Munyke Paulo Rodrigues
Aluna do Curso de Psicanálise do IPSM-MG
E-mail: munyke@gmail.com
Os pensamentos emergem
de súbito, sem que se saiba de
onde vêm, nem se possa fazer
algo para afastá-los.
(FREUD, 1917/1996)
No dia 22 de maio de 1960, a cidade de Valdívia, no Chile, foi sacudida pelo sismo de maior magnitude já registrado. Os sismos se apresentam aos geólogos como um enigma, uma cicatriz vibrante que adverte: o planeta continua em formação. As palavras de Miller (2023, p. 406) – “A formação se prolonga, se eterniza, não é mais uma formação, é um modo de vida” – ressoam sob a forma da pergunta: a formação do analista seria comparável à uma zona sísmica?
Ser judeu em Viena, decifrar os golpes sofridos pelo amor próprio da humanidade, garimpar os restos perdidos nos aluviões onde o garimpeiro, em sua solidão, irá batear, recolher entre os seixos vestígios singulares de uma zona profunda e íntima da terra, restos da ficção estruturada sob a forma de poeira ou linguagem.
Uma frase de Lacan (1953-54/1986, p. 91) sempre se apresentou enigmática:
Vocês não imaginam, meus pobres amigos, o que devem à geologia. Se não houvesse geologia, como chegar a pensar, que se pudesse passar, no mesmo nível, de uma camada recente a uma camada muito anterior? Não seria mal, digo de passagem, que todo analista comprasse um livrinho de geologia.
Há muitas maneiras de se experimentar a zona de subducção, ponto onde duas placas tectônicas se chocam e produzem grandes acontecimentos como os terremotos. Ser judeu em Viena, decifrar os golpes sofridos pelo amor próprio da humanidade, garimpar os restos perdidos nos aluviões onde o garimpeiro, em sua solidão, irá batear, recolher entre os seixos vestígios singulares de uma zona profunda e íntima da terra, restos da ficção estruturada sob a forma de poeira ou linguagem. Sobre esses dejetos, Miller (2025, p. 246) diz que “trata-se do que é recusado, especialmente recusado no término de uma operação, da qual se retém apenas o ouro, a substância preciosa trazida por ela”. A formação do analista consistiria na redução que se produz ao ser atravessado por essa zona inquieta, vibrante, sempre disjunta, que detém “um saber que sabe o que eu não sei, e que ainda sim, rege a minha vida” (DESSAL, 2019, p. 61, tradução nossa)?

Como afirma Osvaldo Delgado (2020, p. 59), a instauração da psicanálise na cultura moderna produz uma fissura impossível de suturar no ideal da razão: o inconsciente.
A formação da terra se iniciou há 4.5 bilhões de anos sob a forma de um supercontinente que foi rachado em imensas placas, solução encontrada para comportar a energia produzida no seu interior. Nos movimentos entre “a ruptura, a fenda, o traço da abertura faz surgir uma ausência” (LACAN, 1964/2008, p. 33), e é nesses pontos, as zonas de subducção, onde uma placa é destruída, que uma imensa cordilheira se faz surgir, com os restos, os dejetos nas cunhas de acreção, formando minerais únicos, raros, índices de uma energia gritante que se propaga no silêncio ensurdecedor da vibração, caindo, em seguida, no esquecimento. Nas palavras de Miller (2023, p. 417), “a verdadeira formação consiste sempre em saber ignorar o que se sabe”.
Freud ocupou-se, durante sua vida, da formação do analista. Diante da impossibilidade de se tornar analista somente pelo estudo da bibliografia analítica, propôs a supervisão e uma análise infinita como uma maneira de assegurar a continuidade da psicanálise.
Se a análise é finita e infinita e analisar “aquela terceira das profissões impossíveis, em que se tem certeza de antemão do resultado insuficiente” (FREUD, 1937/2017, p. 355), de que fenda poderia advir um analista?
Osvaldo Delgado (2007) afirma que Freud, ao ressaltar a análise como a maneira de se tornar um analista, marca que, além da experiência do inconsciente, haveria uma mutação pulsional, adquirindo uma posição inédita para tratar o mal-estar, uma reestruturação do próprio desejo. A psicanálise se apresenta, então, como uma possibilidade da humanidade passar da salvação pelos ideais à salvação pelos dejetos. Da mesma forma, o que salva os psicanalistas da debilidade é “terem conseguido fazer de sua posição de dejeto o princípio de um novo discurso” (MILLER, 2025, p. 249).
Para investigar a pergunta sobre o que é um analista, voltemo-nos para dois escritos de Lacan: a “Proposição de 9 de Outubro de 1967” e a “Nota italiana”. Na “Proposição”, Lacan (1967/2003, p. 243) estabelece: “Antes de mais nada, um princípio: o psicanalista só se autoriza de si mesmo”. E acrescenta, na “Nota italiana” (LACAN, 1973/2003, p. 308): “Pois afirmei, por outro lado, que é do não-todo que depende o analista”. Estaríamos diante de uma falta de garantia para responder à pergunta: o que é um analista?
Ao avançarmos nas elaborações, a pergunta sobre o que é um analista se torna mais ressonante; as teorias se tornam incapazes de responder, confirmando que o saber teórico não resolve a questão.
Ao avançarmos nas elaborações, a pergunta sobre o que é um analista se torna mais ressonante; as teorias se tornam incapazes de responder, confirmando que o saber teórico não resolve a questão. Então, o que se espera obter na análise, para que o analisante passe a analista? Lacan (1967/2003, p. 254) afirma: “A passagem de psicanalisando a psicanalista tem uma porta cuja dobradiça é o resto que constitui a divisão entre eles, porque essa divisão não é outra senão a do sujeito do qual esse resto é a causa”.
Sendo o analista o que se decanta da experiência de análise, Lacan diz sobre o surgimento de um desejo inédito que permitirá ao analista ocupar uma posição de onde não se demanda nada, de encarnar o lugar de resto, de objeto a. Assim, podemos compreender que a ideia da mutação pulsional proposta por Freud é retomada por Lacan sob a forma do desejo do analista. Quanto aos restos sintomáticos, eles seriam mais que uma marca, mas o estilo de cada analista.
Sobre o grande terremoto de Valdívia, muitos habitantes não lembram de detalhes, somente da vibração no corpo e do ruído ensurdecedor. Também “os analistas, uma vez estabelecidos na profissão, não pensam mais sobre os fundamentos que os tornaram analistas. Há, em geral, um esquecimento do ato do qual são oriundos” (MILLER, 2011, p. 45).
Ressoa a questão: o que ainda persiste no livrinho de geologia?

