Sérgio de Mattos
Psicanalista
Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP)
e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP)
A. E. em exercício, 2022-2024
E-mail: sergioecmattos@hotmail.com
Lacan se serve da metáfora da luva (glove), para pensar a relação entre Joyce e sua esposa Nora, explicando o que o permite ter um corpo e, pela via do amor, fazer existir sua esquisita relação sexual. Mas essa não é uma luva prêt-à-porter. Ele faz da luva-Nora sua própria obra, por meio da qual pode conter o corpo que lhe escapa. Depreende-se daí uma função estabilizadora para seu gozo. Nora é a mulher-ajuste, ajusta um corpo a Joyce. J.-A. Miller comenta que Lacan salva assim a relação sexual.
Mas o que quer dizer “salvar a relação sexual”, se Lacan é justamente aquele que enuncia o aforisma “não há relação sexual”? O amor e a arte são tentativas de contornar esse impossível. Joyce, com sua invenção, escreve uma topologia do impossível: transforma o não-haver-relação em estilo, em sinthoma.
Ishmael in love
Na ficção Ishmael in love, lemos o que se passa com o amor de um golfinho por Lisabeth, especialista nas relações entre humanos e cetáceos. O que é esse amor? A excitação e a ânsia de estar próximo. Qual a natureza dessa atração? “É minha necessidade da sua companhia” (SILVERBERG, 1980), diz Ishmael sobre Lisabeth. “Acredito que ela me compreende como nenhum membro de minha espécie é capaz de fazer” (SILVERBERG, 1980). O corpo é, entretanto, obstáculo: ele tem 175 kg e 2,9 m; ela, 1,80 m e 52 kg.
Ele faz da luva-Nora sua própria obra, por meio da qual pode conter o corpo que lhe escapa. Depreende-se daí uma função estabilizadora para seu gozo. Nora é a mulher-ajuste, ajusta um corpo a Joyce. J.-A. Miller comenta que Lacan salva assim a relação sexual.

Não estou seguro se sinto desejos sexuais, é mais como se um anseio generalizado gerasse uma perturbação generalizada por sua presença, que traduzo em termos sexuais para tornar compreensível para mim […] ela não tem os traços que busco em uma parceira, bico proeminente e elegantes barbatanas. Os traços físicos desejáveis da sua espécie não têm importância para mim e em alguns aspectos têm um valor negativo. É o caso das duas glândulas mamárias na região peitoral que certamente atrapalham seu nado. É certo que Lisabeth lamenta o tamanho e o lugar destas glândulas, já que cuidadosamente as cobre. (SILVERBERG, 1980)
Essa cena lateraliza o aforisma lacaniano: a relação sexual não existe. A tentativa de união dos corpos culmina na asfixia. A relação, em vez de proporção, revela o abismo de espécie, de linguagem, de gozo. Onde Ishmael busca encontro, encontra-se o real do desencontro.
Ishmael não entende a relação sexual entre humanos; considera possível que se reproduzam de maneira randômica, o que lhe parece estranho e perverso, e lamenta: “Preciso ler mais”. Todo o conto converge para o desencontro. Arrebatado, deixa escapar: “Lisabeth, I love you! Venha viver comigo e ser meu amor” (SILVERBERG, 1980). Ao implorar por sua companhia, ela se desnuda na piscina; ele treme – “aquela feiura das glândulas e ainda aquele inesperado pedaço de pelos corporais adicionais” (SILVERBERG, 1980). Na água, esquecido de tudo, corre, aperta-a entre barbatanas, imaginando o abraço humano. Sente a mão que lhe batia, signo de reciprocidade; logo percebe, com o cérebro enevoado de paixão, que ela não tinha mais ar. Subiu rápido à superfície. “Minha querida Lisabeth estava chocada, ofegante, respirou fundo e tentou escapar de mim, exausta, seu pálido corpo tremendo. E, em voz fraca, disse: ‘Você quase me afogou, Ishmael’” (SILVERBERG, 1980).
Essa cena lateraliza o aforisma lacaniano: a relação sexual não existe. A tentativa de união dos corpos culmina na asfixia. A relação, em vez de proporção, revela o abismo de espécie, de linguagem, de gozo. Onde Ishmael busca encontro, encontra-se o real do desencontro.
O espaço de um abraço
Nas correspondências entre Joyce e Nora, verifica-se que a luva virada ao avesso é sua mulher, Nora. Desse modo, ele considera que ela lhe cai como uma luva. Não é apenas preciso que ela lhe caia como uma luva, mas que ela o cerre como uma luva… e acrescenta que ela também não serve absolutamente para nada.
Que ela lhe caia como uma luva, o cerre e não sirva para nada: são as três condições dessa construção. Ser uma luva fabricada à sua medida (handmade), que lhe dê consistência – mantenha seu corpo como um – e não sirva para nada, ser uma mulher degradada, tornada puro objeto-dejeto, produzindo uma localização para seu gozo.
