Fernando Casula Ribeiro Pereira
Psiquiatra e psicanalista
Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP)
e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP)
E-mail: fernando.casula@hotmail.com
“Sou portador de um brilho especial.”
Essa frase foi dita pelo paciente durante uma “entrevista clínica” de orientação lacaniana. Ela traduz o ponto fundamental do caso: o lugar de exceção que o sujeito se coloca. O brilho especial não é um brilho qualquer, ele é comparável e está igualmente sob o estatuto que rege a metáfora delirante “A Mulher de Deus” do presidente Schreber, embora não se constitua em si mesmo uma metáfora estabilizadora. Contudo, confere-lhe um lugar acima e fora da lei – além ou aquém de todo bem e de todo mal. Esse brilho reveste de sentido o que se apresenta como ponto de certeza do real que não recebe mediação pela lei simbólica, constituindo, assim, o cerne da defesa delirante de conteúdo místico interpretativo.
Importante marcar que uma “entrevista clínica” de orientação lacaniana, outrora conhecida como “apresentação de pacientes”, se diferencia, no que diz respeito à lógica discursiva, das apresentações realizadas no contexto psiquiátrico clássico (FERREIRA, 2013). Pois trata-se de um dispositivo reconhecidamente de intervenção clínica capaz de produzir importantes efeitos terapêuticos, na medida em que favorece a presentificação do real colocado em cena pelo psicótico, conjugado ao saber fazer do entrevistador implicado com a transmissão desse real.
Podemos dizer que a partir do lugar de exceção em que se aloja o sujeito, portador do brilho especial, toda uma cadeia de interpretação delirante se constrói
Nesse sentido, vimos o entrevistador retomar insistentemente o dito brilho especial, certamente para dele extrair o fenômeno elementar em sua pungente certeza: um ponto de puro real assemântico encontrado num estado de trema, ou até mesmo numa alucinação corporal ou sensorial, antes que a interpretação delirante viesse a recobri-lo pelo sentido. Lembremos que Lacan buscava esse ponto em cada uma das entrevistas que fazia, segundo nos relembra J.-A. Miller (1996, p. 149) no texto “Lições sobre a apresentação de doentes”, em Matemas 1.
O paciente em questão não nos contou e nem apresentou este tipo de fenômeno durante a entrevista. O que ele nos oferece em forma de certeza é seu delírio. Lembremos que Lacan (1955-56/1992) no Seminário 3 também confere ao delírio o estatuto de fenômeno elementar.

Nesse sentido, vimos o entrevistador retomar insistentemente o dito brilho especial, certamente para dele extrair o fenômeno elementar em sua pungente certeza: um ponto de puro real assemântico encontrado num estado de trema, ou até mesmo numa alucinação corporal ou sensorial, antes que a interpretação delirante viesse a recobri-lo pelo sentido. Lembremos que Lacan buscava esse ponto em cada uma das entrevistas que fazia, segundo nos relembra J.-A. Miller (1996, p. 149) no texto “Lições sobre a apresentação de doentes”, em Matemas 1.
O paciente em questão não nos contou e nem apresentou este tipo de fenômeno durante a entrevista. O que ele nos oferece em forma de certeza é seu delírio. Lembremos que Lacan (1955-56/1992) no Seminário 3 também confere ao delírio o estatuto de fenômeno elementar.
Podemos dizer que a partir do lugar de exceção em que se aloja o sujeito, portador do brilho especial, toda uma cadeia de interpretação delirante se constrói. Importante marcar que é no plano do pensamento que isso acontece. Vimos também o entrevistador, ao bom estilo de De Clérambault, procurar com uma certa insistência trazer à luz na fala do paciente a diferenciação do que no pensamento se deixa invadir por outra ideia delirante, de uma possível sonorização do pensamento, o que em psicopatologia se chama de alucinação. Assim, podemos dizer que, no nível psicopatológico, deparamos com alterações tanto da forma, quanto do conteúdo do pensamento, e descartamos a presença de alucinações auditivas, o que nos permite inferir que se trata de uma psicose desencadeada delirante crônica sem alucinações.
O paciente não localiza com precisão temporal o momento a partir do qual começou ter essas ideias, mas faz uma ressignificação delirante de sua história desde a infância, remontando à época em que estava sendo gestado no útero de sua mãe: “Lá já havia os espíritos do mal prontos para não o deixarem nascer”. Sempre foi rodeado por esses espíritos, ou de pessoas que os encarnavam, e que exigiam dele combate espiritual.
O brilho especial lhe confere poder de se proteger e de proteger “as pessoas certas”. Cita músicas (funks e raps) que falam sobre isso… as interpreta como feitas para ele. Também se identifica a vários personagens bíblicos; no entanto, diz que seu caráter é único.
