Gilson Iannini
Psicanalista
Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP)
e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP)
E-mail: gilsoniannini@yahoo.com.br
Paradoxalmente, talvez Lacan só encontre Freud de fato quando abandona o próprio “retorno a Freud”: não mais apenas no inconsciente estruturado como uma linguagem, mas em lalangue, no falasser, na pulsão, nas redes e na materialidade gozosa da palavra.
Pertence verdadeiramente ao seu tempo [escreve Agamben] aquele que não coincide perfeitamente com ele nem se adequa às suas exigências e é, por isso, nesse sentido, inatual; mas, precisamente por isso, exatamente através dessa separação e desse anacronismo, ele é capaz, mais do que outros, de perceber e de apreender o seu tempo. (AGAMBEN, 2014)
Quando apago a luz do quarto, ou entro subitamente num ambiente escuro, a escuridão toma conta de tudo. Não sou capaz de dar um passo sem arriscar um tropeço. Estendo a mão, procurando alcançar o interruptor do abajur ou, talvez, o celular sobre a mesa. Enquanto vou tateando, procurando sem achar, aos poucos começo a enxergar certos contornos de objetos, uma ou outra nesga de luz, uma espécie de aura. Na verdade, alguns minutos depois de cair na escuridão, nossas retinas acabam se adaptando à ausência de luz, ajustando a sensibilidade à luminosidade, num jogo complexo do sistema fotoquímico. Fato é que, aos poucos, conseguimos como que enxergar na escuridão ou mesmo enxergar a própria escuridão. O fenômeno é bem descrito e facilmente replicável por qualquer um.
Analogamente, o presente não é imediatamente visível. Quem, com toda honestidade, sabe dizer “o que está acontecendo, de verdade, aqui, hoje”? As marcas do presente só se dão a ver a quem se acostuma a enxergar na penumbra. Afinal, como escreveu Agamben (2014), “contemporâneo é, exatamente, aquele que sabe ver essa obscuridade, que é capaz de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente.”
Nesse sentido, talvez Freud permaneça contemporâneo justamente no ponto em que sua obra resiste às leituras demasiado luminosas, demasiado organizadas, demasiado transparentes de si mesma. Durante décadas, parte importante da recepção de Freud passou pela mediação estruturalista do primeiro ensino de Lacan, cujo alcance e fecundidade são inegáveis.
Mas talvez algumas das intuições mais radicais de Freud apareçam justamente ali onde a linguagem deixa de funcionar apenas como estrutura de significação e passa a operar como aparelho de gozo, como marca inscrita no corpo, como rede pulsional de traços, intensidades, restos sonoros e contingências. Não é casual que o último Lacan – o do falasser, de lalangue e do inconsciente real – reencontre precisamente esse ponto.
Tomemos, por exemplo, o processo de escrita de Além do princípio de prazer, publicado em 1920, alvo de diversas disputas e controvérsias. Para começar, ele foi elaborado num período especialmente turbulento tanto do ponto de vista histórico quanto do ponto de vista pessoal, sem contar as próprias transformações da teoria e da clínica psicanalítica. O texto foi iniciado logo após o final da Primeira Guerra Mundial, enquanto a epidemia de gripe espanhola vitimava milhões de pessoas, incluindo a jovem e saudável Sophie, filha de Freud. Do mesmo modo, a clínica receberia um forte influxo dos traumatizados de guerra, cuja gramática de sofrimentos parecia denunciar um certo esgotamento de hipóteses teóricas e de protocolos clínicos calcados em um primeiro modelo da interpretação.
Em que medida a superfície do texto espelha todos ou alguns desses acontecimentos? Como tais acontecimentos “exteriores” incidem no texto? Se um texto fosse uma superfície plana, como um espelho bem polido, talvez acontecimentos paralelos pudessem ser refletidos em ângulos idênticos aos ângulos de incidência. Refletida, a luz seria devolvida a seu meio de origem, sem que houvesse refração, sem opacidades ou ruídos. Foi isso que supuseram – e ainda supõem – alguns leitores. Além do princípio de prazer espelharia o pessimismo de Freud, seu luto, suas perdas.
