Claudia Gonzáles[1]
Psicanalista
Membro da Escuela Lacaniana de Psicoanalisis – ELP
Membro da Associação Mundial de Psicanálise – AMP
Email : gonzalez.claudia@icloud.com
A correspondência por meio de carta postal foi, até algumas décadas atrás, o meio pelo qual muitos trocavam ideias ou contavam sua vida cotidiana onde quer que estivessem. Foi um meio de declarações de amor, assim como também de declarações de guerra.
As cartas, de próprio punho – como se costumava dizer –, escritas em papel, enviadas em um envelope e que esperavam uma resposta, muitas vezes prolongada no tempo, foram o meio pelo qual se construíram parte dos pensamentos e teorias que agora nos interessam. Em forma de diálogo ou debate, mas também como um desejo de compartilhar o que acontecia com um outro em particular, existe uma enormidade de correspondências que já fazem parte da obra de personagens, marcos do pensamento ocidental, e que sempre valem a pena ler.
É o caso da correspondência de Sigmund Freud. Nela, encontramos trocas com colegas psicanalistas, médicos, cientistas (como Albert Einstein) e com sua esposa. Nessas cartas, pode-se acompanhar o início da psicanálise. Ali podemos ler, por exemplo, as dúvidas que, em relação à teoria, assaltavam Freud depois de uma longa jornada de trabalho escutando seus analisandos: a prática e a experiência modificavam a teoria, ou elas mesmas faziam teoria? Freud repensava e reformulava o que já havia pensado, aquilo que dava por certo, mas que, em alguns momentos, vacilava ao se ver incompleto. Debatia consigo mesmo e com sua própria teoria, com suas crenças. Freud se formava e fazia seu um efeito de formação graças às suas próprias dúvidas e ao seu desejo decidido.
Mas essas dúvidas, esse fazer, desfazer e refazer a teoria, embora acontecessem nele e para ele, eram dirigidos a um outro, que não era qualquer um. Essas cartas foram, durante muito tempo, dirigidas a seu colega e amigo Wilhelm Fliess. Freud se estendia contando-lhe e comentando detalhes de seu pensamento em torno da técnica e da teoria psicanalítica.
Às vezes, em alguma carta, lemos as maneiras pelas quais Freud desmonta sua crença prévia e dá conta de uma nova, em razão de sua clínica. É o caso da carta de 6 de dezembro de 1896 dirigida a Fliess (FREUD, 1896/1996), na qual quero me deter para destacar como, desde então, o tema da escrita já era importante na clínica psicanalítica e a maneira pela qual vai tomando diferentes vias em Freud e depois em Lacan.
Na carta mencionada, Freud diz a seu amigo e colega, quanto à sua hipótese da estratificação sucessiva pela qual se estabelece o aparelho psíquico, que propõe algo novo para sua teoria:
a tese de que a memória não se faz presente de uma só vez, mas se desdobra em vários tempos, que ela é registrada em diferentes espécies de indicações. (Zeichen) […]. Não sei dizer quantos desses registros [transcrições] há: três, pelo menos, provavelmente mais. (FREUD, 1896/1996, p. 281)
Em seguida, faz um esquema para relacionar essas escritas com os estratos do aparelho psíquico.
Uma dessas escritas, a que aqui nos interessa, é a que Freud chama Niederschriften, primeira escrita, e que é “praticamente incapaz de assomar à consciência e se dispõe conforme as associações [relações] por simultaneidade” (FREUD, 1896/1996, p. 282). Essa é a semente do que Freud continuará elaborando como aquilo que não é possível acessar porque permanece para sempre reprimido, perdido eternamente. Enquanto perdido, o sujeito o buscará, dirá Freud, fora, no Outro. Esta última é uma construção posterior de Freud, mas queremos mostrar que se relaciona com essa semente mencionada anteriormente, que por sua vez será semente da construção da dimensão topológica da Coisa, e na qual agora nos deteremos a fim de relacionar a escrita e o inacessível à representação.
