Frederico Feu de Carvalho
Psicanalista
Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP)
E-mail: fredericofeu@gmail.com
- A entrevista
Entrevistar publicamente um paciente é um acontecimento que sempre reserva algumas surpresas, seja para a assistência, para a equipe que conduz o caso ou para o próprio paciente. Acredito que não tenha sido diferente em relação a essa entrevista realizada sob a égide do IPSM-MG em uma instituição psiquiátrica de Belo Horizonte. Esses efeitos de surpresa decorrem do dispositivo e da reconfiguração discursiva produzida pela “entrevista de orientação psicanalítica”, isto é, o giro de um quarto de volta entre o discurso universitário e o discurso analítico.
É o momento em que a instituição, que se encontra na assistência, se cala para ouvir o que o paciente tem a dizer, esclarecer e mesmo sugerir sobre seu próprio caso e seu tratamento a partir de uma posição que comporta uma extimidade em relação aos lugares e funções instituídas. Aquele que conduz a entrevista, da mesma forma, ocupa essa posição êxtima em relação à instituição, contribuindo com um outro olhar e uma outra perspectiva. Ele dá ao entrevistado a prerrogativa do saber; faz falar o que nem sempre se escuta; recolhe elementos que permitem construir o caso clínico e reorientar o tratamento a partir de sua singularidade
Em relação a esse caso, havia impasses na condução do tratamento devido à posição de recusa do paciente para com o tratamento. Uma das surpresas dessa entrevista, dentre outras, foi a maneira como o paciente se dispôs a ser escutado, uma maneira mais dócil, em contraste com os embates habituais que o caracterizam.
O entrevistado manteve-se firme em sua convicção de que não tem nenhum transtorno mental, embora de uma forma que nos pareceu ambígua. Tal ambiguidade nos leva a distinguir aquilo que se sabe consigo, mas que não se pode admitir, e o saber do Outro, com o qual não se consente. É esse abismo que será preciso transpor.
Ele tampouco se aprofundou nos aspectos de sua história pessoal. Para além das respostas evasivas e generalidades, deixou evidente, no entanto, a existência de lacunas subjetivas. Em um determinado momento, quando falava dos conflitos e das perseguições contra ele, quis encerrar a entrevista, mas depois consentiu em prosseguir. Admite que está mais protegido e seguro em relação a esses ataques na instituição, o que pode contribuir para o consentimento a ser dado ao fato de estar internado.
- A estrutura
Na discussão que se seguiu à entrevista, foi levantada a hipótese diagnóstica de uma estrutura paranoica ou, mais especificamente, de uma esquizofrenia paranoide, o que nos remeteu à descrição de Freud do quadro de Schreber. Essa hipótese se justifica em função das características do caso clínico. De fato, encontramos no caso tanto os elementos típicos da esquizofrenia, como as manipulações e extrações corporais, a errância e a desorganização pulsional, quanto aqueles elementos típicos da paranoia, como o sentimento persecutório, a inflação imaginária do Eu e a predominância das defesas.
Esse quadro híbrido, entre esquizofrenia e paranoia, comporta também uma relativa mobilidade, o que talvez seja a sua principal característica. Tomando como exemplo Schreber, suas manifestações iniciais foram claramente hipocondríacas, especialmente na primeira crise. No segundo desencadeamento, apresentava um quadro de estupor e de completa desorganização psíquica, denominado por Schreber de “assassinato de alma” e por Lacan de “desastre do imaginário”. As etapas de sua recuperação, por sua vez, podem ser descritas como um trabalho delirante progressivo, equivalente a uma paranoização, até sua estabilização final. A partir das elaborações de Freud e de Lacan, e também dos comentários sobre a lógica do delírio de J. C. Maleval (1998), podemos enumerar quatro etapas da construção delirante de Schreber, que Freud considerava sua “tentativa de cura”.
- Momento de desencadeamento da psicose a partir de sua nomeação como Juiz da Corte de Apelação de Dresden, com a produção concomitante de uma angústia dilacerante frente ao colapso da realidade. Corresponde ao desastre do imaginário e à invasão avassaladora de um gozo corporal, fora de toda significação, como resultado da foraclusão do significante do nome-do-pai, acompanhado de profundo horror, desagregação psíquica e desamparo.
