “Psicologia de grupo e análise do ego”. In: Obras completas de Sigmund Freud: Além do princípio do prazer, psicologia de grupo e outros trabalhos. 1925-1926. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
LACAN, J. (1953-54) O seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed., 1986.
LACAN, J. (1966-1967) Seminario, libro 14: la lógica del fantasma.. Inédito.
LAURENT, É. “O traumatismo do final da política das identidades”. Opção Lacaniana online, ano 9, nº 25, mar.–jul. 2018. Disponível em: http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_25/O_traumatismo_do_final_da_politica_das_identidades.pdf
MILLER, J.-A. “Intuições Milanesas”. Opção Lacaniana online, ano 2, nº 5, jul. 2011. Disponível em: http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_5/Intuições_milanesas.pdf
MILLER, J.-A. (1997). “El psicoanálisis, la ciudad, las comunidades”. Revista lacaniana de psicoanálisis, nº 22, Buenos Aires, EOL- Grama, 2017.
MILLER, J.-A. (2002). “El desengaño del psicoanálisis”. Revista lacaniana de psicoanálisis, nº 29, Buenos Aires, EOL- Grama, 2021.
VICENS, A. No todo es política en la orientación lacaniana. Barcelona: Gredos, 2019.

[1] Texto originalmente publicado em Lacan hispano. Olivos: Grama Ediciones, 2021.



MOMENTOS DE VIRADA NO ENSINO DE JACQUES LACAN:  DO INCONSCIENTE TRANSFERENCIAL  AO INCONSCIENTE REAL 

PAULO DE SOUZA NOVAIS
Psicólogo
Aluno do  Curso de Psicanálise do IPSM-MG
paulovidanovais@hotmail.com

Resumo: Este artigo busca apresentar um percurso relativo às elaborações sobre o conceito de inconsciente, partindo do momento em que o interesse de Lacan estava voltado para a relação transferencial com o analista e para suas interpretações decorrentes dos conflitos edipianos e do Nome-do-Pai, até chegar às últimas teorizações de que o falasser e o gozo do Um surgem na pena do psicanalista. O testemunho de passe de Alejandro Reinoso será tomado como bússola para ilustrar essas conceituações.

Palavras-chave: inconsciente transferencial; inconsciente real; simbólico; real; gozo.

Abstract: This article presents a discussion about the elaborations on the concept of the unconscious, starting from the moment in which Lacan’s interest was focused in the transference relationship with the analyst and his interpretations arising from Oedipal conflicts and the Name-of-the-Father, to his last theorizations, in which there are the notions of the speaking being (parlêtre) and jouissance of the One. The pass testimony of Alejandro Reinoso will be used as a compass to illustrate these concepts.

Keywords: transferential unconscious; real unconscious; symbolic; real; enjoyment.

 

Imagem: Fred Bandeira….

 

“Uma escrita é, portanto, um fazer”
Jacques Lacan

Em seu texto “Conferência de Genebra sobre o sintoma”, Lacan (1975, p. 6) nos diz que “A contribuição de Freud foi a seguinte: não há necessidade de saber que se sabe para gozar de um saber”. Proponho, a partir dessa constatação do psicanalista francês, apresentar as elaborações sobre o conceito de inconsciente nas quais o interesse estava voltado para a relação transferencial com o analista e para suas interpretações, decorrentes dos conflitos edipianos e do Nome-do-Pai, até as últimas teorizações, em que o falasser e o gozo do Um surgem na pena de Lacan. Busca-se, portanto, uma pesquisa sobre os momentos de virada no seu ensino que demonstram a passagem do inconsciente transferencial ao inconsciente real.

Para ilustrar essas conceituações presentes do início às últimas elaborações do ensino de Lacan, vou me utilizar do testemunho de passe de Alejandro Reinoso (2020a; 2020b). Considero que não é o objetivo aqui fazer uma resenha ou comentário do seu trabalho analítico, mas uma tentativa de tornar possível, através de seu percurso e desfecho, uma melhor compreensão do tema abordado.

O relato é que a sua escolha por aquele analista especificamente se deu pelo fato de este falar a língua de seu avô materno, o italiano, e pela seriedade no trabalho. Há um significante-mestre importante: seriedade, decorrente da característica marcante presente nesse avô e, num menor grau, também no pai. Outro aspecto do analista era vivenciado no processo de análise, provocando no analisante uma certa inquietação, nas palavras do próprio: “seu sorriso e suas risadinhas sem sentido. Eram uma careta do real que me perturbava” (REINOSO, 2020a, p.110). O que se pode inferir, a partir dessa experiência ímpar, sobre essa pesquisa do inconsciente transferencial e do inconsciente real? Por que os sintomas que tanto afligiam o analisante eram fontes de perturbação diante do sem sentido dessas risadinhas por parte de seu analista? Veremos, posteriormente, portanto, uma analogia entre esses tais sintomas e uma indignação de si próprio vivenciada por Alejandro: “Era preciso, então, pensar bem antes de falar, apenas olhar e escutar o sofrimento dos outros; escutar demais, ocultando-se sem aparecer e com um desejo constante de fuga” (REINOSO, 2020a, p. 109).

 

Inconsciente transferencial

A interpretação do sentido do sintoma relatado por um sujeito diz respeito ao modo como a rede de significantes foi transmitida a ele. Ali, na cadeia simbólica, estão contidas as vivências infantis; o modo como a criança foi desejada, como recebeu os cuidados destinados à sua sobrevivência quando ainda era muito pequena. Toda a constituição das identificações com seus genitores, bem como com os adultos responsáveis pela sua educação e socialização, tem início nesse compartilhamento dos ideais paternos, nesses sintomas e segredos familiares. Enfim, ocorre aí uma espécie de construção do Outro do sujeito. No testemunho de passe que estamos tomando como ilustração, cabe aqui uma frase dita pelo avô do sujeito com um certo grau de severidade e que vai ter um valor e um peso de uma injunção durante a vida: “Você não sabe o que é fome” (REINOSO, 2020a, p. 109). O menino havia chegado em casa da escola gritando que estava com fome. Ainda em relação a essas vivências primárias, Lacan (1964) ensina, em O Semináriolivro 11: os quatro conceitos da psicanálise, que o sujeito passa pelas operações de alienação e separação. Ou seja, a alienação seria essa própria identificação a um significante-mestre vindo do Outro, o que já representa a divisão do sujeito em decorrência do recalque também presente nesse momento. Já na operação de separação, aparece em cena o objeto perdido, o objeto a. Jacques-Alain Miller (2012) explica, em seu brilhante trabalho “Os seis paradigmas do gozo”: “da mesma maneira que o sujeito vale como uma falta-a-ser, supõe-se que a pulsão seja definida como incluindo uma hiância ou uma pequena cavidade” (p. 19). Ou seja, a linguagem vem como uma estrutura que, em si própria, já comporta a castração.

Freud denomina realidade psíquica ou fantasia esse processo de absorção das influências da realidade externa sobre o sujeito e a consequente subjetivação de tais intervenções que vêm do Outro. A demanda que aparece ao analista quando alguém procura a análise está relacionada, portanto, a essas significações primeiras, e que permaneceram no psiquismo. Algo aí provoca uma espécie de obstáculo, dificuldades na vida cotidiana que se traduzem em uma não fluidez nas diversas modalidades de relação, tais como afetivas, amorosas, profissionais e também que dizem respeito à insatisfação ou a algum desconhecimento ou enigma no que tange ao próprio corpo. Miller, no texto acima citado, elucida o primeiro ensino de Lacan demonstrando que, para o psicanalista francês, “o narcisismo envelopa as formas do desejo” (MILLER, 2012, p. 5), o que é nomeado pelo autor, em sua doutrina do gozo, como “imaginarização do gozo”, e vemos, em seguida, no percurso desse ensino, que a pulsão foi reduzida a uma cadeia significante, o que caracteriza a significantização do gozo.

Seja pelo imaginário, seja pelo simbólico, o que prevalece na relação transferencial é o sentido atribuído ao modo de lidar com os fatos, com as pessoas e com as complicações e dificuldades decorrentes daí. Trata-se de um investimento libidinal naqueles significantes-mestres que estavam presentes desde o início. Podemos dizer, com Lacan, que aí se encontra o sentido gozado. E, na “Conferência em Genebra sobre o sintoma”, Lacan (1975) é bem claro: “como sustentar uma hipótese como a do inconsciente — se não se vê que é a maneira que teve o sujeito, se é que há algum outro sujeito senão aquele que é dividido, de estar impregnado, poderíamos dizer, pela linguagem?” (p. 6). Já em O Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise, o psicanalista afirma que o saber é um meio de gozo, ou seja, ao mesmo tempo em que há falta nesse saber, há mais-gozar (LACAN, 1969-70).

 

Inconsciente real

O nome de O Seminário, livro 24, de Jacques Lacan, é L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre. Em alemão, Unbewusste quer dizer inconsciente, o inconsciente tal como foi ensinado por Freud. O autor traduziu por une-bévue, tradução essa que tem o mesmo som, pela homofonia. Daí pode-se concluir que une-bévue, um-equívoco, um-lapso, um-engano vem como sendo a base do conceito de inconsciente. Em outra referência importante de Lacan, o “Prefácio à edição inglesa do Seminário 11”, ele aponta: “Quando o esp de um laps — ou seja, visto que só escrevo em francês, o espaço de um lapso — já não tem nenhum impacto de sentido (ou de interpretação), só então temos certeza de estar no inconsciente. O que se sabe, consigo” (LACAN, 1976, p. 567). Esse momento do ensino vem nos demonstrar que houve esse giro na clínica lacaniana. Ou seja, o que prevalecia antes desse momento era o sentido gozado, um gozo atrelado ao significante, havendo até mesmo uma relação primitiva entre o significante e o gozo. Uma entropia ou um desperdício de gozo natural na linguagem era então o gatilho para uma exigência de um mais-de-gozar. Essa busca de gozo no objeto se expande até mesmo para os objetos da cultura, preferencialmente os gadgets, aqueles produtos e aparelhos tecnológicos lançados a todo momento no mercado, seguindo as diretrizes do discurso capitalista e ofertados para o consumo desenfreado.

O que então vem representar essa radical mudança no percurso teórico e clínico da psicanálise lacaniana? Que elemento comportaria e influenciaria a diferença nos modos de intervenção do analista nesse derradeiro ensino? A resposta é o corpo, um corpo separado do Outro. Um-corpo.

“No lugar do Outro, o corpo. Não o corpo do Outro, e sim o corpo próprio […]. E esse Um-Corpo […] é a única consistência do falasser. Eis que, com uma frase, ele reduz todos os reflexos oscilantes desse depósito que é o Outro maiúsculo. O Um-corpo como a única consistência” (MILLER, 2009, p. 110-111).

O significante incidindo no corpo vivo adquire um valor de trauma, pois ele é, primeiro, causa de gozo. É o acontecimento de corpo. Constata-se, então, que o falo já não é suficiente para evitar a não-relação sexual para o falasser. Miller (2010) fala da extimidade para marcar o que esse resto de Coisa tem de heterogêneo em relação ao Outro e, contudo, ao mesmo tempo, de localizável a partir do Outro.

O que Freud (1920) traz em Além do princípio de prazer, bem como nos seus conceitos de supereu e masoquismo, dá a pista para uma ampliação e contemporaneização da noção de sintoma, e, com o inconsciente real, isso se consolida. Não mais a falta no Outro, mas, no lugar do Outro, um furo. O furo remete à exclusão do sentido. A linguagem vem como elucubração de saber sobre lalíngua, dando ao sintoma a característica de ser feito da “reiteração inextinguível do mesmo Um” (MILLER, 2015, p. 21).

No inconsciente transferencial, o que vigora na relação com o analista é a interpretação, a decifração. Enquanto, no inconsciente real, o que há é uma operação de redução do sintoma, um fazer-uso. Savoir-y-faire. Saber-fazer-ali-com o sintoma. Alejandro Reinoso diz em seu testemunho: “Fazer-se sério para obter uma precária dignidade de vida, desprovida de vivacidade e vigor” (REINOSO, 2020a, p. 110). Relata o sonho em que comia, com gosto, o arroz cantonês, il riso a Lacan-tonese, o-riso-à-la-Lacan, como interpreta o analista. “Efeito imediato: ri às gargalhadas, vibrando com todo o corpo; o analista também riu. O que era esse riso-a-la-Lacan?” (REINOSO, 2020b, p. 45). Efeito: um reencontro com o riso que antes aterrorizava, que representava um ódio ao próprio gozo.

Em outro sonho, imediatamente antes da demanda do passe, aparece um livro. No centro do livro estava a palavra francesa Ouïr, em maiúsculas. Oui, Ouïr, Huir. Sim-ouvir-fugir. Letra que nomeia o sintoma e que não remete a nenhum sentido. É um saber-fazer com a fuga e com o ouvir. Um amor ao sinthoma.

 


REFERÊNCIAS
FREUD, S. (1920). Além do princípio de prazer. Belo Horizonte: Autêntica, 2020.
LACAN, J. (1964). O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
LACAN, J. (1969-70). O Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.
LACAN, J. “Conferência em Genebra sobre o sintoma” (1975). Opção lacaniana. São Paulo: Eólia, n. 23, 1998, p. 6-16.
LACAN, J. “Prefácio à edição inglesa do Seminário 11” (1976). In: _____. Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 567-569.
MILLER, J.-A. Perspectivas do Seminário 23 de Lacan. O sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.
MILLER, J.-A. Extimidad. Buenos Aires: Paidós, 2010.
MILLER, J.-A. “Os seis paradigmas do gozo”. Opção lacaniana online. n. 7, 2012, p.1-59. Disponível em http://opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_7/Os_seis_paradigmas_do_gozo.pdf Acesso em: 21 set. 2021.
MILLER, J.-A. “Ler um sintoma”. Opção lacaniana. São Paulo: Eólia, n. 70, 2015, p. 13-22.
REINOSO, A. “Da indignação de si à dignidade do sinthoma”. Opção lacaniana. São Paulo: Eólia, n. 82, 2020a, p. 109-112.
REINOSO, A. “Um despertar poético para o riso”. Papers+Um: Freud-a-la-Lacan, 2020b, p. 45-46. Disponível em https://congresoamp2020.com/pt/el-tema/papers/01_papers_trad.pdf. Acesso em: 22 set. 2021.



INTERPRETAR O “MATERIAL HUMANO”[1]  

VÉRONIQUE VORUZ
Psicanalista, AE da NLS e da ECF /AMP
verovoruz@me.com

Resumo:  A autora correlaciona o estatuto do falasser, reduzido a material humano, e a interpretação analítica, na medida em que, alienado ao imperativo capitalista de consumo, o sujeito se deixa desabonar de sua honra. A autora sublinha que é sobre isso que a interpretação deve intervir, a fim de lhe restituir sua dignidade de sujeito barrado.

Palavras-chave: material humano; interpretação; vergonha; dignidade.

Interpret the human material

Abstract: The author makes a connection between the parlêtre reduced to human material, and analytical interpretation. Trapped in the capitalist condition of unbridled consumption, the subject allows to be discredited of its honor, and this is where the analyst intervenes in order to restore the subject to its dignity as a barred subject.

Keywords: human material; interpretation; honor; dignity..

Keywords: human material; interpretation; honor; dignity.

Imagem: Cecília Velloso Batista

 

Meu título, interpretar o “material humano”, resume, a meu ver, a alternativa que Lacan oferece a “revolução”, no Seminário XVII, “O avesso da psicanálise”, desde que se dê à palavra “interpretar” o sentido de intervenções, e não o sentido de dizer aquilo que significa o que o falante ou escritor diz. A expressão “material humano” é apontada por Lacan na aula II desse seminário nos seguintes termos:

“O sinal da verdade está agora em outro lugar. Ele deve ser produzido pelos que substituem o antigo escravo, isto é, pelos que são eles próprios produtos, como se diz, consumíveis tanto quanto os outros. Sociedade de consumo, dizem por aí. Material humano, como se enunciou um tempo — sob os aplausos de alguns que ali viram ternura” (LACAN,1969-1970/1992, p. 30).

Sem dúvida, o termo se refere a uma certa leitura[2] do século XX, um século confrontado com a questão da gestão das populações, dos seres vivos, numa escala sem precedentes. É isso que dará origem, a partir do final do século XIX, às práticas que Foucault reunirá sob o nome de “biopoder” ao final de seu curso de 1976, “É preciso defender a sociedade”. Lembremos que esse é um curso que termina com uma análise crítica dos racismos de estado no coração dos totalitarismos do século XX.

Quanto à metaforização do termo “interpretação” pelo de “intervenção”, é Lacan quem a opera na mesma página, quando se prepara para formalizar na lógica as “intervenções do analista” e, certamente, não é por acaso que, na página 30, ele oporá o nome de Lacan ao de Paul Ricœur, filósofo da hermenêutica. Tanto para o título, que encontrará múltiplas ressonâncias ao longo deste texto — e sobre o qual concluirei com referência ao último capítulo do mesmo seminário, “O poder dos impossíveis” — quanto para o novo significante que Lacan introduz ali, o da vergonha, a vergonha de viver uma vida reduzida ao primum vivere, que a sociedade de consumo oferece como único “ideal”.

 

Uma descontinuidade epistêmica

Ao reler “O avesso da psicanálise” no último verão, depois de um ano fazendo um seminário sobre “Radiofonia”, eu disse a mim mesma que se tratava realmente de um seminário sobre a interpretação. De fato, mesmo que, para Lacan, a interpretação nunca tivesse consistido em postular uma linguagem-objeto (aquela do analisante) que pudesse ser traduzida por meio de uma chave de decodificação — a lecton[3] dos estoicos, de quem ele faz pouco caso em “Radiofonia” — ou de uma metalinguagem, por acréscimo de significação, o Seminário XVII introduz uma descontinuidade epistêmica. É a partir desse Seminário que a ênfase será realmente colocada por Lacan, de um lado, no tratamento do gozo e, de outro, na estrutura como distinta do sentido.

É, aliás, nesse ponto que, em “Radiofonia”, Lacan se distanciará de Lévi-Strauss e da corrente estruturalista, para a qual o sentido é efeito do conjunto da rede significante e que desconhece a incidência do objeto a. Os pontos de apoio de Lacan passarão então a ser Malinowski e Marx, dois autores que têm um lugar conceitual; o primeiro, com relação ao búzio, uma concha que só tem valor de troca para os Argonautas do Pacífico, o outro, para a chamada mais-valia “foracluída do discurso capitalista” (LACAN, 1970/2003, p. 423). Esses dois autores abrem, assim, o campo da economia do gozo, e o que interessará a Lacan a partir de agora será intervir na economia do gozo.

Recordemos que o Seminário XVI: “de um Outro ao outro” foi aberto sob a égide desta frase: “a essência da teoria psicanalítica é um discurso sem fala” (LACAN, 1968-69/2008, p. 11). Dizer que a essência da teoria psicanalítica é um discurso sem fala é dizer adeus à verdade que, supostamente, se revela pela palavra através das formações do inconsciente e reorientar a teoria analítica no discurso como estrutura, máquina ou matriz, tendo um produto (encontra-se aí, portanto, o termo usado por Lacan na citação inicial, os seres humanos sendo “produtos consumíveis como quaisquer outros”).

Aqui está o terreno pronto para se ouvir a intervenção radical que Lacan propõe ao seu público em “O avesso da psicanálise”: interpretar não é dizer o que alguém ou alguma coisa quer dizer — esta é a degradação aflitiva a que as práticas psicoterapêuticas submeteram a invenção freudiana e que se encontra a cada passo da vida contemporânea — nem mesmo substituir uma verdade por uma outra, um princípio alternativo de inteligibilidade que permite outra leitura que não aquela anteriormente hegemônica (pensemos, por exemplo, nas interpretações mais conhecidas de Foucault: as prisões não são uma humanização de castigo, mas uma disciplinarização dos corpos; as proibições sexuais não são uma censura, mas uma incitação a falar de sexo, etc.). A partir de então, interpretar visará, sobretudo, a extrair o ser falante do registro da verdade: “é tentador sugar o leite da verdade, mas é tóxico” (LACAN, 1969–70/1992, p. 175): intervir, portanto.

