Adriana Vitta
Psicanalista
Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP)
E-mail: adrianarvitta@gmail.com
O texto “Considerações contemporâneas sobre a guerra e a morte” inscreve-se no contexto traumático da Primeira Guerra Mundial e constitui um dos primeiros esforços de Freud (1915/2020) para pensar o colapso das ilusões civilizatórias modernas. Nele, observamos uma crítica contundente à confiança iluminista no progresso moral e racional da humanidade, evidenciando como a guerra expõe a fragilidade das formações culturais e a persistência de tendências destrutivas no psiquismo. Ao desmontar a crença na superioridade moral das sociedades ditas civilizadas, Freud observa que, diante da guerra, Estados e indivíduos abandonam rapidamente normas éticas antes sustentadas, legitimando, com isso, a violência, a mentira e a crueldade, tornando possível a expressão da barbárie, latente sob a superfície da civilização. Ao criticar a ingenuidade de uma ética fundada exclusivamente na razão e no progresso, Freud esclarece que qualquer projeto civilizatório que ignore a dimensão inconsciente e pulsional está condenado a ser surpreendido por irrupções de violência.
Vemos também, nesse texto, o argumento de que a guerra nos obriga a todos e a cada um a enfrentar a negação da morte: “no fundo, ninguém acredita em sua própria morte, ou o que vem a ser o mesmo: no inconsciente cada um de nós está convencido de sua imortalidade” (FREUD, 1915/2020, p. 117). Há, para Freud (1915/2020, p. 120), uma tendência a excluir a morte dos cálculos da vida. Só no domínio da ficção (arte, teatro e literatura) encontra-se realizada a condição sob a qual poderíamos nos conciliar com a morte, ou seja: “que ainda nos restasse conservada, por detrás de todas as vicissitudes da vida, uma vida intacta”. A indicação de Freud é a de que a guerra nos colocaria diante do fato de que não podemos eliminar a morte simplesmente ignorando-a ou silenciando-a. A morte não se deixa mais renegar, pois a sua presença massiva, tanto do outro como de si mesmo, se impõe. Freud observa, no entanto, que, ao mesmo tempo em que a morte se torna onipresente, ela também é banalizada. Há uma duplicidade do sujeito frente à morte: se, por um lado, ele recusa sua própria finitude, por outro, mantém uma relação ambígua com a morte do outro, frequentemente atravessada por desejos hostis inconscientes. Como nos lembra Freud, não à toa a mais importante proibição da consciência moral foi: “Não matarás”. Ela havia sido adquirida como reação contra a satisfação do ódio escondido atrás do luto, quando se tratava do morto que era amado, e pouco a pouco se estendeu ao estrangeiro não amado e finalmente também ao inimigo” (FREUD, 1915/2020, p. 125). As guerras expõem, assim, a fragilidade e os limites das normas morais que sustentam a vida coletiva, expondo o mecanismo pulsional subjacente a nossas ações. E Freud nos lembra ainda que a guerra não se deixa eliminar, “enquanto as condições de existência dos povos forem tão diversas e as aversões entre eles forem tão acirradas” (FREUD, 1915/2020, p. 132).
Esses primeiros esforços de Freud de pensar a guerra são rearticulados e adensados por via de uma troca posterior de correspondências com Albert Einstein, publicada sob o título “Por que a guerra?”, que revela um diálogo entre dois importantes pensadores do século XX sobre a violência humana. Surgido dos esforços da Liga das Nações (Instituição semelhante à atual Organização das Nações Unidas – ONU, cuja criação se deu apenas em 1945), por seu Instituto Internacional para a Cooperação Intelectual, situado em Paris, para pensar alternativas para a guerra, esse diálogo traz conjecturas dos interlocutores acerca das imbricações entre soluções políticas, jurídicas e psíquicas para o problema da ameaça à civilização e se desenvolve em torno da (im)possibilidade da obtenção de uma paz duradoura. As missivas foram publicadas originalmente em Paris, em março de 1933, em três línguas: alemão, francês e inglês, havendo sua circulação sido logo proibida na Alemanha, que experimentava rápida ascensão do nazismo.
