Bernardo Micherif Carneiro
Psicanalista
Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP)
Doutor em Educação e Mestre em Psicologia pela UFMG.
E-mail: bernardomcarneiro@yahoo.com.br
Freud (1930/1996) nos apresentou o supereu como a instância decisiva do mal-estar na civilização. Ele considerou que as exigências sociais de uma época seriam medidas pela presença do supereu na cultura. Na atualidade, marcada pela queda dos ideais coletivos, o imperativo superegóico parece manter o seu papel como suporte da moral e dos costumes da sociedade. Mas qual é a moral sexual de nossa época? Qual o mal-estar de nossa civilização? Poderíamos ler o mundo de hoje a partir do que Freud ensinou? Trata-se de questões que nos exigem um retorno à obra de Freud para, sob a luz de Lacan, atualizar nossas hipóteses.
Em uma sociedade marcada pela repressão sexual, Freud constatou que a renúncia pulsional cria a consciência moral e, portanto, conduz à exigência de mais renúncia. Quanto mais se sacrifica a vida sexual e a agressividade, mais a gula do supereu vocifera de modo cruel e implacável. Se a interdição do gozo não arrefece a incidência do supereu, Freud (1930/1996, p. 131) conclui: “a renúncia instintiva não basta, pois o desejo persiste e não pode ser escondido do superego”.
No declínio do complexo de Édipo, frente à ameaça de castração, a criança renuncia à satisfação sexual com um de seus primeiros objetos de investimento libidinal – a mãe – e abdica do desejo de agressão contra a autoridade que o impediu de se satisfazer – o pai. A criança abandona o investimento libidinal nos pais e incorpora uma identificação ao pai que serve de substrato ao supereu, que retorna contra o eu a agressividade interditada.
O supereu passa a exercer uma vigilância permanente sobre os desejos sexuais do sujeito, o que coloca em jogo uma necessidade de ser punido pelo que deseja. A autorrecriminação explicita uma ligação íntima entre a pulsão de morte e a libido, o que Freud designou como masoquismo moral: um supereu sádico incidindo sobre o gozo masoquista com o objeto da pulsão. Como conclui Freud (1924/1996, p. 188), se a pulsão de morte “tem a significação de um componente erótico, a própria destruição de si mesmo pelo indivíduo não pode se realizar sem uma satisfação libidinal”.
Essa subordinação do gozo sexual a uma lei moral insensata revela o paradoxo do supereu. Ali onde se acredita interditar o gozo, este é incitado em sua via perversa. O imperativo moral é um imperativo de gozo que vocifera a depreciação de seu objeto. A aliança com o supereu torna a sexualidade fundamentalmente masoquista. O eu resta identificado ao objeto a ser atacado, condição que Freud localizou na construção do fantasma “Bate-se em uma criança”.
A identificação é um tema que está presente em todo o percurso da obra de Freud e constituiu a matéria-prima que o levou ao conceito de supereu. Foi a partir da abordagem do tema que Freud localizou uma parte do eu que se coloca como um agente psíquico da censura.
Contudo, na atualidade, o conceito de identificação tem cedido espaço para a referência à identidade. Presenciamos a erosão dos discursos tradicionais que orientavam a identificação ao tipo ideal do sexo, ensinando o que convém para se tornar um bom rapaz ou uma boa moça. Com a ascensão do capitalismo, os ideais coletivos perderam força frente ao culto à satisfação imediata. A moral sexual civilizada da era moderna, que era regida pela censura, deu lugar a uma nova moral: é proibido proibir.
Sob essa nova perspectiva, a identificação ao tipo ideal do sexo é denunciada como imposição de um autoritarismo falocêntrico obsoleto. Contesta-se essa via tradicional opondo-lhe a ideia de que toda forma de existir vale a pena, ou que cabe a cada um decidir o que fazer com o próprio corpo. Ou mesmo tentando se defender do mal-entendido da relação sexual com um controle contratual: tudo tem que ser previamente dito e definido, sem lugar para contingências.
Essa nova moral do nosso mundo parece tornar proeminente a presença do imperativo superegóico “Goza!”. Todavia, poderíamos levantar a hipótese de que, quanto mais a identidade prevalece como via de acesso à própria existência, mais o encontro amoroso e a relação sexual podem encontrar dificuldades.
