Sophie Marret-Maleval
Psicanalista
AME
Membro da École de la Cause freudienne (ECF),
da New Lacanian School (NLS)
e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP)
E-mail: marret-maleval.sophie@orange.fr
No cerne do último ensino de Lacan, a tensão entre dois enunciados. O primeiro: “não há relação sexual”, de cuja primeira ocorrência não estou certa, mas cuja primeira abordagem pela lógica encontramos no Seminário 16, De um Outro ao outro, em 1969 (1968-69/2008, p. 40), e o detalhamento de seu alcance em “Radiofonia”, em 1970, quando Lacan (1970/2003, p. 411) marca sua saída do estruturalismo: “o significante não é apropriado para dar corpo a uma fórmula que seja da relação sexual. Daí minha enunciação: não há relação sexual – subentenda-se: formulável na estrutura”.
Em seguida, em relação a esse enunciado, ele afirma, em Mais, ainda: “O que vem em suplência à relação sexual, é precisamente o amor” (LACAN, 1972-73/1985, p. 62). Lacan vai contra uma visão platônica do amor concebido como reencontro da metade perdida, que faz do Outro sexo o complementar do primeiro em um ideal de fusão (embora, como ele observa no Seminário 8, A transferência, Platão deixe essa perspectiva para Aristófanes, o personagem cômico do Banquete). No entanto, não se encontra em Lacan uma posição cínica ou de desilusão tão radical quanto a do Eremita, de Atala, que não acredita em nenhuma redenção possível pelo amor na terra:
Sem dúvida, minha filha, os amores mais belos foram os daquele homem e daquela mulher, saídos da mão do Criador. Um paraíso havia sido formado para eles, eles eram inocentes e imortais. Perfeitos na alma e no corpo, eles se adequavam em tudo: Eva havia sido criada para Adão, e Adão para Eva. Se eles não puderam, no entanto, manter-se nesse estado de felicidade, que casais poderão fazê-lo depois deles? Não lhes falarei dos casamentos dos primogênitos dos homens, dessas uniões inefáveis, quando a irmã era a esposa do irmão, que o amor e a amizade fraterna se confundiam no mesmo coração, e que a pureza de uma aumentava os deleites da outra. Todas essas uniões foram perturbadas; o ciúme se insinuou no altar de relva onde se imolava o cabrito, reinou sob a tenda de Abraão, e nesses leitos mesmo onde os patriarcas saboreavam tanta alegria, que esqueciam a morte de suas mães. (CHATEAUBRIAND, 1964/2014, p. 116-117, tradução nossa)

Considerar o amor como suplência à não-relação sexual leva Lacan a apostar no laço entre os inconciliáveis, tornado possível pela análise, quando esta alivia os ideais, sem, no entanto, fazer disso um novo dogma, apenas uma constatação sobre a maneira como os falasseres encontram soluções para sua solidão fundamental.
A versão lacaniana do amor estaria, sem dúvida, mais próxima daquela de Baudelaire em Mon cœur mis à nu (O meu coração desnudado), que me deu o título:
O mundo só anda pelo mal-entendido.
É pelo mal-entendido universal que todo mundo se põe de acordo.
Pois se, por desgraça, nos compreendêssemos, nunca poderíamos concordar.
O homem de espírito, aquele que nunca concordará com ninguém, deve aplicar-se a amar a conversação dos imbecis e a leitura de livros ruins. Ele obterá disso gozos amargos que compensarão amplamente seu cansaço.
(BAUDELAIRE, 1887, p. 46-47, tradução nossa)
- O lugar da prática lacaniana
Convém, antes de tudo, compreender o alcance do primeiro enunciado, “não há relação sexual”. Já no Seminário 6, O desejo e sua interpretação, Lacan havia marcado um afastamento de toda crença na supremacia do significante, o que o conduziu à invenção do objeto a, precisando, no Seminário 10, A angústia, que o que falta ao Outro não é um significante, o falo, como ele havia afirmado até então, mas um objeto real, fora da linguagem, instaurando, a partir de então, o poder do Outro da linguagem, sua incidência sobre o real. Jacques-Alain Miller ressalta, no entanto, em “Os seis paradigmas do gozo”, como, até o último ensino, o gozo permanece discursivo, é veiculado na cadeia significante, entra em um sistema, como o atestam os quatro discursos, nos quais o objeto a entra em função na escrita de um certo número de relações lógicas.
Considerar o amor como suplência à não-relação sexual leva Lacan a apostar no laço entre os inconciliáveis, tornado possível pela análise, quando esta alivia os ideais, sem, no entanto, fazer disso um novo dogma, apenas uma constatação sobre a maneira como os falasseres encontram soluções para sua solidão fundamental.

Entre o jovem que apenas conseguiu amar outros homens e “esta mulher já idosa, louca de escrever”, a relação sexual não se inscreveu, tal como o sexo não se fez. Escrever diversos livros sobre esse louco amor os deixa aprisionados até a morte de M. Duras.
Em “O espaço de um abraço: Joyce Lom e sua mulher G(love)”, acompanhamos o desenvolvimento realizado por Sérgio de Mattos, que nos esclarece por que “Lacan encontra em Joyce um exemplo extraordinário da constituição de um corpo de gozo como um modo de lidar com a não relação entre os sexos”.
No texto, não se trata do sintoma, categoria modal do necessário – “o que não cessa de se inscrever” – para cada um. O sintoma é da ordem do necessário, isto é, não há saber no real sobre a sexualidade. É que remete ao “não cessa de não se inscrever”, à não-relação sexual.
No caso de Joyce e sua relação com Nora, sua mulher, “trata-se da relação entre o sujeito e o seu sinthoma”; “ se há relação sexual”, ela só existe no sentido restrito e deslocado em que o sujeito mantém uma relação com o seu próprio sinthoma – e não com o outro sexo. O autor nos afirma que Joyce não escreve a relação sexual, mas o impossível dela. É em Joyce que o aforismo ‘não há relação sexual’ pode ser uma… “exceção poética”.

