Algumas colegas da equipe editorial de Almanaque on-line disponibilizaram um precioso tempo no trabalho de tradução, revisão e identificação das referências bibliográficas nas publicações em português do texto da colega francesa Sophie Marret-Maleval. Tal texto recebeu a amável autorização da autora para sua publicação no presente número.
A complexidade da tarefa não lhes arrefeceu o entusiasmo, longe disso! O revezamento das funções e a disciplina de uma leitura rigorosa, imposta no exercício de verter ao português a elaboração de Sophie Marret-Maleval, foram uma experiência de transferência com o texto, representante da transferência à psicanálise lacaniana.
Em razão disso, Almanaque 36 decidiu colocar uma pergunta a cada uma das colegas sobre as formulações da autora. Acompanhemos suas respostas.
Almanaque 36: Sophie Marret-Maleval menciona que a inspiração do título de seu texto veio do poema em prosa de Baudelaire, “O meu coração desnudado”:
O mundo só anda pelo mal-entendido.
É pelo mal-entendido universal que todo mundo se põe de acordo.
Como esses dois versos do poeta se articulam ao aforismo “Não há relação sexual”?
Ana Helena Souza: A autora explicita, em seu título, os dois termos sobre os quais ela se debruça: o amor e a não-relação sexual. Para o senso comum, o amor estaria do lado da poesia e dos poetas, e muitas vezes está, justo no sentido, dado por Lacan, daquilo que faz suplência à inexistência da relação sexual para os seres falantes. Baudelaire, ao apontar um desacordo para todos via “mal-entendido universal”, revela a universalidade da inexistência da relação sexual. Em francês, a não-relação, non-rapport, traduz-se também por falta de proporção, de harmonia, de conformidade. Mais adiante no poema, o poeta diz que, se nos compreendêssemos, seria “por desgraça”. Leio nessa “desgraça” um …ou pior. O Um de gozo revelado, o Um-sozinho posto a nu, que lugar possível para o laço com o Outro? Onde, o amor? Então, o poeta se compensa do seu amargo saber. A linguagem continua a nos socorrer com seus mal-entendidos, a permitir acordos possíveis.
Almanaque 36: Está no texto: “Não se pode escrever xRy porque não há y, não há significante d´A Mulher. Não se pode, assim, escrever uma relação lógica entre homem e mulher, o que conduzirá Lacan a afirmar que a relação sexual é aquilo que “não cessa de não se escrever”. Como entra o amor nessa impossibilidade?
Letícia Mello: O texto de Sophie Marret-Maleval articula de forma precisa a função de suplência do amor à inexistência da relação sexual. A premissa lacaniana “Não há relação sexual” indica, conforme citado do Seminário 16 e em “Radiofonia”, que “o significante não é capaz de dar corpo a uma fórmula que seja da relação sexual” (LACAN, 1970/2003, p. 411). Essa impossibilidade simbólica é justificada, sobretudo, pelo fato de que a mulher é “não-toda” na lógica fálica, ou seja, não há um significante que represente a mulher universalmente. O falo simbólico não captura a totalidade do feminino. Assim, não havendo um significante d’A mulher, não há possibilidade lógica para uma relação entre os sexos. Isso quer dizer que não existe uma complementaridade natural entre os sexos, já que um dos lados, o lado feminino, não tem representação. Na falta de um significante que simbolize A mulher, Lacan anuncia que a relação sexual, como um encontro complementar entre um homem e uma mulher, é impossível; não há uma representação simbólica que os uniria. Segundo Lacan, o sexual não se escreve na linguagem, ele é uma experiência que escapa à totalidade simbólica. Esse registro é incapaz de dar conta da experiência sexual e toda tentativa de abordá-la através da linguagem falhará. Há algo indizível, um resto, um impossível de localizar. Sendo o real, portanto, aquilo que escapa à linguagem, a não-relação sexual é justamente aquilo que “não cessa de não se escrever”. Considerando essa falta fundamental de significante no encontro entre dois sexos, Lacan conclui que o amor opera como compensação diante do impossível da relação sexual, ele tapa o vazio da não-relação. Sophie Marret-Maleval destaca em seu texto que o amor é o que permite um “vínculo entre os inconciliáveis’. Ele alivia os ideais sem negar o real do impossível. O amor não é fusão, mas recurso para lidar com a falta de possibilidade da relação entre dois falasseres. Ele “faz suplência” ao real no campo sexual. Como sintetiza a autora, o amor é uma “solução para a solidão fundamental”. O falasser é marcado por essa solidão, decorrente da não-relação sexual. A linguagem, ao mediar a relação com o outro, acentua essa solidão, pois o significante é incapaz de escrever uma complementaridade entre os sexos. O amor opera uma ligação entre o Um e o Outro por intermédio do objeto a. Esse objeto é um recorte no real, um “pedaço de real”, é o objeto que falta e que coloca o Outro no lugar de causa de desejo. O amor é, então, uma “solução”, não uma redenção. Ele não elimina a solidão estrutural, mas oferece um arranjo contingente para suportá-la – um “acordo impossível” entre os sexos, mediado pelo desejo. O amor é o que enlaça, quando a estrutura impõe uma descontinuidade. Ele faz com que isso cesse de não se escrever, ou, mais precisamente, nota Lacan (1972-73/1985, p. 199), o que faz “passar a negação ao não cessa de se escrever, não cessa, não cessará”.

Almanaque 36: O amor é sempre recíproco, afirma Lacan. O que isso quer dizer?