 

Cartografia da intervenção

A partir dos elementos trazidos a título de introdução, várias modalidades de intervenção se articulam, se desdobram, se ampliam no seminário, bem como no texto “Radiofonia”, que Lacan escreveu durante aquele ano de seu ensino em resposta a diversas questões, muito informadas pelo Lacan dos Escritos, de um jornalista da RTB, Robert Georgin. Vou, portanto, desenvolver uma série de pontos, que apresento aqui brevemente, antes de entrar em mais detalhes:

  1. Ato analítico

Em primeiro lugar, gostaria de fazer a ligação entre o ato analítico tal como Lacan o havia elaborado em “O ato analítico”, “A lógica da fantasia” e a “Proposição de 67”, e o ato analítico tal como ele especifica no Seminário XVII.

  1. Interpretação-deslocamento

deslocamento é destacado por Lacan em oposição à dialética, movimento da negatividade da linguagem formalizado por Hegel visando à realização do real por sua incorporação dialética ao pensamento (Aufhebung). A dialética pertence ao registro da verdade, ou mesmo em seu horizonte, ao da coincidência entre saber e verdade, enquanto o deslocamento é a maneira que Lacan escolhe, a partir do Seminário XVI, para operar com a linguagem a fim de produzir um efeito de interpretação que não esteja no registro da verdade.

  1. Interpretação e semi-dizer

No início do Seminário XVII, Lacan situa a modalidade de intervenção do analista como o agente do discurso analítico no registro do semi-dizer. Ele dá dois exemplos: a citação e o enigma, duas técnicas que se baseiam na dissociação entre enunciação e enunciado e que têm a vantagem de colocar o analisante numa posição de implicação subjetiva.

  1. Da metáfora e da metonímia como operações sobre o gozo

Em “Radiofonia” Lacan desloca o sentido dado a esses termos da linguística para torná-los operações, não mais sobre o sentido, mas sobre o gozo:

“É que não metaforizo a metáfora nem metonimizo a metonímia para dizer que elas equivalem à condensação e à transposição no inconsciente. Mas desloco-me com o deslocamento do real no simbólico, e me condenso para dar peso a meus símbolos no real, corno convém para seguir o inconsciente em sua pista” (LACAN, 1970/2003, p. 418).

Observamos aqui a falta de referência ao imaginário na formulação de Lacan: trata-se de operações sobre a estrutura.

  1. seixo na poça[4] na vergonha de viver

O último capítulo do Seminário XVII propõe uma nova modalidade de interpretação: a interpretação pela introdução de um significante novo; não o lecton que permite grampear significante e significado segundo os usos em vigor, ou seja, o ponto de basta entendido sem a determinação que Lacan lhe pretendia dar, mas um significante que, como o medo em Athalie, desenvolvido no Seminário III, é “seixo na poça” que perturba o senso comum.

 

O ato analítico no Avesso

Nos seminários que precederam a “Proposição”, o ato analítico era tratado ao nível da passagem a analista, passagem que deveria ser demonstrada no dispositivo do passe. Na aula II de “O avesso da psicanálise”, após sua referência ao material humano, Lacan passa, imediatamente, a dizer que o que nos concerne agora é “interrogar do que se trata no ato psicanalítico” (LACAN, 1969-1970/1992, p. 30). Há uma ligação, portanto, entre o estatuto dos seres falantes reduzidos ao estatuto de material humano e o ato analítico: o analista deve intervir sobre esse material humano, restituir-lhe sua dignidade de sujeito barrado, desagregá-lo da lógica de massa na qual está preso, governado pela burocracia que Éric Laurent chama, com Hegel, de “nova clericatura dos funcionários do universal”[5] (LAURENT, 2003, tradução nossa).

A referência implícita de Lacan nesse capítulo é Alexandre Kojève, para quem “é a extensão da forma ‘burocracia’ que é o elemento essencial da civilização” (LAURENT, 2003, tradução nossa) no pós-guerra. É o que Lacan vai traduzir em termos da passagem do discurso do mestre para o discurso universitário, ou seja, o advento do saber no lugar de agente para fins de gestão do material humano. Reconhecemos aqui também o que Foucault denominou biopolítica em seus cursos no Collège de France na década de 1970, isto é, o governo da espécie humana apreendida pelo viés de suas características biológicas, e não mais como indivíduos especificados, senão pelas categorias que os ordenam. Esse governo se dá pelo viés de um saber estatístico e de cálculos de probabilidade respaldados pela norma. De fato, se o indivíduo é ingovernável, as massas não o são: a imprevisibilidade do comportamento de um determinado humano se desvanece diante da previsibilidade estatística dos comportamentos de massa (por exemplo, não sabemos qual indivíduo vai se divorciar, mas sabemos que um em cada dois casamentos resulta em divórcio).

Eis aqui, portanto, o contexto no qual Lacan visa intervir, e não interpretar, fazendo uma análise crítica de seus recursos ou desvelando a verdade de opressão ou de relações de dominação, como os marxistas faziam sem grande efeito. É por isso que, em “Radiofonia”, Lacan ironizará o termo revolução, útil ou fútil, que é sem efeito sobre a estrutura, ao contrário das rotações de discurso identificadas por Lacan e às quais acrescenta a rotação realizada pelo discurso analítico.

É, portanto, com essa finalidade de operar sobre a estrutura (cf. resposta à pergunta IV de “Radiofonia”) que vem à tona uma nova acepção do ato analítico. Cito Lacan em “O avesso da psicanálise”:

“Não vou considerá-lo no nível onde eu esperara, há dois anos, poder fechar o circuito — que ficou interrompido — do ato em que se fundamenta[6], em que se institui como tal o psicanalista. Vou considerá-lo no nível das intervenções do analista, uma vez instituída a experiência em seus limites precisos” (LACAN, 1969-70/1992, p. 30).

O primeiro ato do analista é, portanto, “instituir a experiência em seus limites precisos”, antes mesmo de poder intervir. Aqui encontramos uma bela metáfora de Lacan sobre o S2, saber que não se sabe, em relação com a necessidade que o analista institui a experiência:

“Esse ventre é aquele que dá, como um cavalo de Tróia monstruoso, as bases para a fantasia de um saber-totalidade. É claro, porém, que sua função implica que de fora venha alguma coisa bater à porta, sem o que jamais sairá nada dali. E Tróia jamais será tomada” (LACAN, 1969-70/ 1992, p. 31).

Com essa metáfora imaginada, Lacan introduz o agente-analista do discurso analítico. Seu primeiro ato, sua primeira intervenção, é, portanto, vir “bater à porta”. Em que isso consiste? Nesse capítulo, Lacan se inspira na filosofia, no qual ele acabara de dizer que ela fez com que o Discurso do Mestre fosse permutado no Discurso da Universidade: nisso ele ensina sobre que um agente pode não revelar uma verdade, mas introduzir uma rotação dos discursos e, portanto, operar não no sentido, mas na estrutura. Isso nos permite fazer a ligação com meu segundo ponto, a interpretação-deslocamento.  

 

Interpretação-deslocamento

Lacan não explica, ele opera mostrando. O que o Seminário XVII demonstra não é uma interpretação do momento presente, mas o efeito do deslocamento, essa Entstellung freudiana à qual Lacan dá todo o peso ao sentido do deslocamento em “Radiofonia”:

“Pena que, por um retorno a Freud em que gostariam de se mostrar superiores a mim, eles ignoram a passagem do Moisés em que Freud deixa claro ser assim que entende o Entstellung, a saber, como deslocamento, porque, apesar de arcaico, é esse, no dizer dele, seu sentido inicial” (LACAN, 1970/2003, p. 418).

Voltarei mais tarde à frase que se segue à passagem de “Radiofonia” — “Fazer o gozo passar para o inconsciente, isto é, para a contabilidade, é, de fato, um deslocamento danado” (LACAN, 1970/2003, p. 418) —, no meu ponto 4. Procuro aqui fazer a ligação entre o deslocamento e o ato do analista instituindo a experiência. Recordemos aqui o que todos em nossa comunidade sabemos: “O avesso da psicanálise” é o seminário em que Lacan formaliza seus quatro discursos a partir dos três impossíveis freudianos: governar, educar, psicanalisar, aos quais ele acrescenta o feminismo. Divididos entre impotência (Discurso Universitário e Discurso Histérico) e impossível (Discurso do Mestre e Discurso Analítico), eles dão conta da linguagem como estrutura que inclui um efeito mais-de-gozar específico a cada um. O sentido não tem lugar aí, ou melhor, só tem seu lugar aí como sentido gozado.

Dois pontos aqui:

  1. Deve-se notar que à Questão VII, de Georgin, sobre os três impossíveis freudianos, Lacan responde distinguindo analisar e curar: “Governar, educar, curar, portanto, quem sabe? (LACAN, 1970/2003, p. 444). No que diz respeito ao Discurso Analítico, seu objetivo, de fato, não é a cura.
  2. O analista como agente do discurso tem a função de efetuar um deslocamento, ou seja, introduzir uma permutação que Lacan chama de “a histerização do discurso” (LACAN, 1969-70/1992, p. 31). Por que essa histerização é necessária? Lacan continua: “a histérica fabrica como pode, um homem — um homem que seria animado pelo desejo de saber” (LACAN, 1969-70/1992, p. 31). Essa frase enigmática da página 31 pode ser esclarecida à luz do que disse Lacan em Vincennes, que se encontra no “Analyticon”, na página 193: “Quero um homem que saiba fazer amor”, frase que pode ser distribuída nos respectivos lugares do Discurso Histérico: $ = eu quero; S1 = um homem; S2 = que sabe; a = fazer amor. Ou ainda, a histérica quer que o outro produza um saber sobre aquilo que causa seu desejo. E Lacan acrescenta:

“Não estará aí, afinal, o próprio fundamento da experiência analítica? Pois digo que ela dá ao outro, como sujeito, o lugar dominante no discurso da histérica, histeriza seu discurso, faz dele um sujeito a quem se solicita que abandone qualquer referência que não seja a das quatro paredes que o envolvem, e que produzam significantes que constituam a associação livre soberana, em suma, do campo” (LACAN, 1969-70/1992, p. 32).

Eis, então, o efeito da permutação operada pelo analista no lugar de agente no Discurso Analítico, no início da experiência analítica: bater de fora sobre o ventre do Outro para que surjam os significantes-mestres, mestres do destino do sujeito sem que ele saiba.

Mas outras interpretações-deslocamentos estão em jogo nesse seminário e no escrito contemporâneo que é “Radiofonia”:

  • Deslocamento radicalizado da psicanálise do imaginário em direção ao simbólico, esse deslocamento sendo modelado na passagem da ciência-conhecimento (intuição, imaginação, a priori) para a ciência-saber (fórmulas que só podem ser verificadas a partir de seus produtos, como o LEM[7] do pouso lunar e as leis de Newton)A referência de Lacan aqui é ao trabalho do epistemólogo Alexandre Koyré, Do mundo fechado ao Universo infinito;
  • Deslocamento das referências e disciplinas conectadas à psicanálise das ciências humanas (etnologia, antropologia, linguística) em direção às ciências duras e à poesia, ou seja, em direção à estrutura e seu produto, por um lado, e em direção à materialidade da linguagem, por outro — assim, a frase de “Radiofonia”: “pois o poeta se produz por ser… devorado pelos versos/vermes [vers] que encontram entre si o seu arranjo, sem se incomodar. Isso é patente” (LACAN, 1970/2003, p. 420);
  • Deslocamento do estatuto do corpo em direção à sua forma lógica, ou seja, superfície de inscrição dos significantes do Outro, corpse, correlacionado aos instrumentos do gozo;
  • Deslocamento do inconsciente-verdade (inconsciente como dispositivo hermenêutico para todos os propósitos) para modos de gozar formalizados pelos discursos;
  • Deslocamento de Freud e sua crença no Pai em direção a um tratamento da matéria linguageira e do efeito de sentido, etc.

A interpretação por deslocamento está, portanto, no cerne desse momento do ensino de Lacan. Talvez já possamos ver o rastro disso na escolha que Lacan fez de associar o desejo à metonímia, e não ao Nome-do-Pai, como Miller pôde comentar em um de seus comentários sobre o Seminário VI, “Mais além do Édipo”[8]. No entanto, a máquina dos discursos, os quadrípodes, como Lacan às vezes os chama, permite estreitar justamente a função do analista-agente, ocupando como objeto-causa o lugar que é o do mestre no DM — “Ele, o analista, é que é o mestre. Sob que forma? (…). Por que sob a forma de a?” (LACAN, 1969–70/1992, p. 33).

 

Interpretação e semi-dizer

Tendo introduzido o primeiro ato do analista como sendo o de produzir a rotação dos termos do discurso em Discurso Histérico nessa bela aula II, Lacan propõe dois tipos de interpretação sustentáveis analiticamente​, o enigma e a citação, que são duas formas do semi-dizer. Ele introduz o enigma com muito humor, com as seguintes frases: “O que é a verdade como saber? (lembremos que, no Discurso do Analista, o saber é produzido no lugar da verdade) Seria o caso de dizê-lo: — Como saber sem saber? É um enigma. Esta é a resposta — é um enigma” (LACAN, 1969-70/1992, p. 34).

Enigma e citação têm em comum o fato de serem ditos apenas pela metade, o que é “o próprio da verdade”. Lacan retoma então o enigma que a Quimera coloca ao Édipo. Não resisto em citar algumas frases do texto de Lacan:

“E a Quimera propõe um enigma ao homem Édipo, que talvez já tivesse um complexo, mas não certamente aquele ao qual haveria de dar seu nome. Ele lhe responde de uma certa maneira, e é assim que se toma Édipo. À pergunta da Quimera, poderia ter dado muitas outras respostas. Por exemplo, poderia ter dito: — Duas patas, três patas, quatro patas, é o esquema de Lacan. Isto teria dado um resultado completamente diferente. Também poderia ter dito: — É um homem, um homem quando criança de peito. Aí, começou com quatro patas. Prossegue com duas, retoma uma terceira e, no mesmo movimento, sai correndo como uma bala, direto para o ventre de sua mãe. Isto é o que de fato se chama, com bons motivos, complexo de Édipo. reio que vocês vêem o que aqui quer dizer a função do enigma — é um semi-dizer, como a Quimera faz aparecer um meio-corpo, pronto a desaparecer completamente quando se deu a solução” (LACAN, 1969-70/1992, p. 34).

Essa passagem muito engraçada de Lacan indica claramente a disciplina à qual o analista deve se atentar para não virar sugestão, para deixar para o analisante a responsabilidade de seu enunciado, para deixar o campo livre para sua implicação subjetiva. Com efeito, no enigma colocado ao Édipo, não é a Quimera quem interpreta, mas Édipo: “O enigma é provavelmente isso, uma enunciação. Encarrego vocês de convertê-lo em enunciado. Virem-se como puderem — como fez Édipo —, vocês sofrerão suas consequências” (LACAN, 1969-70/1992, p. 34).

E Lacan esculpe uma definição de interpretação adaptada a esse momento de seu ensino: “Um saber como verdade — isto define o que deve ser a estrutura do que se chama uma interpretação” (LACAN, 1969-70/1992, p. 34). Não vou retomar aqui o segundo exemplo, o da citação, a não ser para dizer que, se no caso do enigma, a enunciação está do lado do analista, no caso da citação, ela está do lado do analisante, e aposta “na participação em um discurso pelo leitor suposto” (LACAN, 1969-70/1992, p. 35). Esses dois registros têm em comum o fato de colocar o analisante na posição de ter que completar o semi-dizer por meio dos significantes produzidos por associação livre, dos quais sabemos que “(…) no surgimento ao acaso dos significantes — pelo próprio fato de tratar-se de significantes — não há nada que não se reporte àquele saber que não se sabe (…)” (LACAN, 1969-70/1992, p. 32).

 

Metáfora e metonímia

Uma das questões que Georgin faz a Lacan visa assimilar psicanálise e linguística em vista do privilégio concedido pelas duas disciplinas à metáfora e à metonímia. Com sua habitual má-fé, Lacan se distancia de Jakobson ao retomar as definições das duas operações significantes:

“(…) substituição de um significante por outro em uma e seleção de um significante em sua sequência, na outra. Daí resulta (e somente com Jakobson, nesse aspecto; para mim, o resultado é outro) que a substituição é feita de semelhanças, e a seleção, de contiguidades” (LACAN, 1970/2003, p. 413).

Lembramos que metáfora e metonímia foram localizadas por Lacan no princípio das formações do inconsciente: a combinação significante permitindo a decifração do inconsciente.

Ora, em “Radiofonia”, em outro deslocamento operado por Lacan, os termos se relacionam com as operações freudianas de condensação e deslocamento, mas na medida em que elas são operações linguageiras sobre o gozo. Assim, vou reler para vocês esta frase já citada anteriormente:

“É que não metaforizo a metáfora nem metonimizo a metonímia para dizer que elas equivalem à condensação e à transposição no inconsciente. Mas desloco-me com o deslocamento do real no simbólico, e me condenso para dar peso a meus símbolos no real, corno convém para seguir o inconsciente em sua pista” (LACAN, 1970/2003, p. 413).

Portanto, não é uma metáfora dizer que a metáfora é condensação, nem uma metonímia dizer que a metonímia equivale a passar o gozo à contabilidade. Por que Lacan insiste em eliminar esses termos da linguística para fazê-los à sua maneira? Porque a psicanálise é uma prática linguageira, ainda que a significação não tenha mais voz no capítulo e que o sentido esteja reduzido a esse efeito de sentido gozado, que é o objeto a. Esta é a definição contemporânea do Seminário XVII: “objeto a, esse grande incorpóreo dos estóicos” (LACAN, 1970/2003, p. 399). É por essa redução do sentido ao sentido gozado, ao mais-de-gozar, que é importante preservar a possibilidade de operações linguageiras sobre o gozo. Assim, a metonímia é redefinida na p. 416 como metabolismo do gozo, enquanto a metáfora “obtém um efeito de sentido (não de significação) a partir de um significante que faz-se de seixo lançado na poça do significa”.

 

A vergonha de viver

É nessa nova definição da metáfora como pedra na poça do significado que Lacan se apoia, por analogia com o temor de Deus evocado por Racine em Athalie, e que ele havia utilizado para introduzir o ponto de basta[9] em “As psicoses”, para lançar a pedra da vergonha na poça da agitação de maio. O ponto de basta não é a significação que permite decifrar a cadeia significante, mas o que Lacan “condensa para dar peso a meus símbolos no real” (LACAN, 1970/2003, p. 418).

De fato, o capítulo 13 do Seminário XVII começa com as palavras “morrer de vergonha”, depois correlaciona a vergonha não a um significado, mas a um signo:  “(…) morrer de vergonha (…). Contudo, é o único signo cuja genealogia se pode assegurar, ou seja, ele descende de um significante” (LACAN, 1969-70/1992, p. 172).

Se lermos bem o que diz Lacan, o signo é definido pela degeneração de um significante. Para compreender essa proposição, volto a me referir a “Radiofonia”, em que o signo é definido como signo do gozo de um ser falante (na p. 411, Lacan fala também do significante que recai no signo). Leio, então, essa proposição de Lacan da seguinte forma: ele impõe, com todo seu peso, um peso que espera ser equivalente ao do temor de Deus, a vergonha que há de viver quando somente o signo de nosso gozo nos representa, e não mais os significantes que governam nosso destino. É a vergonha de viver do material humano animado pelo mais-de-gozar que o capitalismo lhe imprime, preocupado unicamente com sua própria sobrevivência. O primum vivere, única promessa da biopolítica, que se tornou bioeconomia no século XXI, dá origem ao que Lacan chama de “uma fenomenal vergonha de viver” (LACAN, 1969-70/1992, p. 174). A constatação arrepiante do Seminário XVII é que não só as burocracias sanitárias reduziram os seres humanos a material humano, mas que esse material humano é, além disso, excessivo, sem outra função social que a de consumir para que torne sem freios o discurso capitalista, em detrimento da honra de uma vida que assumiria sua dependência em relação aos significantes que a representam.