Partindo da atualidade do debate sobre gênero, coloco a questão: poderíamos ler a ascensão da identidade de gênero a partir da referência freudiana à identificação sexual? Para avançar nessa investigação, abordarei, em sequência, três textos em que Freud avança em sua concepção da identificação: Psicologia das massas e análise do eu (1921), Introdução ao narcisismo (1914) e Luto e melancolia (1915). A proposta é recorrer à leitura que Lacan fez dessas três referências para extrair delas a atualidade da obra de Freud para nossa época.
Um traço do desamparo
Em Psicologia das massas e análise do eu, Freud (1921/1996) se refere a três tipos de identificação. Dentre elas, destaca-se uma que não está sustentada no amor, mas apenas em um traço particular qualquer, einziger Zug. Lacan pesca esse termo como um achado determinante para os rumos de seu ensino e o traduz como traço unário.
Abordar um traço de identificação fora do registro do amor implica que ele se escreve excluído do campo do Outro. Segundo Lacan, trata-se de uma marca do encontro com um buraco, (Ⱥ) o que, nos termos de Freud, poderíamos considerar um desamparo fundamental, Hilflosigkeit. Uma irrupção de gozo, com a qual o sujeito não sabe o que fazer, marca esse encontro traumático. Dessa experiência resta um rastro, o traço unário, significante da inexistência do Outro, S(Ⱥ).
O traço unário abre um vazio entre o corpo e o gozo, inscreve-se como uma cicatriz que introduz no campo do Outro o corpo como imagem e o gozo como morte. É do apagamento do traço que o sujeito advém no significante, dividido entre ser o efeito desse traço e ser o suporte de sua ausência. A reiteração do gozo do traço unário no Outro é o que permite que essa marca reapareça como significante mestre no a posteriori, no efeito retroativo da estrutura de linguagem.
Se o Um do traço se constitui, a princípio, como uma marca da existência do sujeito, sua inserção no campo do Outro desloca a questão do existir para um enigma sobre o ser. O problema do ser é o que introduz o traço identificatório na esfera do amor. A demanda de ser amado a partir de seu traço diferencial torna-se o suporte da idealização, da miragem na qual o sujeito se deixa capturar frente ao olhar do Outro. Nessa montagem, o enigma do gozo do corpo é deslocado para uma pergunta sobre o desejo da mãe. Uma sobreposição decisiva para os rumos da pulsão sexual.
A imagem ideal do objeto
No texto Introdução ao narcisismo, Freud (1914/1996) nos apresenta o modelo da identificação narcísica a partir dos conceitos de ideal do eu e eu ideal. Podemos considerar que esse par conceitual é homólogo a duas versões do supereu, respectivamente, o supereu paterno e o supereu materno.
O ideal do eu designa a identificação ao traço unário na medida em que desse lugar o sujeito pode se ver como amável frente ao olhar do Outro. É o traço particular que porta o assentimento do Outro, um significante da identificação ao pai introjetado como signo do pertencimento a um romance familiar. O supereu ocupa aí sua função como instância que mede a distância do sujeito em relação ao seu ideal. Ele funciona como um vigia permanente dos desejos do sujeito que, a qualquer passo em falso, vocifera sua recriminação e seus insultos.
Se o ideal do eu coloca em jogo a identificação ao significante paterno, para o eu ideal o que está em questão é a identificação ao objeto do desejo da mãe. Ou, como diria Freud, se o ideal do eu é a identificação resultante do complexo de Édipo, o eu ideal é uma identificação derivada das primeiras catexias objetais do isso. É na dispersão dos objetos pulsionais, que caracteriza o autoerotismo como um “sentir falta de si” (LACAN, 1962-63/2005, p. 132), é dessa desordem que se isola uma imagem do objeto na qual a criança encontra seu eu ideal, em relação ao qual os outros objetos serão o resto.
A identificação à imagem do objeto surge como a precipitação de uma resposta ao olhar da mãe, suporte da imagem especular. A prematuração que Lacan aponta na assunção dessa imagem indica uma hiância original em sua estrutura, um desamparo insuperável. Contudo, o eu ideal ergue-se como uma estátua, uma imagem idealizada e eternizada. A encarnação desse objeto pela criança é o correlato da imago da mãe devoradora, a mãe que pode reincorporar seu objeto.