Beatriz Espírito Santo: É importante localizarmos que Lacan afirma isso logo nas primeiras páginas do Seminário 20, considerado o período de seu último ensino. Este será seguido pelo ultimíssimo ensino a partir do capítulo 9 do Seminário 23, segundo Miller. No Seminário 19, ele introduz com bastante veemência a noção do Um sozinho e, no Seminário 20, se dedica a falar do amor. Acho interessante esse movimento entre o 19 e o 20, pois ele fala do Um que é só e, logo em seguida, como esse Um fará laço com o Outro – através do amor. O ultimíssimo ensino vai na direção do que há, Há-gozo, em contraponto ao que não há, não-há-relação-sexual. Então, como fica o amor e sua reciprocidade?
Um bebê que nasce está banhado pela linguagem na forma de lalíngua, mas ele mesmo é só um organismo que pulsa. É necessário a presença e o contato de outro humano para que possa surgir nele a intenção de entrada na linguagem. A partir daí, ele vai isolar de forma totalmente contingente um S1 que fará um furo nesse organismo de forma que, ao se apagar, vai marcar o corpo que agora já não será mais puro organismo. Esse S1/letra inaugura o corpo pulsional, ainda como Um sozinho. No Seminário 10 (LACAN, 1962-63/2005), há um esquema muito simples, mas instrutivo, que mostra como em um tempo lógico posterior ocorre o encontro de um Sujeito sem barra com o Outro sem barra. Desse encontro surge tanto um sujeito dividido, quanto o Outro dividido, e algo resta dessa operação: o objeto a. Esse objeto, singular, não é do sujeito e não é do Outro, ele cai, sobra, e está perdido para sempre. E, porque nos falta algo, vamos em direção ao Outro na esperança de que essa falta seja preenchida. De certa forma, é isso que Lacan vai chamar de amor: a demanda pela parte perdida, a crença de que dois podem fazer Um. Mas essa completude é impossível, ou seja: a relação sexual não existe.

O amor é recíproco, pois o sujeito procura no Outro esse objeto singular – crê que o Outro (um Outro específico, aquele que repete as condições do primeiro encontro) tenha esse objeto. É recíproco, pois
existe um vai-e-vem: o amor que tenho por ti é efeito do retorno da causa do amor que tu és para mim. Portanto, tu não estás aí à toa. Meu amor por ti não é só assunto meu, mas teu também. Meu amor diz alguma coisa de ti que talvez tu mesmo não conheças. (MILLER, 2021, p. 12)
Lacan (1972-73/1985, p. 12), ao dizer sobre essa reciprocidade, completa que “é por isso mesmo que se inventou o inconsciente”. Isso é muito bom! Veja que ele fala do movimento do Um sozinho em direção ao laço social da linguagem, na invenção que será o inconsciente. E esclarece, nessa mesma página, que o amor demanda o amor, mais, ainda…
Almanaque 36: No filme citado por Sophie Maleval – Magia ao luar, de Woody Allen –, de qual desacordo se trata?
Tamira Bacha: Nesse filme, o personagem Stanley, um mágico “ardoroso defensor da ciência”, considera tolos os que acreditam num mundo metafísico. Ele se diz um homem racional e profere, inclusive, que qualquer outro caminho o levaria à loucura. Stanley se dedicava a desmascarar falsos médiuns. A convite de um mágico conhecido que se dizia amigo, conhece Sophie, uma jovem mulher, que se apresentava como médium, telepata, como aquela que poderia “convocar o mundo invisível”. Aí podemos localizar o impasse entre esse par Stanley/Sophie: um homem que se dizia racionalista, que não se deixava enganar, iludir, e uma mulher farsante, que desafia a razão, o bom senso. Não há complementariedade lógica entre eles. Porém, Stanley sucumbe ao sorriso enigmático e ao olhar de Sophie, quando é tomado pela alegria do tolo, um “truque” que ele não entende. O caráter irracional do sentimento amoroso pelo qual Stanley foi arrebatado o deixou cego às trapaças de Sophie. A própria Sophie aponta para o que rateia na relação, em uma de suas falas finais, quando Stanley, embaraçado, tenta convencê-la de desistir de se casar com outro homem e ficar com ele. Sophie então lhe diz: “Você é brilhante com um maço de cartas, mas é péssimo para me pedir a mão”.
Almanaque 36: No texto, há uma citação importante de “O mal-estar na civilização”, relacionada ao discurso da ciência que não quer saber sobre a pulsão de morte de Freud. Poderia comentar essa passagem?
Márcia Bandeira: Esse trecho de “O mal-estar na civilização” que a autora cita traz uma reflexão profunda sobre o destino da civilização humana e sua eterna luta entre as forças da vida e da destruição. Essa passagem está diretamente ligada à teoria das pulsões em Freud, em que a pulsão de vida (Eros), representada pelo amor, cooperação e autoconservação, se opõe à pulsão de morte (Thanatos), que tende à desagregação, à destruição e ao retorno do estado inorgânico, manifestada como agressividade e autodestruição.
O domínio das forças da natureza pela ciência e tecnologia criou o poder do extermínio total. Os homens sabem disso e essa consciência da aniquilação iminente é, para Freud, a fonte de grande parte da “inquietação, infelicidade e angústia” contemporâneas. Esse conflito descrito por Freud se agrava ainda mais hoje, pelo poder destrutivo da tecnologia moderna. O discurso da ciência só mantém a ilusão de que podemos compensar o fracasso, o sofrimento e o mau funcionamento