Se Lacan joga a pedra da vergonha na poça do marasmo contemporâneo, não é para fazer ressurgir a honra, pois só pode haver vergonha se houver desonra? E ele está disposto a pagar com sua pessoa, pois se oferece, na última linha desse magnífico seminário, para ser aquele que “acontece provocar-lhes vergonha” (LACAN, 1969-70/1992, p. 184). Aqui, novamente, Lacan indica o que custa estar na posição de agente do discurso analítico: posicionando-se como a, ou seja, como um olhar sob o qual se pode ter vergonha, ele empresta seu corpo ao deslocamento que tenta produzir para desagregar o material humano e restituir suas letras de nobreza a uma singularidade desvinculada de sua servidão ao mais-de-gozar. O analista não pode estar na posição de agente do discurso analítico sem pagar com sua pessoa.

 

Conclusão

Para concluir, retomo minha tese inicial segundo a qual o seminário “O avesso da psicanálise” é um seminário sobre a interpretação, tomada nos múltiplos sentidos de intervenção. Lacan, como Freud, se confronta com o mal-estar da civilização, com “os crescentes impasses da civilização”[10]. Diante dos acontecimentos de 68, ele não se detém nas interpretações marxistas que atribuem o mal-estar à opressão ou à dominação, mas problematiza a economia do gozo na era do capitalismo. É ao nível dessa economia que se situa o mal-estar contemporâneo a Lacan, e hoje de forma ainda mais radical. Os seres falantes são cada vez mais produzidos e geridos como objetos, não tendo outro valor além de seu poder de compra; os pobres são excedentários, os ricos são representados apenas pelo sinal de seu mais-de-gozar. O Seminário, livro 17 combina os três tipos de interpretação em psicanálise identificados por Jacques-Alain Miller em “Coisas de Fineza”: interpretação da civilização, interpretação da teoria analítica e interpretação no âmbito do tratamento. O século XX, com seu cortejo de genocídios, sua industrialização da morte, deixou pouca dúvida ao falasser quanto ao seu status obsoleto, substituível. O século XXI não se afasta desta constatação: eutanásia, gestão dos idosos, migrações — climáticas e outras — formam nosso presente, constituirão o nosso futuro próximo. Diante dessa constatação, admiremos a tentativa de Lacan que, com esse significante novo que é a vergonha, tenta devolver a honra às vidas humanas. Verdadeiro fogo de artifício, a teoria analítica se renova com ferramentas operacionais que vão da formalização do discurso analítico ao significante novo, passando pelas figuras do semi-dizer, dando todo lugar à implicação subjetiva que, por si só, permite que um ser falante se responsabilize por sua existência, sem a desculpa do destino.

 


 

Referências
LACAN, J. (1955–56) O seminário, livro 3: as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.
LACAN, J. (1968–69) O seminário, livro 16: de um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.
LACAN, J. (1970–71) O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.
LACAN, J. (1970) “Radiofonia”. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p. 400-447.
LAURENT, É. Le dialogue Lacan-Kojève sur la bureaucratie et l’Empire, 2003, disponível em https://wapol.org/ornicar/articles/lrn0059.htm.

[1] Texto inédito gentilmente cedido pela autora.
[2] Por exemplo, o recente livro de Chapoutot, J., Libres dóbéir: Le management du nazisme à aujord’hui, Paris: Gallimard, 2020, p. 18: “Na esteira do trabalho [sobre as indústrias do Terceiro Reich], pudemos considerar que o manejo e a ‘gestão’ de ‘recursos humanos’ tinham em si algo de criminoso… Da objetificação de um ser humano, reduzido ao status de ‘material’, ‘recurso’ ou ‘fator de produção’, à sua exploração, até a sua destruição, a concatenação tem sua lógica, da qual o campo de concentração, lugar de destruição pelo trabalho e produção econômica, é o lugar paradigmático” (Tradução nossa).
[3] “Do que torna legível o significado”: LACAN, J. (1970/2003) “Radiofonia”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 413-414).
[4] Essa expressão francesa, “Le pavê dans la mare”, tem, em português, o sentido de algo que irrompe no contexto de uma situação, até então, tranquila e que, inesperadamente, a abala, a perturba, como uma pedra atirada em uma poça de água.
[5] LAURENT É. Le dialogue Lacan-Kojève sur la bureaucratie et l’Empire. Disponível em: https://wapol.org/ornicar/articles/lrn0059.htm.
[6] Observemos que, em “Radiofonia”, Lacan retorna a esse elo que não se fecha ao acrescentar à sua elaboração anterior sobre a passagem do analisante à analista: “não tomo como acidental que a comoção de maio me haja impedido de ir até o fim”, antes de acrescentar, como resultado de seu trabalho no Seminário, que “faço questão de assinalar que alguém só vem a sentar-se nesse lugar pela maneira, ou melhor, pela desmaneira que nele impõe a verdade” (LACAN, 1970/2003, p. 426).
[7] LEM: sigla para Lunar Excursion Module, o módulo lunar usado pela NASA no Projeto Apolo.
[8] A esse respeito, remetemos o leitor à página 11 do artigo Apresentação do Seminário 6o desejo e sua interpretação, de Jacques Lacan, por Jaques-Alain Miller, publicado em Opção Lacaniana online nova série, ano 5, n. 14, julho 2014. Disponível em: http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_14/Apresentacao_do_seminario_6.pdf
[9] LAURENT, É., Fils de faire: intervention à la London Society. Julho de 2020, inédito. Nesse texto Laurent propõe que medo e vergonha são homólogos no ensino de Lacan.
[10] LACAN, J. A psicanálise. “Razão de um fracasso”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1970/2003 p. 349.



A NEUROSE NA URGÊNCIA SUBJETIVA 

GIULIA CAMPOS LAGE
Residente em Psiquiatria pelo Instituto Raul Soares (FHEMIG)
Aluna do Curso de Psicanálise do IPSM-MG
giucamla3@hotmail.com

Resumo: Frente à experiência em uma instituição psiquiátrica, constata-se a dificuldade em manejar a neurose na urgência hospitalar. Este texto visa buscar, na teoria psicanalítica de orientação lacaniana, formas de entender a urgência subjetiva, principalmente na neurose, e como poder viabilizar saídas que acolham a subjetividade em questão, evitando a institucionalização.

Palavras-chave: psicanálise; urgência subjetiva; neurose.

NEUROSIS IN SUBJECTIVE URGENCY

Abstract: Faced with the experience in a psychiatric institution it is observed that there is a difficulty in managing neurosis in the hospital emergency room. This essay seeks ways to understand – through psychoanalytic theory of Lacanian orientation – subjective urgency, especially in neurosis, and how we can enable possible solutions that embrace the subjectivity in question, avoiding institutionalization.

Keywords: psychoanalysis; subjective urgency; neurosis.

Keywords: psychoanalysis; subjective urgency; neurosis.

 

 

Imagem: Cecília Velloso Batista

 

Dou início ao curso de psicanálise no Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais em meio ao meu primeiro ano de residência em psiquiatria no Instituto Raul Soares. Entre os diversos aprendizados que acontecem nesse momento, algo me intriga: a abordagem da neurose na urgência hospitalar. Haveria alguma forma de evitar a internação? Ricardo Seldes, em La Urgencia Dicha, aponta que a “urgência subjetiva é uma experiência que dá chance de fazer diferente com a palavra, e isso muda as coisas” (SELDES, 2019, p. 12).

A urgência em psicanálise é um tema intrínseco à prática psicanalítica. Frequentemente acolhemos pessoas que passam por um momento de crise no qual os recursos que elas têm para dar conta da sua existência se desestabilizam. Segundo Sandra Letícia Berta, em seu artigo “Localização da urgência subjetiva em psicanálise”, a urgência como subjetiva leva em conta a dimensão do real em jogo. Isso a Lacan não era decisivo, tampouco importava definir, mas, pelos motivos que nos interessam aqui, podemos delinear como sendo aquilo que, no discurso do mestre, não anda, isso que o discurso não consegue cernir, isso que têm algo muito singular para cada um. Nesse sentido, Berta define que uma questão preliminar sobre a urgência subjetiva em psicanálise deveria ser formulada a partir do conceito de angústia e da teoria do trauma, cujos referentes epistêmicos se encontram na obra de Sigmund Freud e no ensino de Jacques Lacan (BERTA, 2015).

Para Lacan, o sujeito do inconsciente não nasce nem se desenvolve; ele se constitui e só pode ser concebido a partir do campo da linguagem. O bebê, no seu nascimento, se encontra em um desamparo fundamental, de modo que não dá conta de sobreviver por si mesmo, exigindo a intervenção de um Outro primordial, que o implicará na lógica do significante (GUSMAN; DERZI, 2021).

Lacan menciona, no Seminário 6, que o sujeito só́ pode se instituir como tal enquanto sujeito que fala, enquanto sujeito de fala.

“Na medida em que o Outro é ele próprio marcado pelas necessidades da linguagem, já não é o Outro real, instaura-se como lugar de articulação da fala. Aí é que se constitui a primeira posição possível de um sujeito como tal, de um sujeito que pode ser apreendido como sujeito, como sujeito no Outro, na medida em que esse Outro o pense como sujeito” (LACAN, 1958-1959/2016, p. 402).

O corpo, então, se encontra à mercê da linguagem, e é esse encontro com o corpo que Lacan considera traumático. O trauma é entendido como a entrada do sujeito no mundo simbólico. Ele não é um acidente, mas constitutivo da subjetividade. O trauma do sujeito é a exigência da linguagem e a dependência do sujeito ao significante. Devemos lembrar que o sujeito já é nomeado antes de ele ter nascido; já se encontra implicado na lógica do Outro. É então crucial que o Outro, geralmente materno, faça a função de nomear e reconhecer o bebê como um sujeito e que faça uma significação do seu grito, que deve ser interpretado pelo Outro como uma demanda de satisfação. O Outro é quem pode dar uma resposta ao apelo do bebê e lhe faz a pergunta fundamental: Che vuoi, que queres? Nesse momento, o sujeito tem seu primeiro encontro com o desejo como desejo do Outro (GUSMAN; DERZI, 2021, p. 8).

Para Lacan, no Seminário 6, o desejo do Outro é sempre traumático, já que o sujeito se encontra sem recursos, desamparado diante da opacidade do desejo do Outro. O sujeito se encontra em um ponto zero e o desejo do Outro é enigmático. O sujeito precisa então produzir uma resposta, a fantasia, no caso da neurose. Assim, “o desejo do Outro permaneceria como um núcleo enigmático, até que, depois, a posteriori, o sujeito possa reintegrar o momento vivido numa (…) cadeia geradora de toda uma modulação inconsciente” (LACAN, 1958-1959/2016, p. 453), ou seja, o sujeito precisa inventar uma lógica, uma resposta para essa pergunta, e colocar a resposta em uma cadeia. É aqui que aparece a fantasia. “O que lhe dá seu valor de índice é um tempo suspenso, uma pausa, que corresponde a um momento de ação em que o sujeito só́ pode se instituir de uma certa maneira x” (LACAN, 1958-1959/2016, p. 454).

Para Lacan, no começo, é a imagem do outro que constitui o suporte do sujeito e, depois, vem uma estrutura denominada fantasia, que é o suporte e o índice de certa posição do sujeito no desejo. Como menciona Miller:

“É a mesma lógica da fantasia que opera no âmbito do inconsciente, em que o sujeito não tem a possibilidade de designar a si mesmo, em que é confrontado com a ausência de seu nome de sujeito. É, então, à fantasia que ele recorre e é na sua relação com o objeto do desejo que reside a verdade de seu ser” (MILLER, 2014, p. 9).

Lembremos que o significante determina o sujeito, e é em posição de sujeição que ele será́ constituído pelo universo simbólico. Há sempre algo que fica de fora, que Lacan chama de real. O encontro com o real não tem correspondência no simbólico.

“O esbarrão com o real (…) desarranja a homeostase significante, tendo a importante função de romper com uma situação na qual o eu se reconhecia” (GUZMAN; DERZI, 2021, p. 9). Como tal, o acidente traumático é algo que impulsiona para a mudança, porque a desestruturação promovida na tessitura simbólica e imaginária do eu empurra o sujeito para um novo arranjo, em que a construção de uma narrativa tem um papel fundamental (RUDGE, 2009).

Segundo Favero (2009), o inconsciente estruturado como uma linguagem pode ser entendido a partir do que o inconsciente se apresenta como tropeço significante, atribuindo um sentido à falha do discurso por meio da repetição. A repetição do sujeito está ligada à procura do objeto perdido, na tentativa de reencontrá-lo. Assim, Lacan desenvolve o conceito de real como algo impossível de nomear e que sempre retorna ao mesmo lugar para o sujeito. A repetição “envolve algo que está excluído da cadeia significante, que o sujeito não lembrará, mas em torno do qual a cadeia de significantes gira” (FAVERO, 2009, p. 65). Isso quer dizer que a repetição envolve tanto o “impossível de pensar” quanto o “impossível de dizer”. Dessa forma, o real surge de um encontro faltoso que, via repetição, “reitera o impasse próprio da estrutura do sujeito. Essa repetição traz o retorno não do mesmo, e sim do diferente, de uma outra coisa, que até faz parecer que não é um retorno” (RUDGE, 2009, p. 43). Assim, o real lacaniano trata daquilo que escapa da cadeia significante como um trauma, um corte que impõe seus efeitos e limites (GUSMAN; DERZI, 2021).

No que se refere à urgência subjetiva, segundo Seldes, esta costuma aparecer relacionada a um trauma, e isso rompe os limites do imaginário e do simbólico. O trauma é um daqueles eventos psíquicos que tocam o real, assim como a alucinação na psicose ou a experiência do gozo no perverso. A neurose vivencia momentos de angústia que aproximam o sujeito inconsciente da realidade e o afastam de sua tendência de considerar a vida um sonho (SELDES, 2019).

Como localizar o espaço e o tempo hoje, quando, na urgência, tudo é da ordem do imediato? Com os tempos lógicos de Lacan, interpretamos que existe um curto-circuito entre o instante de ver e o momento de concluir, sem passar pelo tempo de compreender.

Tentamos elucidar a urgência com base no trio de descompensação, desencadeamento e desconexão. Três formas de crise que dão origem a um real como modos de hesitação do simbólico. A nova forma será restaurar o simbólico — não sem o imaginário —, talvez de um novo modo.

O que condiciona a possibilidade da invenção? Que o Outro não existe. Depois de uma emergência, talvez um trauma, o sujeito deve se reinventar a partir de um Outro que não existe mais. É preciso então “fazer” com que um sujeito perdido reencontre as diretrizes de vida com um Outro do qual se sentia perdido. Não há pedagogia, não se reaprende a conviver com o Outro; a proposta urgente é construir um novo caminho, um caminho que devemos ajudar a buscar ao lado da insensatez do fantasma e do sintoma, o que excede todo “sentido” possível na causa libidinal.

Por essa via, referir-se à urgência implica que partamos do gozo, e não do Outro do significante. A experiência analítica, a experiência da palavra, afeta o corpo, corpo afetado pelo significante. Nele, o corpo não é um corpo que fala, mas quem fala em análise não o faz sem o corpo (SELDES, 2019).

Do que temos medo, então? Lacan se pergunta.  Do nosso corpo.

“Isso se manifesta por aquele curioso fenômeno sobre o qual durante um ano inteiro dei um seminário que chamei de angústia. É o nosso corpo, justamente, a angústia está situada em um lugar diferente do medo. É o sentimento que surge dessa suspeita que nos assalta de que nos reduzamos ao nosso corpo. É muito curioso que esta fraqueza do parletre tenha conseguido chegar a este ponto, perceber que a angústia não é o medo de algo que pode motivar o corpo. É um medo de temer” (LACAN, 1975-1980/2015, p. 27).

A introdução da contingência é uma resposta lacaniana à urgência, ao contrário das psicoterapias que tentam retornar ao estado anterior, isto é, ao estado anterior à irrupção “daquilo” que causou o surto. É sobre a eclosão de uma verdade que se mostra impotente para definir o estado pelo qual alguém está passando.

A urgência é a oportunidade de apreender como as verdades imutáveis ​​de alguém se transformam em outra coisa, algo que não se sabe ser, mas, na verdade, não é mais. O sujeito em análise é extraído da operação lógica de alienação, simbólica, e separação, pulsional. Isso torna a distinção algo subjetivo, aquela que o discurso da ciência gostaria de silenciar (SELDES, 2019).

Ao receber um paciente que chega em uma instituição diante de uma urgência subjetiva, o diagnóstico estrutural não está dado. Não se pode dizer de um sujeito em análise. Qual seria, então, o papel do analista nesse dado momento? Viganó, em seu texto “A palavra na instituição”, traz que Lacan dá uma indicação acerca dessa tarefa: “talvez é do discurso do analista, que se completam os três quartos de giro, que pode surgir um outro estilo de significante–mestre” (XVII; p. 205 trad. italiana). Com essa tarefa, da qual Lacan não se cala diante do desafio da impossibilidade, somos confrontados a construir uma Escola do passe, onde o posto da exceção que a escola representa no social pode consentir a qualquer pessoa que se coloque diante do real da clínica como o mais-um que transforme a firmeza do gozo, escolhendo a identificação que a sustenta. A demanda estereotipada pode encontrar a via de uma nova modulação, caso encontre um interlocutor que encarne uma nova versão do posto de poder (VIGANÓ, 2006).

Portanto, conclui-se que não se pode afirmar que o encontro com o real, o trauma, a urgência subjetiva, nos conduza sempre a efeitos desastrosos na subjetividade. Pode-se também recolher efeitos surpreendentes, possibilitando remanejamentos subjetivos, ou, melhor, permitindo o sujeito a retificar sua posição subjetiva a partir da contingência. É necessário ressaltar que o encontro com o real pode fazer vacilar a fixação do fantasma, e o resíduo do traumatismo pode permitir que o sujeito descole do semblant, da ficção, do engodo, e possibilite a emergência da saída do desejo (GUZMAN; DERZI, 2021).

 


 

Referências
SELDES, R. La urgencia dicha. Buenos Aires: Coléccion Diva Ed., 2019.
BERTA, S. L. “Localização da urgência subjetiva em psicanálise”. A Peste: Revista de Psicanálise e Sociedade e Filosofia, São Paulo, n. 1, 2015, p. 95-105.
GUZMÁN, M. C.; DERZI, C. D. A. M. “O Trauma e seu Tratamento: Contribuições de Freud e Lacan”, Revista Subjetividades, n. 1, 2021, p. 1-14.
LACAN, J. (1958-1959/2016). O Seminário. Livro VI: O desejo e sua interpretação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2016.
MILLER, J.-A. “Apresentação do Seminário 6: O desejo e sua interpretação, de Jacques Lacan”. Opção Lacaniana onlinen. 14, 2014, p. 1-19.
RUDGE, A. M. (2009). Trauma: Coleção Psicanálise passo-a-passo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.
FAVERO, A. B. A noção de trauma em psicanálise. Dissertação. (Tese de doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da PUC). Rio de Janeiro, 2009.
LACAN, J. “La Tercera”. Revista Lacaniana. Buenos Aires, n. 18, 2015, p. 27.
VIGANÒ, C. “A palavra na instituição”. Mental. Barcelona, n. 6, 2006, p. 27-32.



O DISCURSO COMO SAÍDA DO CAPITALISMO[1] 

 

PHILIPPE LA SAGNA
Psicanalista,  A.M.E. da ECF/AMP
plasagna@free.fr

Resumo: Lacan aponta uma afinidade entre o discurso capitalista e o discurso da ciência, no qual o desenvolvimento do primeiro acompanha o segundo. Nessa aliança, a verdade passa a ficar envolta em brumas e o saber vira um objeto de mercado. O discurso capitalista se apresenta sob a égide do consuma-se e deixe-se consumir, sempre com um mais-de-gozo que se impõe ao sujeito contemporâneo. O discurso analítico tem a possibilidade de desvendar a maquinaria do mais-de-gozar e, ao fazer do objeto a causa de desejo, arejar os efeitos do mais-de-gozar.

Palavras-chave: mais-de-gozar; mais-valia; mercado; discurso.

Discourse as a way out of capitalism

Abstract: Lacan points out that there is an approximation between the capitalist discourse and the discourse of science, where the development of the first follows the second. In this alliance, truth becomes surrounded by mist and knowledge becomes a market object. The capitalist discourse is presented under the mandate of consume and get consumed, always with a surplus jouissance that is imposed to the contemporary subject. The analytical discourse presents the possibility to unveil the machinery of the surplus jouissance, and freshen its effects by making the object the cause of desire.