- Primeiras tentativas de construção delirante do gozo invasivo. O sujeito busca dar um sentido àquilo que o invade, apoiando-se em suas próprias alucinações, criando a ideia de que fora largado nas mãos do seu médico, Dr. Flechsig, para fins de abuso sexual.
- Identificação do gozo do Outro e sistematização do delírio. Corresponde à “paranoização”, levando à elaboração de seu lugar de objeto do gozo do Outro para cumprir a vontade de Deus, ou seja, sua transformação em mulher. Trata-se de uma elaboração que, ao mesmo tempo em que é vivida como um embate, provocando a indignação contra essa vontade superior, favorece a megalomania e a reconstituição de um Eu minimamente consistente.
- Consentimento com sua condição de objeto como “A mulher de Deus”, graças ao propósito de redenção da humanidade e de criação de uma nova raça de homens. Coincide com o momento de estabilização e apaziguamento sustentados pela realização assintótica da metáfora delirante “A mulher de Deus”. O sujeito consente com o gozo do Outro a partir do fortalecimento narcísico do Eu.
Se essa hipótese diagnóstica estiver correta, é possível conjecturar que o paciente entrevistado obteve um relativo sucesso em localizar o gozo invasivo no Outro, permitindo assim que a condição esquizofrênica de desagregação corporal e desvario pulsional encontrasse uma ancoragem graças ao seu trabalho de elaboração delirante. Não se trata apenas de uma racionalização proporcionada pelo delírio, mas de uma montagem libidinal que transfere o gozo do corpo para o campo do Outro e estabiliza minimamente, embora de forma frágil, o campo da realidade. É o que nos dá a impressão ao mesmo tempo de solidez e impenetrabilidade do delírio.
Essa transferência de gozo do corpo para o campo do Outro pela via da elaboração delirante pode ser considerada como um sucedâneo da extração do objeto a na psicose paranoica. Como sabemos, a estrutura psicótica pode ser considerada como um caso de não extração do objeto a. Essa concepção completa e esclarece aquela da foraclusão do significante do Nome-do-Pai, conforme a nota 16 acrescentada por Lacan (1966/1998, p. 559-560) ao texto “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”, e que foi comentada por J-A Miller (1996) no texto “Suplemento topológico a ‘Uma questão preliminar…’”.
Há duas vertentes justapostas da extração do objeto a. A primeira pode ser localizada a partir de um recorte corporal desse objeto que, ao mesmo tempo, obtura para o sujeito o furo da castração (a/-f, conforme a notação de Lacan). Corresponde ao que Freud denominava de moeda de troca da fantasia na passagem do princípio do prazer ao princípio da realidade, ou seja, o quantum libidinal que o sujeito retém por meio da fantasia a fim de aceder ao princípio de realidade, o que equivale a uma transposição do gozo ao qual se renunciou para o inconsciente.
A segunda vertente da extração do objeto a incide sobre o próprio campo da realidade, abrindo aí uma janela correspondente à falta do objeto da fantasia, que condensa e localiza o gozo para o sujeito a fim de causar o seu desejo. Um dos resultados da não extração do objeto a do campo da realidade na psicose seria, justamente, a presença insidiosa do olhar e da voz alucinatória nesse campo.
Na paranoia, o sujeito não se separa desse objeto. O objeto permanece no bolso, diz Lacan. O paranoico é um sujeito de posses e sob a constante ameaça do Outro que quer privá-lo, agredi-lo, enfim, subtrair ou destruir isso que ele possui e do qual ele tem dificuldades em se separar. Se isso dá ao Eu paranoico uma consistência imaginária, que chamamos megalomania, é às custas da posse desse objeto do qual ele não se separou e que mantém no seu bolso. É o que acarreta a convicção de superioridade intelectual do nosso paciente, que assim desbanca o saber do Outro para se afirmar como detentor do saber, tal como Schreber entendia ter sido escolhido como o salvador da humanidade.