Não é a si mesmo que o sujeito encontra no espelho do Outro, mas sim o poder de fascinação de seu investimento narcísico em uma imagem do objeto que não comporta resto. Esse valor libidinal do eu ideal faz com que o sujeito não esteja “disposto a renunciar à perfeição narcisista de sua infância” (FREUD, 1914/1996, p. 100). Com isso, o eu nunca está só, mas sempre carregando consigo um gêmeo que ele “reencontrará sem cessar como o quadro mesmo das suas categorias, da sua apreensão do mundo” (LACAN, 1953-54/1986, p. 321).
Mas essa dominação precária do eu ideal oculta a dimensão não especular da pulsão, do gozo do corpo. Quando o olhar da mãe sobre a criança se ausenta, o eclipse de i(a) desvela um desamparo original. Essa experiência impõe que a criança se separe de seu eu ideal, ou seja, do lugar onde é capturada pela fala do Outro, para ascender como sujeito da linguagem. Lacan traduz esse deslocamento em seu grafo do desejo.
A questão sobre o desejo da mãe se abre, como um “Che vuoi?”, para além da criança como objeto de investimento. Como consequência, há uma perda no registro da imagem, uma negativização de i(a), que Freud designou como castração. Essa é a condição para que advenha um sujeito de desejo (d), marcado pela falta de um objeto que ele busca para recuperar uma suposta satisfação infantil. Como diz Freud (1905/1996, p. 210): “O encontro do objeto é, na verdade, um reencontro”.
A pergunta sobre o desejo da mãe condiciona a relação do sujeito com seu próprio desejo. A resposta ao enigma materno é a fantasia ($àa), fórmula da conjunção do sujeito com um objeto enquadrado em uma imagem fixada. Nos termos de Lacan, trata-se da fantasia fundamental, o fantasma. Identificando-se ao objeto do desejo da mãe, o sujeito faz de i(a), o eu ideal, o suporte do seu desejo. O fantasma subordina a satisfação libidinal à sua lógica.
Contudo, devido ao fantasma comportar uma excitação sexual com desejos incestuosos, ele sofre a ação de supereu. Esse censor exige uma renúncia pulsional, impõe que a satisfação da libido esteja em conformidade com o ideal do Outro. Com isso, o ideal do eu, I(A), se constitui como uma identificação dessexualizada que permite ao sujeito manter seu fantasma à distância. O fantasma se fixa na forma de uma perversão sexual, uma satisfação interditada, enquanto o sujeito se dedica a buscar a adequação ao seu ideal do eu.
Essa distância entre o ideal do eu e o fantasma mantém intacta a função do eu ideal: “o que ele projeta diante de si como sendo seu ideal é o substituto do narcisismo perdido de sua infância na qual ele era o seu próprio ideal” (FREUD, 1914/1996, p. 101). O eu ideal é a imagem do que não pode falhar e que, portanto, mantém-se velada. O ideal do eu torna-se uma via sublimada pela qual o sujeito pode colocar o seu eu ideal à prova do amor do Outro. Ou seja, a demanda pelo amor do Outro oculta o gozo sexual com a imagem do objeto. Preserva-se o eu ideal em seu caráter de totem, uma imagem imortalizada de um objeto morto. Lacan (1960-61/1992, p. 478) diz: “A imagem especular tem, certamente, uma face de investimento, mas também uma face de defesa. É uma barragem contra o Pacífico do amor materno. Digamos simplesmente que o investimento do Outro é, em suma, defendido pelo eu ideal”.
A imagem do objeto morto e eternizado é uma defesa frente ao desejo da mãe e, ao mesmo tempo, permite ao sujeito investir, secretamente, em seu gozo sexual aliado ao imperativo do supereu. É em torno da tumba que se promove o ritual de adoração e sacrifício.
Um objeto que cai
Em Luto e melancolia, Freud dá um passo em sua teoria da identificação que considero decisivo para nossa investigação. Ele se dedica a dois destinos distintos da perda do objeto, o que Lacan aborda a partir de seu conceito de objeto a. Se o amor é narcísico, a perda do objeto idealizado, i(a), impõe que o sujeito precisa lidar com o objeto a, não especular. Na melancolia, diante dessa perda, “é o objeto que triunfa” (LACAN, 1962-63/2005, p. 364).