Keywords: surplus jouissance; surplus value; market; discourse.

 

Imagem: Fred Bandeira

 

 

“A crise consiste justamente no fato de que o antigo morre
e que o novo não pode nascer: durante esse intervalo
os mais variados fenômenos mórbidos são observados.”
Antonio Gramsci, Cadernos do cárcere

Do capitalismo de produção ao discurso capitalista 

Muito cedo, Lacan foi um leitor de O capital, de Karl Marx. Mas ele soube tornar essa leitura útil ao longo de toda a elaboração de seu pensamento. Em seu Seminário 18, Lacan explica como ele utilizou o “godê da mais-valia” (LACAN, 1971/2003, p. 46) para despejar nele a relação de objeto de Freud. Essa homenagem a Marx é ambígua: se ela não apaga a mais-valia, ela a torna um pouco antiquada ao apresentar a categoria do mais-de-gozar. Hoje, a mais-valia, no sentido de Marx, não é mais o que era. A direita liberal a considera uma noção obsoleta e pouco científica. Curiosamente, uma parte crescente da extrema-esquerda questiona a tese clássica segundo a qual a apropriação da mais-valia representa o alfa e o ômega da força da exploração do homem pelo homem. Se considerarmos que essa exploração é também a das mulheres ou dos colonizados, o economismo subjacente à teoria da mais-valia marxista vacila. A construção teórica da mais-valia deve distinguir o trabalho e a força de trabalho e pensar esta última através da noção de um trabalho abstrato. O valor do trabalho, agora abstrato, poderia ser mercantilizado sem problema algum. Mas, se Lacan, em 1968, retomou seu debate com Marx, foi também no contexto do debate entre Sartre e Lévi-Strauss sobre a ação da história e da cultura. Em 20 de novembro de 1968, durante uma sessão de seminário, Lacan postula que a ideia de Marx de trabalho abstrato, necessária à teoria de mais-valia, passa pela “absolutização” do valor trabalho, o que não pode ser pensado sem um “desenvolvimento de certos efeitos de linguagem”, ao qual ele acrescenta: “e foi por isso que introduzimos o mais-de-gozar” (LACAN, 1968-1969/2008, p. 37). Trata-se, portanto, de pensar o capitalismo como um discurso — para aquele que dirá “eu” para expressar sua frustração de “sujeito”, assujeitado, do discurso capitalista.

 

Mercado do trabalho/mercado do saber

Esse discurso capitalista supõe uma afinidade com o discurso da ciência. O desenvolvimento do primeiro acompanha o segundo. Pouco antes, em seu texto “A ciência e a verdade”, Lacan havia afirmado que a ciência se especifica por nunca querer conhecer a verdade como uma causa. Do lado da verdade, o proletariado encarna a verdade do sistema capitalista e é para os marxistas o instrumento de sua subversão e da saída do discurso capitalista. Ora, a modernidade permitiu verificar a dificuldade que constitui o fato de que essa ação louvável supõe uma consciência de classe que, como mostra a história, muitas vezes não existe. O proletariado moderno não hesita em adotar os ares do narcisismo egoísta da sociedade dos indivíduos, ele sabe como oprimir sua “burguesia” e rejeitar, ou mesmo explorar, o colonizado; o que coloca a função despercebida da cultura na luta de classes, identificada por Gramsci.

Lacan observa, portanto, a função despercebida por uma parte na questão social do saber. A novidade, para Lacan, no final dos anos sessenta, é que o saber tem um preço, há um “mercado do saber”. Para Lacan, esse preço vem pagar uma perda: “a renúncia ao gozo” (LACAN, 1968-1969/2008, p. 39), aquela que justamente supõe o trabalho. Na época, Lacan vai chocar o auditório ao colocar que o saber não precisa necessariamente do trabalho para exercer seu papel no gozo! “Não é pelo fato de o trabalho implicar na renúncia ao gozo que toda renúncia ao gozo só se faz pelo trabalho” (LACAN, 1968-1969/2008, p. 39).

O que é novo, observa então Lacan, é que o saber se tornou uma mercadoria, como testemunha na época a crise da universidade. Podemos dizer que esse fenômeno, esse “mercado do saber”, assumiu uma dimensão enorme hoje, na era dos big data! Para Lacan, é o efeito da ciência ao reduzir todos os saberes a um único mercado. Essa operação, no entanto, deixa resto; há um saber que não é pago e, portanto, obtido para nada. E aí está a fonte do mais-de-gozar no processo de produção do saber. O mercado do saber, de um saber que serve ao gozo, produz o mais-de-gozar. Ele revela que, “A partir do saber, percebe-se, enfim, que o gozo se ordena e pode se estabelecer como rebuscado e perverso” (LACAN, 1968-1969/2008, p. 40).

 

Coletivização da verdade

O efeito do discurso capitalista no final do século XX é, portanto, fazer deslizar o tratamento do gozo do mercado de trabalho para o gozo do mercado do saber. O que se perde nessa passagem, por causa da ciência, é a singularidade da verdade. Ela não fala mais “eu”. Lacan nos diz que ela se tornou “social média, abstrata” (LACAN, 1968-1969/2008, p. 40). Em outros termos, ela fica suspensa no conformismo social da “multidão solitária”, tão bem retratada por David Riesman. O reino do mais-de-gozar como efeito do mercado do saber anda de mãos dadas com essa “coletivização” da verdade. Isso é o que fará Lacan dizer, a respeito da “comoção de maio”, que aí está de fato a “greve da verdade” (LACAN, 1968-1969/2008, p. 41). Há aqui um equívoco sobre a verdade na greve: é uma questão de defendê-la ou de imobilizá-la?

O que é certo é que perdemos o “eu” e que o grito do proletariado se perde como verdade que fala “eu”: 1968 será um “nós” no discurso! E depois teremos um “todos juntos!”. A geração Facebook vai levar essa coletivização da verdade a um estágio superior, sob a forma da falsa verdade que não mente mais, por não ter chance de dizer a verdade! A internet é o lugar da pós-verdade e onde o “eu” que fala se apaga diante do sujeito que sou para os outros. Como mostrou Alain Supiot (2015) em seu livro La gouvernance par les nombres (A governança pelos números, em tradução livre)isso vai bem com um retorno da fidelidade nas relações sociais em detrimento da cidadania política real. O Facebook é o momento em que o “eu” se torna um “ele”, aquele que sou para os outros, aos olhos dos outros. Lacan se diverte e sublinha que a greve “é justamente uma espécie de relação que une o coletivo ao trabalho” (LACAN, 1968-1969/2008, p. 41). O sucesso da greve supre a crise do trabalho! A verdade coletiva é também a estupidez das verdades que o Maio de 68 escreveu nos muros. Joseph Heath e Andrew Potter mostraram em seu livro Révolte consommée (Revolta consumida, em tradução livre) que a contracultura produziu os estereótipos do modo de gozar mercadológico contemporâneo: “Para que alguém suba na hierarquia do status ou do estiloso, ou do estilo, chame-o como quiserem, é preciso que algum outro seja rebaixado um degrau” (HEATH; POTTER, 2005, p. 408, tradução nossa). Os novos meios de comunicação tornaram exponencial a estupidez da verdade. O êxtase contemporâneo não chegou bruscamente. Em seu último livro, Il faut dire que les temps ont changé (É preciso dizer que os tempos mudaram, em tradução livre), Daniel Cohen (2018) assinala que, desde os anos cinquenta do último século, Jean Fourastié anunciava que iríamos passar da sociedade de produção, que sucedera o mundo agrícola, para se dedicar à matéria — e não à terra —, a uma sociedade de formação onde reinaria o mercado do saber!

Essa reviravolta foi também a da “sociedade do culto de si mesmo” e dos indivíduos isolados em uma formação contínua do ego. Vemos, portanto, que o capitalismo, antes de se tornar mais do que um mero discurso do capitalismo, já era, de alguma forma, uma “saída” do capitalismo de produção material produzida pelo capitalismo. A crise sanitária atual nos mostra que essa mutação não apagou a produção: ela a exportou para países supostamente menos avançados, como a China.

Para o Lacan desta época nos livramos da verdade, esta que insistia na palavra do “eu”. Nesse mundo dos ditos e dos não ditos, o que vai ser raridade é o dizer.

 

Necessidade de um novo discurso

Em um artigo escrito para o jornal Le Monde e nunca publicado[2], a respeito da reforma universitária, Lacan acentua a clivagem entre saber e trabalho. Ele postula ainda que o saber não precisa de nenhum trabalho! Ele distingue também o mais-de-gozar da mais-valia marxista para dizer que ele é a causa, e não o efeito do mercado. No mundo do consumo, a pressão do mais-de-gozar é a condição da existência do mercado, é a lei do consumismo. Se o mais-de-gozar fica confinado, o mercado desaparece…

Acontece que, para Lacan, nesse mundo do saber disponível e do “eu” difícil, o sujeito humano deve trabalhar para se identificar. O self é um permanente canteiro de obras que supõe fazer com que o saber contribua para construir uma identidade para o sujeito com o status social que lhe convém. Quando o discurso do mestre reinava, ele distribuía os lugares e, portanto, as identidades, mesmo a do proletariado! Hoje, é o discurso capitalista e o mercado do saber que perderam a necessidade da castração. Resta, portanto, tentar encontrar a dimensão da castração. O mais-de-gozar capitalista ignora o limite da castração, e é nisso que ele nos apreende e torna impossível o amor, já que o amor supõe que o gozo consente com uma perda que é constitutiva do desejo.

Eva Illouz mostrou que, quando o amor se torna um mercado, a tendência ao afastamento se torna muito mais forte do que o compromisso: “O gozo se tornou o verdadeiro modo de desejo de uma sociedade de consumo onde os objetos, os afetos e a satisfação sexual deslocam o centro moral do eu. Mas, no gozo, é impossível encontrar ou constituir corretamente objetos de interação, de amor e de solidariedade” (ILLOUZ, 2020, p. 319, tradução nossa).

O mais-de-gozar é, no entanto, apenas um “mais” em relação a uma perda de gozo, já que representa de algum modo a frágil contrapartida da perda de gozo que supõe o saber que se torna somente “meio de gozo”. Esse saber e o mais-de-gozar que o acompanha apagam, então, da paisagem, o gozo que seria de uma outra natureza, que não a deles. O discurso capitalista ignora a castração, assim como o discurso da ciência ignora a verdade como causa. Nesse mercado, do saber que serve ao gozo, o problema será então de manter um desejo de saber. Lacan rapidamente identificou a ausência do desejo de saber quando o mais-de-gozar satura o desejo, transformando-o em adição.

Vemos que começa a se desenhar a necessidade de um novo discurso que possa dar lugar, nessa paisagem, ao mesmo tempo à castração e à verdade do desejo. Em particular, o discurso do Outro no feminino. A psicanálise, ou seja, o discurso analítico, é o que poderá fazer surgir do amor de transferência um outro amor por um outro saber: o saber inconsciente. Um amor pelo que é real nesse saber, real que escapa ao mercado.

Em 1970, em seu seminário O avesso da psicanálise, Lacan retoma esse fio condutor, segundo o qual a verdade coletiva se tornou irmã do gozo. Elas são irmãs em sua origem comum, que é o mercado do saber. Ao mesmo tempo, Lacan demonstra que a linguagem, em sua metonímia, serve ao gozo e ao mais-de-gozar, por falta de uma metáfora que venha oferecer uma saída. Lacan retoma também o fato que o capitalismo, a fim de assegurar seu desenvolvimento, deve assegurar o que era chamado na época de subdesenvolvimento. Hoje é o saber cujo subdesenvolvimento asseguramos, inclusive o da ciência que vive sob o reinado da burocracia de avaliação nas mãos das potências do mercado. A crise sanitária mostrou os efeitos deletérios da burocracia sanitária sobre o saber científico e a ação política.

Os GAFA[3] estão na vanguarda do mercado do saber e parecem destinados a comprar o conjunto dos valores do mercado. O Google o fez de tal forma que o consumidor é também produtor de um saber, saber que lhe é roubado e transforma aquele que o produz em produto, em mais-de-gozar invisível. Nesse mundo que parece gratuito, o produto é você! É uma ironia da história que a civilização da difusão esteja caindo devido à propagação de vírus invisíveis. Com o Facebook, trocamos o saber produzido pelo sujeito pelo mais-de-gozar da visibilidade obtida pelo sujeito que cria, ele próprio, a adição. Poderíamos sonhar, como os trans-humanistas, que isso levará os corpos a se emparelharem às máquinas para acabarem se tornando indistintos, reduzidos a saberes incorporais recarregáveis remotamente. Uma série inglesa traz uma adolescente anoréxica decidida a não mais poluir o planeta ao se postar post-mortem na web[4].

 

Sintoma e discurso do psicanalista

A pandemia nos mostrou que o gozo continua sendo, entretanto, o gozo dos corpos! E que o mercado do saber ainda não apaga o objeto produzido. Mas o objeto é desejável na medida em que se torna o semblante ou o caminho para um resto de saber imaterial que ele representa. Se tomamos o gadget como um “ter”, é para tentar fazer dele um parecer que nos faça encontrar a singularidade subjetiva perdida. Aquela que se torna o valor em um mercado coletivo que o apaga sempre mais. O objeto, no mercado do saber, não está conectado: ele nos conecta ao mercado do saber.

Lacan, em 1971, em seu Seminário 18, observa que a descoberta de Freud surge em um mundo onde o conhecimento, no sentido da singularidade da experiência, não tinha mais nenhum sentido. Nesse mundo, o que permanecia, no entanto, era o sintoma. Sem dúvida não foi por acaso que Lacan se apoiou em Marx para revisar o lugar do sintoma. O sintoma indica um furo no tecido que o mercado do saber tece. As crises, econômicas, sociais, sanitárias, fazem parte disso. Lacan pode, portanto, dizer: “A única coisa que lhe interessa e que não é um completo fiasco, que não é simplesmente inepta como informação, é aquilo que tem o semblante de sintoma, isto é, em princípio, coisas que nos dão sinal, mas das quais não compreendemos nada” (LACAN, 1971/2009, p. 49). O psicanalista faz parte disso!

Todos esses dados serão retomados por Lacan em Milão, em 12 de maio de 1972, em sua conferência “Sobre o discurso psicanalítico”. A Itália foi um país onde a crise política foi a mais forte, ao mesmo tempo crise econômica do capitalismo, mas também crise do comunismo e surgimento de movimentos revolucionários que pregavam a ação direta, desde o projeto de insurreição do livreiro Feltrinelli até as Brigadas Vermelhas. Nessa conferência, Lacan anuncia a crise do capitalismo e prevê que ele estaria “condenado a explodir”[5]. Esse termo de 1856 (crevaison) designa evidentemente o destino de um pneu e a morte na linguagem popular, assim como uma fadiga extrema. Lacan diz: “isso funciona rápido demais, se consome, se consome de tal forma que é consumido”[6].

E, com efeito, a lógica do mercado necessita de uma aceleração permanente, teorizada hoje por Hartmut Rosa (2013). Acrescenta-se a isso um desperdício permanente dos recursos do planeta. Mas essa lógica do mercado também consume na adição os recursos dos corpos em direção a um-mais-de-gozar obeso. Lacan via em tudo isso algo da peste!

Lacan escreve no quadro o discurso capitalista como uma variante do discurso do mestre: /S1, S2/a. O significante-mestre não parece mais ser um semblante ativo, o encontramos dissimulado no lugar da verdade e, portanto, mais inapreensível. A verdade do sujeito, por outro lado, como no discurso do mestre, desaparece. O sujeito torna-se o agente por excelência do discurso. Vimos como esse sujeito não é mais o “eu” que fala, é de um outro sujeito que se trata. Também não é o sujeito “assujeitado” da política. O sujeito agente do discurso capitalista é livre, desassujeitado e desidentificado, ignorando o significante que o comanda, mas pronto a abrir mão de sua liberdade para todas as adições e todas as submissões. A própria lei se tornou um produto econômico: sofremos e aplicamos a lei da economia mais forte (o dólar!) ou da mais rentável (os paraísos fiscais). O sujeito está, portanto, submetido ao efeito do objeto mais-de-gozar diretamente, de um modo viciante. Por outro lado, esse sujeito não terá mais laço com o saber, exceto ao passar por um acesso à sua verdade no significante-mestre, que o comanda sem que ele saiba. Separado de S1 e de S2, esse sujeito que perdeu sua identidade irá procurar a si mesmo, seja através da transidentidade líquida, seja através de sua recusa em identidades delirantes regressivas e étnicas que são tão fixas quanto fabricadas.

Multiculturalismo e nacionalismo iliberal tornam-se produtos de mercado! Na ausência de um livre acesso ao saber, o sujeito deverá aprender a ser ele mesmo através de técnicas de vida e de corpo (desenvolvimento pessoal) que ditam seus comportamentos com a cumplicidade do Estado. O Estado, que se tornou um grande pedagogo, quer, de fato, mudar o povo pela formação/informação. É o que está por trás do slogan “mudar os comportamentos”, ignorando o saber do povo.

O discurso analítico, ao colocar o objeto a na posição de semblante, tem a possibilidade de desvendar a maquinaria do mais-de-gozar e de fazer valer o objeto a causa do desejo para que ele venha arejar os efeitos do mais-de-gozar. Ao produzir o S1, o discurso analítico pode dar acesso a um sujeito que o comanda e produzir daí o , a queda. Esse significante-mestre é também o coração do que anima seu sintoma.

A saída do discurso capitalista é, portanto, dupla. Enquanto tal, ele só pode sair de si mesmo e, então, encontrar novas formas, sendo que seu discurso faz parte delas. Mas esse capitalismo de mercado permanece preso ao fato de que há apenas gozo dos corpos. A vida nua, a longo prazo, poderia muito bem ser o agente invisível de sua morte.

Tradução e revisão: Márcia Bandeira e Rodrigo Almeida

Referências
COHEN, D. Il faut dire que les temps ont changé. Paris: Albin Michel, 2018.
HEATH, J.; POTTER, A. Révolte consommée : le mythe de la contre-culture. Les Editions l’Échappée: Paris, 2005.
ILLOUZ, E. La fin de l’amour. Paris: Seuil, 2020.
LACAN, J. O seminário, livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.
LACAN, J. “A ciência e a verdade”. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
LACAN, J. O seminário, livro 16: De um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.
LACAN. J. O seminário, livro 18: De um discurso que não fosse semblante. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009.
ROSA, H. Accélération: Une critique sociale du temps. Paris: La Découverte, 2013.
SUPIOT, A. La gouvernance par les nombres. Paris: Fayard, 2015.

[1] Texto publicado originalmente em La Cause du désir, 105, julho de 2020.
[2] Cf. LACAN, J. “De uma reforma em seu furo”, texto publicado com a amável autorização de Jacques-Alain Miller em La Cause du désir, nº 98, março de 2018, p. 9-13. Cf. igualmente LACAN, J. O Seminário, livro 17: O Avesso da psicanálise, texto estabelecido por J.-A. Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda, 1991, p. 196.
[3] GAFA: acrônimo de Google, Amazon, Facebook e Apple, refere-se às quatro maiores companhias da internet. O termo surgiu pela primeira vez na imprensa em 2012 no jornal francês Le Monde. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/GAFA.
[4] Years and Years, série britânica da BBC (2019) exibida na França pelo MyCanal, disponível por streaming.
[5] “Du discours psychanalytique. Discours à l’Université de Milan, le 12 mai 1972”, publicado na obra bilíngue Lacan in Italia 1953-1978En Italie, Lacan. Milan: La Salamandra, 1978, p. 48.
[6] “Du discours psychanalytique. Discours à l’Université de Milan, le 12 mai 1972”, publicado na obra bilíngue Lacan in Italia 1953-1978En Italie, Lacan. Milan: La Salamandra, 1978, p. 48.