Mas acontecimentos quase nunca são paralelos: são, antes, oblíquos, ou tangenciam outros acontecimentos, ou os cortam. Além disso, não incidem em superfícies planas, dispostas a devolver aos olhos do leitor o que o autor mesmo recebeu. Do mesmo modo, um texto não é uma superfície plana, mas, antes, é composto por camadas ou placas que se chocam e que deslizam umas sobre as outras, amarradas por fios nem sempre visíveis, nem sempre ancorados em terra firme. Tampouco um texto é uma matéria opaca, impenetrável, que nada absorve do exterior ou que extingue tudo que lhe é estranho.
Talvez isso valha também para o próprio inconsciente freudiano. Durante muito tempo, sobretudo sob forte influência do paradigma estruturalista, lemos Freud prioritariamente a partir da ordem simbólica, da estrutura da linguagem, da combinatória significante. Essa leitura foi decisiva e extraordinariamente fecunda. Mas ela talvez tenha deixado relativamente na sombra algo que retorna com força justamente no Além do princípio de prazer: uma concepção do psiquismo menos centrada na transparência do sentido do que em circuitos pulsionais, intensidades, repetições, traços, insistências, marcas corporais e formas de gozo que excedem o regime clássico da interpretação.
Não é casual que seja precisamente em torno da repetição, do trauma e da pulsão que o último ensino de Lacan reencontre Freud.
O falasser lacaniano já não coincide inteiramente com o sujeito do significante. Lalangue já não se reduz à estrutura diferencial da linguagem. A palavra passa a ser pensada também como acontecimento de corpo, como materialidade sonora, como aparelho de gozo. E talvez Freud estivesse mais próximo disso desde o início do que muitas vezes supomos.
Exatamente porque mergulhou profundamente nas trevas do presente é que Freud construiu, com escombros e materiais diversos, um texto que nos fornece ainda hoje elementos potentes para pensar desde problemas clínicos, como a ubíqua compulsão à repetição, até a política, com a instrumentalização perversa da pulsão de morte a serviço da bio e da necropolítica. Mas talvez nos permita também reler o próprio inconsciente menos como uma gramática estável de significações ocultas do que como uma rede dinâmica de inscrições, retranscrições, restos, acidentes e circuitos pulsionais parcialmente opacos ao próprio sujeito.
Nesse sentido, Freud é perfeitamente contemporâneo não apenas de seu próprio tempo, mas também do nosso. Justamente porque neutraliza as luzes de sua época, ele está profundamente enraizado naquilo que, em seu tempo histórico, é, na verdade, inatual. Não foi a psicanálise que desativou o dispositivo médico que silenciava o sofrimento histérico e, ao fazê-lo, lhe deu voz, uma voz que, justamente, denunciava o liame invisível entre um certo saber psicopatológico e a hipocrisia sexual? Não foi Freud quem retirou os sonhos e as fantasias sexuais infantis das brumas do absurdo e da inexistência e lhes emprestou uma linguagem e uma forma? Não foi o divã – e a associação livre – que liberou a palavra das regras tácitas da conversação ordinária e ofereceu a ela um espaço em que aquilo que não se pode dizer finalmente ganhava corpo e surpreendia inclusive aquele que fala?
Mas talvez hoje devamos acrescentar:
Freud não apenas mostrou que o inconsciente fala. Mostrou também – ainda que frequentemente não o tenhamos lido assim – que o corpo fala, goza e insiste de maneiras que não se deixam reduzir inteiramente ao regime do sentido.
Nesse ponto, o último Lacan talvez tenha reencontrado algo decisivo do gesto freudiano: não mais apenas o inconsciente estruturado como uma linguagem, mas o inconsciente real, pulsional, essa zona em que linguagem, corpo e gozo tornam-se inseparáveis.
A psicanálise está, assim, enraizada na história. Não apenas como testemunha: também como agente transformador dessa mesma história.