Miller (2012, p. 38) esclarece que “Lacan chegou até a propor uma relação originária entre o significante e o gozo”, considerando que “o significante representa o gozo”, entre S1 e S2, mais do que o sujeito. O Seminário 17, O avesso da psicanálise, no qual Lacan constrói os quatro discursos, é sem dúvida o ápice dessa concepção, a partir do qual se inicia uma nova guinada. O Seminário 20, Mais, ainda, marca a esse respeito, “uma inversão que incide sobre todo o percurso de Lacan”, observa Jacques-Alain Miller (2012, p. 37-38): “Lacan, de fato, serra o galho sobre o qual havia posto todo o seu ensino, e isso implicará, depois, na última parte do seu ensino, um esforço para reconstituir um outro aparelho conceitual com os resquícios do precedente”. Jacques-Alain Miller designa esse novo paradigma precisamente como o da não relação. Ali onde a linguagem e a estrutura tinham uma função de “captura do organismo vivo” (MILLER, 2012, p. 38), a não-relação aparece como o limite do poder da estrutura. A palavra não é mais concebida como comunicação, mas como gozo. “Enquanto o gozo era, no ensino de Lacan, sempre secundário em relação ao significante”, ressalta Jacques-Alain Miller (2012, p. 38), “é necessário este sexto paradigma para que a linguagem e sua estrutura que eram, então, tratadas como um dado primário, apareçam como secundárias e derivadas”. É a articulação S1-S2, o sentido, que se torna secundária em relação a S1a, a marca do significante sobre o corpo que tem um efeito de gozo, de modo que Lacan privilegiará daí em diante a noção de signo sobre a de significante e afirmará que o significante é a causa do gozo.
O Nome-do-Pai, por exemplo, enlaça os três elementos do nó, ele é reduzido à conexão S1a, a uma função de nomeação do real, de letra; é esse grampo primordial que pode enlaçar os três elementos do nó borromeano.
Jacques-Alain Miller (2012, p. 38-39) observa que esse paradigma é levado “até que o antigo conceito da fala como comunicação e também o conceito do grande Outro, o Nome-do-Pai, o símbolo fálico se desmoronem como semblantes”, ou seja, eles não são mais primordiais, estruturantes, mas derivados, ficções, mas a noção de semblante implica também que são termos situados entre o simbólico e o real, onde “acabam por ser reduzidos a uma função de grampo entre elementos fundamentalmente disjuntos”. O Nome-do-Pai, por exemplo, enlaça os três elementos do nó, ele é reduzido à conexão S1a, a uma função de nomeação do real, de letra; é esse grampo primordial que pode enlaçar os três elementos do nó borromeano. Da mesma forma, o falo nomeia o gozo materno e faz a ligação entre os sexos. “Todos os termos que asseguravam a conjunção, em Lacan – o Outro, o Nome-do-Pai, o falo –, que apareciam como termos primordiais, como termos que podiam até ser chamados de transcendentais, posto que condicionavam toda a experiência, ficam reduzidos a conectores”, observa Jacques-Alain Miller (2012, p. 39).

A ascensão atual do cientificismo vem contrabalançar, recobrir, a confiança perdida, notadamente alimentando a esperança de racionalizar os comportamentos humanos. Ao ignorar o gozo, ao excluir o próprio do homem, ela não pode senão se expor a um retorno massivo da pulsão de morte. A psicanálise lacaniana tem por ética a bússola do gozo, aquela do “isso falha”, única apta a contrariar um pouco a obra da pulsão de morte, ao cessar de ignorá-la.
Como aponta Jacques-Alain Miller, o homem manipula o real, o que dá espaço à pulsão de morte, à incidência do gozo, que a ciência deve, no entanto, desconhecer para ser operatória, que ela exclui de suas fórmulas (Lacan mostra que a ciência, para ser operatória, deve pretender a condições de objetividade e excluir as incidências do sujeito), mas que então retorna às cegas. A ascensão atual do cientificismo vem contrabalançar, recobrir, a confiança perdida, notadamente alimentando a esperança de racionalizar os comportamentos humanos. Ao ignorar o gozo, ao excluir o próprio do homem, ela não pode senão se expor a um retorno massivo da pulsão de morte. A psicanálise lacaniana tem por ética a bússola do gozo, aquela do “isso falha”, única apta a contrariar um pouco a obra da pulsão de morte, ao cessar de ignorá-la. Como afirma Jacques-Alain Miller (2005, p. 15), concluindo sua intervenção sobre a promoção do amor no último ensino:
A não-relação sexual dá o site da prática lacaniana. Isso deve ser entendido da seguinte maneira: olha-se a partir do enunciado que afirma: “há saber no real” e o “não há relação sexual” é o que faz contrapeso com o enunciado que afirma “há saber no real”. É a relação sexual que faz objeção à onipotência do discurso da ciência.
Woody Allen nos dá uma ilustração contundente disso em A magia ao luar (Magic in the moonlight), no qual o herói, um mágico de espírito racionalista, se deixa convencer, por uma jovem que se diz médium, da existência dos espíritos. Ele nega todo o tempo seus sentimentos em relação à jovem. Descobrindo que foi vítima de um embuste, ele deve, no entanto, admitir seu sentimento amoroso, cujo caráter totalmente irracional em relação àquela que o enganou ele deve reconhecer. Sophie não tem a inteligência de Olivia, sua companheira, em relação à qual ele se diz “perfeitamente compatível”, mas perto da qual, no entanto, ele se apaga; mas é o sorriso de Sophie que prevalece contra toda a razão e desmascara seu cinismo, autossuficiência e cegueira sobre sua parte irracional de humanidade.
Um Freud verdadeiramente lacaniano
O tema da inexistência da relação sexual leva ao mais-além de uma simples questão de relacionamento conjugal. O sexual está no cerne da psicanálise desde a invenção freudiana. Aqui está em jogo sua ética, o que lhe dá seu poder de interpretação da civilização, assim como Freud o demonstra em seu O mal-estar na civilização.
Seríamos levados a traduzir que a psicanálise visa já a delimitar, a levar em conta, aquilo que não cessa de não se escrever, lá onde Freud considera os poetas limitados pelo que se escreve (estranhamente, aliás, pois ele sustenta geralmente que eles vão mais longe que a ciência, mas talvez precisamente porque o escrito aqui, para ele, limita).