A primeira escrita, Niederschrift, não corresponde ao mundo representável nem à percepção, mas sim a algo íntimo do sujeito que fica isolado, recalcado e é o que para Freud diz respeito ao recalque primário, àquilo ao qual o sujeito jamais poderá voltar a ter acesso. Daí a maneira freudiana de tratar a Coisa na relação com o inconsciente, como algo que está fora de todo alcance possível à rememoração e à representação e que o sujeito passará a vida inteira tentando reencontrar. A Coisa será para Freud o objeto mítico, se assim podemos dizer, para sempre perdido.
Ao trabalhar esse tema, Lacan mostra e desenvolve, no Seminário 7, A ética da psicanálise, essa surpreendente e precoce elaboração de Freud que, nos parece, é a linha que ele retomará na formulação feita nos anos de “Radiofonia”, quando questiona o lugar do objeto a e seu caráter principal, o incorpóreo, dos estoicos. (LACAN, 1970/2003, p.406) Principalmente no capítulo IV desse Seminário, Lacan situa as coordenadas de das Ding para Freud. Com uma precisão requintada na tradução das palavras de que Freud se serve, e até mesmo corrigindo a tradução francesa, Lacan se interessa em elucidar a situação, a relação do incorpóreo (o objeto a) com o corpo. Quer determinar, seguindo Freud, como o corpo, o simbólico e o objeto incorpóreo se sustentam, assim como a maneira pela qual esse objeto é situado, pelo próprio Freud, em uma exterioridade em relação ao sujeito do inconsciente:
Sobre essa base, entra em jogo o que vamos agora ver funcionar como a primeira apreensão da realidade pelo sujeito. É aqui que intervém essa realidade que tem relação com o sujeito da maneira mais íntima – o Nebenmensch. Fórmula totalmente surpreendente, na medida em que articula energicamente o à parte e a similitude, a separação e a identidade.
Seria preciso que eu lesse para vocês todo o trecho, porém contentar-me-ei do ápice. – Deste modo, o complexo de Nebenmensch se divide em duas partes, das quais uma se impõe por um aparelho constante, que permanece coesa como Coisa – als Ding.
Eis o que a tradução detestável, com a qual vocês se deparam em francês, deixa perder dizendo quelque chose reste comme tout cohérent. Não se trata de modo algum de uma alusão a um todo coerente que se daria pela transferência do verbo ao substantivo, muito pelo contrário. O Ding é o elemento que é originalmente, isolado pelo sujeito em sua experiência do Nebenmensch, como sendo por natureza estrangeiro, Fremde. (LACAN, 1959-1960/1997, p. 68)
Isola-se algo que é íntimo ao sujeito, da ordem do próximo, e que “permanecerá coeso como coisa – als Ding” (LACAN, 1959-1960/1997, p. 68), mas Lacan acrescenta algumas linhas mais adiante, quanto a essa exterioridade e divisão da experiência da realidade de que fala Freud, que tem o mesmo alcance e função na negação:
na Verneinung […] a mesma função daquilo que, do interior do sujeito, encontra-se levado para um primeiro exterior – um exterior, diz-nos Freud, que nada tem a ver com essa realidade na qual o sujeito terá, em seguida, de discernir as Qualitätszeichen, que lhe indicam que ele está no rumo certo para a busca de sua satisfação. (LACAN, 1959-1960/1997, p. 68)
É essa exterioridade do mais próximo que os recortes da “realidade” fantasiada de cada sujeito, em relação com seu objeto perdido, seu das Ding, lhe permitirão situar, não o objeto, mas as coordenadas da satisfação que busca. Evidentemente, e é isso que Freud aponta quando fala do objeto para sempre perdido e jamais reencontrado, nunca se encontrará esse objeto que corresponderia à Coisa, a das Ding, mas apenas uma aproximação ao estado de satisfação que se persegue e que, em consequência do fato de o sujeito acreditar que poderá encontrar esse objeto que perdeu, buscará cada vez mais, sempre um pouco mais de satisfação, um pouco mais de prazer, aquele que, se fosse encontrado, seria o que falta. Isso não sem passar pela hostilidade que a exterioridade do objeto (estranho, Fremde) suscita em todo sujeito e que, no entanto, a faz funcionar como bússola para encontrar sua satisfação “[o] Ding como Fremde, estranho e podendo mesmo ser hostil num dado momento, em todo caso como o primeiro exterior, é em torno do que se orienta todo o encaminhamento do sujeito” (LACAN, 1959-1960/1997, p. 69). Essa “estranheza” do objeto, de das Ding – se nos é permitido –, serve a Lacan para a formulação posterior do objeto a objeto que não preenche, mas convoca mais gozo.