Não é por acaso que o crítico literário palestino Edward Said (2004, p. 55) sublinhou que “textos inertes permanecem em suas épocas”, mas “aqueles que se contrapõem vigorosamente às barreiras históricas são os que permanecem conosco geração após geração”. Segundo Said, Freud foi “um inversor e remapeador de geografias e genealogias aceitas ou estabelecidas”. Ele assim se presta, “pela memória, pesquisa e reflexão, a uma estruturação sem fim, tanto no sentido individual como coletivo”. E conclui:
Que nós, diferentes leitores de diferentes períodos históricos, em contextos culturais diferentes, continuemos a fazê-lo em nossas leituras de Freud, me parece nada menos do que uma justificação do poder que o seu trabalho tem para instigar novos pensamentos, bem como para iluminar situações com que ele mesmo talvez jamais tenha sonhado. (SAID, 2004, p. 57)
Impossível ser mais claro do que isso.
Talvez seja justamente por isso que Freud continue retornando nos momentos em que certas formas de sofrimento escapam às gramáticas estabelecidas. Não apenas porque tenha antecipado conteúdos específicos de nosso tempo, mas porque construiu um aparelho conceitual singularmente sensível às zonas de opacidade do sujeito, às falhas das causalidades lineares e à dimensão contingente dos arranjos entre corpo, linguagem e gozo.
Durante décadas, o chamado “retorno a Freud” passou, legitimamente, pela mediação das grandes ferramentas conceituais do século XX: a linguística estrutural, a antropologia estrutural, a lógica, a teoria do significante. Lacan retornou a Freud em companhia do que havia de melhor no pensamento de seu tempo. Mas talvez tenha encontrado Freud de maneira ainda mais radical justamente quando atravessou os limites do paradigma estruturalista e formulou noções como lalangue, o falasser e o sinthoma.
Nesse ponto, Freud aparece menos como um pensador da decifração de sentidos ocultos e mais como um pensador das redes associativas, das retranscrições, das fixações pulsionais, dos acidentes de corpo, dos restos sonoros e dos modos singulares de gozo. Talvez o verdadeiro retorno contemporâneo a Freud comece exatamente aí.
É claro que Freud nunca abordou o autismo, descrito pela primeira vez em 1943, portanto cinco anos após sua morte. É claro que a psicanálise, ao longo do tempo, disse muita bobagem acerca do autismo, como a hipótese da “mãe-geladeira”, e pagou o preço do ostracismo teórico e clínico por isso. Recentemente, vários autores têm retomado o problema em outras chaves, como demonstram, por exemplo, Éric Laurent, Jean-Claude Maleval e outros.
Mas o que pretendo mostrar aqui é outra coisa. É como um retorno contemporâneo a Freud – talvez um retorno distinto daquele das décadas de 1950 e 1960 – pode nos ajudar a recolocar o problema em bases mais complexas e mais rigorosas.
Não se trata de abandonar as contribuições decisivas da linguística estrutural para a psicanálise, mas de reconhecer que certas questões contemporâneas talvez exijam modelos menos centrados exclusivamente na ordem do sentido e mais atentos aos modos de articulação entre corpo, linguagem, contingência e gozo.
Tomemos um exemplo. Um pouco mais ou um pouco menos de um século nos separa, hoje, dos textos de Freud, cuja obra se estende, aproximadamente, de 1895 até 1939. Há neles, contudo, algo de extremamente contemporâneo. Freud não esteve apenas à frente de seu tempo. Em uma série de aspectos, certas intuições epistemológicas freudianas permanecem surpreendentemente atuais.
Por exemplo, quando afirma que “a Patologia não pôde fazer justiça ao problema da causa imediata da doença nas neuroses enquanto esteve preocupada apenas em decidir se essas afecções eram de natureza endógena ou exógena” (FREUD, 1912/2016, p. 79).
Talvez até hoje um certo discurso psicopatológico esteja demasiado aprisionado nessa pobre – ou até mesmo falsa – dicotomia entre fatores genéticos ou ambientais, biológicos ou psíquicos.