Comentando as “Contribuições para a psicologia da vida amorosa”, de Freud, Jacques-Alain Miller (1998, p. 11, tradução nossa) descobre, de fato, “um Freud realmente lacaniano”, fazendo “um esforço para pensar a relação sexual”, desde que ele aborda o sexual a partir de seus impasses.

Na primeira contribuição, “Sobre um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens”, Freud (1910/1996a, p. 171) anuncia, de fato, que quer se distinguir dos poetas, que, apesar de sua sensibilidade e de sua intuição da alma humana, modificam a realidade em prol da produção de sentimentos e de efeitos estéticos: “eles devem isolar partes da mesma, suprimir associações perturbadoras, reduzir o todo e completar o que falta”. Seu projeto é submeter a investigação da vida amorosa a um “tratamento estritamente científico” (FREUD, 1910/1996a, p. 171), pelo qual se entende que se trata para ele de pôr em evidência as lacunas. Se ele visa preenchê-las estabelecendo as relações que convêm e que explicariam seus impasses, é bem a partir destes que ele aborda a vida amorosa, nisso ele é “lacaniano”. Seríamos levados a traduzir que a psicanálise visa já a delimitar, a levar em conta, aquilo que não cessa de não se escrever, lá onde Freud considera os poetas limitados pelo que se escreve (estranhamente, aliás, pois ele sustenta geralmente que eles vão mais longe que a ciência, mas talvez precisamente porque o escrito aqui, para ele, limita).
O Édipo revela-se, de certa maneira, como uma primeira abordagem do impossível da relação sexual, colocando em seu centro o gozo interditado, a castração. Notemos, enfim, que Freud dá aí igualmente uma primeira abordagem da dissimetria entre os sexos, que converge com as fórmulas da sexuação de Lacan, quando ele situa a mulher entre objeto narcísico e estranheza, suporte da identificação pelo viés do mesmo, do falo, portanto, e outro misterioso, “a mulher é outra que o homem, ela aparece incompreensível, cheia de segredos, estrangeira e por isso inimiga”, não-toda na função fálica, devido à inexistência do significante d’A Mulher, teríamos vontade de traduzir, tal como aponta igualmente Jacques-Alain Miller.
Freud se dedica a descrever tipos de escolha de objeto nos neuróticos, permitindo delimitar as condições determinantes do amor. Ele isola o terceiro prejudicado, “estipula que a pessoa em questão nunca escolherá uma mulher sem compromisso, como seu objeto amoroso” (FREUD, 1910/1996a, p. 172); a condição segundo a qual “a mulher casta e de reputação irrepreensível nunca exerce atração que a possa levar à condição de objeto amoroso, mas apenas a mulher que é, de uma ou outra forma, sexualmente de má reputação” (FREUD, 1910/1996a, p. 172); a condição do rebaixamento para a escolha amorosa (que ele desenvolve na contribuição seguinte); enfim, a tendência a salvar a mulher amada. Condições tais que ele relaciona a uma fixação da ternura da criança na mãe. A segunda contribuição: “Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor”, trata dos fatores da “impotência psíquica”, inibição que ele relaciona a uma particularidade do objeto sexual, a uma fixação incestuosa não superada na mãe ou na irmã, na origem da disjunção do amor e do desejo. Enfim, na terceira, “O tabu da virgindade”, interessa-se pela exigência de virgindade na civilização. Ele defende que a monogamia repousa sobre a sujeição sexual, como garantia de uma relação de casal apaziguada… perspectiva que necessitaria de uma tradução lógica lacaniana, desimaginarizada, esclarecendo que o parceiro sexual masculino é o objeto pequeno a. Essa última contribuição conduz Freud sobretudo a interessar-se pelo tabu da feminilidade.

Apesar do caráter heteróclito, ou mesmo surpreendente, dos temas dessas três contribuições, que não desenvolverei, mas também da interpretação edipiana da vida amorosa que as reúne, Jacques-Alain Miller observa que esses três textos convergem sobre a questão: “como gozar de uma mulher?”. Ora, ele nota que precisamente Freud não faz existir A Mulher, mas tipos de mulheres, que ele estende sobre os impasses das relações entre homens e mulheres, marcadas pelo impossível, o que se coaduna com a acentuação da dissociação entre amor e gozo. O amor supõe uma substituição possível; quando se trata de gozo, não há substituição (MILLER, 1998). “Algo semelhante na natureza do próprio instinto sexual é desfavorável à realização da satisfação completa”, esclarece Freud (1910/1996b, p. 194), de fato, na segunda contribuição, quando o Édipo lhe serve para assinalar que essa só pode tender para “uma sucessão infindável de objetos substitutos” objetos substitutos de um objeto perdido inicial e irrecuperável”. O Édipo revela-se, de certa maneira, como uma primeira abordagem do impossível da relação sexual, colocando em seu centro o gozo interditado, a castração. Notemos, enfim, que Freud dá aí igualmente uma primeira abordagem da dissimetria entre os sexos, que converge com as fórmulas da sexuação de Lacan, quando ele situa a mulher entre objeto narcísico e estranheza, suporte da identificação pelo viés do mesmo, do falo, portanto, e outro misterioso, “a mulher é outra que o homem, ela aparece incompreensível, cheia de segredos, estrangeira e por isso inimiga”, não-toda na função fálica, devido à inexistência do significante d’A Mulher, teríamos vontade de traduzir, tal como aponta igualmente Jacques-Alain Miller.
Miller (1998, p. 8, tradução nossa) nota, enfim, que Freud inventa, com a psicanálise, com o amor de transferência, “um novo amor”, “um novo tipo de Outro ao qual dirigir o amor: um novo Outro que dá novas respostas ao amor”, um amor que permanece, no entanto, desconhecimento, uma vez que visa velar o estatuto de dejeto de a. A análise lacaniana tem por perspectiva desvelar este último, mas precisando as condições do amor e apontando o gozo, ela permitiria buscar uma nova articulação sobre o fundo de um “não há relação” impossível de reabsorver (MILLER, 1998). Pode-se entender assim o enunciado de Lacan: “o que vem em suplência à relação sexual, é precisamente o amor” (LACAN, 1972-73/1985, p. 62).
