Maria Rita Guimarães
Psicanalista
Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP)
e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP)
E-mail: mariarita.guimaraes@gmail.com
Querido leitor de Almanaque On-line
Eis uma nova edição da revista: a de número 36. Com ela, inaugura-se um novo espaço, exclusivo para Almanaque On-line. Espaço pensado e construído para receber sua presença, seu tempo de leitura e seu amor de transferência aos textos que nos legaram Freud e Lacan – primeiramente –, seguidos da escrita, cada um com seu estilo, de colegas analistas da comunidade lacaniana, que se orientam pelo esforço inestimável de Jacques Alain-Miller. O Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais (IPSM-MG), responsável pela publicação de Almanaque On-line, agradece a cada trabalhador pela causa psicanalítica de orientação lacaniana.
Este espaço, portanto, está habilitado como prolongamento natural do princípio orientador de Almanaque On-line: aberto, rigoroso, amigável.
Três termos são anunciados pelo título deste número, orientando nossa leitura dos textos de Trilhamentos. Ilusão, Amor e Sintoma são figuras da relação sexual, como modos de enfrentamento à sua inexistência.
A palavra “ilusão”, a lemos à página 95 do Seminário 19, …ou pior: “O que nos dá a ilusão da relação sexual no ser falante é tudo o que materializa o universal num comportamento que, efetivamente, é de bando, nas relações entre os sexos” (LACAN, 1971-72/2012, p. 95).
O contexto em que Lacan (1971-72/2012) examina a questão do universal, nesse ponto, encontra-se em parágrafos imediatamente anteriores, em referência à “imagem animal da copulação” como modelo do que faz a relação sexual.
Ludmilla Féres apresenta a pergunta: “o que é que finalmente produz o corte entre o animal e o humano?”. Nosso convite é para que leia o texto “A ilusão da relação sexual” e veja a resposta que a autora dá à própria pergunta e a tantas outras questões, suscitadas pelo vasto tema, até nos esclarecer por que a ilusão não é suficiente para fazer a escrita da relação sexual.
Amor, isso sim, é problema de falasseres. No reino animal, o que há são cuidados, apego, já no combo do instinto, ao nascer, conforme a espécie em questão.
Amor, para o falasser, é “a-muro”, jogo homofônico de Lacan com a palavra “amour”: a parede da linguagem complica a vida de cada humano, nascido de um mal-entendido. Sophie Marret-Maleval, em seu texto “Um impossível acordo: amor e não relação sexual”, conduz-nos de forma clara, pelas formulações de Freud, Lacan, e Miller, à impossível harmonia entre os termos “amor” e “não-relação sexual”. Serve-se também de filmes de Woody Allen e da experiência de amor de Marguerite Duras e do jovem Yann Andréa Steiner, através de uma citação do livro de Yann, Este amor.
Se a psicanálise nos ensina sobre o amor, sobretudo por ele ser o motor da experiência – o chamado amor de transferência –, lendo aquilo que os próprios protagonistas escreveram a respeito de sua conturbada experiência amorosa (além da cultuada biografia escrita por Laure Adler) reconhecemos sem esforços o que Lacan (1965/2003, p. 200) disse: “onde Marguerite revela saber sem mim aquilo que ensino”.

Exemplos mínimos, em gotas, para ilustrar a atmosfera.
Contingência do encontro: “a história entre o muito jovem Yann Andréa Steiner e esta mulher que fazia livros e que era velha e sozinha como ele” (DURAS, 1987, p. 10).
As cartas de amor: “Muitas cartas. Às vezes, uma por dia. Eram bem curtas, espécies de bilhetes, quase gritados de um lugar invivível, mortal, de uma espécie de deserto. Esses apelos eram de uma beleza evidente” (DURAS, 1987, p. 2).
“Então, por minha vez, no vazio deixado por você, essa ausência de cartas, de apelos, eu lhe escrevi” (DURAS, 1987, p. 3).
Demanda de amor: toda a fórmula lacaniana, “Peço-te que recuses o que te ofereço porque não é isso”, escrita sem pudor, ora por um, ora pelo outro dos amantes.
Duras (1987, p. 62-63): “era tarde demais para mim, que eu não podia mais conter você. Como nunca consegui conter o medo de você. Você não sabe me poupar do medo de ser morta por você. […] Para mim, sua doçura me leva de volta à morte, a qual você certamente sonha em me dar, sem saber”.
A escrita:
Ela pergunta: você me ama? Eu não respondo. Não consigo. Ela diz: se eu não fosse Duras, você nunca teria olhado para mim. Eu não respondo. Não consigo. Ela diz: não é a mim que você ama, é a Duras, é o que eu escrevo. Ela diz: você vai escrever “eu não amo Marguerite”. Ela me dá uma caneta, uma folha de papel e diz: vá escrever, assim estará feito. Não consigo. Não escrevo o que ela me pede para escrever, o que ela não quer ler. Ela diz: Yann, se eu não tivesse escrito nenhum livro, você me amaria? Abaixo os olhos. Não respondo.
[…]
Sim, estou aqui para registrar as palavras que você diz, para deixá-la escrever enquanto eu fico em silêncio, enquanto não compreendo, enquanto você inventa a verdadeira história do mundo. Estou aqui para isso. Para evitar que isso pare, para fazer com que as palavras sejam inscritas na página. Para que os livros sejam feitos e oferecidos a todos, a todos os leitores que ainda não sabem que esse livro os espera. (ANDRÉA, 2014, s.p., tradução nossa)