A perspectiva freudiana é, nesse sentido, mais moderna e mais ousada:
a Psicanálise nos advertiu a abandonarmos a infecunda oposição entre fatores externos e internos, entre destino e constituição, e nos ensinou a encontrar a causação do adoecimento neurótico regularmente em uma determinada situação psíquica que pode se produzir por diversos caminhos. (FREUD, 1912/2016, p. 79)
Ou, ainda, quando insiste: “assim se mistura e se une continuamente na observação aquilo que nós, na teoria, queremos distinguir como um par de opostos – herança e aquisição” (FREUD, 1920/2016, p. 192).
Mas talvez o ponto decisivo esteja em outro lugar. Freud não apenas recusa causalidades simples; ele constrói um modelo profundamente heterogêneo do psiquismo. Um modelo em que traços mnêmicos, inscrições corporais, fantasias, acidentes contingentes, repetições, marcas de linguagem e intensidades pulsionais passam a operar em rede, retranscrevendo-se mutuamente.
Em uma longa nota de Sobre a dinâmica da transferência, Freud aborda com muita clareza e sofisticação algo que me parece extremamente contemporâneo em termos de modelos causais complexos:
Protejamo-nos aqui contra a objeção errônea que acredita termos negado a importância dos fatores inatos (constitucionais), por termos destacado as impressões infantis. Tal crítica origina-se na estreiteza da necessidade de causalidade dos homens, que quer se satisfazer com um único momento originário, ao contrário da configuração usual da realidade. A Psicanálise se pronunciou muito sobre os fatores acidentais da etiologia e pouco sobre os constitucionais; mas isso apenas porque pôde trazer algo de novo no primeiro caso, e no segundo não sabia mais do que em geral já se sabe. Rejeitamos o estabelecimento de uma oposição fundamental entre as duas sequências de fatores etiológicos; supomos, antes, uma colaboração regular entre ambas, produzindo o efeito observado. Destino e Acaso determinam o destino de um homem; raras vezes, talvez nunca, uma dessas forças apenas. A distribuição da eficácia etiológica entre as duas só poderá se realizar individualmente e em cada caso específico. A sequência em que grandezas alternantes de ambos os fatores se compõem certamente também terá seus casos extremos. Dependendo do nível do nosso conhecimento, iremos avaliar de modo diferente a parcela da constituição ou da vivência em cada caso específico, e nos reservamos o direito de modificarmos o nosso juízo com a mudança de nossas compreensões. Aliás, poderíamos arriscar a entender a própria constituição como o precipitado das influências acidentais sobre a infinita série dos antepassados. (FREUD, 1912/2017, p. 107-108, nota ii)
É difícil não perceber aqui uma concepção do psiquismo muito distante de qualquer dualismo simples entre organismo e cultura. Mais ainda: Freud sugere algo próximo de uma causalidade retroativa, em que contingência e disposição deixam de constituir séries independentes e passam a interferir umas nas outras. O passado se retranscreve, reorganiza-se, ganha novos sentidos e novos efeitos. O próprio corpo deixa de ser simples suporte biológico para tornar-se corpo atravessado pela linguagem e pela pulsão.
Não é casual que o último Lacan tenha reencontrado Freud precisamente nesse ponto. O falasser lacaniano designa justamente esse ser cujo corpo já não pode ser pensado fora dos efeitos de lalangue, isto é, fora das marcas sonoras, contingentes e pulsionais da linguagem sobre o corpo vivo. Nesse contexto, o inconsciente deixa de aparecer apenas como cadeia significante a ser decifrada e passa a incluir também modos de gozo, acontecimentos de corpo e arranjos singulares parcialmente opacos ao próprio sujeito.
Tudo isso tem grandes implicações clínicas e políticas. Tomemos um caso em que fatores externos e internos, exógenos e endógenos, destino e constituição se retroalimentam: a batalha em torno do autismo, ocorrida em diversos países, como a França e o Brasil, por exemplo.
