2º SEMESTRE 2026
Psicanálise aplicada, modos de operar
Maria Wilma Faria
Em “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”, Lacan nos assegura os pontos-chave de uma prática analítica: o psicanalista dirige o tratamento e não deve dirigir o paciente; propõe como imprescindível provocar a “regra analítica” naqueles que procuram a cura; e a necessidade de contar com a transferência, uma vez que “a relação com o real é o terreno em que se decide o combate”.[1]
Somos marcados por uma era em que o Outro não existe e em que o real do gozo se impõe por toda parte. Então, do ponto de vista pragmático, o que um psicanalista pode ofertar com sua presença viva nos diferentes dispositivos existentes na cidade?
Os discursos contemporâneos vêm cada vez mais ocupando espaços em nossas instituições, como, por exemplo, as TCCs, as classificações do DSM, as neurociências e o mercado da indústria farmacêutica. Em meio à circulação de diferentes discursos, como um analista opera e se coloca no interior de uma instituição? Que ação ele pode provocar? Como a psicanálise aplicada opera nos hospitais, nos ambulatórios, nos serviços de saúde mental, nas escolas, na justiça e nos dispositivos voltados para crianças e adolescentes, sob os fundamentos do singular de cada caso, e não de uma regra que possa valer para todos?
De que forma um analista consegue tocar o gozo do falasser, que vive imerso em identificações e nomeações advindas do campo do Outro? “Para estes sujeitos que elegem o ser sob a forma do ser eu, como devolver o inconsciente que tem o valor de revelar uma verdade?”[2]
Se vivemos em uma época em que impera o rechaço ao inconsciente, como introduzir um certo espaço, um intervalo, para que algo de um vazio emerja e possa retornar em forma de pergunta para cada falasser que nos procura?
Com a finalidade de que a psicanálise possa operar, sabemos que é importante contar com a transferência, que constitui o seu ponto de partida. Faz parte da posição do analista não estar ali onde o paciente espera que ele esteja, de tal modo que o analista, enquanto objeto causa de desejo, possa e deva operar a partir desse lugar.
Em meio a tais desafios, convidamos todos interessados pela Seção Clínica para, no segundo semestre de 2026, participar dos Núcleos de Investigação e Pesquisa e de seus desdobramentos.