Essa consistência do Eu na paranoia, diz Freud, advém do investimento narcísico no Eu em detrimento do investimento libidinal naqueles objetos que povoam o seu mundo. A condição do investimento libidinal de objeto é, justamente, a extração do objeto a, que passa assim ao campo do Outro, cavando aí uma falta que concerne à causa do desejo para o neurótico. Na paranoia, ao contrário, o gozo está localizado no Outro, que mantém então sua consistência, enquanto o objeto precioso e agalmático permanece do lado do sujeito, guardado no seu bolso, que se vê assim, ele mesmo, como objeto do gozo do Outro.
Isso nos conduz à fala do paciente de que ele é como um caderno cujas folhas estão embaralhadas e desamarradas da brochura. O contexto dessa fala é aquele da falta de memória causada pelas intervenções e extrações corporais a que teria sido submetido, e que, na psicose, podem ser compreendidas como uma extração no real daquilo que não foi extraído simbolicamente por meio da metáfora paterna. Nesse sentido, esse caderno nos remete aos buracos e à fragmentação narrativa de sua história. Mas podemos também nos servir dessa expressão como uma forma de nomear sua singularidade, isto é, sua maneira singular de habitar a estrutura. Nesse sentido, essas folhas soltas apontam para uma desconexão subjetiva que produz impasse no laço social e no tratamento por não poder exercer a sua função de caderno.
- O tratamento
A questão que norteou a conversação talvez possa ser formulada nesses termos: o que poderia servir a esse sujeito como uma brochura a fim de que essas folhas soltas pudessem exercer a sua função de caderno? O que poderia ser introduzido como uma conexão ou mesmo como um anteparo a fim de que esse caderno possa exercer essa função?
Devemos nos lembrar que a estabilização de Schreber, o quarto ponto da progressão do seu delírio, se mostrou pouco eficiente e duradoura. Podemos conjecturar se essa fragilidade de sua solução, que se mostrou tão eficiente a princípio, ao ponto de revogar a sua interdição judicial, não seria devida, justamente, ao consentimento com a sua posição de objeto do gozo do Outro a partir da metáfora delirante “A mulher de Deus”. Ademais, o paciente em questão parece muito pouco inclinado a consentir com essa posição de objeto. Ele se encontra pronto para o embate frente a tudo que possa lhe sugerir essa imposição. Mas é possível que ele possa ceder um pouco em relação ao objeto que traz no bolso, de forma que, para além de seu consentimento à sua posição de objeto frente ao Outro, ele possa advir como um sujeito minimamente dividido, isto é, minimamente separado desse objeto que traz colado ao corpo.
Podemos alinhar aqui alguns pontos levantados no debate que se seguiu à entrevista e que foram retomados durante a conversação. O primeiro deles incide sobre a distinção entre ter um sofrimento psíquico e ter um transtorno mental. O paciente entende ter algum sofrimento psíquico, mesmo que não admita um transtorno mental, o que o iguala ao comum dos mortais, e não a um enfermo.
Essa mudança de foco, que de alguma forma já está em curso, poderia redirecionar a escuta do caso, da estrutura clínica à singularidade do sujeito. Fundamentalmente, o que se produz é uma mudança de discurso, na medida em que o saber passa para o lado do paciente, como um narrador de sua história, traumas e contingências, esvaziando assim o que o saber do Outro pode comportar de paranoico.
Um dos ganhos dessa reorientação, como se ponderou, seria a possibilidade de construção de um fio narrativo que pudesse, por um lado, preencher algumas de suas lacunas de memória, dando a ele um contraponto ficcional para sua fragmentação psíquica por meio do trabalho de “tradução constante do gozo enigmático”, conforme expressão de Laurent (2006) e, por outro lado, isolar a dimensão real daquelas lacunas que não podem ser preenchidas a fim de melhor cernir seu núcleo real. Um outro efeito incide sobre o valor a ser dado à medicalização, que passaria assim a ser apenas um elemento auxiliar do tratamento desse sofrimento psíquico, e não um comprovante de seu transtorno mental.