III. Não há relação sexual
Freud colocava já no princípio da psicanálise um impossível de estrutura, poder-se-ia dizer, no sentido em que o Édipo funda e estrutura as relações humanas, um impossível, contudo, contingente às necessidades da civilização. Lacan precisará, em termos lógicos, esse impossível, no momento em que se afasta do imperialismo da estrutura, para acentuar a ética da orientação para o real. “Conviria […] não confundir o que acontece com a relação [rapport], tomando esse termo no sentido lógico, com a relação que fundamenta a função conjunta dos dois sexos” , afirmava Lacan (1968-69/2008, p. 216) no Seminário 16, De um Outro ao outro, iniciando o exame das coordenadas dessa questão, à qual ele dará várias abordagens sucessivas.
Se ele descarta o fato de a biologia poder definir uma relação de necessidade entre o homem e a mulher, ele aponta antes a dissimetria cromossômica entre macho e fêmea. Em seguida, recusa toda interpretação do laço entre os sexos, em termos de polaridade, à semelhança dos campos magnéticos (LACAN, 1968-69/2008, p. 217).
Lacan nota muito cedo que homem e mulher são efeitos de linguagem, apontando que Freud se limita a falar de posição feminina ou masculina, uma vez que a clínica não permite defender uma identificação necessária do sujeito com o sexo biológico. Por outro lado, ele observa que o numeral “dois” se acha estreitamente misturado à questão do sexo, em nossas associações mentais. Assim, o fato de haver dois (sexos) não constitui somente “um dos pilares fundamentais da realidade” (LACAN, 1968-69/2008, p. 216), mas o ponto de partida do estabelecimento de uma relação lógica, matemática.
Ressalta, no entanto, que, elevado ao nível da proposição universal, esse par não é mais operante, não define mais uma complementaridade lógica:
É possível enunciar isso, mesmo numa manipulação ingênua dos qualificativos? Por que uma proposição aristotélica não poderia ser habilitada, por exemplo, sob a forma todos os machos da criação? Essa interrogação também comportaria outra pergunta: será que todos os não machos quereria dizer as fêmeas? Os abismos abertos por tal recurso, que confia no princípio da contradição, talvez também pudessem ser tomados no outro sentido. Isso faria com que nos interrogássemos, num procedimento que anunciei há pouco, sobre o que o próprio recurso ao princípio de contradição pode conter de implicação sexual. (LACAN, 1968-69/2008, p. 217)
“Todos os não-machos” não é equivalente a “todas as fêmeas”, mas abre para o espaço infinito. Lacan aborda aí um dos pontos que o conduzirão a precisar, com a teoria dos conjuntos, a impossível relação lógica entre os sexos.
“Não há a mínima realidade pré-discursiva, pela simples razão de que o que faz coletividade, e que chamei de os homens, as mulheres e as crianças, isto não quer dizer nada como realidade pré-discursiva. Os homens, as mulheres e as crianças, não são mais do que significantes”, afirma mais uma vez Lacan (1972-73/1985, p. 46), em Mais, ainda. Ele descarta toda ideia de uma relação natural entre os sexos, ressaltando que a sexuação é questão de identificação e de linguagem. Sublinha, no entanto, a dissimetria entre os termos homem e mulher:
Um homem, isto não é outra coisa senão um significante. Um homem procura uma mulher – isto vai lhes parecer curioso – a título do que se situa pelo discurso, pois, se o que aqui coloco é verdadeiro, isto é, que a mulher não é toda, há sempre alguma coisa nela que escapa ao discurso. (LACAN, 1972-73/1985, p. 46)
Por outras palavras, ele corrige a asserção precedente lembrando que não existe senão um único significante da diferença sexual, o Falo, aquele cuja marca faz o homem. Convém distinguir os termos do discurso corrente “homem” e “mulher”, que são S2, significantes da língua comum, da dimensão do significante como marca, como S1, ou mesmo como letra (a isso voltaremos), à semelhança do significante fálico. É desse único ponto de vista que não existe um significante d’A Mulher, como ele ainda esclarecerá. Não há senão um único significante da diferença dos sexos, definindo-se a posição feminina, em primeiro lugar, negativamente em relação à posição masculina, como não tendo o falo.
Como indicará Lacan (1968-69/2008, p. 216) em De um Outro ao outro:
a lógica freudiana, […] indica-nos com clareza que não pode funcionar em termos polares. Tudo o que ela introduziu como lógica do sexo decorre de um único termo, que é realmente seu termo original, que é a conotação de uma falta, e que se chama castração. Esse menos essencial é de ordem lógica, e sem ele nada pode funcionar. Tanto no homem quanto na mulher, toda normatividade se organiza em torno da transmissão de uma falta.
Esse termo que conota e “passa” a falta é o falo. Lembrando que o falo é o significante da castração, o que nomeia o que falta ao Outro (materno), e ele põe em valor sua função particular na sexuação, que faz dele um termo pivô, indispensável e insubstituível, o único que intervém no nível da sexuação.
A partir desse Seminário, Lacan (1968-69/2008, p. 220) assim o precisa:
O que eu lhes disse – que não existe relação sexual –, se há um ponto em que isso se afirma na análise, e tranquilamente, é que a Mulher, não sabemos o que é isso. Ela é desconhecida no lugar – a não ser, graças a Deus, por representações. Desde sempre, nunca foi conhecida senão desse modo. Se a psicanálise destaca justamente alguma coisa, é só que a conhecemos por um ou mais representantes da representação.