CORPOS ANORÉXICOS E O AVESSO DA BIOPOLÍTICA[1] 

HENRIQUE OSWALDO GAMA TORRES
Professor Aposentado do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG,
Coordenador Clínico do Núcleo de Investigação em Anorexia e Bulimia (NIAB/HC/UFMG)
e participante da Coordenação do Núcleo de Investigação e Pesquisa em Psicanálise e Medicina (NIPM/IPSM-MG)
henrique.gamatorres@gmail.com
ANA MARIA COSTA DA SILVA LOPES
Psicanalista praticante, Membro aderente da Seção Minas da Escola Brasileira de Psicanálise.
Professora Adjunta do Departamento de Pediatria da UFMG. Coordenadora Técnica do Núcleo de Investigação em Anorexia e Bulimia (NIAB/HC/UFMG)
e participante da Coordenação do Núcleo de Investigação e Pesquisa em Psicanálise e Medicina (NIPM/IPSM-MG).
Resumo: O presente artigo articula a anorexia e o avesso da biopolítica, da lógica cartesiana, dos protocolos universais. Investiga-se o para além da medicina baseada em evidências, que padroniza e normatiza protocolos. Não se propõe o avesso dos avanços propedêuticos e terapêuticos, mas a aposta de que o corpo escapa às identificações prontas, pois o gozo transborda, o sintoma que faz sofrer “traumatiza”. A aposta no singular da invenção sintomática, ao fazer vacilar a clínica médica, a psiquiatria, entre outros saberes, permite que o sujeito anoréxico apresente o corpo marcado para além do puro organismo, corpos afetados pela linguagem. Investiga-se a relação de cada falasser com seu inconsciente e suas respostas à biopolítica de nossos tempos.

Palavras-chave: anorexia; biopolítica; avesso da biopolítica; medicina; psicanálise.

Anorectic bodies and the reverse of biopolitics

Abstract: This article articulates anorexia and the reverse of biopolitics, of Cartesian logic, and universal protocols. We investigate beyond evidence-based medicine, which standardizes and regulates protocols. We do not propose the opposite of propaedeutic and therapeutic advances, but we believe that the body escapes from predetermined identifications, because jouissance overflows, the symptom that causes suffering, “traumatizes”. The bet on the singular of the symptomatic invention by making the medical clinic, psychiatry, among other knowledges falter, allows the anorexic subject to present the body marked by something beyond the pure organism, bodies affected by language. We investigate the relationship of each speaking being with their unconscious and their responses to the biopolitics of our time.

Keywords: anorexia; biopolitics; the reverse of biopolitics; medicine; psychoanalysis.

 

Imagem: Nelson de Almeida

 

Pensar a clínica da anorexia e o avesso da biopolítica coloca, aqui, um ponto de investigação para além da medicina baseada em evidências, que nomeia e torna universais as respostas sintomáticas do corpo, normatizadas e padronizadas por protocolos de tratamento. A condução clínica de cada caso, orientada pela psicanálise lacaniana, aposta no singular da invenção sintomática ao fazer vacilar a clínica médica, a psiquiatria, entre outros saberes.

O sujeito anoréxico nos demonstra a existência do corpo marcado para além do puro organismo, do corpo afetado pela linguagem. Então, a condução clínica orientada pelo falasser e pelo avesso da biopolítica exige que o sintoma passe a ser definido a partir da singularidade do gozo do corpo. É necessário desconstruir o saber universal que possibilita a identificação em torno do “sou anoréxica” para investigar a relação de cada falasser com seu inconsciente. A biopolítica reduz o corpo à lógica cartesiana, a algoritmos que definem tratamentos universais.

Não se trata, aqui, de propor o avesso dos avanços propedêuticos e terapêuticos, mas de fazer a aposta de que o corpo não é redutível à imagem, aos transtornos, às disfuncionalidades. O que se visa demonstrar é para além do discurso universal: anoréxicas, é possível a aposta no discurso psicanalítico diante das exigências intervencionistas, sem desconsiderar a gravidade de cada caso, mas dando lugar ao singular que cada sujeito inscreve nas marcas do corpo.

Nessa perspectiva, um dos eixos do nosso trabalho é interrogar sobre quais seriam as respostas do falasser à biopolítica de nossos tempos. A título de ilustração, duas situações clínicas desses impasses são demonstrativas. Uma senhora com 20 anos de anorexia foi internada sob crise de hipoglicemia, extremamente desnutrida. A principal preocupação da equipe médica era alcançar um determinado Índice de Massa Corporal (IMC), mesmo à custa de uma alimentação forçada e internação compulsória, para, após o êxito em atingir os níveis de segurança demonstrado pelas evidências científicas, consentir com a alta. O argumento principal seria que o negativismo, a recusa e a agressividade como consequência da desnutrição devessem ser tratados por meio de recuperação nutricional e reforço positivo. A história clínica e o desencadeamento pouco importam. Trata-se de uma anorexia pura e pronto.

O outro caso é de uma jovem de 14 anos que, após se recuperar de uma desnutrição grave, além do incômodo com o corpo recuperado, manifestava também uma nostalgia do corpo magro e de outros atributos que associava a ele: a mais magra das amigas, a mais bonita, a que tirava melhores notas. A perda do corpo magro lhe dava uma sensação de intensa mediocridade e de uma perda no nível do ser. Nesse sentido, verifica-se a ineficácia na tentativa de reduzir o acontecimento anoréxico às classificações, categorias e protocolos. O inconsciente — “sensação de intensa mediocridade e de uma perda do nível do ser” — aponta para a importância da subjetivação do sofrimento.

A biopolítica diz respeito à medicina na medida em que inclui as evidências científicas nos dispositivos utilizados na gestão da população, quando, segundo Foucault, o poder soberano sobre a vida e a morte dos súditos foi substituído, historicamente, pela incorporação da vida, no sentido biológico mesmo, nas considerações políticas dos estados e dos governantes. A partir do século XVIII, passa a se racionalizarem os problemas colocados à prática governamental por fenômenos característicos de um conjunto de seres vivos que formam uma população: saúde, higiene, natalidade, expectativa de vida, raça, entre outros, cuja importância cresce progressivamente desde o século XIX e suscitam importantes questões políticas e econômicas até o presente (EWALD; FONTANA; SENELLART, 2004).

A importância dessa questão não se dá apenas pela racionalidade administrativa que ela enseja, mas por sua face menos visível, a da associação a tecnologias de poder, de cunho disciplinar, que passam a regular a vida no sentido de uma adequação dos corpos aos imperativos da vida política e socioeconômica. Qual é o sentido então de se discutir a anorexia nervosa no contexto da biopolítica? Provavelmente pelo fato de que a anorexia, no seu enfrentamento aparentemente irracional dos pressupostos da saúde e da preservação do corpo biológico, desafia a racionalidade fundadora da biopolítica. Nesse sentido, o papel da medicina tem sido o de um disciplinador feroz dos corpos anoréxicos.

Nesse sentido, torna-se essencial uma breve retrospectiva histórica, em que se pode observar certo paralelismo entre a história da anorexia e a da biopolítica. De início, antes da definição da anorexia como entidade nosológica, temos o histórico da anorexia santa, com as descrições de casos tais como o de Catarina de Siena, na segunda metade do século XIV. Estudos sobre as santas anoréxicas indicam diferenças entre aquela anorexia e a anorexia moderna, destacando a ausência de questões com a imagem corporal nas primeiras, em quem a recusa alimentar encontrava-se atrelada a valores de pureza religiosa e proximidade de Deus. Não deixa de destacar, entretanto, principalmente no caso de Catarina de Siena, a condição feminina ou a afirmação feminina diante da estrutura masculina e patriarcal da igreja católica da época, que não deixa de ter algo de uma confrontação política, mas não necessariamente ligada à biopolítica. Destacam-se os casos em que anoréxicas foram submetidas a acusações e julgamentos por heresia e bruxaria, confrontadas com profundo ceticismo pela hierarquia clerical masculina (BELL, 1985).

A primeira descrição de um caso de anorexia nervosa será realizada por Robert Morton, em 1686, que destaca a recusa de alimento e tratamentos a uma jovem de 20 anos e expressa sua perplexidade com a escolha pela inanição, dando origem às considerações sobre o caráter emocional ou psíquico da condição. Destaca-se que coincide com a época da origem histórica da biopolítica. Relatos esparsos sobre anorexia ocorrem ao longo do século XVIII, mas o reconhecimento específico e a nomenclatura tiveram de aguardar os relatos independentes de William W. Gull, em 1868, e Lassegue, em 1874. Ambos destacam a possível gênese psíquica da anorexia e Lassegue faz uma descrição clínica muito rica, destacando o caráter egossintônico, a rigidez anoréxica, a perplexidade e a impotência da família. Momento que corresponde à ascensão da vida burguesa, com todo o seu aparato de costumes e com a posição da mulher, que deve ser contida, casta e virtuosa (BELL, 1985).

O emprego do diagnóstico de anorexia mental por Charcot acaba por consolidar a anorexia nervosa (ou mental, ou histérica) como categoria, e a apresentação de Pierre Janet, em 1906, em Harvard, consolida as bases para a definição de uma etiologia psíquica para a anorexia nervosa. Entretanto, pouco tempo depois da palestra de Janet, em 1914, a publicação de Simmonds acerca dos achados de necrópsias com lesões destrutivas da hipófise em grávidas gravemente desnutridas desloca completamente a avaliação etiológica para o campo da doença somática, e os achados psicológicos isolados por Gull e Lassegue passam a ser ignorados pelos próximos vinte anos. Dessa forma, a abordagem da desnutrição extrema, mesmo aquela claramente autoinflingida, foi, nesse período, abordada como uma condição endocrinológica. Mesmo após a distinção entre os achados de Simmonds e a anorexia ser finalmente alcançada no fim dos anos 1930, abordagens somáticas passaram a ser proeminentes nas tentativas de tratamento da desnutrição autoinflingida (BELL, 1985).

Os anos 60 trazem o importante marco de Hilde Bruch, que retoma os aspectos psíquicos da anoréxica mas destaca a “anorexia pura”, diferente da anorexia associada a outras condições psíquicas e considerada pouco permeável às técnicas psicanalíticas de escuta e interpretação tradicionais. Em trabalho inaugural, que se torna referência importante, destaca-se o aspecto da recusa e aponta a mudança de comportamento da jovem anoréxica que, de criança boa e cordata, transformava- se em uma criança negativista, raivosa e desconfiada, que rejeitava ajuda e cuidado de forma obstinada, alegando deles não necessitar, e insistindo no direito de ser tão magra quanto quisesse. Contudo, destaca o papel fundamental da fala como elemento da cura da anorexia (BRUCH, 1982).

Mais recentemente, o pêndulo pende novamente para uma etiologia biológica da anorexia nervosa. Essa disposição pode ser observada na mudança ocorrida no DSM-IV para o DSM-5, em que a palavra recusa (recusa em manter o peso corporal igual ou acima do peso minimamente normal para a idade e estatura, critério letra A), presente no DSM-IV, foi retirada de forma deliberada do DSM-5. O argumento principal foi de que a recusa implica um processo psicológico ativo e consciente, frequentemente não observável nesses pacientes, e que o modelo psicológico inicial é aquele de pacientes que se engajam em dietas com o objetivo de perder peso, sem necessariamente buscar uma perda que levaria à condição anoréxica. A manutenção ativa da perda de peso promovida pelo jejum ocorreria naqueles casos em que se dispara o mecanismo biológico hipotético presente nos predispostos, ligado à deficiência genética de uma enzima do metabolismo lipídico. Os propositores da retirada da palavra “recusa” afirmam que a interpretação da forma usual de perder peso como um processo intencional e deliberado tem influenciado excessivamente a forma de pensar sobre o paciente portador de anorexia (DSM-5, 2014).

Chegamos então à atualidade, em que a abordagem médico-psiquiátrica da anorexia se radicaliza no sentido da afirmação de sua origem geneticamente determinada a partir dos estudos GWAS (Genome-wide association studies). Paralelamente, as jovens anoréxicas e bulímicas vão se organizando em comunidades virtuais, autodenominadas como “Anas” e “Mias”, respectivamente. As comunidades virtuais procuram preservar a identidade anoréxica, ainda que à custa de dispositivos medicamente justificados.

Composto por uma série de referências cruzadas e sites em constante mudança, o movimento é entendido como de defesa da anorexia e outras práticas semelhantes relacionadas à alimentação e como um estilo de vida e escolha de identidade legítimos. Indivíduos — principalmente mulheres — participam do movimento, em grande parte de forma anônima e por pseudônimos, compartilhando dicas e truques para perda de peso, dietas, exercícios e materiais de “thinspiration” (destinados a promover ou sustentar a perda de peso) on-line, com blogs pessoais, poesia, salas de bate-papo e, mais recentemente, postagens no YouTube e Facebook expandindo sua troca virtual. Trata-se de vozes inaceitáveis nos discursos mainstream sobre anorexia, e essa troca virtual é censurada não só pelo seu conteúdo perigoso, mas também pelo seu potencial de contaminação. Se há uma grande discussão na literatura sobre tratamentos coercitivos e compulsórios da anorexia, a formação dessas comunidades constitui uma resistência ao discurso médico normativo sobre o corpo e sobre a anorexia (BELL, 2009).

Aqui, um desafio se coloca na condução do tratamento psicanalítico, que é a aposta em saídas que não sejam pela identificação, tal como as comunidades de gozo e os novos e crescentes modos de segregação. Será o desejo decidido do analista, acolhendo esses sujeitos, suportando a repetição monótona do tema em torno do alimento, do peso, das práticas purgativas que, via transferência, possibilita o tratamento, que visará dar lugar a uma nova subjetivação do sofrimento.

Se a posição médica normativa e a reação das comunidades anoréxicas autorizam pensar em biopolítica em relação à anorexia, faz-se essencial que se discuta o que foi abordado no texto “O avesso da biopolítica”, de Éric Laurent. O psicanalista alerta continuamente que é necessário diferenciar sobre qual corpo estamos falando e sobre que discurso se procura consumar na modernidade científica e tecnológica, a identificação entre o corpo-máquina e o ser falante (LAURENT, 2016).

Se a medicina constrói sua prática (seu saber-poder) no registro do corpo-máquina, a essa abstração cartesiana parece que, apesar do caráter de resistência que se encontra na base da formação das comunidades anoréxicas, estas também parecem estar submetidas a esse mesmo paradigma quando se utilizam de versões do saber médico para disseminar suas práticas e moldar seus corpos. O movimento pró-anorexia está inextricavelmente ligado à lógica médica e não escapa da sua autoridade ao tentar ressignificar sua força disciplinar.

O discurso médico dominante é central para a identidade “Ana” — comunidades de gozo. Os sites diagnosticam anorexias, prescrevem métodos para perda de peso ou manutenção do baixo peso, conforme uma lógica do corpo-máquina, manipulável conforme o efeito que se deseja. Essa manipulação toma proporções às vezes dramáticas no uso de vomitivos, laxantes, diuréticos ou de restrição alimentar, isolados ou em combinação, levando pacientes aos limites da tolerância fisiológica, ao fio da navalha entre a vida e a morte. Observa-se uma crença nas tecnologias medicamentosas para a purgação e a perda de peso e um regozijo com a capacidade de se controlar e manipular a fome e a silhueta, como se a natureza que demanda nutrição adequada pudesse ser colocada sob controle sem qualquer prejuízo.

Em suma, a aposta de tratar o corpo anoréxico via o avesso da biopolítica é pela via que nos ensina a psicanálise, pois o corpo escapa às identificações prontas, o gozo transborda, o sintoma que faz sofrer, que “traumatiza” quando acolhido em seu falasser pelo analista, pode permitir que o sujeito escreva, de outro modo, o que se inscreve desse encontro traumático.

 


 

Referências
BELL, R. M. Holy anorexia. Chicago: The University of Chicago Press, 1985.
BELL, M. “@ the doctor´s office: pro-anorexia and the medical gaze”. Surveillance & Society, n.6. vol.2, p. 151-162. Dispnível em: http://www.surveillance-and-society.org.
BRUCH, H. “Anorexia Nervosa: therapy and theory”. The American Journal of Psychiatry. n. 139, v. 12, dez. 1982. Disponível em:       https://ajp.psychiatryonline.org/doi/abs/10.1176/ajp.139.12.1531
EWALD, F.; FONTANA, A.; SENELLART, M. (1978–79) The Birth of Biopolitics Lectures at the collège de france. Paris: Editions du Seuil/Gallimard, 2004.
LAURENT, É. O avesso da biopolítica: uma escrita para o gozo. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016.

[1] Texto apresentado no Núcleo de Investigação e Pesquisa em Psicanálise e Medicina – Seção Clínica do IPSM-MG, em 06/05/2022.



O INCONSCIENTE E O CORPO POLÍTICO: A PSICANÁLISE HOJE[1] 

RICARDO SELDES
Psicanalista, AME da EOL/AMP
ricardoseldes@gmail.com

Resumo: O futuro da psicanálise é algo que está sempre em questão, pois está ligado ao lugar de onde cada um conseguiu chegar com seu sintoma analisado, algo que exige a abertura para o desconhecido e não ao que já está categorizado. Nessa perspectiva, se indicações ao analista existissem, elas estariam ligadas a uma transmissão da psicanálise, que se faz de analisante a analista e pela transferência de trabalho, apresentando o desejo de Lacan nos bastidores, vivo e novo contra os standards congelantes de uma experiência que não pode deixar de ser tão viva quanto esse desejo.

Palavras chaves: futuro da psicanálise; transmissão.

Interpretation: The Unconscious and the body politic: psychoanalysis today.

Abstract: The future of psychoanalysis is something that is always in question because it relates to how each person managed to do with their analyzed symptom, something that requires an opening to the unknown and not to what is already categorized. From this perspective, if analyst referrals existed, it would be linked to a transmission of psychoanalysis, which happens from analysand to analyst and through transference of work, and having Lacan’s desire, which is always alive and new, against the freezing standards of an experience that can’t help but be as alive as this desire.

Keywords: future of psychoanalysis; transmission.

 

Imagem: Fred Bandeira

 

Agradeço este convite por vários motivos: primeiro, pela amizade que tenho com vocês há muitos anos, pois não é novidade que eu gosto da Escola Brasileira de Psicanálise, e porque acredito que, nestes tempos em que existem tantos ataques à liberdade da palavra e o conseqüente ataque à psicanálise, os psicanalistas e, em particular, os de orientação lacaniana, têm que conseguir ficar mais unidos do que nunca.

Claro que, como o sangue não-todista corre em nossas veias, a pergunta que nos fazemos é: como podemos ser solidários com o futuro da psicanálise? Isso é algo que está sempre em questão.

Essa mesma proposta exige alguns princípios e alguns acordos que, como a verdade, nunca são definitivos, nem devem nos levar à burocratização da prática clínica ou da prática institucional, que são duas experiências subjetivas. Claro que o coletivo, o individual, as forças que fazemos juntos estão sempre em questão, mas pelo discurso analítico, desde o lugar aonde cada um conseguiu chegar com seu sintoma analisado ou, podemos dizer, com seu “sinthoma”, na medida em que é sempre um arranjo.

Há alguns anos, em preparação para um dos Congressos da Associação Mundial de Psicanálise que aconteceu no Brasil, na Bahia[2], tive o prazer de fazer parte do Comitê de Ação junto com meus amigos Esthela Solano, Jésus Santiago e Marco Focchi. Na ocasião, o tema que escolhi foi o das indicações e contraindicações à psicanálise a partir de uma intervenção de Miller na International Psychoanalytical Association (IPA), na qual ele falou sobre as não-indicações à psicanálise, o que é uma forma de conceber a prática diferente daquela de muitos dos colegas da IPA.

O essencial poderia ser resumido dizendo que, com a psicanálise aplicada, não temos contraindicações, e podemos acrescentar: se, no passado, se falava das indicações para uma análise, era para localizar se uma determinada estrutura psíquica era adequada ou não. No tempo do falasser, quase todo mundo pode ser analisado.

Qual foi a principal contraindicação de Freud? Ele afirmou:

“Nos anos anteriores à guerra, quando a afluência de pacientes estrangeiros me tornou independente da simpatia ou antipatia de minha própria cidade, eu seguia a regra de não tratar pacientes que não fossem sus juris, ou seja, que não fossem independentes nas questões essenciais da vida.” (FREUD, 1917, p.610)

Sui juris é uma frase latina que significa, literalmente ‘em seu próprio direito’. Em Direito Civil, indica a capacidade jurídica para administrar seus próprios negócios. Mas, é claro, continua Freud: “Não é algo que todo psicanalista pode se permitir” (FREUD, 1917, p.610).