A carta que dá início aos debates é de autoria de Einstein. Ele dirige a Freud suas inquietações sobre o futuro da “humanidade civilizada” (EINSTEIN, 1932/2006, p. 421), que é permanentemente ameaçado pela propensão à guerra e à autodestruição. Essas inquietações sintetizam-se em uma pergunta: “há um caminho para libertar os seres humanos da fatalidade da guerra?” (EINSTEIN, 1932/2006, p. 421). A esperança de Einstein era a de que Freud pudesse auxiliá-lo na compreensão dos aspectos psicológicos subjacentes aos obstáculos à adoção de uma solução institucional para o problema.
Einstein, logo nos primeiros parágrafos da correspondência, expõe a Freud aquela que seria a saída organizacional: a criação de uma organização supraestatal que tivesse o poder de legislar e de decidir sobre conflitos entre os Estados, a quem se assegurassem os meios necessários a que suas decisões legislativas ou jurisdicionais fossem obedecidas. Baseando-se no exame da relação entre direito e poder, o físico reconhece, no entanto, que as instâncias que poderiam decidir sobre conflitos entre os Estados, submetendo-os todos a uma mesma jurisdição, são “Instituições humanas, que quanto menos poder tiverem à sua disposição para impor suas decisões, mais estarão inclinadas a tornar suas decisões acessíveis a influências extrajurídicas” (EINSTEIN, 1932/2006, p. 422). Seria imprescindível, portanto, para Einstein (1932/2006, p. 423), que essa organização supranacional fosse dotada de poderes suficientes para evitar que influências extrajurídicas fossem decisivas na produção e na aplicação das normas instituídas e para que, portanto, prevalecesse o “ideal de justiça” da comunidade em lugar de eventuais interesses particulares. Conclui, então, que isso só seria possível se cada qual dos Estados participantes renunciasse a uma porção de sua soberania. Essa renúncia, no entanto, seria inviabilizada, segundo o físico, por “forças psicológicas poderosas” (EINSTEIN, 1932/2006, p. 423) que se colocam como obstáculo a que a meta da paz seja atingida, conforme se colheria dos eventos históricos que aponta. Embora liste algumas dessas forças, como as dos interesses econômicos de classes dominantes de cada Estado, pede o auxílio de Freud, um “grande conhecedor das pulsões humanas”, para tentar se esclarecer melhor sobre a possibilidade de “conduzir o desenvolvimento psíquico dos seres humanos de modo a que se tornem capazes de resistir às psicoses de ódio e à aniquilação” (EINSTEIN, 1932/2006, p. 424).
A atual crise mundial decorrente das instabilidades vividas provenientes de guerras que eclodiram em várias regiões do planeta explicita o movimento agressivo desregrado de alguns países em relação a outros e tem impulsionado, paralelamente, iniciativas importantes de fortalecimento da democracia. Podemos observar muito claramente quanto a isso a atualidade da análise de Freud em sua resposta a Einstein em 1932: as instâncias internacionais que serviriam para fomentar a cooperação e a prevenção dos conflitos são formadas pelos países que hoje fazem a guerra. Nessa resposta, Freud (1932/2006, p. 427) parte de suas pesquisas sobre a gênese do Direito e sua articulação com o poder e, em especial, com a violência, propondo uma substituição que talvez deixasse mais explícitos os pressupostos de sua reflexão: “Posso substituir a palavra poder por violência, uma palavra mais intensa e mais dura?”.
Segundo Freud, desde a horda primeva, os conflitos entre os seres humanos foram decididos, a princípio, com o emprego da violência, que estaria na base da vida social. O Direito não elimina a violência, apenas a reorganiza, pois o Estado monopoliza a violência para evitar que cada indivíduo a exerça livremente. Assim, Direito e violência estão interligados e o Direito nasce da violência coletiva, ou seja, a lei não é o oposto da força, mas uma forma de administrá-la.[1] A pergunta de Einstein dirigida a Freud permanece então extremamente atual: como uma minoria pode dominar e colocar a serviço de si uma grande massa do povo, que não tem muito a ganhar com o sucesso dos dominantes?