É o que Lacan retoma em Mais, ainda, ao distinguir o significante do lado homem e o conhecimento que se tem da mulher pelo discurso. Já em De um Outro ao outro, aborda a questão da sexuação feminina a partir de uma falta de significante relativa ao fato do falo ser o único significante da diferença sexual:
Se em sua essência a Mulher é alguma coisa, e disso nada sabemos, ela é tão recalcada para a mulher quanto para o homem. E o é duplamente. Primeiro no sentido de que o representante de sua representação está perdido, de que não se sabe o que é a Mulher. Depois, porque esse representante, quando é recuperado, é objeto de uma Verneinung. Que outra coisa senão uma denegação é lhe atribuir como característica o não ter precisamente aquilo que nunca se tratou que ela tivesse? É somente por esse ângulo, no entanto, que a Mulher aparece na lógica freudiana – um representante inadequado, de lado, o falo, e em seguida a negação de que ela o tenha, isto é, a reafirmação de sua solidariedade com esse treco, que talvez seja mesmo seu representante, mas que não tem nenhuma relação com ela. Por si só, isso deveria dar-nos uma aulinha de lógica, e permitir-nos ver que o que falta ao conjunto dessa lógica é precisamente o significante sexual. (LACAN, 1968-69/2008, p. 221)
Assim, Lacan (1968-69/2008, p. 222) constata que, na pré-história, as estatuetas de mulher as representavam sob a forma de um “balãozinho”, apontando uma falta em termos de forma, de representação. Ele voltará sempre à particularidade do significante fálico, causa da ausência de relação entre os sexos.
A função dita do falo – ele enuncia, em De um discurso que não fosse do semblante, que é, a bem dizer, a mais mal manejada, mas que está aí e funciona no que concerne a uma experiência, que não está somente ligada a não sei o quê que seria considerado desviante, patológico, mas que é essencial enquanto tal à instituição do discurso analítico –, essa função do falo torna doravante insustentável a bipolaridade sexual, e insustentável de uma forma que volatiliza literalmente o que se pode escrever dessa relação. “É preciso distinguir o que sucede com essa intromissão do falo do que alguns acreditaram pode traduzir pela expressão falta de significante. Não é de falta de significante que se trata, mas do obstáculo feito a uma relação” (LACAN, 1971/2009, p. 62).
Não há relação natural entre o homem e a mulher porque a sexuação e a sexualidade não se situam senão pelo significante e pelo significante particular, que é o falo, como mediador entre os sexos, aquele que orienta o gozo sexual, do qual ele parte
Lacan (1971-72/2012, p. 69) ressalta, em …ou pior, que é “mais com o F maiúsculo que com o outro, o parceiro, que todos se relacionam”. Não há relação natural entre o homem e a mulher porque a sexuação e a sexualidade não se situam senão pelo significante e pelo significante particular, que é o falo, como mediador entre os sexos, aquele que orienta o gozo sexual, do qual ele parte, assim como formula Lacan (1972-73/1985, p. 15-16) em Mais, ainda, embora o gozo do corpo do Outro não dependa disso (ele depende de a). “O gozo fálico é o obstáculo pelo qual o homem não chega, eu diria, a gozar do corpo da mulher, precisamente porque o de que ele goza é do gozo do órgão” (LACAN, 1972-73/1985, p. 15), ele enuncia; isto é, que o homem não aborda o Outro sexo senão por intermédio do significante fálico (que Lacan reporta então aos caracteres sexuais secundários concebidos como traço sobre o corpo, precisando que “Nada distingue a mulher como ser sexuado senão justamente o sexo”). Ele nota mais adiante que o gozo é aparelhado pela linguagem, e que “a realidade é abordada com os aparelhos do gozo” (LACAN, 1972-73/1985, p. 75), em outras palavras, que o falo é um desses aparelhos do gozo que serve para abordar o Outro sexo. Todavia, indica igualmente, no Seminário De um discurso que não fosse do semblante, que o falo não é por isso um meio, pois do lado da mulher subsiste algo de desconhecido, que não se deixa nomear (LACAN, 1971/2009, p. 132-133). Por outro lado, o homem não aborda o Outro sexo senão colocando em jogo o falo, como aquilo que o faz homem, aquilo de que ele goza. “O gozo, enquanto sexual, é fálico, quer dizer, ele não se relaciona ao Outro como tal”, indica Lacan (1972-73/1985, p. 17-18).
Além disso, Lacan prolongará a construção lógica de sua afirmação “não há relação sexual” ao delimitar as consequências da especificidade do falo como único significante da diferença dos sexos, assim como da consequente ausência de um significante d’A Mulher, precisando a noção de relação, em sua dimensão de escrita lógica.
Ele explora os paradoxos da negação, precisando primeiramente que não x é o espaço infinito. É a partir daí que ele se apoiará na lógica dos conjuntos para situar a dissimetria entre homens e mulheres. Se homem e mulher não se definem senão a partir do significante fálico, então, não há significante d’A Mulher, significante específico à altura do falo para as mulheres. Todavia, Lacan não se limitará a uma definição pela negativa – elas não são não-homens –, aliás, precisamente, a negação abre para o espaço infinito, ou seja, precisamente para uma ausência de nomeação, para a ausência de um conjunto fechado, definindo um universal do tipo “todas as mulheres”.[1] Ele indica, então, que as mulheres não estão todas na função fálica, que uma parte de seu gozo não está correlacionada ao falo, mas à falta de um significante para dizer seu ser, e postula para as mulheres um gozo suplementar ligado a essa falta de ser, um gozo dessa falta de ser, de nome. Ele precisa esse ponto com a teoria dos conjuntos, distinguindo o Um do elemento e o Um do conjunto (LACAN, 1971-72/2012).
Para fechar um conjunto, é necessário estabelecer uma coleção que se possa reunir sob um mesmo significante. Ora, é precisamente esse Um do conjunto que falta do lado mulher, o que faz com que não se possa fechar o conjunto das mulheres, permanecendo este um conjunto aberto, infinito. O significante fálico tampouco serve para fechar esse conjunto, delimitá-lo, defini-lo; assim, as mulheres não são também todas na subordinação ao falo. Lacan define antes a posição feminina em relação à falta de um significante para dizer seu ser.
Com o não-todo, Lacan introduz igualmente um infinito que vem furar o todo de alguma maneira. Jacques-Alain Miller (2008), em El partenaire-síntoma, escreve o não-todo por um compartimento hachurado no interior do todo, em sua borda, designando um limite no todo, ressaltando assim a particularidade do não-todo de subverter também o todo. É assim que o não-todo se generaliza no último ensino, quando Lacan enfatiza um gozo não-todo fálico, não edipiano, no nível do sinthoma, rompendo definitivamente com uma perspectiva edipiana.