O eu se identifica ao objeto abandonado, o que leva Freud (1915/1996, p. 254) a afirmar: “a sombra do objeto caiu sobre o ego”. O eu resta identificado ao objeto dejeto, aquele que não serve para nada. Isso faz incidir sobre ele uma moral implacável que o aborda como alguém desprezível. Essa dor moral de existir é o que faz da melancolia um paradigma da incidência do supereu.
Aliado às exigências pulsionais do isso, o supereu faz recair sobre o eu uma sombra narcísica que o esmaga. Essa der Schatten, a sombra, é um anteparo, uma imagem degradada que isola o eu identificado a um objeto que se sustenta na recriminação que o supereu lhe impõe. Se a identificação a esse objeto resto é o efeito da perda de um objeto idealizado, podemos supor que quanto mais enaltecido é o ser amado, mais degradado será o produto que resulta da perda desse ser.
Se, por um lado, a incidência do supereu incita o melancólico a adotar uma atitude de revolta por se sentir menosprezado, por outro lado, essa dor moral pode impulsioná-lo a se precipitar como um objeto a ser ejetado da cena. É como objeto a que o sujeito se deixa cair no ato suicida. E Lacan (1962-63/2005, p. 364) conclui: “Se tantas vezes isso acontece na janela, se não através da janela, não é por acaso. É o recurso a uma estrutura que não é outra senão a da fantasia”.
Essa referência permite introduzir uma questão: como conceberíamos o fantasma a partir do paradigma da posição melancólica? Podemos considerar que a identificação ao objeto do desejo da mãe como um eu ideal que não falha tem como correlato a identificação ao objeto dejeto que o Outro pode descartar. Quando a posição de objeto ideal vacila, o supereu expõe a presença de um objeto imprestável.
Trata-se da incidência mortífera do supereu materno, que se revela na imago da mãe devoradora. Como se o eu ideal arrastasse sempre atrás de si um cadáver, um duplo inseparável. Quando o objeto a se revela por trás da imagem ideal, o supereu aponta para a sombra narcísica do objeto abandonado, anteparo derradeiro frente ao real.
Para Freud, o antídoto para esse vínculo mortífero entre o supereu e o fantasma estaria no luto do objeto perdido. Lacan (1958-59/2016, p. 360) indica que, no luto, “tal perda constitui uma Verweifung, um buraco, mas no real”. Ali onde o ser amado era idealizado, resta uma hiância, a ausência de um significante para nomear o que perdura. O luto consiste em deixar cair todos os atributos narcísicos que foram investidos no objeto, separar i(a) e a para que se reestabeleça o objeto a como perda, como causa de desejo. Quando esse trabalho é realizado, é possível substituir um objeto por outro, na medida em que todo objeto é, na verdade, um substituto para esse objeto perdido e sempre reencontrado.
O luto promove a desidentificação ao dejeto, deixa cair a sombra do objeto para que o sujeito não se veja impulsionado a se lançar no suicídio como um objeto caído. O objeto perdido retira o sujeito da identificação ao ser amado e viabiliza a posição do amante castrado, aquele que dá o que não tem.
É isso que feminiza a posição do sujeito, ou, nos termos de Freud (1914/1996, p. 107): “o neurótico, que, por causa de suas excessivas catexias objetais, é empobrecido em seu ego, sendo incapaz de realizar seu ideal do ego”. Quando a castração se impõe sobre a identificação narcísica, o amor se abre para enfrentar o objeto causa de desejo. Ou, como diz Lacan (1962-63/2005, p. 197), “só o amor permite ao gozo condescender ao desejo”.
A identidade dejeto
O problema do gênero não estava colocado nesses termos à época de Freud. Ele abordou a homossexualidade utilizando o termo corrente daquele momento: a inversão. Contudo, ele não adotou a concepção de uma inversão entre masculino e feminino. Ele descreveu os ditos invertidos “estritamente em termos de identificação e escolha objetal” (LAURENT, 2007, p. 159).