Os objetos e as palavras tentam, sem sucesso, preencher esse vazio da Coisa. Dito de outra maneira, a satisfação, o gozo, que se acredita poder alcançar no objeto, abrange também o significante, a busca infinita de uma palavra que pudesse escrever o que não cessa de não se escrever. É algo que Freud já intuía e Lacan (1959-1960/1997, p. 67) capta perfeitamente em 1959:
a elaboração que nos faz progredir de uma significação do mundo a uma fala que pode formular-se, a cadeia que vai do mais arcaico inconsciente à forma articulada da fala no sujeito, tudo isso ocorre entre Wahrnehmung e Bewusstsein, como se diz entre dentes.
Não deixa de chamar a atenção a relação direta do que acontece com o significante e o corpo. Freud o situa no inconsciente, deixa de buscá-lo na neurologia. É Lacan quem, aos efeitos do significante como marca no corpo, atribui outro lugar que não é mais o do inconsciente e da linguagem. Ele fica com o efeito, considera o significante sem sentido, mas com importância suficiente para marcar um corpo e deixar nele um traço de gozo que está relacionado, mais do que com a linguagem, com lalíngua.
Da Coisa, das Ding, ao objeto a fora do corpo e à irrelevância do significante, elaborações que Lacan desenha em momentos cruciais de seu ensino e que apenas com o tempo encontrarão seu ponto de ancoragem, de virada, como mostra essa antecipação no Seminário 7 que adianta o que Lacan (1959-1960/1997, p. 71-73) trata em “Radiofonia” em relação com o corpo e os efeitos do significante nele:
Das Ding é originalmente o que chamaremos fora-de-significado. É em função desse fora-de-significado e de uma relação patética a ele que o sujeito conserva sua distância e constitui-se num modo de relação, de afeto primário, anterior a todo recalque […] a Coisa só se apresenta a nós na medida em que ela acerta na palavra, como se diz acertar na mosca. […] Em francês a palavra mot tem um peso e um sentido particular. Mot é essencialmente nenhuma resposta. Mot, diz La Fontaine a certa altura, é o que se cala, é justamente aquilo para o qual nenhuma palavra [mot] é pronunciada. As coisas que estão em questão – e que alguns poderiam contestar-me como sendo por Freud colocadas num nível superior ao desse mundo de significantes sobre o qual lhes digo o que ele é, a saber, o verdadeiro móvel do funcionamento do homem do processo qualificado de primário – são as coisas enquanto mudas. E as coisas mudas não são exatamente a mesma coisa que as coisas que não têm relação alguma com as palavras […]. Falei-lhes hoje do Outro enquanto Ding.