Assim, o gozo das mulheres se divide entre gozo fálico e gozo feminino. Por um lado, uma mulher espera de um homem um suplemento de ser, uma nomeação, seu gozo tende para o falo compreendido como o significante que falta ao Outro (ver as fórmulas da sexuação). Por outro lado, ela goza dessa própria falta de um significante para nomeá-la, ou seja, de S(Ⱥ), “esse significante, como esse parêntese aberto, marca o Outro como barrado – S(Ⱥ)” (LACAN, 1972-73/1985, p. 20), da falta de um significante no Outro, um gozo propriamente feminino.
[1] Conforme o Seminário 18: “o todas as mulheres não existe. Não existe universal da mulher. É isso que é levantado por um questionamento do falo, e não da relação sexual” (LACAN, 1971/2009. p. 64).
O conjunto dos homens, por sua vez, é fechado. O falo é o significante que lhe dá o Um, constituindo a possibilidade de dizer “todos os homens”, de definir um universal. Todavia, Lacan (1972-73/1985, p. 107) se apoia igualmente na lógica para situar o falo como uma função, e esclarece que essa função lógica encontra seu limite no postulado de um elemento que a contradiz: a função paterna (∃x Φx).
As fórmulas da sexuação definem uma dissimetria fundamental entre a posição masculina e a posição feminina, das quais Lacan precisa bem que se tratam de posições lógicas e que homens e mulheres podem se inscrever de cada lado do quadro, sem que se escreva uma relação lógica entre os termos do quadro. Em termos de gozo, Lacan nota, do lado mulher, a divisão entre gozo fálico e gozo feminino; do lado homem, a divisão entre gozo e amor. De um lado, o gozo fálico, como gozo do órgão: o falo está colocado do lado homem; do outro S → a, a está situado do lado mulher, “o objeto que se põe no lugar daquilo que, do Outro, não poderia ser percebido”, no lugar do “parceiro que falta” (LACAN, 1972-73/1985, p. 85-86). Notemos que homens e mulheres, na medida em que se trata aí de posições lógicas, cabem nos dois lados do quadro. Todavia, a dissimetria deste interpreta a inexistência da relação sexual.
O filme de Woody Allen intitulado Você vai conhecer o homem dos seus sonhos (You will meet a tall dark stranger) ilustra as manifestações da inexistência da relação sexual. Nenhuma afinidade social, intelectual, familiar (os filhos) basta para assegurar a perenidade dos casais, a não ser um grão de loucura. Assim, só aquele formado por Elena, a mãe que põe sua vida nas mãos de uma vidente, e Jonathan, que tem uma livraria oculta, crê na comunicação com os mortos e pede à sua falecida esposa autorização para formar um casal com Elena, parece destinado a um certo futuro.
A filha de Elena, casada com um escritor malsucedido, espera que ele consinta em lhe dar um filho e se impacienta com seus fracassos editoriais, enquanto brilha a seus olhos o diretor da galeria para o qual ela trabalha e a quem se esforça em satisfazer. Ela é tocada por suas atenções (ele a leva à Ópera porque sua esposa não está disponível (!) e fala de si para ela), suas palavras, a posição de exceção que ele parece lhe conferir em seu trabalho e para além dele. A personagem ilustra a versão feminina da busca fálica: uma palavra de amor que a coloca em posição de exceção, que a nomeia. Mas o gozo do patrão está em outro lugar, voltado para a artista que lhe oferece uma aventura sem promessa de amanhã, para aquela que se faz enigma, objeto causa de seu desejo.
O escritor, a quem falta autoestima, e cuja esposa recusa suas expectativas sexuais se ele não lhe promete um filho, buscará sustentar suas insígnias fálicas junto à jovem e misteriosa musicista do prédio em frente, que se deixará levar pela impostura do grande escritor (ele publica sob seu nome o manuscrito de um amigo que ele crê morto). Encarnação da versão masculina do gozo fálico, ele goza de ser um homem brilhante junto a ela e escolhe, por outro lado, aquela que consente com seu desejo sexual.
Enfim, Lacan precisa o que ele entende por relação. Uma relação é o que se escreve, notadamente, sob a forma de uma fórmula matemática estabelecendo uma relação lógica. Para delimitar a inexistência da relação sexual, ele passa, antes de tudo, pela lógica das relações.
[a fórmula “não há relação sexual”] ela só tem suporte na escrita, no que a relação sexual não se pode escrever. Tudo que é escrito parte do fato de que será para sempre impossível escrever como tal a relação sexual. É daí que há um certo efeito do discurso que se chama a escrita.
Podemos, a rigor, escrever x R y, e dizer que x é o homem, que y é a mulher e R é a relação sexual. Por que não? Só que é uma besteira, porque o que se suporta sob a função do significante, de homem, e de mulher, são apenas significantes absolutamente ligados ao uso discorrente da linguagem. (LACAN, 1972-73/1985, p. 49)
Não se pode escrever x R y porque não há y, não há significante d’A Mulher.
- O amor
Ele esclarece, então, a distinção entre o que se escreve e o que não cessa de não se escrever com a ajuda da escrita da relação lógica sob a forma de uma barra que separa e que liga dois elementos. “A barra”, indica Lacan (1972-73/1985, p. 49), “é precisamente o ponto onde, em qualquer uso da língua, se dá a oportunidade de que se produza o escrito”. Essa barra é também aquela que separa o significante e o significado no algoritmo de Saussure (que ele inverte e escreve S/s), que se insinua entre eles, como um outro efeito da linguagem (além daquele de significar). A função do escrito, da letra, se acrescenta àquela da significância, mas “o escrito”, esclarece ele, “não é algo para ser compreendido” (LACAN, 1972-73/1985, p. 49). Lacan (1972-73/1985, p. 61) toma como exemplo a letra matemática, fora do sentido, que visa um real. Ela é o que se articula dos efeitos de linguagem, “revela” a gramática (as letras matemáticas essenciais, operatórias, são as letras das funções lógicas que as variáveis põe em evidência, realizam). A letra matemática não visa o sentido, mas “essa articulação se faz naquilo que resulta da linguagem, o que quer que façamos, isto é, um suposto aquém, e um além” (LACAN, 1972-73/1985, p. 61); em outras palavras, ela aponta para o real, para uma escrita deste último. A letra estabelece uma relação entre dois termos e, mais precisamente, tal como ele a define em “Lituraterra” (LACAN, 1971/2003), entre simbólico e real, o traço unário e o objeto, S1 e a. A letra tem uma função litoral, de borda, ela está em contato com dois elementos heterogêneos, “sem medida comum”, que fazem borda um para o outro. A escrita é um efeito que se acrescenta à linguagem, além da significância, do laço e da ruptura significante/significado, e visa o real.