A resposta do sujeito muitas vezes é a passagem ao ato agressivo, seja reativa ao delírio, seja impulsivamente buscando alívio afetivo.
Cabe ressaltar que o mundo no tempo presente é constantemente reinterpretado, sem uma construção delirante sistematizada. As ideias são listadas uma ao lado da outra, sem se anularem, mesmo que sejam contraditórias, pois não obedecem à lógica formal do pensamento. Observamos que algumas respostas do paciente variam de acordo com o aspecto sonoro das palavras, e outras são construídas a partir de mal-entendidos colocados pelo entrevistador. Observamos falas repletas de deslizamentos metonímicos. Exemplos: “Nasci no mês sete… setembro… setembro amarelo. Sou amigo de Jorge e João… Jorjão. Sou a sobra ou sombra de Deus”. Inclusive o aparecimento de um mosquito durante a entrevista obedece a uma lógica semelhante: o mosquito pousava nele, logo estavam perturbados, tal como pousou na cama de uma criança que julgou ter sido abusada.

Cabe ressaltar que, embora tenha exposto livremente suas ideias, houve um ponto central delirante dissimulado e que somente foi tocado de forma alusiva através de temas afins. O tema do abusador e da criança abusada assume relevância, assim como o uso abusivo de crack, a exposição à violência do tráfico e os atos agressivos reativos ao delírio fazem parte desse contexto e não foram ditos diretamente durante a entrevista. O portador do brilho especial se identifica tanto com o abusador quanto com o abusado, e, por não poder contar estruturalmente com o recurso do fantasma e da lei simbólica, sucumbe à certeza de um real que se impõe desde fora. A resposta do sujeito muitas vezes é a passagem ao ato agressivo, seja reativa ao delírio, seja impulsivamente buscando alívio afetivo.
Espera-se que as construções teóricas a partir da clínica contribuam com a equipe de tratamento no sentido da condução do caso.
A atividade entrevista clínica é composta por dois tempos: primeiro trata-se do encontro entre o entrevistador e o paciente entrevistado perante a plateia composta pela equipe de tratamento e demais interessados na transmissão da psicanálise e no segundo, os participantes do primeiro encontro, sem a presença do paciente, retomam as falas da entrevista numa discussão que visa a construção de saber clínico partindo do singular transmitido por um real enquanto “impossível de suportar”. Então, a partir de observações colocadas pelo comentador, a palavra circula entre participantes da plateia, em formato de conversação. Espera-se que as construções teóricas a partir da clínica contribuam com a equipe de tratamento no sentido da condução do caso. A discussão que se segue reflete isso.
Considerações nosográficas e psicopatologia lacaniana
Em relação ao aspecto semiológico, encontramos um paciente preservado do ponto de vista cognitivo e afetivo. O afeto é síntone sem ambivalências e o humor normotímico, sem exaltações. A função sensoperceptiva encontra-se sem alterações, ou seja, não apresenta aparentemente alucinações.

Diante desses sintomas listados, consideramos a hipótese diagnóstica de paranoia interpretativa, e, como diagnóstico diferencial, esquizofrenia paranoide.
A paranoia interpretativa é conhecida também como “loucura racional”. Obedece a uma lógica de decifração de acordo com um sistema fundamental de significação.
O grupo das paranoias, também conhecidas como psicoses delirantes sistematizadas, encontra-se, conforme descreve Henry Ey (1981), elencadas no hall das doenças mentais crônicas. Esse grande grupo se subdivide em três:
Delírios passionais e de reivindicação
Delírio sensitivo de relação (Kretschmer)
Delírio de interpretação (Sérieux e Capgras)
Consideramos que o caso em questão se encontra classificado no grupo 3. A paranoia interpretativa é conhecida também como “loucura racional”. Obedece a uma lógica de decifração de acordo com um sistema fundamental de significação. A estrutura desses Delírios, como dizia Clérambault (por oposição aos Delírios passionais), não é “em setor”, mas “em malha”. Ou seja, o conteúdo dos sistemas delirantes (interpretações, alusões, suposições, pseudo-raciocínios) constitui um sistema mais livre e difuso, uma justaposição ou mosaico de ideias delirantes, em vez de uma organização coerente e concisa. Dessa forma, o Delírio pode ser constituído pelos temas mais diversos. O tema da perseguição pode ir desde a perseguição policial ao complô de família ou de legiões de espíritos do mal, etc. Os temas megalomaníacos variam desde a filiação aristocrática à missão divina. O portador do brilho especial conjuga tanto a face megalomaníaca da missão divina quanto a persecutória.