Em “Psicologia das massas e análise do Eu”, Freud (1921/2020) discorre sobre o fenômeno da massificação e seus processos de fusão identificatória, em busca de uma explicação libidinal para a organização das massas. Nessa análise, Freud encontra mecanismos de identificação e idealização causados por um objeto exterior à massa: o líder. O coletivo seria então uma rede de indivíduos articulados verticalmente com o líder, articulação que promove o laço social, por estabelecer entre os membros de um grupo uma identificação. Essa exterioridade do objeto líder é que, para Freud, determinaria a coesão de uma massa, caracterizada por uma dimensão imaginária, já que em sua origem estaria a ilusão de uma completude perdida que determina a busca de um ideal. A igreja e o exército são, para Freud, exemplos de uma ligação particular do sujeito com um signo universal, um signo que promove a organização dos indivíduos em massa, colocados diante de um chefe. A massa seria, assim, um produto específico de uma identificação a “um único e mesmo objeto”. O chefe, colocado como ideal, faz prevalecer uma ligação hipnótica entre os indivíduos, na qual não há espaço para o particular, para o singular. Esse tipo de laço não comporta a diferença subjetiva que se vê abolida em uma identificação comum.
Freud, a partir dessa análise, põe em evidência o fato de que é uma certa forma de existência em grupo que induz à identificação coletiva. Sua formação é, antes de tudo, imaginária, pois a massa funda-se, em sua origem, sob uma ilusão de completude marcada pela busca de um ideal. Sob essa ilusão ancoram-se os fenômenos da massificação responsáveis pelas guerras que movimentam uma massa ancorada nas pulsões de autodestruição. Freud indica então que nas situações de guerra, haveria uma espécie de regressão em nossa possibilidade de pensar e de investir libidinalmente uns aos outros, provocando uma desintegração do tecido social que pode adquirir a força de um movimento de massa, onde proliferam as respostas absolutas e irracionais.
Travamos atualmente, além das guerras concretas em que se lançam mísseis e bombas, uma outra guerra tão poderosa quanto, contra as fake news, que pretende minar a coesão social atacando todo e qualquer conhecimento que possa promover a construção de um pensamento crítico acerca de nossa existência em sociedade e dos mecanismos que visam a diminuir os níveis de sofrimento humano, explicitando o que Freud já havia nos advertido em 1932.
Em “O mal-estar na cultura”, Freud (1930/2020, p. 318) nos diz que “a vida, tal como nos é imposta, é muito difícil para nós, traz-nos muitas dores, desilusões e tarefas insolúveis. Para suportá-la não podemos prescindir de medidas paliativas”. Ele indica que o sofrimento humano é estrutural e inevitável e ainda identifica três fontes principais desse sofrimento: a vulnerabilidade do corpo, a força da natureza e, sobretudo, a dificuldade e inadequação dos dispositivos que regulam as relações na família, no estado e na sociedade, com outros seres humanos. No entanto, Freud (1930/2020, p. 327) contraindica a atitude do eremita que se isola em uma recusa extrema ao outro, pois “ele não alcançará nada, e pode se tornar um delirante”. Ao mesmo tempo, lembra-nos de que nossa atitude diante da religião, que responde ao desamparo com fórmulas absolutas, pode se tornar um delírio de massa em busca da felicidade. Mas Freud ainda indica outros caminhos em busca da “arte de viver”: o trabalho, a arte, os entorpecentes, o estudo e o amor, apesar de frisar que este último é uma grande cilada e que, em essência, mais revela o mal-estar que o apazigua.
Por fim, Freud (1930/2020, p. 345) anuncia que grande parte da culpa por “nossa miséria é daquilo que chamamos nossa cultura”. Indica que a substituição do poder do indivíduo pelo da comunidade é o passo cultural decisivo, que promoveria a justiça para todos em detrimento do querer de apenas um. A civilização só se sustenta então à custa da renúncia pulsional. Para tornar possível a vida coletiva, os indivíduos devem reprimir seus impulsos agressivos e sexuais, internalizando a lei sob a forma do superego. Esse processo, embora necessário, gera um aumento da culpa e da insatisfação e um “resto da personalidade originária não domada pela cultura pode tornar-se a base da hostilidade cultural” (FREUD, 1930/2020, p. 345).
Freud evidencia, desde muito tempo, nesse ponto: o mal-estar insiste e é constitutivo da cultura, portanto, estrutural, decorrente da tensão entre pulsão e lei. Mesmo que a civilização imponha limites que tornam a felicidade problemática, pois o caminho até ela é marcado pela falta e pelo impossível, Freud (1915/2020, p. 132) termina por apontar uma direção: “Se quiser suportar a vida, prepare-se para a morte”.