Se é inegável que fatores constitucionais ou disposicionais – ou, para dizermos com os termos de hoje, neurológicos ou genéticos – desempenham papel determinante no autismo, esses mesmos fatores não excluem uma complexa trama de fatores acidentais que retroalimentam os constitucionais, tampouco excluem o fato de que determinadas configurações familiares, históricas e sociais favoreçam ou desfavoreçam a construção de bordas para uma criança autista.
Além disso, mesmo se considerarmos a improvável hipótese de uma determinação inteiramente genética do autismo, na ausência de uma terapia genética também completamente eficaz, ainda assim a psicanálise lida com outra coisa: com a singularidade irredutível, com o modo como cada pessoa autista irá se virar com o intervalo entre destino e acaso, isto é, entre a aparente necessidade das determinações – genéticas, neurais, simbólicas, corporais – e a contingência das invenções e dos arranjos passíveis de serem construídos por um sujeito em sua vida.
Mas talvez possamos agora formular isso de maneira mais precisa. Não se trata simplesmente de acrescentar “fatores psíquicos” a fatores biológicos, como se estivéssemos apenas ampliando o inventário causal. O problema é mais radical. Certas condições clínicas exigem modelos capazes de pensar conjuntamente corpo, linguagem e gozo sem reduzi-los a uma matriz única de determinação.
Nesse ponto, a noção lacaniana de falasser ganha importância decisiva. Ela permite pensar um corpo que não é apenas organismo biológico nem simples suporte imaginário de identificações, mas corpo afetado pela linguagem, atravessado por marcas sonoras, ritmos, repetições, fixações e modos singulares de gozo. Talvez seja precisamente isso que muitos fenômenos clínicos contemporâneos nos obriguem a recolocar no centro da discussão.
Além disso, uma condição como o TEA (Transtorno do Espectro Autista) não é inteiramente imune ao discurso sobre ela, à teoria que se produz sobre ela, às formas de vida que se inventam, às classificações diagnósticas e às políticas públicas que estabelecem direitos, deveres e modos de reconhecimento.
Para enfrentar problemas dessa natureza, o filósofo da ciência canadense Ian Hacking distinguiu “tipos indiferentes” e “tipos interativos”. O comportamento dos átomos não se altera de acordo com o que falamos sobre eles. Os rumos da economia, ao contrário, variam de acordo com as expectativas e discursos dos agentes políticos e econômicos. No primeiro caso, estamos diante de um tipo indiferente; no segundo, de um tipo interativo.
Parte significativa dos assim chamados “transtornos mentais”, ou das “estruturas clínicas”, ou, ainda, das “condições subjetivas”, podem ser melhor descritos como tipos interativos. Além disso, pode haver efeitos de looping e de retroalimentação que embaralham a fronteira entre o indiferente e o interativo, entre disposição e contingência, entre organismo e história. Essa distinção parece mais adequada do que a velha oposição entre ciências naturais e ciências humanas.
O autismo, para retomarmos a discussão nestes termos, parece ser uma condição em que as formas como as crianças, as famílias, as instituições e a própria sociedade lidam com tal condição afetam parcialmente essa própria condição. Por isso, precisamos de uma ontologia aberta à história e à contingência, capaz de reconhecer que determinadas classificações não apenas descrevem sujeitos, mas também reorganizam experiências, formas de sofrimento e modos de reconhecimento.
Nesse sentido, talvez a palavra “ambiente” seja frágil demais para dar conta da complexidade do que não é determinado biologicamente. Frequentemente ela funciona como um conceito residual, dentro do qual se misturam, de maneira pouco rigorosa, fatores psíquicos, históricos, sociais, linguísticos, institucionais e políticos.
Quer dizer: a proporção entre fatores constitucionais e contingentes não pode ser definida abstratamente, de uma vez por todas. Ela se reorganiza singularmente em cada caso, em cada trajetória, em cada modo de amarração entre corpo, linguagem e gozo.
Nesse sentido – e contra um psicologismo rasteiro que ainda impera em muitos lugares – Éric Laurent (2014, p. 33) tem razão ao afirmar que:
a psicanálise não supõe uma psicogênese das doenças mentais. Ela afirma, em contrapartida, a importância do corpo para todo ser falante, para todo falasser parasitado pela linguagem, o que é bem diferente. A psicanálise, na sua aplicação no autismo, não depende das hipóteses etiológicas sobre seu fundamento orgânico.