Henry Ey enfatiza aspectos médicos jurídicos e envolvimento com a justiça relacionados aos delírios paranoicos, os quais decorrem tanto de apelos reivindicativos dos próprios pacientes ou denúncias por parte de terceiros à agressividade reativa advinda de delírios de perseguição, quanto decorrentes de passagens ao ato ( atos auto e heteroagressivos cometidos como tentativa de alívio afetivo).
Unglauben freudiana e a certeza
A descrença do sujeito psicótico no pai, naquilo que, no código da linguagem, representa a lei, Freud já a assinalava para Fliess no seu “Rascunho K”. Nele, podemos ler: “O elemento básico da paranoia é o mecanismo da projeção, que envolve a recusa da crença na autocensura” (FREUD, (1896/1976, p. 309). O que nos chama a atenção nesse esquema de Freud é que a “recusa de crença” é colocada por ele como anterior ao recalque e como condição de possibilidade para a existência de qualquer representação. Freud, ainda no texto citado, nos lembra que o delírio se instalaria, num segundo tempo, como tentativa de restauração da crença primária que não houve. A certeza delirante funciona pois como um substituto da crença primária. Essa recusa primária na autocensura que Freud detecta no paranoico é então tomada por Lacan como ausência de um dos termos da crença. Em um determinado momento, Freud retifica o mecanismo fundamental da paranoia como sendo a abolição: o que está abolido internamente é retornado desde o exterior. O que é lido por Lacan como: “O que não veio à luz no simbólico aparece no real”. Esse retorno vem como certeza em forma de delírio e alucinações, como imposições e perseguições desde o campo do Outro.
Ao contrário, a entrevista clínica bem conduzida pode favorecer a captura do real pelo simbólico, na medida em que o entrevistador não encarna o Outro gozador para o paciente.
A descrença do psicótico na função de normatização do significante mestre não permite a subjetivação da censura. Embora a censura venha do Outro, a falta de crença na função do mestre colabora para não a ratificar, impossibilitando assim que o sujeito dela se aproprie.
No texto “De uma questão preliminar…”, Lacan utilizará com mais precisão essas operações, definindo que a Verwerfung (forclusão) age num ponto específico da cadeia, num determinado significante chamado por ele de Nome-do-Pai. Esse significante especial responde no Outro (matriz de significantes) pela possibilidade do efeito metafórico de substituição, pela possibilidade de funcionamento da própria lei do significante, e pelo advir da significação fálica. Essa operação permite que o sujeito se sirva da linguagem enquanto discurso. A descrença em tal função – também designada como forclusão do significante Nome-do-Pai – resulta em que a causa não adquira valor de existência para o sujeito e, assim, só poderá fazer-se “ex-sistir” no real (do lado de fora do simbólico). A certeza do paciente entrevistado, de portar o brilho especial, estaria aí localizada. A forclusão do significante Nome-do-Pai também marcaria para esse sujeito seu lugar de exceção, o qual a lei simbólica e a lei da cultura não ordenam.
Considerando os construtos expostos, deixo questões sobre possibilidades de intervenção e o limite do tratamento. Obviamente, evitar a repetição de atos agressivos faz parte da boa condução clínica. Para tanto, a contenção física através dos serviços como o CAPS e as próprias paredes do hospital psiquiátrico estão indicadas em momentos específicos. O uso de neurolépticos também é indispensável. Intervenção biológica como eletroconvulsoterapia não me parece indicada, pois interpretações delirantes não se mostram responsivas a essa intervenção. O tratamento psicanalítico tem sua indicação ao considerar o modo como se opera o fazer com o gozo. Assim, confrontar a certeza delirante do paciente com dados da realidade, não me parece indicado, pois servirá apenas para presentificar um Outro invasivo e gozador, reforçando a ideação delirante e precipitando a possibilidade de atos agressivos. Ao contrário, a entrevista clínica bem conduzida pode favorecer a captura do real pelo simbólico, na medida em que o entrevistador não encarna o Outro gozador para o paciente. Preservar o vínculo frouxo entre o terapeuta e o paciente, assim como o manejo por parte do analista, visando a instalação do “benefício da dúvida” para intervir contra a certeza do real, são intervenções que possibilitam uma certa eficácia.
Para concluir, diria que atuações auto e heteroagressivas cometidas pelo paciente durante os anos passados, e que geralmente são passíveis de punição segundo o código penal, não devem permanecer na obscuridade, como se nunca tivessem acontecido. É melhor que sejam abordadas pela palavra e que tenham algum tipo de endereçamento à justiça. Pois a dificuldade de subjetivação da lei, característica da estrutura psicótica, somada à desresponsabilização pelos atos cometidos, pode favorecer a repetição desses atos.