Quanto à satisfação da pulsão sexual, Freud (1905/1996) foi subversivo, situando a perversão na base da sexualidade humana. Ele partiu da tese inédita da sexualidade infantil e da perversão polimorfa para argumentar que a fantasia perversa seria, desde a tenra idade, a via para a escolha do objeto sexual. Essa generalização da perversão sexual exclui a referência ao normal e coloca toda escolha de objeto, seja hetero ou homossexual, no âmbito do patológico.
Na década de setenta, mais de trinta anos após a morte de Freud, os homossexuais se inseriram na luta coletiva de contracultura a partir do debate sobre direitos civis, o que fez surgir o movimento gay. Esse advento da identificação a um discurso “para todos” foi seguido por uma escalada de reivindicações. A escolha do objeto sexual destacou-se na cena pública como questão política. No mesmo momento em que o movimento gay consolidava um novo estilo de vida, a sociedade patriarcal era abalada em suas bases. Revisava-se o sentido comum de família, casamento, relação sexual, normalidade etc.
Estava sob suspeita o que Lacan chamou de norme male, a norma do macho. Questionava-se a distinção entre escolhas normais e perversas. A diversidade das escolhas de objeto sexual se abria em detrimento da tradição patriarcal. Essa prevalência da satisfação individual em relação aos ideais coletivos era uma marca do “individualismo democrático de massa” (MILLER, 2006, p. 16) que se consolidou com a ascensão do capitalismo como ordem mundial.
O discurso capitalista promoveu o objeto ao zênite social, incitando uma satisfação solitária, imediata, metonímica e insaciável. Essa lógica incidiu sobre a moral sexual de nossa época. As parcerias amorosas participam desse mercado acelerado das trocas de objeto; mulheres optam pela satisfação profissional em detrimento da escolha pelo objeto filho ou da identificação à dona do lar; homens privilegiam a pornografia em prejuízo do ato sexual, declinam do papel de provedor enquanto estão às voltas com a detumescência do órgão.
Nessa conjuntura, o significante-mestre gay cedeu lugar a um novo paradigma: o queer. O universo queer contesta o movimento gay, alegando que este manteve-se dentro do regime edípico, ordenado pelo modelo heteronormativo. Em contrapartida, o queer vem “celebrar a queda da utopia heterossexual” (LAURENT, 2015, p. 23) e a proposta de uma política sem universalidade, que recuse a normatização de qualquer identidade de gênero. A primazia do falo torna-se um sinal de imposição de poder a ser denunciado e extirpado das relações humanas. Uma marca de uma nova moral sexual.
A repressão sexual da tradição patriarcal cede espaço a um imperativo superegóico que incita o culto ao novo. É preciso inovar sempre, trocar de parceiro, experimentar novas modalidades de relação, encontrar recursos mais eficazes para a satisfação do corpo, ajustar a própria imagem ao modelo do momento, customizar novas identidades, etc. Inovar tornou-se um automatismo da atualidade. “O novo automático não inclui surpresa, conhecemos sua obsolescência. É mortificado, mortífero, razão de sua insaciedade. O novo, como sintoma da cultura, é glutão, devorador. A glutonia, como traço, aponta o supereu na raiz” (MILLER, 1997, p. 7).
Essa reprogramação do gozo fora da referência à função do falo dificulta o luto do objeto perdido e descarta o traço particular do fantasma que seria condição para a escolha do objeto sexual. Se a identificação sexual se torna descartável, o sujeito resta como dejeto da cultura. Com isso, o humor melancólico torna-se um paradigma do mal-estar atual. O declínio dos ideais e do falocentrismo disponibiliza, como um sintoma contemporâneo, a via da identificação ao objeto dejeto.
A gula do supereu, fundamento do mal-estar da civilização, sustenta-se hoje em dia em sua aliança com o discurso da ciência e o discurso capitalista, visando a produção de objetos de consumo que obturem o objeto perdido da pulsão. A destituição da norma fálica promoveu um novo mercado, no qual a identificação e a escolha de objeto são recobertas por discursos identitários, o que deixa de fora a pergunta sobre o desejo inconsciente.
No caso da orientação sexual, isso frequentemente se expressa na substituição da noção de escolha de objeto pela ideia de uma origem inata e involuntária da sexualidade, como um destino que marca fatalmente a existência do sujeito. O passo seguinte é o argumento neurocientífico sobre a determinação do gênero e da orientação sexual a partir da interação entre fatores hormonais e genéticos para a formação das redes neurais e da morfologia cerebral no período da vida intrauterina.
