1º SEMESTRE 2026
Argumento da Seção Clínica
Perspectivas da Prática Analítica
Maria Wilma S. de Faria
Passada a pandemia, momento subjetivo vivido como puro real, em que a morte era contabilizada em números e imperava um absoluto silêncio, esperava-se que o mundo fosse se tornar diferente. Ao que assistimos a partir desta segunda década do século XXI, entretanto, foi o acirramento de posições ideológicas e políticas cada vez mais rígidas, guerras e a quebra de contrato social, além da prevalência do gozo solitário. Enfim, um empuxo generalizado ao “eu sou o que eu digo”, por meio do qual os sujeitos se colocam acima da lei. Uma nova ficção, travestida de estilos de vida, se apresenta. Grupos se unem sob a forma de parceria mútua, que repousa em identificações, canalizando cada vez mais a agressividade e o ódio para fora, para as diferenças, para o Outro encarnado como mal.
Assistimos, ainda, à expansão da tese neuro, que, através de pressupostos científicos, tenta reduzir tudo o que é da ordem do mental ao funcionamento neuronal, de tal forma que o inconsciente se reduz a uma atividade ligada ao córtex, muito distante da descoberta de Freud e Lacan.[1]
Frente a esse panorama, qual lugar para a psicanálise? Quais os embates enfrentamos? Sabemos que o estatuto do saber em psicanálise difere radicalmente do discurso do mestre contemporâneo. Como a psicanálise responde, sem abrir mão dos princípios que orientam sua prática, aos desafios que se impõem hoje? De que maneira ela contribui para a leitura do mundo? Como a Orientação Lacaniana pode fazer frente aos desvirtuamentos das outras terapias que se autodenominam psicanalíticas, mas que estão voltadas para uma ortopedia psíquica “para fins de sugestão social e sujeição psicológica”?[2] A proliferação das terapias cognitivas comportamentais (TCC), o uso indiscriminado do ChatGPT e a tentativa de regulamentação da psicanálise são vertentes contemporâneas de descaracterizar a lâmina cortante de Freud.
Não podemos recuar. Os fundamentos da psicanálise continuam valendo: o uso da regra fundamental; não fazer uso da sugestão; o desejo do analista precisa estar posto; a transferência e seu manejo são a mola da experiência analítica; há lugar para a interpretação; fazer o inconsciente existir é operação essencial.
Que cada Núcleo de Pesquisa continue a não retroceder frente ao real do sintoma nos diferentes espaços em que a psicanálise se apresenta na cidade, nas instituições e nos consultórios. O convite que fazemos é o de um retorno a Freud e a seus princípios, não perdendo a dimensão do falasser! Ainda, que possamos avançar nas investigações, atentos ao que poderá advir, sem saudosismo, mas contribuindo para manter viva a experiência da psicanálise. E que,
(…) no campo aberto por Freud, restaure a sega cortante de sua verdade; que reconduza a práxis original que ele instituiu sob o nome de psicanálise ao dever que lhe compete em nosso mundo; que, por uma crítica assídua, denuncie os desvios e concessões que amortecem seu progresso, degradando seu emprego.[3]