Acrescentarei, seguindo o caminho de das Ding aqui traçado, que faltou a Lacan há pouco menos de uma década ao tornar manifesto que o que estava em jogo era, na realidade, uma satisfação que reside no corpo, isto é, o gozo como tal. O gozo produzido no corpo por um significante que não quer dizer nada começa a ser elaborado por Lacan, pouco a pouco, a partir do que se chama de seu último ensino, em que passa do período das estruturas lógicas (com suas fórmulas da sexuação) para uma época orientada pela topologia. Essa transição começa com o Seminário 20 – no ano de 1972 –, dois anos depois de “Radiofonia”, texto que mencionamos aqui e sobre o qual Éric Laurent se pergunta se, nele, a tensão que Lacan evidencia entre o objeto a e o inconsciente tem ou não a ver com uma tópica diferente daquela que o próprio Freud propõe entre o Isso e o inconsciente. A esse respeito, diz: “O que Lacan sublinha aqui e martelará em seguida é que o encontro do corpo do simbólico com a carne resgata o objeto a como incorporal,[2] como efeito fora do corpo, como ‘goza-sentido’” (LAURENT, 2016, p. 34). Esse efeito fora-do-corpo, prossegue Laurent (2016, p. 35), é o da superfície do corpo, que se inscreve não sobre ou no, e sim fora do corpo, e é assim que o fora-do-corpo pode se articular com o corpo. Esse lugar fora e articulado às bordas erógenas do corpo permite evitar os erros naturalistas sobre a inscrição de traços de gozo.
O objeto a como fora-do-corpo fica articulado ao corpo do sujeito como superfície, isso permite que o objeto em questão seja vivido como exterior e que seja buscado aí fora sob formas diversas. A finalidade aparente dessa busca é que se supõe que, se há algo do corpo que está fora dele, é porque algo falta ao corpo (gozo). É o que muitos sujeitos vivem como “vazio”, ou como a experiência insistente de que algo lhes falta.
Esse objeto que está fora e que falta ao corpo promete, miticamente, o gozo que lhe falta. Sob a forma de objetos escópicos, invocantes, orais, anais, o sujeito busca sentir-se completo, busca no exterior o que lhe falta, inclusive sua “outra metade”. Mas, na realidade, o destino dessa busca e desse encontro sempre falho é o gozo do corpo. Se seguirmos Freud (1915/2016) nisso, em seu texto “As pulsões e seus destinos”, ele diz que há um único destino da pulsão: a satisfação. O objeto pelo qual ela passa para alcançá-la é verdadeiramente irrelevante. Pode ser uma coisa ou outra, para a pulsão tanto faz, pois o que pretende é satisfazer-se e isso ela o faz por meio do circuito pulsional, que se serve dos objetos para que o próprio corpo obtenha gozo. É o corpo, afinal, que depois da busca por mais satisfação se satisfaz consigo mesmo, sentindo-se, gozando-se. Há um querer fazer reingressar o objeto, ou também o gozo no corpo.
Pode-se deduzir, então, que para além dos significantes e dos objetos (que sempre vêm acompanhados por um significante), é antes algo do gozo que faz o corpo, no qual dizer e fazer andam juntos. Os objetos, segundo Lacan em “Radiofonia”, são mais do que aquilo que o sujeito usa para fazer entrar o gozo no corpo: são usados para contabilizar, enumerar ou localizar algo do gozo de cada um. Uma amostra disso é a sepultura, sobretudo as sepulturas antigas, nas quais se enterrava o corpo do morto junto com seus objetos. A sepultura é, além disso, um exemplo do conjunto vazio com o qual Lacan (1970/2003, p. 407) comparava o sujeito: “O conjunto vazio das ossadas é o elemento irredutível pelo qual se ordenam, como elementos outros, os instrumentos do gozo – colares, copos, armas: mais subelementos para enumerar o gozo do que para fazê-lo reingressar no corpo”.
Há, pois, o objeto a e suas múltiplas formas, situado fora-do-corpo como aquilo que permite a inscrição de uma superfície exterior e que se incorporará e se articulará ao corpo para delimitar certas zonas erógenas, de gozo, em cada sujeito. Há, também, o corpo como portador de uma marca que, não se deve esquecer, está – nessa época do ensino de Lacan – sempre vinculada a um objeto de gozo. Essa marca é a que circunscreve o que é para sempre recalcado, essa primeira escrita, Niederschrift, que Freud (1896/1996) vislumbra naquela carta de 6 de dezembro de 1896 e que dará voltas e voltas em seu pensamento, pelas páginas que escreve e que chegará a Lacan para continuar traçando seu caminho e chegar finalmente ao corpo e ao gozo, para deslizar de “a letter para a litter” (LACAN, 1971/2003, p. 15).