Podemos verificar a incidência dessa lógica discursiva quando alguém se refere à sua posição identitária afirmando que, se pudesse escolher, não escolheria ser assim. Essa crença expõe uma consciência de si como um objeto depreciado frente a um destino implacável e cruel. Uma condição que exclui a relação com o inconsciente e o gozo implicado na identificação ao objeto do desejo da mãe.
A posição melancólica encontra no discurso da ciência um importante aliado. Essa coalizão é contemporânea do debate sobre um aumento nas práticas de autolesão e suicídio, a ascensão de um culto ao corpo e um prejuízo da vida sexual, a adoção de transtornos psiquiátricos como identidades irreversíveis e o consequente consumo perpétuo de medicação.
Sem o recurso à castração, resta um impasse no âmbito do amor. O ato sexual, sem o anteparo do fantasma, coloca em jogo a condição do objeto descartável frente ao parceiro devorador. Nessa configuração, a violência contra mulheres tem ganhado destaque no debate público, o que evidencia que a moral sexual de nosso mundo está em disputa.
De um lado, há quem creia no modelo de família patriarcal, no qual a esposa deveria dedicar sua vida ao sucesso do marido e da família. De outro lado, considera-se que a masculinidade é nociva e, portanto, é preciso intervir sobre os homens para educá-los sobre como tratar uma mulher. Entre esses dois extremos, encontramos variações mais moderadas. Mas, nas diversas posições do debate, parece prevalecer um ponto em comum: a crença em um modelo universal de relação entre os sexos. Essa crença sustenta-se no imperativo superegóico da moral sexual contemporânea. Porém, ao mesmo tempo em que se insiste em almejar esse modelo, a situação de mulheres devastadas pela violência dos parceiros segue como uma questão social alarmante.
Freud, que criou a psicanálise a partir da escuta das histéricas, sempre deixou claro que havia algo na clínica com mulheres que ele não conseguia abordar. Lacan respondeu a esse impasse com seu aforisma “A mulher não existe”. Isso implica que, para a psicanálise, não há um modelo de como abordar uma mulher, já que elas só podem ser abordadas uma a uma.
Contudo, o momento civilizatório atual exige algumas distinções no modo de conceber o masculino. Considerar o homem a partir do modelo edípico implica que a identificação ao pai é a condição para que o menino se reconheça entre os pares como aquele que tem o falo. Ou seja, o homem seria o filho que encontra a saída do complexo de Édipo pelo primado do falo como via identificatória.
Porém, há uma outra versão do masculino que advém na puberdade. No momento em que o menino abandona o predomínio do autoerotismo para se dedicar à escolha do objeto sexual, a barreira do incesto impõe a perda da mãe como objeto privilegiado. O luto desse objeto é “uma das realizações psíquicas mais significativas, porém também mais dolorosas, do período da puberdade” (FREUD, 1905/1996, p. 214). Mas Freud adverte que há quem fique retido e nunca supere essa perda, o que traz consequências para a vida amorosa futura.
O luto da mãe como objeto localiza a castração como condição para que o menino se posicione no amor e se disponha a enfrentar a causa de seu desejo. E Freud (1905/1996, p. 213) conclui: “a vida sexual do jovem em processo de amadurecimento não dispõe de outro espaço que não o das fantasias”. Se a função do pai viabiliza a identificação fálica entre os homens, entretanto, diante de uma mulher, é preciso ir além. É preciso se separar da via edípica para abordar a mulher como objeto a pela via fantasmática. É o fantasma que faculta ao homem colocar em jogo suas condições para a escolha do objeto. Só há modelo particular da relação entre os sexos no modo como cada um enquadra seu objeto a.
Por fim, frente ao imperativo superegóico que faz do sujeito um dejeto da cultura, a psicanálise responde mantendo sua orientação em direção à repetição inconsciente de identificações que parecem obsoletas, mas que estão sempre lá. Trata-se de reencontrar o enigma sobre o desejo da mãe e as velhas escolhas de objeto para extrair disso o modo como cada um enfrentou a satisfação pulsional. Com isso, Freud se mantém, como sempre esteve, como o avesso do discurso civilizatório que, hoje em dia, oferece uma diversidade de novidades descartáveis.