Freud assim se manifesta: “Os senhores perceberão, naturalmente, como as perspectivas de um tratamento são determinadas pelo meio social e pela condição cultural de uma família“ (FREUD, 1917, p.610). Freud mesmo teve que suportar abusos da família de uma paciente que foi retirada do tratamento por ter  revelado em análise segredos extraconjugais da mãe.

No início de um tratamento ainda não há um caso, mas há condições para que isso ocorra. Desde a primeira consulta, localizamos dados clínicos que nos permitam captar a decisão do sujeito. Estamos no limite do sujeito suposto saber, estamos nas provas que o analista, sutilmente, pede para que se permita que o sujeito suposto saber se instale.

Nos tempos atuais, tentamos trabalhar a inconsistência, ou seja, algo diferente da psicanálise construída na lógica das classes, a que permite dizer isso é ou isso não é. Assim como a primeira psicanálise foi erguida na lógica do para todo x, neste momento atual ela visa não a classe, senão a série, pois com ela temos a invenção, os arranjos e a abertura mais para o desconhecido do que para o que está categorizado.

Os trabalhos do IV Congresso da Associação Mundial de Psicanálise que investigou a prática sem standards, mas não sem princípios[2], estavam em andamento quando me detive sobre um Simpósio da IPA, do ano de 1967,[3] para pesquisar sobre como as regras técnicas, das quais Lacan nos dispensa, tentavam localizar o real que encontravam em sua prática. Nesse Simpósio descobri, em princípio, três períodos diferentes sobre as regras técnicas que interrogavam aqueles pontos limites, nos quais a experiência do real estava dentro ou fora da experiência analítica.

O esforço dos analistas das décadas de 1920 e 1930 se concentrou em conceituar o obstáculo que limita a intervenção analítica — não para retroceder, mas para tentar inventar uma maneira de ultrapassar o obstáculo. No segundo período, proliferaram as listas de contraindicações baseadas em traços de inadequação dos pacientes ao dispositivo. Também coincide com o que chamaram de um entusiasmo excessivo dos colegas para cuidar de pacientes decepcionados com a psiquiatria.

O terceiro e atual momento da IPA é aquele em que a psicanálise se desprende das regras — não em busca de desregulamentar os padrões e capturar a singularidade do gozo de cada pessoa, mas, ao contrário, para homogeneizar todos os gozos.

Para Lacan, não se trata de escolher os pacientes, mas de que eles possam dar forma de pergunta à sua demanda, que a problematizem. Estamos obrigados a saber o que se pede; mais precisamente, o que define a demanda é que nunca se sabe o que se deseja. Lacan pergunta: “O sujeito suposto saber de onde é suportada, definida a transferência é suposto saber o quê? Como opera? (LACAN, 1977, p. 2, tradução nossa). E acrescenta:

“Seria totalmente excessivo dizer que o analista sabe de que modo operar. O que seria necessário é que ele saiba operar convenientemente, ou seja, que possa se dar conta  do alcance das palavras para seu analisando, o que incontestavelmente ignora.” (LACAN, 1977, p. 2, tradução nossa)

Daí a indicação de não compreender. No lugar de técnicas e regras, que já vimos a que conduzem, colocamo-nos sob a noção de enfrentamento do real. Neste ponto, sabemos que não apostamos em interpretações padrão, mas que nossas interpretações são feitas sob medida.

O risco de assimilar a interpretação como formação do inconsciente é acreditar que ela é o que responde à associação livre, com a consequência de tomar a interpretação como associação do analista. Confundir interpretação com associação é pensar que o significante da interpretação preencheria um buraco nas associações do sujeito, supondo que o preenchimento desse buraco permitiria ao sujeito dar um passo. Partimos da ideia de que é a interpretação que vai ao encontro da transferência — não uma associação que proporciona ao sujeito a ligação com o S2, mas que opera no vetor de uma dissociação, de um corte na cadeia significante entre S1 e S2. Isso nos confronta com a dimensão do S1 sozinho.

Quando estamos nesse nível, podemos considerar que existem certas palavras que o sujeito distingue, que  lhe tocam; quaisquer palavras, inclusive palavras banais que  foram ditas a um terceiro e escutadas por acaso. Mas, se o sujeito as toma para si, elas adquirem um status de palavras primeiras, separadas, não binárias, como está na moda, pois a cadeia significante é binária. Visamos então o não binário para capturar, produzir, isolar o S1. O corte da interpretação produz uma separação significativa do S2 como se pode ver no andar inferior do Discurso do Analista.

Como evitar que a intervenção do analista, que denominamos, genericamente, de interpretação, não acrescente mais um significante à cadeia, mas a produção daquele S1? Vamos partir do mais básico, da idéia de que a psicanálise é uma oferta explícita de palavras: fale, estou ouvindo. O que está implícito é o não entendimento, sem limitar a curiosidade necessária ao que a palavra dita produz.

Entretanto, no momento em que o enquadramento analítico fica explícito ao estabelecer as regras do jogo, adiciona-se uma explicação: você associa, fala tudo, a mais plena bobagem, e aí eu vou interpretá-la. Alguns chamavam de devolver, termo de que nunca gostei, como uma espécie de reembolso; não há virtude em supor um dar e receber quando, muitas vezes, o que se impõe é o silêncio do analista.

Lacan vai propor no Seminário 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964), naquele momento de ruptura definitiva com a IPA, a função do analista como objeto, destacando, especialmente, a tensão que existe entre o inconsciente e a interpretação. Já não se trata do inconsciente como reservatório dos significantes do sujeito, pois, quando se trata do discurso do analista, é o inconsciente que interpreta. O que poderíamos acrescentar que não seja para redobrar essa interpretação?

Como dissemos antes, Lacan trará à tona a questão do fechamento do inconsciente, e há ai um paradoxo, pois ele nos dirá que esperamos esse efeito da transferência para interpretar, ao mesmo tempo em que a transferencia fecha o sujeito ao efeito de nossa interpretação. São os enganos do amor…

Isso não impedirá Lacan de avançar dizendo que a transferência é o amor que se dirige ao saber, o que implica que a interpretação não obtém seu alcance senão nos momentos em que o saber inconsciente é interrompido. E o que isso quer dizer?

Tentamos localizar uma erótica da presença do analista quando Lacan definiu a transferência como a atualização (no sentido do ato) da realidade do inconsciente como sexual.

Para entender isso, temos que fazer um pequeno loop porque, se o sujeito entra em jogo a partir do suporte fundamental que é o Sujeito Suposto Saber, isso não acontece simplesmente, sem que haja um porquê. Há uma causa anterior e Lacan aponta, de modo claríssimo, que, se há uma suposição de saber, isso se dá porque há um sujeito do desejo. Não é pouca coisa dizer isso. Se existe um suposto  saber, é porque o analista é o sujeito do desejo.

Disso decorre a dificuldade quando o Sujeito Suposto Saber é instalado em outra parte, em outra pessoa. Essa é uma estranha formulação, porque, nesse ponto, Lacan já não coloca mais  a análise como intersubjetiva. A torção que ele faz é percebida. Quando há amor de transferência isso remete ao narcisismo ou, como disse Freud, ama-se ser amado.

Mas que tipo de efeitos pretendemos? Os efeitos lacanianos são o que definem a experiência analítica como uma pesquisa clínica para encontrar os pontos onde se alcança a certeza, no encadeamento entre a cadeia significante e o gozo pulsional. Se existe um fenômeno lacaniano, isso implica que ele é escutado e, se existe, é porque ele é apresentado com um sentido. No entanto, o inconsciente tem mais a ver com o Witz. Esse é um princípio que nos leva a evitar a compreensão emocional dos pacientes.

Se indicações ao analista existissem, elas  indicariam aquele ponto em que a transmissão da psicanálise, que se faz de sujeito a sujeito e pela transferência de trabalho, apresenta o desejo de Lacan nos bastidores, vivo e novo contra os standards congelantes de uma experiência que não pode deixar de ser tão viva quanto esse desejo.

Ao contrário da tarefa complicada e impossível de tentar homogeneizar os gozos, seja por decreto, seja por invasão, interrogamo-nos sobre algo que nos retira da lógica de um certo totalitarismo psicanalítico. Sabemos que o totalitarismo é uma esperança, a de reabsorver as decisões singulares, a multiplicidade da verdade. No totalitarismo só existe uma verdade, que é a enorme tarefa de estabelecer o reino do Um. No campo da política temos claramente o que Freud indicou em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921). Na política cidadã, o totalitarismo tem boas intenções; a aspiração a um mundo de harmonia, todo mundo reconciliado, como algumas religiões o buscaram (na superfície, é claro). Mas ainda é uma ilusão que não se sustenta.

Não preciso explicar muito quando digo que, se falamos do sujeito do inconsciente, pensamos em desejo, e, quando colocamos a questão do falasser, estamos do lado do gozo e da pulsão, em que o sujeito é sempre feliz. Ele é feliz porque a pulsão é sempre satisfeita, direta ou indiretamente; do ponto de vista econômico, ela é satisfeita dolorosamente ou agradavelmente, do lado do prazer ou do desprazer. Esta tese corresponde a apontar que existem arranjos ou modos de gozo, como sugere Lacan, em Televisão (LACAN, 1974/2003), nos quais  o sujeito é sempre feliz na satisfação da repetição.

Assim, afirmamos que la urgencia dicha, como dizemos em espanhol, dita no sentido de falada — nos remete àquela estranha felicidade do silêncio das pulsões que podem atingir o mais mortífero.

Miller disse que afirmar que o sujeito é feliz é uma vociferação. Uma vociferação é uma exclamação que vem de uma voz muito alta. Não é uma afirmação, nem uma proposição. A  proposição sempre vem com sua suposta afirmação: é um fato sem valor de verdade ou falsidade. A vociferação, por outro lado, supera a divisão do enunciado e da enunciação, pois não suspende, nem se distancia de quem a pronuncia, mesmo quando não há outro que não se distancie de onde se pronuncia. Ela é, fundamentalmente, seu ponto de emissão.

Somos consultados, em várias ocasiões, devido à depressão:

“O que a tristeza tem de central é que ela é um saber; existe lucidez na tristeza, mas é um saber triste, por ser cortado da vida, separado do real do gozo. É um saber que se articula só, e que perdeu o vazio que o articularia ao gozo em si.” (LAURENT, 2000, p.88)

O analista é aquele que se orienta pela ética do bem dizer, que prescreve encontrar um acordo, uma harmonia, sim, mas se trata de uma certa harmonia entre o significante e o gozo. O problema da depressão é uma questão de saber, é fundamentalmente um saber triste, que não pode ser dito. Recebemos pacientes deprimidos, muitas vezes como uma emergência, moderados ou graves, que não conseguem colocar em discurso algo do não dito. Paradoxalmente, a chamamos de “a dita urgência”, aquela que se desfruta sem saber. A escuta da demanda de cada um marca uma virada, pois, para o discurso analítico, os fatos do desejo e a resposta do gozo são singulares.

Se a temporalidade da análise é a angústia, e isso vale também para a urgência, para aquele momento de perplexidade em que a palavra fica presa na garganta, como diria Chico Buarque. Temos a função operativa do desejo do analista que visa despertar um contorno de espera. Não de esperança, isso sempre complica. Podemos caracterizá-la como uma proposta que permite uma mistura de aborrecimento, nos momentos de agitação – o tédio está sempre à espera de Outra Coisa –  com a oferta de encontrar uma surpresa mais eficiente que a disjunção ou o desapego do Outro.

Freud descobriu  que o corpo do falasser fala. Mas também goza, especificou Lacan. É o que a psicanálise demonstra: não há gozo sem corpo e que uma análise não visa apenas decifrar a verdade, mas também o gozo produzido no sinthoma.

Na aula V do seminário Mais Ainda, Lacan dirá que “todas as necessidades do ser falante estão contaminadas pelo fato de estarem implicadas com uma outra satisfação – sublinhem as três últimas palavras – à qual elas podem faltar.” (LACAN, 1973, p.70)

Já sabíamos que não basta pensar na satisfação da necessidade para entender o que é satisfação, pois existe outra. Qual é o outro termo ao qual essa outra satisfação se somaria? Essa outra satisfação dará origem ao inconsciente, que se satisfaz no nível da linguagem, diz Lacan nessa aula do seminário Mais, ainda, na qual já está preparando seu conceito de falasser.

O inconsciente é o lugar da satisfação, e não apenas do que é interpretado ou decifrado.Nesse seminário, o salto é perceber que o significante não tem apenas efeitos de significação, mas também de gozo, ou seja, o significante não apenas mortifica o organismo do ser vivo, mas também produz gozo. E é com isso que temos que lidar na análise, que é, fundamentalmente, uma experiência de fala.

Isso é também, particularmente, verdadeiro para a interpretação que é o modo de intervenção do analista. A interpretação não é solicitada por seus efeitos de sentido, mas de gozo, por seus efeitos corporificados. Trata-se aí de colocar, junto à dimensão da verdade, a da materialidade do significante, ou seja, o som, o que nos leva à noção de lalíngua, na qual é o som, o fonema, que tem uma importância especial. Isso dá à interpretação uma cor especial, essa sua emigração da comunicação do saber para um grito, uma jaculatória, um uso do significante sem o uso do sentido, pois, o que importa é a sua consistência, “o que poderia fazer soar o sino do gozo de maneira conveniente para satisfazer-se com ele” (MILLER, 2011, p.268, tradução nossa).

E aqui estamos no ponto em questão: devemos separar o gozo da satisfação. Não haveria experiência analítica se o gozo fosse satisfatório. Somente a jaculação pode retificar, não o sujeito, mas o gozo para que possa ser concebido como satisfatório. Em outras palavras, temos um gozo que seria satisfatório e um outro que não.

Faço um curto-circuito para pensar no discurso da ciência que tende a ser universalista, pois não pode responder à questão que nos é colocada em consequência do que chamamos de a modalidade do gozo ou, pode-se dizer, o imperativo de gozo do qual cada um é escravo. E isso é em si uma resposta.

Pretende-se que o discurso científico ofereça respostas para o gozo, mesmo aquele  que vemos muito grosseiramente em nosso campo, que atua como um discurso científico, com suas extrações absurdas e estatísticas sugestivas.

 

Revisão: Beatriz Espírito Santo

REFERÊNCIAS: 
FREUD, S. (1917). Conferência 28, A terapia analítica. In: Sigmund Freud, Obras Completas, v. 13, Conferências introdutórias à psicanálise (1916-17), São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
FREUD. S. (1921) Psicologia das massas e análise do eu. In: Sigmund Freud, Obras Completas, v. 15. Psicologia das massas e análise do eu e outros textos – 1920-23, São Paulo: Companhia das Letras, 2011. 
LACAN, J. (1964). O Seminário, livro 11os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
LACAN, J. (1974). Televisão. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
LACAN, J. (1973). Aristóteles e Freud: a Outra satisfação, In: O Seminário, livro 20: mais ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
LACAN, J. (1977). Una práctica de charlataneria. In: O Seminário, livro 25: El momento de concluir, inédito.
LAURENT, E. (2000). As paixões do ser. Seminário da VII Jornada da Escola Brasileira de Psicanálise. Salvador, Bahia: Escola Brasileira de Psicanálise, 2000.
MILLER, J.A. (2011). El goce no miente, In: Sutilezas analíticas. Buenos Aires: Paidós, 2020.

[1] Conferência pronunciada na Aula Inaugural do Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais, em 07 de março de 2022.
[2] IV Congresso, em Comandatuba, 2004: “A prática lacaniana da psicanálise: sem standard mas não sem princípios”
[3] IV Congresso, em Comandatuba, 2004: “A prática lacaniana da psicanálise: sem standard mas não sem princípios”
[4] Trata-se do 25º. Congresso da International Psichoanalytical Association (IPA), ocorrido em Copenhagen, sobre o tema “Tratamento Psicanalítico da Neurose Obsessiva”



O CORPO: DO CLÍNICO AO POLÍTICO[1] 

 

ELAINE ROCHA MACIEL
Psicanalista, mestre em Educação pela UFMG
elainermaciel@yahoo.com.br

Resumo: A noção de corpo na psicanálise passou por redefinições ao longo da obra de Freud e do ensino de Lacan. Focaremos no último ensino de Lacan, em que o corpo é afetado por lalíngua. Um encontro traumático, derivado do choque entre língua e corpo, tendo como resultado um acontecimento de corpo e produção de efeitos de gozo. Um gozo fora do sentido, que se apresenta enquanto excesso e que deixa marcas no corpo, acontecimentos que são os sintomas. Esses sintomas manifestam-se de diversas maneiras na contemporaneidade. Trata-se de uma dimensão clínica articulada a uma dimensão política.

Palavras-chave: corpo; lalíngua; acontecimento de corpo; sintoma; política.

The body: from the clinician to the political

Abstract: The notion of body in psychoanalysis underwent redefinitions throughout Freud’s work and Lacan’s teaching. We will focus on Lacan’s last teaching, in which the body is affected by lalangue. A traumatic encounter, derived from the clash between language and body, resulting in a body event and producing effects of jouissance. A jouissance outside of meaning, which presents itself as an excess and which leaves marks on the body, events that are the symptoms. These symptoms manifest themselves in different ways in contemporary times. It is a matter of a clinical dimension articulated to a political dimension.

Keywords: body; lalangue; body event; symptom; policy

 

 

Desde o início da psicanálise, Freud se dedicou à difícil relação entre o sujeito e o seu corpo, quando do seu encontro com os sintomas corporais presentes na clínica da histeria. As conversões histéricas se referiam ao recalque, que, num primeiro momento, apoiava-se somente nas representações. Posteriormente, Freud percebeu que havia algo para além das representações, passando a considerar essas perturbações conversivas a partir da pulsão. Tratava-se de um corpo atravessado pelo real. Esse atravessamento indicava uma outra causalidade, referindo-se à existência de um corpo libidinal. Quer dizer, não se tratava tão somente de que as histéricas endereçassem sua fala ao Outro para ser decifrada, em busca de uma verdade que o recalque recobria, mas sim de um falar com seu corpo, advindo da marca nesse corpo (MILLER, 2004, p. 51).

Passa-se de uma lógica da representação para uma lógica da pulsão, fazendo surgir uma outra concepção de sintoma e uma nova noção de corpo. Miller (2004), em Biologia lacaniana e acontecimento de corpo, destaca em Freud uma articulação entre essas duas lógicas: “atrás das representações, há as pulsões. As pulsões se exprimem pelas representações. É a sua maneira de nos apresentar uma conexão do significante e do gozo. Em sentido próprio, o recalque recai sobre as representações, mas também sobre as pulsões” (MILLER, 2004, p. 55).

As investigações de Freud sobre a sexualidade infantil também corroboraram com a ruptura da concepção restrita de corpo biológico. Ela trouxe à tona o corpo pulsional e evidenciou que há algo que escapa ao domínio do saber, saber esse inerente ao corpo biológico. Seguindo nas suas construções, Freud se deparou com a fragmentação do corpo nas psicoses e com os fenômenos, derivados dessa fragmentação, que afetam o corpo. Essas construções fundamentaram a sua teoria do narcisismo e da constituição do eu.

A noção de corpo na psicanálise passou por redefinições ao longo da obra de Freud, bem como do ensino de Lacan, considerando a subjetividade de cada época. Em Lacan, primeiramente, tínhamos o corpo relacionado à sua forma, ou seja, encontrava-se ligado à imagem, sendo sua referência o estágio do espelho. Com isso, o gozo era da ordem imaginária, sendo governado pela articulação simbólica. Sobre esse momento, Miller diz que “O eixo do interesse de Lacan não é o acontecimento de corpo, é a irrupção do símbolo no real. Sua questão é saber como o significante vem a se desencadear no real. É uma questão que é, essencialmente, da parte do sujeito do significante” (MILLER, 2004, p. 56). A lógica em questão era a das estruturas significantes que decorrem do Outro, sendo o inconsciente estruturado como uma linguagem.