A metáfora da luva da qual se serve Lacan baseia-se nas correspondências de Joyce e Nora e no opúsculo de 1768 de Kant, em que o filósofo utiliza essa peça do vestuário para provar a natureza real do espaço, isto é, sua existência como um a priori. Contudo, Lacan discorda dessa ideia kantiana de um espaço dado, conforme Kant (1768/1983) o concebe, mas, ao contrário, considera-o uma construção que depende do imaginário e do simbólico.
A luva, como metáfora, portanto, não serve a Lacan para representar um espaço empírico, anatômico – aquele do corpo enquanto organismo delimitado –, mas para figurar uma topologia do gozo, em que o dentro e o fora se tornam reversíveis.

A essa perspectiva lacaniana da construção do espaço corresponde portanto a da construção do corpo, da qual se serve Lacan, que se revela em Joyce, num texto escrito sobre a relação de Blake e sua mulher. Identificando-se a Blake, o escritor expõe sua própria relação com Nora:
Blake não se sentia atraído por mulheres cultas ou refinadas; preferia a mulher simples, de mentalidade nebulosa e sensual, ou desejava que a alma de sua amada fosse uma criação lenta e dolorosa sua, libertando e purificando diariamente, diante de seus próprios olhos, o demônio oculto na névoa. (JOYCE, 2012, p. 232)
Nas cartas endereçadas a Nora, ilustra-se a solução joyceana:
Querida Butterfly… Espero que tenhas recebido bem as luvas que te obsequiei… O par mais bonito é o de pele de raposa; estão forrados de sua própria pele, simplesmente postos ao avesso e devem ser quentes, quase tanto como certas partes do seu corpo, Butterfly… (JOYCE, 2000, p. 69)
A luva, como metáfora, portanto, não serve a Lacan para representar um espaço empírico, anatômico – aquele do corpo enquanto organismo delimitado –, mas para figurar uma topologia do gozo, em que o dentro e o fora se tornam reversíveis. Assim como uma luva pode ser virada do avesso sem que se perca a continuidade da superfície, o sujeito e o corpo se implicam por uma torção: não se trata de dois termos distintos (um sujeito e um corpo), mas de um único campo, o do gozo, que se volta sobre si mesmo.
Em outras palavras, não se está dizendo que o corpo tem um interior psíquico e um exterior corporal, mas, ao contrário, que a linguagem vinda de “fora” do Outro percute e fura o corpo por “dentro”, e que o corpo, enquanto lugar de gozo, fura a linguagem por fora, o que nos faz pensar que o gozo ocorre na passagem de um lado ao outro, na fricção entre o significante e o corpo, entre o dizer e o sentir. O corpo é então aquilo que se veste e se despe da linguagem.
A luva revirada captura esse entrelaçamento sem interior e exterior estáveis, tornando preciso que seja estabilizado por uma borda, como uma luva.
Se há relação sexual
Lacan encontra em Joyce um exemplo extraordinário da constituição de um corpo de gozo como um modo de lidar com a não relação entre os sexos.
Essa “relação com o sinthoma” é, portanto, o que substitui a não-relação: é o parceiro real de cada um, o ponto de amarração que torna habitável o impossível do gozo.
Miller (1986), ao comentar O Sinthoma, nota que, em Joyce, Lacan encontra uma invenção que faz suplência a esse impossível: trata-se da relação entre o sujeito e o seu sinthoma. Sinthoma entendido como a alteridade interna ao falasser, isto é, o modo singular com que cada um amarra o real do gozo e dá consistência corporal e subjetiva.

Joyce é um LOM/Love/Luva; Ishmael, porém, permanece no sem-soutien da relação impossível.
Dessa forma, “se há relação sexual”, ela só existe no sentido restrito e deslocado em que o sujeito mantém uma relação com o seu próprio sinthoma – e não com o outro sexo.
Essa “relação com o sinthoma” é, portanto, o que substitui a não-relação: é o parceiro real de cada um, o ponto de amarração que torna habitável o impossível do gozo.
Joyce, ao fazer de Nora sua “luva revirada”, e de sua escrita o lugar de consistência do corpo, é o exemplo dessa relação. No lugar da não-relação sexual, há relação sinthomática: o encontro entre o falante e a forma que ele inventa para amarrar seu gozo, como uma forma de suplência, fazendo um “modo de relação” possível, mas não entre dois sexos, e sim entre o sujeito e o seu sinthoma.
Joyce salva
Segundo Miller, Joyce “salva” a relação sexual ao inventar uma topologia pautada na reviravolta da luva – uma forma singular de amarrar o que não se escreve, ou seja, amarrar a relação possível do sujeito com seu gozo.