Talvez seja justamente aí que a atualidade de Freud apareça de maneira mais intensa: não quando o transformamos em monumento, doutrina estabilizada ou gramática interpretativa pronta, mas quando reencontramos, em sua obra, zonas ainda parcialmente obscuras, ainda parcialmente ilegíveis.
Durante muito tempo, parte importante da recepção da psicanálise privilegiou um Freud do sentido, da interpretação, da decifração simbólica. E, evidentemente, esse Freud existe. Mas talvez exista também um outro Freud: o Freud das retranscrições, dos trilhamentos, das redes associativas, das fixações pulsionais, dos acidentes contingentes, dos restos sonoros, dos acontecimentos de corpo e das temporalidades não lineares.
Nesse ponto, certas intuições freudianas parecem estranhamente próximas de problemas extremamente contemporâneos. Não porque Freud tivesse antecipado as neurociências, a teoria das redes ou os modelos complexos atuais – essas analogias simplistas frequentemente empobrecem mais do que esclarecem –, mas porque seu pensamento já operava segundo uma lógica não linear, reticular e parcialmente descentralizada do psiquismo.
O aparelho psíquico freudiano não funciona como uma máquina transparente de representações ordenadas. Desde o Entwurf, passando pela Interpretação do sonho e culminando no Além do princípio de prazer, encontramos modelos feitos de ligações, retranscrições, desvios, bloqueios, intensidades, facilitações e circuitos que se reorganizam continuamente. Ao contrário, a lógica dos trilhamentos prevalece, numa espécie de teoria de redes neurais ou redes linguísticas implícita avant la lettre.
Talvez o inconsciente freudiano esteja menos próximo de uma gramática estável do que de uma rede dinâmica de inscrições e retranscrições.
Isso aparece de maneira especialmente clara na própria prática freudiana de leitura dos sonhos. O que Lacan inicialmente encontrou em Freud – metáfora e metonímia, os dois grandes eixos da linguística estrutural – talvez constitua apenas uma primeira aproximação. A análise freudiana dos sonhos parece operar segundo uma linguística muito menos linear e muito menos bidimensional: uma lógica reticular, feita de condensações, deslocamentos, retranscrições e conexões múltiplas, mais próxima de redes e árvores de múltiplos planos, com aluvião ou nuvens, do que com uma estrutura só de dois eixos.
Também por isso o último Lacan talvez reencontre Freud precisamente quando abandona certa confiança excessiva na estabilidade estrutural do significante e passa a pensar lalangue, isto é, a dimensão material, sonora, contingente e gozosa da palavra. A palavra deixa então de ser apenas veículo de significação para tornar-se acontecimento corporal, marca, resíduo, ritmo, satisfação pulsional. O inconsciente já não aparece apenas como algo que “quer dizer”, mas também como algo que insiste, que se repete, que goza.
Talvez isso permita recolocar de outro modo uma série de impasses contemporâneos. Afinal, são outros corpos, outros modos de sofrimento, outras formas de laço social, outras modalidades de segregação e outras configurações do gozo que se apresentam hoje à clínica. São também outras crianças, outros arranjos familiares, outras formas de circulação da palavra, outros modos de inscrição da linguagem sobre o corpo.
Nesse sentido, reler Freud hoje talvez implique menos a fidelidade a uma ortodoxia do que a capacidade de reativar, em sua obra, aquilo que ainda resiste às leituras demasiado luminosas e demasiado organizadas de si mesma. Talvez o verdadeiro retorno contemporâneo a Freud comece justamente aí: no ponto em que reencontramos, através do último Lacan, não apenas o inconsciente estruturado como uma linguagem, mas o inconsciente real, pulsional, reticular, parcialmente opaco, esse inconsciente que fala, mas também goza; que interpreta, mas também insiste; que produz sentido, mas também produz corpo.