 

O sintoma como acontecimento de corpo

No último ensino de Lacan, o corpo ganha um novo e significativo estatuto na sua relação com o gozo, o que acarreta uma orientação da clínica em direção ao real. Trata-se de um corpo afetado por lalíngua, ou seja, uma língua que precede à linguagem e que impacta o corpo. Segundo Miquel Bassols, lalíngua é “definida pela substância gozante veiculada pelo significante, uma substância que toca o real do corpo. O real de lalíngua dá corpo à imagem” (BASSOLS, 2016, p. 13).

Esse encontro traumático, derivado do choque entre língua e corpo, tem como resultado um acontecimento de corpo. O acontecimento de corpo é o impacto do significante, que opera fora do sentido, sobre o corpo, marcando-o e produzindo efeitos de gozo. “Trata-se de um acontecimento produzido por um encontro que não responde a nenhuma lei prévia, impossível de ser abolido, um gozo silencioso e fixado de uma vez por todas, que não cessa e que também não tem por que, mas que se reitera” (MANDIL, 2014, p. 01).

Essa presença significativa da dimensão do real do corpo muda o estatuto do inconsciente e leva Lacan a propor a substituição do termo “inconsciente freudiano” por “falasser. Sobre essa substituição, Miller (2016), em O inconsciente e o corpo falante, propõe “tomá-la como índice do que muda na psicanálise no século XXI, quando ela deve levar em conta outra ordem simbólica e outro real diferentes daqueles sobre os quais ela se estabelecera” (MILLER, 2016, p. 06).

Enquanto o inconsciente freudiano tem relação com a consciência e está articulado ao sentido, o falasser se refere ao acontecimento de corpo, o que leva Miller a dizer que falar com seu corpo caracteriza o falasser (MILLER, 2004, p. 51). O falasser não é o corpo que fala, pois a fala não tem relação com a função cognitiva do corpo, uma vez que a língua não está ligada ao aprendizado. Se assim o fosse, existiria, a princípio, um ser, e, posteriormente, esse ser adquiriria a capacidade de falar. De outra maneira, a estrutura de linguagem antecede ao sujeito, enquanto corpo e enquanto ser. Ela é a condição do corpo falante. Por isso, a língua não se aprende, mas se transmite, a partir de uma experiência de gozo que atravessa o corpo.

Isso tem como efeito a separação entre o corpo e o ser. É justamente por não se reduzir ao seu corpo que o humano se distingue do animal. O animal identifica o ser e o corpo, ele é um corpo, fazendo com que o seu saber esteja nesse corpo. Diferente disso, o humano não é o corpo, ele o tem. Não se trata somente de uma imagem especular do corpo, mas, como nos afirma Bassols, “principalmente uma experiência de ter um corpo como unidade na qual se localiza uma satisfação pulsional, uma experiência de gozo” (BASSOLS, 2016, p. 13).

Um gozo opaco, por ser fora do sentido, e que se apresenta no corpo enquanto excesso. Ele deixa marcas no corpo, acontecimentos que são os sintomas. Trata-se de um sintoma que se diferencia do sintoma entendido como formação do inconsciente estruturado como uma linguagem. Ele não se refere à metáfora, ou seja, a um efeito de sentido passível de ser decifrável e que revela um desejo inconsciente. Diferente disso, o sintoma de um falasser é um acontecimento de corpo. Éric Laurent descreve o acontecimento de corpo como sendo “‘tudo o que chega’, com uma dimensão de surpresa ou de contingência, antes que se possa estabelecer o sentido desse encontro. Apresentar assim o sintoma é acentuar sua dimensão fora do sentido” (LAURENT, 2016, p. 50). Trata-se do sintoma enquanto efeito de lalíngua diretamente sobre o corpo, produzindo efeitos de gozo. O fora de sentido do sintoma decorre da sua dimensão corporal, sendo que, mesmo separado, o corpo sofre efeitos do discurso.

Concomitantemente ao gozo do corpo, que se refere a um gozar de si mesmo, o falasser comporta também o gozo da fala. Sobre isso, Miller afirma que “O falasser tem que se haver com seu corpo como imaginário, assim como tem que se haver com o simbólico. O terceiro termo, o real, é o complexo ou o implexo dos dois outros” (MILLER, 2016, p. 09).

Assim como o ser só existe enquanto tal na medida em que fala, o ser também só tem um corpo na medida em que fala ou é falado pelo Outro. Ter um corpo, como vimos, implica em uma experiência de gozo, sendo que esse atravessamento do corpo pela linguagem produz uma operação de extração do que Lacan chamou de objeto a. Isso marca um gozo interdito, que perde seu caráter ilimitado e inaugura a cadeia de significantes (S1 – S2), possibilitando uma conexão entre o objeto e a função fálica.

Portanto, “a extração do objeto é a condição para que o sujeito tenha acesso à dimensão do Outro, para a incorporação do corpo simbólico e para sua inscrição num discurso” (BARROSO, 2014, p. 134). Essa operação de extração faz com que o objeto a torne causa de desejo. Ser causa de desejo significa que houve a incidência da falta do objeto no campo do Outro, assegurando a função de castração. Vemos então que, com a operação de castração, há uma separação, no imaginário, do gozo. Temos aí um gozo que se lança para fora do corpo, que Lacan identificou como gozo fálico. Nesse contexto, a falta se presentifica enquanto vazio central da estrutura e da amarração dos registros: real, simbólico e imaginário. Isso significa que o objeto a se localiza na interseção desses três registros, ordenando a estrutura do ser falante. A psicanálise lacaniana aborda o corpo segundo esses três registros, que corroboram para que se tenha um corpo e dele se faça uso.

Por outro lado, quando não há a extração do objeto a, este é impedido de se alojar no campo do Outro, não se configurando como causa de desejo, mas permanecendo como puro gozo que irrompe no corpo. Nesse contexto, há a junção do significante e do gozo (S1 = a) ou (S1 sozinho). O objeto permanece enquanto substância gozante, uma vez que ele não foi negativizado, o que seria obtido pela operação de castração. Sem a inscrição do objeto no discurso, não há a sua articulação à função fálica. Sem a significação fálica, faz-se presente uma instabilidade radical e constante do ser.

A irrupção do gozo no corpo acarreta a manifestação de variados fenômenos corporais, bem como de sentimentos de horror e de perplexidade. É o que vemos na clínica das psicoses, em que se encontra em destaque a questão da fragmentação, da dispersão e da inconsistência do corpo. Um corpo que está sempre sob ameaça de se desprender, de não se sustentar como uma unidade. A ele falta uma significação que o possibilite dar uma resposta sobre o seu ser, o que o impede de constituir como quem tem um corpo. Daí decorre a dificuldade desses sujeitos em construir uma certa unidade do corpo, pois muitas vezes se encontram à mercê do real do gozo do corpo. Por isso, Miller afirma que “o sintoma como acontecimento de corpo é altamente suscetível de ser posto em evidência na psicose (MILLER, 2004, p. 55).

Entretanto, a problemática decorrente de um gozo que afeta o corpo está posta não somente na clínica da psicose, ela é independente da estrutura. Cada um sofre os efeitos desse retorno do gozo no real de forma particular e nenhuma construção, seja ela qual for, dá conta do sem sentido que lhe afeta.

 

Uma dimensão política

Mais além de um sujeito fruto da articulação significante, em que o ser é efeito de sentido, há o acontecimento de corpo. Isso nos faz deparar com uma variedade de novos sintomas que decorrem desse impacto da língua sobre o corpo. Esses sintomas manifestam-se de diversas maneiras na contemporaneidade. Trata-se de uma dimensão clínica articulada a uma dimensão política.

Lacan (1966-67), em seu Seminário Lógica da fantasia, afirma que o inconsciente é a política. Trata-se de uma construção de que o inconsciente não está articulado ao pai, mas que se apresenta como algo a ser definido. Essa construção provém de uma leitura da identificação, mecanismo político por excelência, a partir do acontecimento de corpo, ou seja, numa lógica do ilimitado do gozo. Um gozo sem lei, que se sobrepõe aos ideais. Por ser ilimitado, ele não se curva a nenhuma regulação, sendo soberano o imperativo ao gozo.

A partir da expressão “o inconsciente é a política”, Laurent extrai a concepção de inconsciente político, fazendo uma articulação ao acontecimento de corpo:

“A extensão da perspectiva do inconsciente político ao falasser nos leva aos limites do questionamento psicanalítico sobre a relação do sujeito com o discurso. Ao centrá-lo sobre o acontecimento de corpo e não sobre uma identificação, (…) o sujeito se mantém fora da garantia do ‘complexo de Édipo’. É preciso então confrontar o risco da identificação como delirante (…).  Com o acontecimento de corpo, retira-se a identificação ao Pai e se desnudam (…) os acontecimentos de gozo mais além da castração” (LAURENT, 2016, p. 219).

Sem a identificação paterna, não é mais pelos ideais que acontece o laço entre o corpo e o Outro, mas sim pelo acontecimento de corpo. Devido a essa conexão direta com o que afeta o corpo, Miller considera que o laço social na atualidade é o sintoma e, portanto, carrega em si o gozo. 

 


Referências 
BARROSO, S. F. As psicoses na infância: o corpo sem a ajuda de um discurso estabelecido. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2014.
BASSOLS, M. “Corpo da imagem e corpo falante”. In: Scilicet: o corpo falante, sobre o inconsciente no século XXI. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2016, p. 12-15.
LACAN, J. (1966-67) Logica del fantasiaInédito
LACAN, J.  (1972-73) O seminário, Livro 20: mais, ainda, Rio de Janeiro: Jorge Zahar  Ed., 1985.
LACAN, J. (1975-1976) O seminário, Livro 23: o sinthoma, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.
LAUREN, E. O avesso da biopolítica: uma escrita para o gozo. Rio de Janeiro: Contracapa, 2016.
MANDIL, R. “Há um acontecimento de corpo”. Opção Lacaniana online, n.13, março 2014. Disponível em:           <http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_13/Ha_um_acontecimento_de_corpo.pd>. Acesso em 02/03/2022.
MILLER, J.-A. “Biologia Lacaniana e acontecimento de corpo”. In: Opção Lacaniana, n. 41. São Paulo: Eólia, 2004. Tradução: Ana Lúcia Paranhos Pessoa.
MILLER, J.-A. “Un-cuerpo”. In: El ultimíssimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2020..
MILLER, J.-A. “O inconsciente e o corpo falante”. In: Sciliceto corpo falante, sobre o inconsciente no século XXI. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2016.
SANTIAGO, J. “Transferência e acontecimento de corpo: suposto-saber-ler de outra forma”. Curinga, Escola Brasileira de Psicanálise – Minas Gerais, n. 47, 2019, p. 47-60.
[1] Texto apresentado no Núcleo de Investigação e Pesquisa em Psicanálise e Direito – Seção Clínica do IPSM-MG, em 18/03/2022



DO NÓ COMO SUPORTE DO SUJEITO[1] 

Frederico Feu de Carvalho
Psicanalista. Membro da EBP-MG/AMP
fredericofeu@uol.com.br

Resumo: A partir do terceiro capítulo do Seminário 23, de J. Lacan, o texto se propõe a esclarecer a utilização do nó borromeano por Lacan e algumas de suas aplicações à clínica das psicoses. Nesse contexto, confere-se privilégio à noção de Sinthoma como suporte do sujeito.

Palavras-chave: Nó borromeano; Sinthoma; sujeito.

From the node as support of the subject

Abstract: Through the third chapter of Lacan’s 23rd seminar, this essay aims to clarify Lacan’s use of the Borromean knot and some of its applications in the clinic of psychosis. In this context, the notion on Sinthome as the subject’s support is privileged.Through the third chapter of Lacan’s 23rd seminar, this essay aims to clarify Lacan’s use of the Borromean knot and some of its applications in the clinic of psychosis. In this context, the notion on Sinthome as the subject’s support is privileged.

Keywords: Borromean knot; Sinthome; Subject,

 

 

Imagem: Nelson de Almeida

O título desta intervenção, “Do nó como suporte do sujeito”, refere-se ao terceiro capítulo do Seminário 23, de Lacan, proferido no dia 16 de dezembro de 1975. Proponho retomar aqui essa lição acrescentando algumas reflexões sobre o tema do Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais para o primeiro semestre de 2022, “O acontecimento de corpo político”, de forma a extrair consequências para nossa prática com as psicoses.

A clínica borromeana, se podemos chamar assim a clínica pensada a partir do paradigma dos nós, se conforma à psicose joyceana, assim como a clínica estrutural se conforma à psicose schereberiana. Mais do que abordar as formas ditas não desencadeadas da psicose, a clínica borromeana nos permite pensar formas de encadeamento não referidas ao discurso ou à norma social. Nesse sentido, podemos dizer que a psicose joyceana se refere à psicose funcional, ou seja, à psicose do ponto de vista de uma solução, uma invenção, uma armadura singular que suporta a existência de um sujeito. Chamamos de sinthoma essa armadura singular, a ser lida como cifra de gozo. Acredito que podemos formular assim a questão que nos ocupa este semestre: sem dúvida alguma, a política é capaz de produzir acontecimento de corpo. Isso ocorre toda vez que o sinthoma de cada um, na medida em que ele é suportado pelas marcas que uma cultura inscreve no corpo do falasser, é afetado pelo acontecimento político.

– I –

Um nó borromeano é um tipo de amarração de três anéis, traçado de forma com que cada anel mantenha sua independência com relação aos demais. Essa é a condição borromena. O nó borromeano, diz Lacan, é “o forçamento de uma nova escrita (…) e é também o forçamento de um novo tipo de ideia (…) que não floresce espontaneamente apenas devido ao que faz sentido, isto é, ao imaginário” (LACAN, 1975/76, p. 127). Há diferentes formas de se conceber a amarração borromeana, assim como diversas formas de reparar uma amarração que apresenta um erro, como em Joyce. Uma política do sinthoma seria aquela que se atém a essa diversidade e condições singulares. Isso implica, como diz Lacan logo no início dessa lição, “que tivéssemos na análise o sentimento de um risco absoluto” (LACAN, 1975/76, p. 44). Esse risco parece condizente com a clínica borromeana, assim como o cálculo interpretativo parece se adequar melhor à clínica estrutural. Trata-se do risco inerente ao manejo dos nós, na medida em que o ato analítico é capaz de amarrar, afrouxar, apertar ou desfazer uma determinada amarração sinthomática que suporta a vida de um sujeito.

Lacan deixa no ar essa advertência para se ocupar, em seguida, de uma exigência derivada do que poderíamos chamar de realismo nodal. Qual é o mínimo de elos possíveis para que ocorra a propriedade borromeana? Como vimos, a propriedade borromeana pode se dar entre três anéis, se eles estabelecem entre si um traçado específico e se eles se amarram uns aos outros, estabelecendo uma continuidade entre eles de forma que o corte de um libera os outros dois.

 

Mas como manter juntos três anéis que não se amarram entre si, que não se amarram borromeanamente, por serem descontínuos devido à heterogeneidade entre eles, como é o caso do Real, do Simbólico e do Imaginário? Aqui é preciso supor que Real, Simbólico e Imaginário não se enodam espontaneamente, que o nó borromeano não é uma formação natural ou uma criação ex-nihilo e que é necessário acrescentar um quarto anel para que a amarração borromeana aconteça. É o que distingue o sinthoma como invenção de um sujeito.

 

Vejamos o que diz Lacan no referido capítulo do Seminário 23:

“Para que alguma coisa, que é preciso dizer que seja da ordem do sujeito — uma vez que o sujeito é apenas suposto —, encontre-se, em suma, sustentada no nó de três, será que basta que o nó de três se enode, ele mesmo, borromeanamente a três? Não nos parece que o mínimo em uma cadeia borromeana é sempre constituído por um nó de quatro?” (LACAN, 1975/76, p. 49).

(…) “É sempre em três suportes, que nesse caso chamaremos de subjetivos, isto é, pessoais, que um quarto vai se apoiar. Se vocês se lembrarem do modo com que introduzi esse quarto elemento em relação aos três elementos, cada um deles supostamente constituindo alguma coisa de pessoal, o quarto será o que enuncio este ano como o sinthoma” (LACAN, 1975/76, p. 50).

O quarto anel, que nomeamos sinthoma, escrito com “th”, tem a propriedade de manter junto o que, por definição, está separado (RSI). Nessa perspectiva, quando se considera que Real, Simbólico e Imaginário não estão amarrados borromeanamente, mas soltos, não tendo relação um com o outro, é o sinthoma que faz a amarração borromeana e é nesse sentido que ele é suporte do sujeito.

– II –

O que significa dizer que o nó suporta o sujeito? Significa que o sujeito não existe sem relação com seu sintoma. Ou seja: ele não existe a não ser pelo sintoma que o suporta, o que faz do sintoma a unidade clínica fundamental e irredutível de todo falasser. Mas o sujeito desconhece o seu sintoma, que para ele pode ser um estorvo, um desarranjo, um imperativo de gozo que contraria seus ideais ou uma forma clandestina de existência. No melhor dos casos, o sujeito é uma resposta ao real do sintoma. É essa resposta do sujeito ao real do sintoma que Lacan vai escrever de forma distinta, recorrendo a uma grafia antiga, como “Sinthoma”. Essa resposta se limita a um saber-fazer com o seu sintoma, ou sintomas, com isso que não se pode recusar, na medida em que o sintoma é o que suporta um sujeito.

Lacan cunhou, em seu último ensino, o termo falasser para expressar a relação entre o inconsciente e o gozo cifrado do sintoma que se estabelece sobretudo nas neuroses. A abordagem estrutural das formações do inconsciente, que são em geral fugazes e ligadas à expressividade do desejo, é tributária da lógica do significante e comporta mal a lógica do sintoma, ou seja, aquilo que perdura, que insiste e resiste à interpretação e que parece não querer dizer nada a ninguém, sendo, antes, tributário do gozo do corpo. Nesse sentido, em uma análise, é o sintoma que nos conduz das formações do inconsciente ao real. Dito de outra forma: se o inconsciente supõe o Outro da linguagem, sendo “estruturado como uma linguagem” e, portanto, interpretável — e mesmo infinitamente interpretável —, o resíduo do sintoma, o seu núcleo duro, ex-siste ao inconsciente e é nesse sentido que ele tem a ver com o real.

A identificação ao sinthoma, como destino de uma análise, seria então uma identificação a esse resíduo do falasser e comporta um paradoxo, pois, se por um lado, o sujeito é suportado pelo sintoma, se ele é imanente e não transcendente em relação ao sintoma, por outro lado, o sintoma é sempre “estrangeiro” ao próprio sujeito. A identificação ao sinthoma não é uma condescendência ao sintoma, mas uma resposta possível ao seu núcleo real, àquilo que o ultrapassa e determina o seu modo de gozo.

Essa identificação comporta um forçamento, o advento de uma nova escrita, como a “metáfora delirante discreta” do paciente B., “Déf(ier D)ieu”, caso relatado na Conversação de Arcachon por de Jean-Pierre Deffieux (1998, p. 18) e debatido por nós no Núcleo de Psicose. Essa escrita é forçada porque ela é suportada pela letra do sintoma que podemos seguir, no relato do caso, desde a queixa inicial, “falta-me energia”, até a “centelha de vida” do laço com o analista. Mas a letra do sintoma, que fala com o corpo, permanece como tal, fora do sentido. Ela excede toda elucubração do saber. Um sintoma, isso se lê, e é só a partir dessa leitura — a ser distinguida da interpretação de uma formação do inconsciente — que temos uma ideia do que poderá ter sido esse acontecimento de corpo primordial que cifrou o sinthoma. É como um procedimento de leitura que Deffieux isola analiticamente o que faz suporte para B., tomando os elementos literais da cena traumática ocorrida aos 8 anos — o mês de março, o bordão, a madeira, a nudez — para verificar aquilo que o mantêm amarrado — o artesanato, a preocupação com o bem e o belo, o laço paterno, o exibicionismo do corpo —, mas também os pontos de ruptura que levam a novas amarrações.

