Rodrigo Goes e Lima
Psicólogo (UFMG),
Mestre em Filosofia (New School for Social Research),
Doutorando em Psicologia (PUC Minas)
E-mail: “rodrigogoeselima@gmail.com”
“E ele não conseguia entender e tentava afugentar aquele pensamento, por ser mentiroso, incorreto, doentio, e substituí-lo por outros pensamentos, corretos e saudáveis. Porém, aquele pensamento – não só o pensamento, mas também a realidade – surgia novamente e parava diante dele.” (TOLSTOI, 1886/2023, p. 62)
Consideraremos, adiante, alguns aspectos daquilo que, para o sujeito obsessivo, se constitui enquanto “matéria-prima de seu sintoma” (SANTIAGO, 2024, s.p.), a saber: a categoria do pensamento. Já nos primeiros escritos psicanalíticos, Freud (1894/2006) descreve com clareza a maneira pela qual as representações obsessivas (Zwangsvorstellungen) se formam a partir do processo de deslocamento de afeto proveniente de outra representação, que, por apresentar certa incompatibilidade relativa à vida psíquica do sujeito, é recalcada. Em outras palavras, se no sujeito histérico o destino da carga afetiva ligada a uma representação tida como inadmissível para o aparelho psíquico seria a conversão, isso é, a inervação somática, na neurose obsessiva o afeto desvinculado da ideia original “fica obrigado a permanecer na esfera psíquica” (FREUD, 1894/2006, p. 66), investindo metonimicamente o próprio pensamento. Essa primeira comparação entre os processos subjacentes à histeria e à neurose obsessiva é, anos mais tarde, recapitulada por Freud (1909/2014) ao descrever os processos psíquicos por detrás da maneira pela qual o recalque opera em cada uma das neuroses. Não se trata apenas de uma questão de destino pulsional (seja o corpo, seja o pensamento) que separa a solução obsessiva da histérica. Há, também, uma particularidade de ação do recalque. Enquanto a efetivação do recalcamento histérico teria como marca fundamenal a amnésia, na neurose obsessiva o recalque tomaria, segundo Freud (1909/2014, p. 57), um caminho mais simples: “em vez de esquecer o trauma, subtraiu-lhe o investimento afetivo, de modo que na consciência resta apenas um conteúdo ideativo indiferente, tido como insignificante”. Em suma, segue Freud (1909/2014), se a histérica teria a impressão de que um certo conteúdo psíquico fora esquecido há muito tempo, para o obsessivo tem-se a impressão de que sempre se soube daquilo.
Recolhemos da clínica casos nos quais esse tipo específico de cisão psíquica permite ao obsessivo nutrir, cultivar e devotar-se a uma ideia em segredo. Tal parece ser o caso de paciente que demora anos até se dar ao trabalho de narrar um pensamento em análise, não sem antes advertir o analista de que esse mesmo pensamento, por tanto tempo protegido, o acomete todos os dias.
Freud exemplifica a ambiguidade da faculdade de “conhecimento” do obsessivo em bem-humorada nota de rodapé, ao dizer que os garçons que costumavam servir Schopenhauer no restaurante que frequentava em Frankfurt o conheciam, mas certamente não como o conhecemos hoje. Por mais que tal cisão do conhecimento obsessivo não nos traga nenhuma novidade, se a considerarmos como exemplo da conhecida definição lacaniana do inconsciente como um “saber que não se sabe” (LACAN, 1972-73/1985, p. 129), ela parece permitir considerar uma interessante particularidade clínica a respeito dos processos psíquicos envolvidos na operação de recalque. Se, como Freud (1909/2014) propõe, estamos aqui lidando com dois tipos de Verdrängung, poderíamos também entender que cada uma delas implica em posições subjetivas e formas de satisfação neurótica diferentes relativas ao material evitado. Recolhemos da clínica casos nos quais esse tipo específico de cisão psíquica permite ao obsessivo nutrir, cultivar e devotar-se a uma ideia em segredo. Tal parece ser o caso de paciente que demora anos até se dar ao trabalho de narrar um pensamento em análise, não sem antes advertir o analista de que esse mesmo pensamento, por tanto tempo protegido, o acomete todos os dias. Por mais aterrorizadora que tal ideia lhe seja e a despeito da vergonha que age no sentido da resistência a comunica-lo devido a seu julgamento moral, hipotetiza-se que a particularidade do mecanismo do recalque obsessivo concede ao sujeito a possibilidade de estabelecer com seu próprio pensamento uma parceria particular.
“é totalmente difícil descartar que é em Freud que encontramos também que o pensamento é um modo perfeitamente eficaz e, de alguma forma, suficiente em si mesmo, de satisfação masturbatória.” (LACAN, 1961-62/2003, p. 19).
Argumenta-se, assim, que no obsessivo, a retenção do pensamento como simulacro de um objeto precioso possibilitado por uma peculiaridade do mecanismo de recalque dessa neurose permite extrair da faculdade do pensar a cota máxima de satisfação sexual. Não faltam instâncias em Freud e Lacan que constatam o caráter sexualizado do pensamento, seja no destaque dado por Freud (1909/2014, p. 107) em “O Homem dos Ratos” sobre o prazer sexual derivado do ato de pensar, seja na equivalência entre pensamento e gozo atribuída por Lacan (1972-73/1985, p. 96) no Seminário 20, seja ainda na articulação entre o pensar e a masturbação no Seminário 9: “é totalmente difícil descartar que é em Freud que encontramos também que o pensamento é um modo perfeitamente eficaz e, de alguma forma, suficiente em si mesmo, de satisfação masturbatória.” (LACAN, 1961-62/2003, p. 19).

A partir da articulação sugerida, destaco dois desdobramentos clínicos derivados do uso particular do mecanismo do recalque na neurose obsessiva que convida à prevalência do pensamento. Em primeiro lugar, ressalta-se que tal retenção do objeto de satisfação, que faz do pensamento algo de natureza quase tátil, passível de ser manipulado obsessivamente a trabalho do gozo neurótico, estaria justamente atrelada à perda da realidade na neurose, aspecto relevante para fins diagnósticos (CARVALHO; BARROS, 2017). O segundo ancora-se no argumento lacaniano de que as dificuldades do âmbito do pensamento encontradas no obsessivo podem ser atribuídas ao fato dele acreditar que “não é tanto por ser culpado que me é difícil sustentar-me e progredir, mas por ser absolutamente necessário que aquilo que penso seja de mim, e nunca do vizinho, de um outro” (LACAN, 1960-61/1992, p. 252). Ambas as indicações apontam para diferentes possibilidades de se considerar, a cada caso, o papel da transferência na perturbação da defesa contemplativa, em particular no que diz respeito ao caráter compulsoriamente autoerótico do pensamento obsessivo enquanto objeto.