Entre o jovem que apenas conseguiu amar outros homens e “esta mulher já idosa, louca de escrever”, a relação sexual não se inscreveu, tal como o sexo não se fez. Escrever diversos livros sobre esse louco amor os deixa aprisionados até a morte de M. Duras.
Em “O espaço de um abraço: Joyce Lom e sua mulher G(love)”, acompanhamos o desenvolvimento realizado por Sérgio de Mattos, que nos esclarece por que “Lacan encontra em Joyce um exemplo extraordinário da constituição de um corpo de gozo como um modo de lidar com a não relação entre os sexos”.
No texto, não se trata do sintoma, categoria modal do necessário – “o que não cessa de se inscrever” – para cada um. O sintoma é da ordem do necessário, isto é, não há saber no real sobre a sexualidade. É que remete ao “não cessa de não se inscrever”, à não-relação sexual.
No caso de Joyce e sua relação com Nora, sua mulher, “trata-se da relação entre o sujeito e o seu sinthoma”; “ se há relação sexual”, ela só existe no sentido restrito e deslocado em que o sujeito mantém uma relação com o seu próprio sinthoma – e não com o outro sexo. O autor nos afirma que Joyce não escreve a relação sexual, mas o impossível dela. É em Joyce que o aforismo ‘não há relação sexual’ pode ser uma… “exceção poética”.

O que se conversou?
Na 33ª Conversação da Seção Clínica do IPSM-MG, realizada em 25 de outubro de 2025, conversou-se muito e de forma fecunda. Os elementos extraídos da Entrevista Clínica, acontecida semanas antes, reafirmou o que se sabe a respeito desse trabalho: a riqueza clínica que ensina muito a cada um que se faz presente.
Fernando Casula estava lá e sua contribuição com o registro e as reflexões contidas em seu texto “De um brilho especial à obscuridade mortífera da realidade: ensinamentos de uma entrevista clínica” tornam sua leitura imperdível!
Chegamos a Encontros.
Esperam-nos uma especial entrevista, consequência de ato de trabalho. Quais os pontos, como efeitos de leitura, provocam a atenção daqueles que dedicam muito de seu tempo ao exercício de tradução, revisão e cotejamento das referências bibliográficas de um texto que, vertido a outra língua, componha uma publicação? Ana Helena Souza, Beatriz Espírito Santo, Letícia Mello, Tamira Bacha e Márcia Bandeira respondem a essa pergunta nesta edição 36.
De uma nova geração é a rubrica móvel de Almanaque On-line, que comparece sempre no primeiro número do ano. Alunos do curso do IPSM-MG apresentam-nos suas elaborações que, podemos assim deduzir, foram os “pontos altos” daquilo que, até o momento, lhes convocaram à escrita.
Munyke Paulo Rodrigues, a partir de uma pergunta de Miller – “a formação do analista seria comparada a uma zona sísmica?” –, desenvolve a articulação entre os termos “psicanálise”, “sismos” e “restos”, que constam no título do texto, sustentando a pergunta “O que é um analista?”.
Rodrigo Goes e Lima traz em seu texto a argumentação que lhe permite afirmar, já no título, a seguinte consideração: “O pensamento obsessivo como objeto”. Cito o autor, em sua própria formulação: “Argumenta-se, assim, que no obsessivo, a retenção do pensamento como simulacro de um objeto precioso possibilitado por uma peculiaridade do mecanismo de recalque dessa neurose permite extrair da faculdade do pensar a cota máxima de satisfação sexual”.
Esperamos que você, leitor, explore o espaço e leia a revista Almanaque On-line. Volte sempre ! Baixe o PDF!
Nossos sinceros agradecimentos a cada um dos autores dos textos que compõem este número de Almanaque on-line.