Vale comparar com o caso Emma, que Freud explora no Projeto, igualmente a partir de uma cena aos 8 anos, em relação à solução encontrada (FREUD, 1895/1969, p. 463-468). Em Emma, a mediação do inconsciente resulta na construção de uma fantasia, anteparo frente ao real, que se torna possível pela extração do objeto olhar. De fato, o caminho da formação do sintoma na neurose supõe que a fantasia seja suportada pela letra do sintoma para que se possa constituir o semblante do objeto causa do desejo. Nesse fragmento freudiano, vale lembrar, a cena traumática se inscreve no inconsciente a partir de alguns significantes, como “riso”, “roupa” e “loja”, em torno dos quais a fantasia se constrói. A fantasia é uma fachada para a implicação do sujeito no sintoma, diz Freud, e o sintoma é o que resta após a travessia da fantasia, como “gozo puro de uma escrita” (MILLER apud LAURENT, 2016, p. 48). É o que leva Freud a dizer que a cena traumática ocorrida aos oito anos de idade, que podemos equivaler, nesse caso, a um acontecimento de corpo, modula a realidade sexual de Emma, levando-a a reencontrar a mesma cena aos doze anos de idade, como uma contingência da qual ela extrai o seu próprio gozo graças à reversibilidade da pulsão, que faz com ela se sinta desejada e olhada ao olhar e desejar.

Em B., de forma distinta, o exibicionismo do corpo nu, que Deffieux compara à “função da fantasia na pantomima do sujeito neurótico” (1998, p. 18), mostra que o sujeito mesmo está no lugar do objeto olhado, sem dele se separar. Essa pregnância maior do sintoma, na falta da mediação do desejo na fantasia, parece exigir então formas suplementares de amarração, como “a inscrição sobre o corpo de um fenômeno psicossomático, a psoríase, e uma metáfora delirante discreta” (DEFFIEUX, 1998, p. 18).

– III –

A concepção do nó borromeano de quatro anéis, à qual Lacan se aferra no referido capítulo do Seminário, Livro 23: O sinthoma, se refere sobretudo às neuroses. Nela encontramos uma vinculação mais estreita entre o sintoma e o inconsciente do que encontramos, em geral, na psicose. O inconsciente trabalha a partir da letra do sintoma; ele é uma elucubração de saber sobre o acontecimento de corpo político, no sentido que demos a essa expressão, ou seja, a radicalidade da incidência de um gozo que afeta o corpo do falasser, a fim de que esse acontecimento, que tem lugar na pólis — não há acontecimento de corpo autóctone, que não seja derivado da irrupção de um gozo que se apresenta como outro para um sujeito —, seja minimamente subjetivado como sintoma. Dessa forma, o real, ou melhor, o pedaço de real que cabe a um falasser, pode ser conjugado com o imaginário e o simbólico.

Não é o que acontece, por exemplo, na paranoia.

Na medida em que um sujeito enoda a três o imaginário, o simbólico e o real, ele é suportado apenas pela continuidade deles. O imaginário, o simbólico e o real são uma única e mesma consistência, e é nisso que consiste a psicose paranoica (LACAN, 1975/76, p. 52).

Lacan diz que a amarração que caracteriza a paranoia é o que define também a personalidade. “Paranoia e personalidade não têm, como tais, relação, pela simples razão de que são a mesma coisa” (LACAN, 1975/76, p. 52). Como podemos entender essa igualdade? Ela sugere que personalidade e paranoia se equivalem porque, em ambas, os três registros não se distinguem, como seria o caso da consistência, atribuída ao imaginário, do furo proveniente do simbólico e da ex-sistência própria ao real, como veremos adiante. O que nos leva a concluir que a personalidade mantém sua própria coesão a partir do artifício que podemos definir como uma exclusão do sujeito que seria suportado pelo sintoma. De fato, a estrutura paranoica se mostra, para todos os efeitos, impenetrável, como um bloco monolítico que tudo interpreta de forma rígida e especular, como reflexo da própria personalidade, sem nada querer saber do sintoma que a concerne.

Poderíamos conceber ainda, a partir de outras indicações de Lacan para além do Seminário 23 — embora jamais desenvolvidas por ele e, sim, por autores do Campo Freudiano, como Nieves Soria e Fabian Schejtman[2] —, outras formas de enodamento próprias das psicoses, como a parafrenia, a mania e a melancolia.

No caso da parafrenia, essa indicação de Lacan é extraída de uma apresentação de paciente ocorrida em 1975, portanto, contemporânea ao Seminário 23. Trata-se da paciente conhecida como Sra. B., que Lacan identifica a uma parafrenia imaginativa pelo fato de que ela se reduz a uma “pura vestimenta”, ou seja, a um puro semblante, sem a menor ideia do corpo que leva sob essa vestimenta, daquilo que poderia fornecer um lastro a esse ser de puro semblante. Certamente, essa referência ao corpo por baixo do vestido deve ser tomada em sua ex-sistência real, e não em sua dimensão de consistência imaginária, que seria, justamente, aquela de um corpo recoberto por um vestido. Essa configuração parafrênica poderia, assim, ser apresentada como uma interpenetração do simbólico e do imaginário que deixa solto o real.

Em relação à mania e à melancolia, as indicações de Lacan são aquelas que encontramos em Televisão (LACAN, 2003a), texto de 1974. Nessas estruturas clínicas, é o simbólico que permanece desligado, enquanto real e imaginário se interpenetram. Nesse texto, no capítulo em que Lacan analisa os afetos a partir da estrutura da linguagem, o desligamento do simbólico foi por ele referido ao rechaço do inconsciente. Tal rechaço equivale, no plano ético, a uma covardia moral. A diferença é que, na melancolia, o real predomina e submete o imaginário, como “pura cultura da pulsão de morte”, da qual falava Freud (1923/1969, p. 69), esmagando assim a imagem narcísica em que o Eu se sustenta, enquanto, na mania, é o imaginário que se sobrepõe ao real na forma da excitação maníaca, produzida a partir de um “retorno no real daquilo que foi rechaçado da linguagem” (LACAN, 2003a, p. 524).

 

A psicose de Joyce, por sua vez, pressupõe um lapso da amarração RSI, como indicado no desenho abaixo, à esquerda, do qual resulta a interpenetração entre o Real e o Simbólico que deixa solto o Imaginário. Essa seria a forma predominante dos enodamentos encontrados na esquizofrenia. No diagrama à direita, esse lapso se encontra corrigido por um quarto elo, que restabelece a amarração entre eles, configurando o sinthoma.

 

Mas essa correção só realiza em parte a propriedade borromeana. De fato, podemos dizer que, dessa forma, o Imaginário passa a se amarrar ao Simbólico e ao Real. Lacan identificou esse quarto elo ao Ego de Joyce, cuja consistência é dada por sua obra. Contudo, a independência entre RSI, a outra condição essencial à propriedade borromeana, não é verificada. A interpenetração entre o Simbólico e o Real persiste na forma peculiar da escrita de Joyce, que Lacan comparou a uma dissolução da linguagem, uma escrita que não diz nada a ninguém, que não fala ao inconsciente de ninguém, marcada pelo enigma e, por isso mesmo, capaz de fazer trabalharem os universitários. É por isso que Lacan vai dizer que Joyce era desabonado do inconsciente.

O paradigma Joyce abre um leque de pesquisas que torna possível pensar as psicoses sinthomatizadas, ou seja, psicoses nas quais uma amarração a partir de um quarto elo permite ao sujeito se sustentar pelo sinthoma, de forma que a psicose não se desencadeie. Resta saber em que essa forma de psicose se distingue da pré-psicose, aquela, por exemplo, que manteve Schreber estabilizado até os 50 anos de idade graças às suas identificações imaginárias.

Uma hipótese, apontada por Nieves Soria a partir de Fabian Schejtman (SORIA, 2008, p. 69), permite fazer a seguinte distinção: uma psicose sinthomatizada seria aquela em que a correção do lapso do nó, como apontou Lacan na conclusão do Seminário 23, ocorre no mesmo lugar onde ocorreu o lapso do nó. É o caso do Ego de Joyce, que se sustenta justamente da natureza de seu sinthoma. Essa solução se distinguiria de outras, supostamente mais frágeis, nas quais a correção não incide sobre o ponto do lapso ou a solução encontrada se apoiaria em identificações imaginárias que se dissolveriam frente a um apelo simbólico ao Nome-do-Pai, como ocorreu com Schreber.

– IV-

Vimos que a amarração borromeana pressupõe a independência, mas também a equivalência entre os registros Simbólico, Imaginário e Real, diferentemente da clínica estruturalista, que postulava a primazia do simbólico sobre o imaginário como condição para que o real fosse enquadrado. Essa eficácia do simbólico será relativizada pela clínica borromeana, assim como o valor da interpretação analítica, em direção a uma pragmática que busca discernir como o sujeito se arranja, como ele se vira para se sustentar com o seu próprio sintoma, ou seja, como ele se vira com o que, para ele, constitui essas três “subjetividades” denominadas Real, Simbólico e Imaginário, que, mesmo sendo equivalentes, não deixam de ser heterogêneas. Lacan caracteriza essa heterogeneidade da seguinte maneira:

“Não é por acaso, mas como resultado de uma concentração que seja no imaginário que eu coloque o suporte do que é a consistência, assim como faço do furo o essencial do que diz respeito ao simbólico e o real sustentando especialmente o que chamo de a ex-sistência” (LACAN, 1975/76, p. 49).

consistência atribuída ao Imaginário é o que resulta da “ideia de si mesmo como corpo”, ideia para a qual Lacan utiliza o termo “Ego”, o mesmo termo que ele utiliza para nomear o sinthoma de Joyce. Isso define uma relação de propriedade do sujeito com o seu corpo. De fato, o sujeito tem um corpo; ele não é um corpo. Mas isso é apenas uma crença. “O falasser adora seu corpo, porque crê que o tem”, diz Lacan. “Na realidade, ele não o tem, mas seu corpo é sua única consistência, consistência mental, é claro, pois seu corpo sai fora a todo instante” (LACAN, 1975/76, p. 64). Portanto, a consistência imaginária, ou seja, “aquilo que mantém junto” o falasser e seu corpo, se refere a uma ideia, como a ideia de um saco, e é sustentada por uma crença. A propriedade borromeana atribuída ao sinthoma, no sentido do que mantém junto RSI, deve ser distinguida da consistência do Imaginário que mantém junto o falasser e seu corpo. Trata-se de uma consideração importante, especialmente se referida ao campo das psicoses, na medida em que a recomposição do imaginário pode vir a ser, em alguns casos, uma orientação clínica. Se tomamos o exemplo de Joyce, vimos que essa recomposição se faz por meio do sinthoma, ou seja, a escrita e a publicação de uma obra, o que implica tomar Joyce como um artífice de seu próprio sinthoma, na medida em que isso tem efeito de suplência do lapso que deixa solto o imaginário.

furo do Simbólico, por sua vez, advém da característica fundamental do significante, a de ser aquilo que representa um sujeito para um outro significante. Se partimos dessa definição, é o sujeito mesmo que aparece como esse furo, no sentido da sua falta-a-ser. O simbólico, portanto, ao qual se deu primazia quando a clínica lacaniana se orientava por uma busca da verdade, é sem esperanças, se quisermos nos apoiar nele para nos sustentar como sujeitos. Os obsessivos que o digam. Vale relembrar, no entanto, que Lacan distingue o furo do simbólico, que o “especializa” enquanto um sistema de linguagem marcado pelas substituições metafóricas e deslizamentos metonímicos, do que Lacan chama de “o verdadeiro furo”, Ⱥ, que ele situa fora do simbólico, na confluência do real com o imaginário, como veremos adiante. Não há Outro do Outro. Isso reduz o simbólico ao sentido imaginário, mesmo quando interpretamos uma formação do inconsciente seguindo as trilhas das leis do significante que herdamos de Freud. Essa condição não nos impede de fazer ciência, isto é, de utilizar a via lógica para nos orientar na busca da verdade no campo da realidade, para além do que almejamos como a consistência do imaginário que, como sabemos, nos engana o tempo todo, por ser essa crença sustentada por uma miragem. É o furo do simbólico, portanto, o que nos permite figurar a verdade dos fatos para além de uma crença subjetiva.

ex-sistência do Real, por sua vez, deriva primeiramente do fato de que o sentido está foracluído do Real (LACAN, 1975/76, p. 117). Na medida em que o sentido é o que enquadra para nós o campo da realidade, o real não diz respeito à realidade das coisas, como ocorre em relação à ciência, tampouco se confunde com o que poderíamos chamar de uma natureza humana, que não sabemos bem a que se refere, uma vez que ela é atravessada pela linguagem. Seria o real uma pura potência negativa? Lacan vai dizer que o fato de o Real não poder ser imaginado ou pensado não quer dizer que o Real seja um limite da experiência humana. Pelo contrário, o Real incide o tempo todo, no sentido de que ele é uma experiência cotidiana, a experiência de um acontecimento de corpo. O Real também não se atém ao Ⱥ, o furo do simbólico, que é o limite da imaginação humana. O que confere certa esperança em relação ao real é ele poder ser contido pelo nó borromeano para um sujeito. Se não fosse assim, não haveria como suportá-lo. O nó borromeano é o que permite ao falasser cernir um pedaço do real, para chamar de seu, podemos dizer. É nesse sentido que Lacan (2003b) aproxima o sinthoma do acontecimento de corpo. É por ser um acontecimento de corpo que o sinthoma tem a ver com um real, com um real que Lacan chama de “orientável”, mesmo que essa orientação exclua o sentido. A ex-sistência é uma forma de existência específica do nó. Vejamos o que diz Lacan sobre isso:

“Ao sistir fora do Imaginário e do Simbólico, o real colide, movendo-se especialmente em algo da ordem da limitação. A partir do momento em que ele está borromeanamente enodado aos outros dois, estes lhe resistem. Isso quer dizer que o real só tem existência ao encontrar pelo simbólico e pelo imaginário a retenção” (LACAN, 1975/76, p. 49).

– V –

Lacan retoma, na quarta parte do capítulo III do Seminário 23, que estamos examinando, o esquema do nó borromeano já trabalhado em seu Seminário 22, RSI. A planificação do nó permite estabelecer três campos de contato, cada um sendo o resultado da articulação de dois registros, com a concomitante exclusão do terceiro. O campo central, como sabemos, é preenchido pelo objeto a, que não aparece representado nesse esquema do Seminário 23. Lacan observa, em primeiro lugar, que a notação (Ⱥ) se refere ao axioma “não há Outro do Outro”, o que quer dizer que nada se opõe ao Simbólico. Por conseguinte, não há também J(Ⱥ), o gozo do Outro do Outro (LACAN, 1975/76, p. 54), a não ser no imaginário da paranoia, na medida em que essa estrutura clínica identifica o gozo com o lugar do Outro. É nesse espaço entre Imaginário e Real, que se escreve como Ⱥ, que Lacan vai localizar, como acabamos de observar, o que ele chama, no capítulo IX, de o verdadeiro furo, a ser distinguido da falta inerente à castração, que devemos situar em um outro campo, aquele do gozo fálico. Esse furo, ao qual não corresponde nenhuma ordem de existência, remete, por outro lado, àquilo que podemos chamar da inibição própria do Imaginário em relação ao Real. É a essa inibição que Lacan recorre, na elaboração desse seminário, para justificar as dificuldades e os erros cometidos por ele mesmo ao traçar imaginariamente os seus nós borromeanos, o que, para ele, é um índice do real do . Embora as diversas configurações dos nós tenham como suporte uma imagem, como essa que está agora diante de nossos olhos, a dificuldade de imaginação é patente quando se trata de seus entrelaçamentos, da mesma forma que as dificuldades de escrita dos nós. Nesse sentido, vemos que o nó não é o matema, essa escrita lacaniana clarificadora e reduzida à qual podemos associar uma espécie de mecânica que condensa uma série de relações entre o imaginário, o simbólico e o real.

O segundo termo evocado por Lacan nessa lição é o sentido, localizado por ele na confluência entre o imaginário e o simbólico. Esse campo mostra que o sentido atribuído ao simbólico está em continuidade com o imaginário, e não em oposição a ele. O máximo que podemos atingir pela via do sentido, como quando interpretamos, é alguma ordem de ficção, uma vez que o verdadeiro, em se tratando da análise e não da ciência, não pode ser dito com os instrumentos da linguagem. Disso, resulta o que Lacan chamou de juis-sens, o gozo do sentido, que é o gozo próprio da confluência do simbólico com o imaginário ao qual podemos relacionar o modo de satisfação do delírio, assim como o do trabalho do inconsciente. O que se opõe ao simbólico não é, portanto, o imaginário, como na clínica estrutural, mas Ⱥ. Por outro lado, o que se opõe ao sentido é o real.

Finalmente, temos o gozo dito do falo, que Lacan distingue aqui do gozo peniano:

“O gozo peniano advém a propósito do imaginário, isto é, do gozo do duplo, da imagem especular, do gozo do corpo. Ele constitui propriamente os diferentes objetos que ocupam as hiâncias das quais o corpo é o suporte imaginário. O gozo fálico, em contrapartida, situa-se na conjunção do simbólico com o real. Isso na medida em que, no sujeito que se sustenta no falasser, que é o que designo como sendo o inconsciente, há a capacidade de conjugar a fala e o que concerne a um certo gozo, aquele dito do falo, experimentado como parasitário, devido a essa própria fala, devido ao falasser” (…) Portanto, inscrevo aqui o gozo fálico contrabalançando o que concerne ao sentido. É o lugar do que é em consciência designado pelo falasser como poder” (LACAN, 1975/76, p 55.).

Lacan não desenvolve, ao menos nesse capítulo, a aproximação entre o gozo fálico e o poder, mas podemos supor que se trata de um destino possível a ser dado ao acontecimento de corpo político pelo sintoma. De qualquer maneira, é preciso sublinhar a distinção entre o gozo do sentido e o gozo próprio ligado à função de fonação que caracteriza o gozo fálico. O gozo fálico participa do real por ser um gozo “fora-do-corpo”, na medida em que está associado à fala, e é por isso que ele não se refere ao gozo peniano, o gozo próprio do corpo que concerne ao imaginário.

Resta saber em que consiste, propriamente falando, o gozo do sinthoma. Podemos deduzir que o gozo do sinthoma refere-se a um saber-fazer a partir do qual o sujeito pode ligar um pedaço do real ao semblante, uma vez que o semblante que permite enquadrar a realidade onde pisamos depende da amarração do real, isto é, de forma que um acontecimento de corpo, aquele que é próprio a um falasser singular, possa ser concernido.

É nesse sentido que se pode dizer que o gozo do sinthoma é um gozo possível que resulta de um tratamento do impossível. A clínica borromeana pode ser então concebida a partir de uma pragmática que concerne ao sintoma. Em suas várias facetas, se considerarmos as variedades e as exigências borromeanas das quais resulta essa possibilidade, poderíamos afirmar, de acordo com essa pragmática, que “é de suturas e emendas que se trata na análise” (LACAN, 1975/76, p. 71).

Proponho, para concluir, lembrar simplesmente em que consiste essa pragmática analítica Ela diz respeito às diferentes conexões do falasser que o sinthoma busca concernir como suporte do sujeito: o corpo, o laço social, o pensamento e o sexo.  

 


Referências
DEFFIEUX, J.-P. “Um caso nem tão raro”. In: Os casos raros, inclassificáveis, da clínica psicanalítica. São Paulo: Biblioteca Freudiana Brasileira, 1998, p. 13-18.
FREUD, S. (1895) “Projeto para uma Psicologia Científica”. In: Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1969, vol. I, p. 381-533.
FREUD, S. (1923) “O eu e o id”. In: Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1969, vol. XIX, p. 13-85.
LACAN, J. (1975/76) O Seminário, Livro 23o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2007.
LACAN, J. “Televisão”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2003a, p. 508-542.
LACAN, J. “Joyce, o Sintoma”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2003b, p. 560-565.
SORIA DAFUNCHIO, N. Confines de las psicoses. Buenos Aires: Del Bucle, 2008.
SCHEJTMAN, F. Las dos clínicas de Lacan. Buenos Aires: Tres Haches, 2000.
LAURENT, É. O avesso da biopolítica. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016.

[1] Texto apresentado no  Núcleo de Pesquisa em Psicanálise e Psicose da Seção Clínica  do Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais, em 29 de abril de 2022.
[2]  Conforme destacado por nós nas referências bibliográficas para este texto.