Um segundo ponto surgido no debate que se seguiu à entrevista, e que foi retomado na conversação, diz respeito a dar ao sujeito um “lugar de exceção”. Sabemos que reconhecer o lugar de exceção de alguns sujeitos pode ser uma estratégia eficaz de tratamento. Mas é preciso ter cautela, nesse caso, quanto a esse lugar de exceção. A singularidade de cada sujeito já é, por si mesma, uma forma de reconhecer a sua exceção. Dar a esse sujeito um lugar na instituição a partir do reconhecimento de um saber, como o de um ajudante da equipe, reforçaria o que para ele tem um peso. A psicose se desencadeou quando ele ingressou ou estava em vias de ingressar em seu curso de formação profissional, o que parece ter tido, para ele, o mesmo peso que teve, para Schreber, a nomeação para Presidente da Corte de Apelação de Dresden.
Mas talvez pudéssemos tirar um bom proveito de sua apresentação como um ativista, especialmente quando esse ativismo aponta para alguma reconfiguração do laço social, quando ele se apresenta como um “fazer para” e não apenas como um imperativo para fazer muitas coisas. Como função social, o “fazer para” é também um “fazer par”; é uma forma de nomeação, como lembra Lacan, que comporta um intervalo de si ao outro, na medida em que a ênfase se desloca do Eu para a função social.
O “fazer para” não tem o peso da exceção conferido ao objeto precioso, como a nomeação “A mulher de Deus” para Schreber, ou a posse do saber para esse paciente, com a carga idealizada que comporta, como aquele que já sabe.
Entre o saber em sua função mediadora, como meio de gozo (LACAN, 1969-70/1992), e a certeza psicótica, há um fosso difícil de transpor. Seria preciso, como dissemos, que o paciente consentisse em ceder em relação ao objeto que tem no bolso, isto é, que ele pudesse tomar o saber de uma forma assintótica e menos idealizada; não como aquilo que se tem, como um objeto precioso e intrasferível, mas como aquilo que ele pode almejar como saber a ser compartilhado. Aquele que já possui o saber como objeto precioso não se divide em relação ao saber; por isso a cautela quanto ao lugar de exceção que ele mesmo pode reivindicar na instituição.
A cessão de gozo em relação à posse do saber poderia, assim, atenuar o risco de uma cisão do sujeito que já sabe. Seria uma maneira de se dividir em relação ao objeto. Essa divisão subjetiva é, muitas vezes, acessível à paranoia, mesmo que distinta de uma divisão histérica. Há paranoicos que se dividem pela via do humor, podendo assim zombar de si mesmos; há também aqueles que admitem ceder esse objeto, como que por empréstimo, mantendo-se amarrados ao fio do seu carretel. Da mesma forma que há esquizofrênicos que se estabilizam ao dar forma a um objeto fora do corpo, por meio de uma escrita ou de uma obra a ser publicada, vendida ou exposta, das quais eles se separam.
A dificuldade, no presente caso, reside no fato de o paciente não parecer muito disposto a ceder o seu saber para o Outro. Mas talvez seja possível, para ele, aceder ao saber universal a fim de sustentar seu ativismo, aquele saber que está disposto nos livros, e não encarnado por alguém que figuraria como detentor desse saber. Podemos aludir aqui à figura do mestre no discurso universitário, ou seja, o autor desencarnado em nome de quem se ensina e que sustenta esse saber universal. De todas as maneiras, nos pareceu mais promissor tirar proveito de sua posição de ativista, à qual supomos um saber prático, do que apostar no saber universitário daquele que ensina.
Trata-se de algo a ser construído. Mas penso que a posição de aprendiz de quem se apresenta como parceiro do paciente na busca de um saber-fazer que ninguém ainda detém, possa ser uma ponte nessa construção que vai da margem onde ele se encontra desamparado, em meio às folhas soltas de seu caderno e da errância pulsional de quem está à deriva, a essa outra margem na qual se poderia consentir com um fazer para.
Essa ponte seria ao mesmo tempo uma transposição de margens, uma forma de conexão e um amparo. Como uma brochura para se prender as folhas do caderno, a fim de que elas possam ser religadas a uma função, a que chamamos de sinthoma, essa forma singular de ser, de gozar e de se ligar ao mundo, mesmo que sem a ajuda do Nome-do-Pai.

