Helenice de Castro
Psicanalista
Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP)
E-mail: hedcastro@terra.com.br
Em 1947, Simone de Beauvoir viajou aos Estados Unidos. Ao desembarcar em Nova York, entusiasmada por descobrir o país, mal poderia imaginar que sua vida estava prestes a mudar radicalmente. Em sua passagem por Chicago, por sugestão de uma amiga de Nelson Algren, ela decidiu visitá-lo; ali nascia uma paixão à primeira vista entre a intelectual francesa e o solitário escritor americano.
Iniciou-se, então, uma extensa correspondência, que duraria dezessete anos. Em 1997, as trezentas e quatro cartas de Beauvoir (2000) foram publicadas pela Gallimard sob o título Cartas a Nelson Algren: um amor transatlântico. Mais do que registros românticos, as cartas tornaram-se crônicas de uma era: nelas, “Castor” revive a França do pós-guerra, os desafios da reconstrução nacional e as movimentações políticas de seu círculo – incluindo a fundação da revista Les Temps Modernes. O texto nos conduz pelo meio parisiense de figuras como Raymond Queneau, Michel Leiris, André Gide e Merleau-Ponty.
Contudo, a publicação dessas cartas causou controvérsia no movimento feminista. Beauvoir chegou a ser chamada pejorativamente de “apaixonadinha” (midinette) e a ser criticada por seu entusiasmo ao ler o sedutor italiano Giacomo Casanova.
De fato, essa correspondência surpreende ao revelar uma faceta amorosa de Beauvoir muito distinta daquela mantida com Jean-Paul Sartre. Enquanto a parceria com Sartre – o “amor necessário” – baseava-se em um pacto intelectual que permitia encontros contingentes, com Algren surge uma mulher que não se intimida ao expressar o desejo de ser uma “esposa obediente e ajuizada”: alguém que lavaria a louça, varreria o chão e sequer tocaria no amado sem autorização.[1]
Podemos, então, interrogar se a leitura dessas cartas – para além de ser uma espécie de diário de bordo de um extenso período da inusitada vida de Simone de Beauvoir – pode se tornar um interessante material de investigação sobre o que Lacan desenvolve com as noções de arrebatamento e devastação, as quais vêm a constituir uma dolorosa realidade para a maioria das mulheres.[2]
Percorrendo o livro até o final, ficamos sabendo que o encontro arrebatador de Beauvoir com Algren não deixará de mostrar sua face de devastação, chegando a uma ruptura radical quando o amante anuncia publicamente os ressentimentos que o levaram a romper com aquela história de amor.
Embora Simone de Beauvoir tenha tido um engajamento feminista muito importante, contribuindo, inclusive, para a aprovação da Lei Veil em 1975 – que garantiu o direito ao aborto na França –, suas cartas sugerem que nenhuma militância política evita o encontro da mulher com a inexistência de um significante que nomeie o gozo feminino. Diante dessa falta, cada uma precisará inventar sua própria resposta.
Referência
BEAUVOIR, S. de. Cartas a Nelson Algren: um amor transatlântico. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.
[1] Ver a carta de 03 de outubro de 1947 (BEAUVOIR, 2000).
[2] Agradeço a Elisa Alvarenga pela menção ao livro de Simone de Beauvoir em uma reunião de cartel, o que me suscitou a lê-lo. Já Laura Filgueiras de Campos desenvolveu esse tema em sua dissertação de mestrado, intitulada As cartas de amor de Simone de Beauvoir: um estudo sobre o amor e as parcerias amorosas na modernidade.