Assim, não há escrita da relação sexual, pois os elementos significantes, homem e mulher, os S2, pertencentes ao discurso corrente, não podem se ligar senão acima da barra do algoritmo saussuriano (no nível do significante). Devido à falta do significante d’A Mulher, não pode haver ligação lógica entre dois elementos distintos, mas igualmente ligação da ordem de uma letra que enlaça intimamente duas dimensões heterogêneas, pois se o significante d’A Mulher existisse, seria de qualquer forma entre dois significantes que tal ligação se operaria.
Em contrapartida, o quadro das fórmulas da sexuação faz aparecer a função da letra no nível do amor (S ® a). Notemos que a seta liga então a parte homem do quadro à parte mulher, ela transpõe uma borda.
Por várias vezes no Seminário 20 Lacan (1972-73/1985, p. 113) situa o amor do lado da função da letra: “a única coisa que se pode fazer um pouco de sério, a letra da carta de amor”, ele enuncia, jogando com o equívoco do termo “carta/letra” (lettre), mas apontando o quanto a prática epistolar no amor não tem nada de acidental.
O amor é sempre recíproco, afirma ele, porque o desejo do homem é o desejo do Outro, como ele havia podido colocar desde o Seminário 5, precisando que o desejo é desejo de desejo, ou seja, desejo de ser desejado, que o desejo é contingente à suposição de um desejo no Outro, mas por causa de sua falha. No Seminário 8, A transferência, Lacan (1971/2009, p. 435) esclarecia igualmente que o amor está correlacionado à falta e, portanto, ao significante, que sua metáfora repousa na substituição do desejante que coloca o parceiro no lugar de objeto do desejo em vez de desejado, pois o que é desejado é o desejante no outro, “o que só se pode fazer se o próprio sujeito for colocado como desejável”. A demanda de amor parte da falha no Outro, ela é demanda de ser amado, mas ela visa ao ser, o complemento de ser que nos falta, “isto é, aquilo que, na linguagem, mais escapa” (LACAN, 1972-73/1985, p. 55). “A linguagem nos impõe o ser”, indica Lacan (1972-73/1985, p. 61), “e nos obriga como tal a admitir que, do ser, nunca temos nada”. O sujeito busca em seu parceiro este semblante de ser suposto a este objeto que é o a, esclarece ele ainda nesse Seminário (LACAN, 1972-73/1985, p. 124). “A abordagem do ser, não é aí que reside o extremo do amor?” (LACAN, 1972-73/1985, p. 200). Assim, o amor visa o objeto “substituto do Outro”, (LACAN, 1972-73/1985, p. 171) do qual depende o gozo, que o causa.
Contrariamente ao que adianta Freud, é o homem – quero dizer, aquele que se vê macho sem saber o que fazer disto, no que sendo falante – que aborda a mulher, que pode crer que a aborda, porque, com respeito a isto, as convicções, aquelas de que eu falava da última vez, as cão-vicções, não faltam. Só que, o que ele aborda, é a causa de seu desejo, que eu designei pelo objeto a. Aí está o ato de amor. (LACAN, 1972-73/1985, p. 98)
O verbo “abordar” não está aí por acaso, pois ele ressalta precisamente que o amor é o estabelecimento de uma borda, entre S e a, S que ele remete um pouco mais acima ao um sozinho, ao S1. Ele enuncia mais adiante: “Do lado do homem, inscrevi aqui […] o $, e o Φ que o suporta como significante, o que bem se encarna também no S1”, indicando “este $ assim duplicado desse significante do qual em suma ele nem mesmo depende, esse $ só tem a ver, enquanto parceiro, com o objeto a inscrito do outro lado da barra” LACAN, 1972-73/1985, p. 107-108). O amor em Mais, ainda é uma primeira escrita daquilo que será o sinthoma S1a. É nesse sentido que o amor é um funcionamento da letra e que Lacan (1972-73/1985, p. 62) pode afirmar que “o que faz suplência à relação sexual é precisamente o amor”. Ele aponta ainda a dimensão de letra do amor quando ressalta que ele liga o Um e o Outro por intermédio de a (LACAN, 1972-73/1985, p. 67). Ele precisará igualmente nesse Seminário que a função de borda da letra é sustentada pela dimensão de semblante do objeto a, entre simbólico e real, o objeto a é um recorte no real, um “pedaço de real”, é o que lhe permite se confundir com o S1. O amor é o que faz com que isso cesse de não se escrever, ou, mais precisamente, nota Lacan (1972-73/1985, p. 198-199), o que faz “passar a negação ao não pára de se escrever, não pára, não parará”, eco de sua asserção no início do Seminário: “O amor demanda o amor. Ele não deixa de demandá-lo. Ele o demanda… mais… ainda” (LACAN, 1972-73/1985, p. 12), apontando o lado insaciável do amor, insatisfatório, sempre a reescrever. Lacan não adota nenhum ponto de vista idealista.
O amor em Mais, ainda é uma primeira escrita daquilo que será o sinthoma S1a. É nesse sentido que o amor é um funcionamento da letra e que Lacan (1972-73/1985, p. 62) pode afirmar que “o que faz suplência à relação sexual é precisamente o amor”.