Ó acolhe-me na tua… Em breve meu corpo vai penetrar no teu… Oxalá que eu pudesse aninhar-me no teu útero como uma criança nascida de tua carne e teu sangue… na quente penumbra secreta de teu corpo. (JOYCE, 2017, p. 34)
Para que seu corpo tenha consistência, Nora é onde o escritor pode manter-se alojado e delimitado. Lê-se nas cartas a ela endereçadas como o artista sem tantas condições financeiras se dedica a vesti-la com vestidos, joias e luvas:
Enfeita teu corpo para mim, caríssima. Quero-te bonita e feliz e amorosa e provocante, cheia de recordações, cheia de vontade, quando nos encontramos. Lembras dos três adjetivos que usei em Os mortos falando sobre teu corpo? São estes: musical, estranho e perfumado. (JOYCE, 2017, p. 30)
LOM tem um corpo
“Fazer um corpo” é poder ter o ar de tê-lo – e dele gozar da melhor maneira e de modo mais vivível, já que não é possível gozar da completude da relação sexual. Assim, para LOM (nome sonoro que dá Lacan ao homem enquanto corpo/linguagem), o ter precede o ser. “Tenho um corpo!” parece ser a primeira ideia que temos de nós, nossa primeira aquisição. O que não ocorre sem que haja uma instauração do significante na carne pela via do gozo da palavra, da materialidade do fonema. Para construir esse corpo, não é suficiente a da incorporação mecânica da informação, mas que a sonorização das palavras, os acentos, tons, inflexões musicais e vibrações configuram um gozo necessário para a instauração/grampeamento do simbólico, o LOM. Por isso a escrita de Joyce é tão musical.
Um espelho topológico?
Joyce se arranja: há uma compatibilidade espacial entre ele e Nora-Love-Ajuste, quando, revirando a luva e vestindo-se desse espaço, passa a constituir seu corpo. A escrita faz a função da pele: delimita, envolve, amarra. É pela letra que o gozo se sustenta e que o corpo se torna habitável.
Joyce é um LOM/Love/Luva; Ishmael, porém, permanece no sem-soutien da relação impossível.
Ishmael, por outro lado, não será capaz de ter o corpo de Lisabeth como superfície ajustável; apesar de todo o simbólico adquirido, não terá o corpo da mulher – mesmo virando-a ao avesso. O imaginário, como registro constitutivo dessa geometria da relação sexual, não lhe é topologicamente compatível.
Joyce é um LOM/Love/Luva; Ishmael, porém, permanece no sem-soutien da relação impossível.
Quando Lacan diz que o corpo é tomado como uma “luva revirada”, ele indica que: o corpo só se torna reversível se há uma superfície contínua; e que essa superfície é dada pela imagem do corpo. É a Gestalt especular que cria a borda, o dentro e o fora, e que permite que o corpo seja torcido, furado e “costurado” como uma luva. Sem essa consistência imaginária, não haveria superfície para o reviramento, apenas a irrupção fragmentada do gozo. É por isso que, em Joyce, a imagem corporal de Nora pode funcionar como borda de seu sinthoma, enquanto, para Ishmael – cuja imagem corporal não encontra compatibilidade com a forma humana –, a inexistência do suporte imaginário torna impossível a suplência da relação sexual, restando-lhe apenas o real do desencontro. O corpo de Lisabeth, não sendo topologicamente compatível com o esquema corporal do golfinho, faz com que Ishmael permaneça sem-soutien da relação impossível – soutien como suporte e referindo-se à peça de roupa intima feminina que tem a função de sustentar, acomodar e modelar os seios.
A escrita de Joyce funciona como superfície mimética que especulariza o corpo de Nora e o transforma em borda para o corpo dele. Não é uma representação simbólica, mas uma operação topológica: a continuidade imaginária do corpo de Nora é revertida como luva e, na escrita, torna-se a pele suplementar onde Joyce encontra consistência. Assim, a letra mimetiza a forma dela e, ao mesmo tempo, recobre o gozo dele, permitindo-lhe “fazer um corpo” a partir da superfície da amada
O amor como suplência do impossível
O aforisma “não há relação sexual” encontra em Joyce sua exceção poética. Ele não escreve a relação sexual – escreve o impossível dela. O amor, em sua forma sinthomática, não é fusão, mas invenção e modo singular de dar corpo ao furo.
Lacan dirá que o amor é o que “dá o que não se tem a quem não é” – e Joyce encarna essa dádiva paradoxal, dando a Nora seu corpo ausente para que nela construa e encontre seu próprio lugar. Entre o golfinho e a mulher, o amor afoga; entre Joyce e Nora, o amor escreve.
É por isso que Lacan pode dizer, lendo Joyce, que só há relação sexual quando há invenção, quando o sujeito cria uma forma, uma topologia, para habitar o impossível.
Nora, como luva, é o Love que dá corpo ao LOM.
E, nesse gesto, Joyce reverte o aforisma: onde “não há relação sexual”, ele fabrica – de letra e de carne – o espaço de um abraço.