Não obstante, Jacques-Alain Miller (2005, p. 18) observa que “a questão do amor a partir do Seminário Mais, ainda conhece uma promoção toda especial, porque o amor é o que podia fazer mediação entre os um-sozinhos”. Outro efeito da escrita que ele produz: o amor liga, ele vai ao avesso da solidão fundamental da civilização contemporânea baseada na promoção de um gozo solitário. Pensemos ainda no transtorno produzido pela chegada de Sophie na vida do mágico de A magia ao luar, desalojado da solidão de suas pesquisas, isolado em seu escritório.
Conclusão: De Yann Andrea a Woody Allen
Para concluir, ilustremos pela negativa o que significaria se houvesse a relação sexual, como por vezes na psicose. O laço que une Yann Andrea a Marguerite Duras é exemplar. Último companheiro dela, ele atesta, em seu livro intitulado Este amor, a particularidade desse laço. Página em branco, aquele que diz de si, depois da morte dela, que ele é uma lata de lixo, incapaz de se virar sozinho e que se deixará morrer, se define assim: “Não estou preso a nada. Disponho de uma formidável capacidade de não fazer nada, absolutamente nada. Não vale a pena” (ANDREA, 1999, p. 122, tradução nossa), sua existência se resume a olhar e estar aí, deixando entender claramente sua identificação ao objeto a que, não extraído, não é colocado no Outro, não atrai nenhum desejo. Sonhando ser escritor, ele se agarrou, num encontro improvável, a Marguerite Duras, pondo-se a serviço de sua escrita, transcrevendo o que ela ditava. Ela lhe deu um nome, literalmente. Ela ocupa o lugar de Deus, ela nomeia, enlaça a voz e a palavra.
Eu digo isto: no deslumbramento do encontro, durante o já famoso verão de 80, há a voz. Sua voz. O modo de dizer inteiramente as palavras, o modo de ir buscar a palavra, de encontrar a palavra justa, a palavra verdadeira, de deixar a palavra chegar até a boca passando pelo silêncio do pensamento. (ANDREA, 1999, p. 41, tradução nossa)
E, ainda: “Quando ela fala, ela parece inventar a palavra, e eu ouço a palavra pela primeira vez, como se ela nunca tivesse sido dita antes”, “Ela é a autora das palavras e a autora de sua própria voz” (ANDREA, 1999, p. 42, tradução nossa).
S1 do lado dela, ou mesmo A Mulher, da qual Lacan diz que ela é o Outro nome do Pai, pequeno a do lado dele, as condições estão reunidas para que isso se escreva entre eles, pelo menos às vezes, temporariamente, notadamente nos momentos de escrita. Eis o que ele diz disso: “E nesse momento há, direi assim, uma terceira pessoa conosco. Nós não existimos mais. Não há mais nome de autor, há simplesmente a escrita que está sendo produzida. E é uma emoção tal […] uma emoção da verdade” (ANDREA, 1999, p. 38, tradução nossa). Ela se tornou seu próprio nome:
Posso dizer assim: ela inventa, ela crê nisso, ela me inventa, ela me dá um nome, ela me dá uma imagem, ela me chama, ninguém me chamou tanto quanto ela, dia e noite, ela me dá as palavras, palavras, suas palavras, ela dá tudo, e eu estou aí, estou aí para isso. Não faço perguntas, não peço nada. (ANDREA, 1999, p. 50, tradução nossa)
Versão última, paroxística do amor, ele ilustra uma condição de possibilidade de um amor que faz verdadeiramente relação, ao preço de sua própria inexistência. Ele enuncia, ao mesmo tempo, o impossível:
Ela tomou tudo. Eu dei tudo. Inteiramente. Exceto que não havia nada para tomar. Eu estava lá. Totalmente. Não para ela, não, acontece que era ela que estava lá, portanto eu estava lá para ela, mas antes de tudo eu estava lá perto dela, o mais perto sem nunca cessar de estar separado dela. Ela quer tudo de mim, até o amor, até a destruição, até a morte compreendida, ela quer acreditar com todas as suas forças nesta ilusão magnífica, ela acredita nisso, ela se dá todos os meios para criar uma espécie de amor total, de todos os instantes, ela sabe que não é possível, que eu não sou fácil, que eu resisto, que não posso fazer mais e, no entanto, ela insiste, ela quer mais, como uma espécie de desafio heroico e vão. Para ela, para mim. Ela quer tudo, ela quer o todo e ela não quer nada. Nada de nada. E até o fim da vida, essa tentativa. Que eu e ela, que isso faça Um, ao passo que não, isso não é possível, em nenhum caso, em todos os casos isso falha, ela sabe, ela sabe disso, ela sabe que ela e eu, isso faria antes três. Que a resolução provisória, a tentar, a refazer sempre, passa por um terceiro elemento: a escrita. (ANDREA, 1999, p. 67, tradução nossa)
Quem não concluiria, de fato, que o fracasso é preferível? Que ilustração mais contundente da maneira como a relação sexual se relaciona a uma escrita. Assim, ele enuncia ainda:
Não, não espero nada. No money. Nothing. Apenas você. Sua pessoa ligada a mim e a minha à sua. Numa espécie de laço imbecil, absurdo, que não tem sentido, isso não rima com nada, você diz isso. Isso não rima em nada, sim. E no entanto isso está aí. O quê? O que estaria aí que existiria como uma prova da existência de Deus, uma prova impossível, sempre a verificar, sempre a provar, enquanto se sabe que não há prova, sim sabe-se, não haveria senão palavras, que a verdade que tenta sempre estar aí entre nós, que existe por vezes, ela está aí, numa espécie de graça insustentável, então é preciso ir além, amar-se, amar o mundo ainda mais e ela volta, ela está aí, a verdade da palavra. (ANDREA, 1999, p. 146-147, tradução nossa)
Tudo opõe Woody Allen e Yann Andrea. Para este último, uma versão pura, mas insustentável e desumanizada do amor, que, no entanto, o sustentou ao preço de seu desmoronamento com a morte de Marguerite Duras; para Woody Allen, o humor e a leveza do fracasso generalizado, reflexo de nossa humanidade. Escolhamos.
Nossos sinceros agradecimentos à Sophie Marret-Maleval por nos permitir a publicação de seu texto neste número de Almanaque On-line.


